terça-feira, 28 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Fascismo, nunca mais! Olá neofascismo!

O neofascismo do século XXI não é apenas uma atualização estética de velhas doutrinas autoritárias; é uma mutação estratégica que combina heranças ideológicas do passado com instrumentos contemporâneos de poder. Chamar-lhe apenas “novo fascismo” pode até ser insuficiente. O que hoje observamos, em várias geografias e contextos políticos, aproxima-se de um fenómeno mais sofisticado: um fascismo com alma russa, sustentado por uma lógica de poder centralizado, por uma visão geopolítica de confrontação permanente e, sobretudo, por uma utilização sistemática da tecnologia como ferramenta de influência e controlo.

Ao contrário do fascismo clássico, que se afirmava de forma declarada, mobilizando massas em torno de símbolos e lideranças carismáticas, o neofascismo contemporâneo prefere a ambiguidade. Não se assume como tal. Pelo contrário, infiltra-se nos discursos democráticos, apropria-se da linguagem da soberania popular e apresenta-se como resposta legítima a crises reais — económicas, culturais ou identitárias. É precisamente nesta capacidade de disfarce que reside a sua força.


A referência a uma “alma russa” não deve ser entendida de forma simplista ou nacionalista, mas antes como metáfora de um modelo político que privilegia o controlo do Estado sobre a sociedade, a manipulação da informação e a projeção de poder através de meios não convencionais. Trata-se de um paradigma onde a verdade se torna relativa, onde a realidade pode ser moldada e onde a política se transforma num campo de operações híbridas — simultaneamente internas e externas.

E é aqui que entra o elemento central desta nova ideologia: a tecnologia. As plataformas digitais, os algoritmos e os sistemas de recomendação não são neutros. São infraestruturas que podem ser instrumentalizadas para amplificar discursos extremistas, criar bolhas de perceção e fragmentar o espaço público. O neofascismo compreendeu isso melhor do que muitos defensores da democracia. Em vez de censurar diretamente, como no passado, manipula fluxos de informação, promove desinformação e explora emoções como o medo, a indignação e a sensação de perda.

A tecnologia permite também uma vigilância difusa, muitas vezes invisível, que dispensa os mecanismos repressivos tradicionais. O controlo não precisa de ser explícito quando pode ser internalizado. A opinião pública é moldada não pela imposição, mas pela repetição, pela saturação e pela construção de narrativas aparentemente espontâneas.

Importa, contudo, evitar simplificações. Este fenómeno não nasce apenas de estratégias deliberadas de poder; ele alimenta-se de fragilidades estruturais das sociedades contemporâneas. Desigualdades persistentes, desconfiança nas instituições e crises de representação criam o terreno ideal para que estas ideias prosperem. O neofascismo não impõe apenas uma visão — ele oferece respostas fáceis para problemas complexos, ainda que essas respostas sejam, no limite, profundamente excludentes e perigosas.

Dizer que o neofascismo é o fascismo com nova roupagem é correto, mas incompleto. Ele é mais do que isso: é um sistema adaptativo, que aprende, evolui e se reinventa. Um sistema que já não precisa de marchas ou uniformes para se afirmar, porque encontrou na tecnologia e na manipulação da informação os seus novos pilares.

Se há lição a retirar, é que o combate a este fenómeno não pode ser feito apenas com memória histórica ou indignação moral. Exige compreensão profunda, capacidade crítica e, sobretudo, a reconstrução de confiança nas instituições democráticas. Porque o maior risco do neofascismo não é a sua visibilidade — é precisamente a sua capacidade de parecer normal.

'Voto não tem preço, tem consequência'

Não é segredo que a igreja católica foi conivente e se beneficiou da escravização negra. Embora tenha havido vozes que se manifestaram contra o tratamento desumano dado aos africanos escravizados (a exemplo do Papa Pio II, que em 1462 instruiu os bispos a condenarem o tráfico como um "crime terrível"), foi só no século 19 que os católicos se posicionaram de maneira enfática em defesa dos direitos humanos.



Mas, para ser justa, antes de seguir com meu raciocínio, preciso fazer uma observação: não é possível esquecer que, na atualidade, há segmentos neopentecostais que prestam um desserviço à liberdade religiosa ao demonizar as religiões de matriz africana (e seus fiéis), fomentando atitudes e práticas racistas e preconceituosas.

Dito isso, é gratificante saber que a "Mensagem ao Povo Brasileiro" —redigida ao final da 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (de 15 a 24/04) em Aparecida, SP— faz referência à decisão da ONU classificando o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave já cometido contra a humanidade.

Os bispos reconheceram formalmente que "o Brasil ainda não enfrentou corajosamente o racismo, e a nossa história tem uma dívida que exige reparação". Concordo e aproveito para indagar: Qual papel as igrejas estão dispostas a desempenhar nessa luta por reparação?

Em ano eleitoral, é fundamental combater o aliciamento e a compra de votos. Como diz o documento da CNBB, "o voto não tem preço, tem consequência". Coisa que torna primordial a escolha de candidatos com propostas concretas a serviço dos mais vulneráveis, da justiça socioambiental e da vida.

Diante da disseminação organizada da desinformação, da manipulação do medo, dos discursos de ódio impulsionados pelas novas tecnologias, é imperioso proteger a verdade, a integridade do debate público e a legitimidade do processo eleitoral. Religião não deve servir para instrumentalização eleitoreira. Afinal, voto não tem preço, tem consequência.

Cansamo-nos de pensar

Cansamo-nos de tudo, exceto de compreender. O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.

Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analisa, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.

Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estética, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vejamos mais no que compreendemos senão a forma exacta como foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.

Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso.

Fernando Pessoa

Hiperconectados em tempos de solidão

Nunca estivemos tão “conectados”, porém nunca nos sentimos tão sós. Um paradoxo recentemente confirmado por um estudo do ISCTE que evidencia o aumento da solidão em Portugal. De acordo com os dados divulgados, acresce, na última década, uma diminuição significativa das interações sociais e do número de amizades próximas, particularmente entre os mais jovens e os mais vulneráveis do ponto de vista económico. Ainda mais preocupante parece ser o facto de a maioria da população não se dar conta desta transformação silenciosa dificultando a sua mitigação.

Mais do que um fenómeno social a solidão, que ultrapassa largamente o simples isolamento físico, é uma questão de saúde pública como reconhece a Organização Mundial de Saúde. Falamos de uma experiência muito subjetiva, porém frequentemente marcada por sentimentos de vazio, ansiedade e desconexão emocional que pode ocorrer mesmo na presença de outras pessoas. Estar acompanhado não é de todo suficiente, é preciso estar-se ligado. Vivemos rodeados de redes sociais, notificações e interações digitais, contudo a generalidade destas interações é superficial, fragmentada e emocionalmente empobrecida. Ainda que a tecnologia ofereça, indiscutivelmente, inúmeras vantagens, não substitui a profundidade emocional de uma conversa presencial, de um gesto ou de um momento partilhado.


O problema torna-se ainda mais relevante quando percebemos que a redução de interações sociais está também associada às mudanças estruturais que a vida contemporânea acarreta. Envelhecimento da população, sem redes de apoio e cuidado próximas, digitalização das relações sociais, ritmos de trabalho intensos e a fragilidade nos laços comunitários são alguns elementos de uma conjuntura que se agrava em momentos de transição, como a reforma, onde os contactos interpessoais podem diminuir drasticamente. Em Portugal, uma em cada dez pessoas diz sentir-se sozinha, sendo a solidão um fator de risco significativo para a saúde como aponta, de forma clara, a evidência científica. A ligação social é um determinante essencial do bem-estar. As relações sociais de qualidade influenciam, de forma direta, a saúde física e mental e funcionam como fator protetor contra o stress e a depressão diminuindo o risco de doenças físicas e cognitivas. Somos, por natureza, seres relacionais que necessitam de pertença, reconhecimento e vínculos significativos e quando estas relações falham o impacto é integral, sistémico. A qualidade das nossas relações interpessoais é um dos pilares do equilíbrio necessário entre bem-estar físico, emocional e social. Desta forma, desenvolver competências como empatia, assertividade ou escuta ativa é, mais do que nunca, fundamental para estabelecer e manter relações significativas. São estas competências, verdadeiras ferramentas de sobrevivência emocional, que nos permitem transformar mera interação em real conexão.

A solidão, sendo um dos grandes desafios do nosso tempo, é um espelho de uma sociedade em transformação e, por isso, a resposta não pode ser apenas individual. Projetos comunitários, iniciativas de convívio intergeracional, espaços acessíveis de convivência social e atividades culturais assim como melhoria de condições económicas ou políticas de trabalho protetoras de uma saúde integral são responsabilidades coletivas tal como assinala também o estudo do ISCTE.

Combater a solidão exige por isso uma abordagem multifatorial aliando políticas públicas, educação e cultura na promoção da literacia emocional, das relações de qualidade bem como na criação de oportunidades de interação, passos essenciais para o desenvolvimento de uma sociedade mais saudável e de um capital social robusto.

É chegado o momento em que é necessário reaprender a estar com os outros e questionarmos os nossos hábitos, repensando espaços e ritmos de vida. É preciso investir tempo, presença e interação, recursos cada vez mais escassos, nas relações de qualidade, nos vínculos.

Em plena era da hiperconectividade, impõe-se resgatar a conexão humana. O desafio passa por continuar a confundir proximidade digital com presença real ou reafirmar o valor do encontro genuíno, da capacidade de estar plenamente com o outro e da construção de vínculos que sustentem o equilíbrio e o bem-estar, reconhecendo que não há saúde plena sem relações que a sustentem.

Elementos da escalada fascista nos EUA

Infelizmente, os termos fascismo e fascista caíram na banalidade do debate público há muito tempo. Esquerda e direita, no Brasil e no mundo, abusaram de seu uso para rotular seus rivais políticos em uma tentativa torpe de descredibilizar argumentos. Desta forma, tal como na fábula do Menino e do Lobo, quando a ameaça realmente está surgindo, parece exagero identificar Trump com a ascensão do fascismo nos Estados Unidos. O problema é que não é.

Apesar de não muito celebrada por sua base de fãs, a trilogia prequel de Star Wars (Guerra nas Estrelas), dos anos 2000, serviu para contar como uma república democrática degringolou para um regime totalitário. Ademais, em série mais recente do universo expandido, Andor, mostra-se como o regime consolidou o fascismo na galáxia. De maneira semelhante, a situação política atual dos EUA imita a arte em cinco elementos centrais.


O primeiro deles é o elemento mais marcante do fascismo dos anos 1920 e 1930: a enorme capacidade de mobilização popular, muitas vezes, de maneira truculenta. Esta mobilização popular era dirigida por grupos e milícias armadas que buscavam subverter as instituições do Estado de baixo para cima e de dentro para fora. Os exemplos claros são os camisas negras na Itália dos anos 1920 e os camisas pardas na Alemanha dos anos 1920 e 1930. Nos EUA, este elemento está representado no ICE (Serviços de Imigração e Aduana), uma agência de aplicação da lei de imigração que, com Trump, flexibilizou a admissão e quantidade de novos agentes. Segundo propaganda do próprio presidente, em 47 dias é possível se inscrever, ser treinado e partir para ações policiais. De janeiro de 2025 a janeiro de 2026, 12 mil novos agentes foram admitidos, um recorde para uma agência de segurança interna dos EUA.

O ICE, neste último ano, não responde à administração pública, mas diretamente ao presidente Trump. Esta é a característica central do fascismo: cidadãos comuns agem de maneira inconsequente em nome do Estado se estiverem vestindo as insígnias do partido e aplicando a ideologia do líder. Se no passado os camisas negras eram liberados da lei quando perseguiam e espancavam comunistas, atualmente, agentes do ICE deportam imigrantes sem o devido processo legal e espancam quem estiver no caminho. De maneira semelhante, na série Andor, o Império se utilizou de milícias locais para perseguir cidadãos e exterminar populações.

Ademais a esta característica central, outras quatro se somam para caracterizar a singularidade do fascismo: o primado do partido, o primado da nação, o primado do Estado e o primado do chefe. Estes quatro elementos, cada vez mais, se consolidam na política e em camadas da sociedade americana dos últimos meses. Pelo aspecto do partido, não é possível argumentar que os EUA estejam vivendo um sistema unipartidário sob a égide dos Republicanos, mas, ao que parece, os EUA caminham para viver uma nova “Era dos Bons Sentimentos” ou um novo sistema partidário no qual o oponente esteja muito enfraquecido. Trump venceu as eleições de 2024 praticamente por WO, e o partido Democrata vive uma profunda crise de identidade. É difícil de dizer se os Democratas terão o mesmo destino que os Federalistas em 1815, mas seu apagamento na esfera nacional é sensível, fato que abre espaço para uma hegemonia dos Republicanos.

Este é um aspecto interessante do fascismo, porque, embora não seja democrático, não elimina a participação política. Aqueles que desejam participar do debate público devem se inscrever nas fileiras do partido e debater a política dentro do partido. De maneira semelhante, o Império de Star Wars transparecia ares de democracia ao permitir o funcionamento do Senado, mas, mantinha a alta política concentrada entre militares e o Imperador.

Pelo aspecto da nação, Trump instrumentaliza uma nova onda de supremacismo WASP (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês), recuperando a imagem de uma América pré-Guerra Civil, emulando uma época, supostamente, sem divisões entre Norte e Sul, sem traumas e máculas. Neste nacionalismo, antigos símbolos desta era são resgatados: a Era dos Bons Sentimentos, a Doutrina Monroe e a Democracia Jacksoniana se destacam. Novamente, pegando de empréstimo a alegoria de Star Wars, na série Andor, o nacionalismo exacerbado do Império aparece na forma de culto à ordem e à estabilidade, misticismo e unidade orgânica, elementos igualmente presentes no nacionalismo americano.

Pelo aspecto do Estado, é inegável que o individualismo e a livre-iniciativa ainda estão arraigados no DNA americano, mas já há episódios que mostraram a força de Trump em aumentar a presença da União tanto na economia quanto na federação. Pelo lado da economia, em agosto de 2025, Trump firmou um acordo para adquirir uma participação de cerca de 10% na Intel, uma das gigantes de microchips, para impedir que empresas chinesas aumentassem sua participação na empresa. Pelo lado da política, a autonomia de estados (democratas) está sendo cerceada para garantir o trabalho inconsequente de agentes do ICE. Novamente, observando a realidade administrativa do Império, em Andor, há elementos de hipertrofia burocrática e eficiência desumana que levam a uma banalidade do mal típica do fascismo, elementos que, também, vicejam na burocracia atual dos EUA.

Finalmente, o primado do chefe é o aspecto mais gritante na escalada fascista dos EUA: o culto à personalidade de Trump. Mudança de nomes de prédios públicos, criptomoedas, propagandas feitas por Inteligência Artificial, desfiles militares, fantasias, NFTs etc., tudo que Trump pode incluir seu nome e imagem ele o faz prontamente. Ironicamente, em 04 de maio de 2025, dia de Star Wars, Trump postou imagem de IA mostrando uma versão sua musculosa, com vestes escuras, empunhando um sabre de luz vermelho, justamente, a imagem dos Siths, vilões do universo de Star Wars. A metáfora de Star Wars, mais do que um recurso útil à análise, faz parte do imaginário cultural e político dos EUA mesmo em tempos de fascismo ascendente.

Contudo, o fenômeno do fascismo não é apenas a existência de um partido antissistema e de elementos disruptivos, mas, sobretudo, trata-se de um fenômeno político e social que, quando irrompe, normalmente se apresenta em três cenários de resolução: (i) a vitória fascista e a morte da democracia por dentro, (ii) a guerra civil ou (iii) o autogolpe preventivo e autoritário. Estes cenários não passam de possibilidades, uma vez que Trump ainda não cruzou esse horizonte de eventos: o mês de novembro é o rio Rubicão de Donald Trump, quando ocorrerão as eleições de meio de mandato para o legislativo dos EUA, as midterms. A previsão é de que Trump perca espaço nas câmaras legislativas, e seu abuso de poder seja freado.

Entretanto, agora que Trump tem à sua disposição um contingente policial que obedece a seu comando (o ICE), não se sabe como isso pode ser usado para intimidar a política eleitoral americana. Não obstante, Trump pode usar a justificativa da guerra no Oriente Médio para ampliar poderes do executivo e limitar o legislativo, à semelhança de Palpatine nas guerras clônicas. Se algum dos dois cenários se concretizar, estaremos diante de um cenário de vitória fascista. Resta saber se, após isso, reescreverão as histórias de Star Wars mostrando o Império como moralmente justo e de caráter ilibado.