Além disso, não podemos esquecer os acontecidos no passado recente, como o golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma e prendeu Lula para impedir que ele ganhasse as eleições de 2018, e, por meio da Lava Jato, a destruição das grandes companhias brasileiras de obras públicas, que concorriam com as norte-americanas em situação de vantagem nas licitações internacionais.
Essa listagem de acontecimentos recentes nos permite dizer que os Estados Unidos não aceitam nenhuma iniciativa brasileira de busca de maior autonomia, de soberania. Não aceitam o multilateralismo: ou o governo é contra ou a favor dos Estados Unidos. E veem o governo Lula como uma ameaça ao seu domínio neocolonial na América Latina – portanto, um inimigo.
Depois do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa; de ameaçar invadir o México; de dizer que o próximo país a ser invadido pode ser Cuba; e de pressionar brutalmente a Colômbia com tarifas, o que podemos esperar nós, brasileiros?
Essa preocupação fez o presidente Lula promover uma reunião com as Forças Armadas (15 jan. 2026) e perguntar sobre nossas capacidades de defesa, incluindo propostas para reforçar a segurança do Brasil, especialmente nas fronteiras mais sensíveis. O Senado aprovou uma verba extraordinária de R$ 30 bilhões para as Forças Armadas, a ser distribuída anualmente, no valor de R$ 5 bi/ano. A indústria de armamento bélico passa a ser prioridade, com a contratação da produção de mísseis, drones, novas fragatas, carros de combate.
A situação das Forças Armadas é bastante precária na atualidade. Sem ameaças dos vizinhos, a modernização e o aprimoramento das capacidades bélicas ficaram em segundo plano. O programa nuclear da Marinha, o submarino nuclear, o caça brasileiro Gripen, sistemas de inteligência, a produção nacional de drones, tudo isso foi sendo postergado. As seis fragatas de combate estão obsoletas e quase indisponíveis. Nosso sistema de defesa é muito frágil.
Com um orçamento de defesa de R$ 132 bilhões em 2025, os recursos para o desenvolvimento tecnológico e novos armamentos são de apenas 7,4%. Inativos e pensões militares são o maior gasto, representando nada menos que 78% do orçamento total. O total gasto com recursos humanos é de 84,9%. O custeio consome outros 5,7%.
Na fronteira com a Venezuela, as Forças Armadas reforçaram nossa presença militar, foram mobilizados blindados, mantém-se um estado de prontidão para possíveis ameaças à nossa segurança.
O fato de o Paraguai ter autorizado a presença de forças militares e equipamentos norte-americanos em seu território, somando-se à disposição do presidente da Argentina, Javier Milei, de abrir espaço para a presença militar norte-americana em seu país, torna o Brasil vulnerável num território próximo à tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), que os Estados Unidos acusam de ser uma região de recrutamento de terroristas.
Completando esse quadro de riscos, há que considerar o Escudo das Américas, criado por Donald Trump em março deste ano, um pacto político-militar reunindo doze países da América Latina com governos de direita. Essa aliança de segurança e cooperação militar pretende combater cartéis de drogas e organizações criminosas internacionais, fortalecer o controle regional, reduzir a influência chinesa e eliminar a imigração irregular.
México, Brasil e Colômbia não participam do Escudo das Américas e podem sofrer pressões dos Estados Unidos, apoiados por esse pacto.
A 4ª Frota dos Estados Unidos, reativada em 2008, é uma força naval capitaneada por um porta-aviões da classe Nimitz, que aliás estará presente no litoral brasileiro nos próximos dias para operações de treinamento, a fim de garantir a segurança marítima da região. Coincidência ou não, ela foi reativada depois da descoberta do pré-sal brasileiro, em 2006.
Com metade do território da América do Sul, metade do PIB da região e metade de sua população, o Brasil e o governo Lula estão na mira. Reduzir danos vai depender de nossa habilidade diplomática; o que está em jogo é a possibilidade de o Brasil superar sua condição de dependência dos Estados Unidos e buscar novas alianças geopolíticas para seu desenvolvimento. Mas é bom que se diga: vem mais chumbo aí.