quinta-feira, 7 de maio de 2026

Mui amigo

O governo norte-americano impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros; o Brasil foi incluído na lista dos países que Washington considera com “práticas comerciais desleais”; ministros do Supremo Tribunal Federal e ministros do governo federal tiveram o visto cassado e ficaram impedidos de entrar nos Estados Unidos; o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, organizações criminosas ligadas ao narcotráfico, podem ser taxadas de “narcoterroristas” e abrir caminho para intervenções militares diretas dos Estados Unidos no Brasil; a embaixada norte-americana alerta turistas para o risco de sequestro no Brasil; um agente brasileiro da Polícia Federal que trabalhava com o ICE nos Estados Unidos foi expulso do país. Há pressões sobre o uso do Pix, que reduz a margem de lucro dos cartões de crédito norte-americanos que atuam no Brasil. Há pressões sobre a legislação que se propõe a controlar a ação de plataformas digitais como Facebook, Google, YouTube e X. Há também demanda por terras-raras e petróleo brasileiros, e pressão pela redução da presença da China em nossas transações comerciais. Todas essas medidas são deste ano, 2026.

Além disso, não podemos esquecer os acontecidos no passado recente, como o golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma e prendeu Lula para impedir que ele ganhasse as eleições de 2018, e, por meio da Lava Jato, a destruição das grandes companhias brasileiras de obras públicas, que concorriam com as norte-americanas em situação de vantagem nas licitações internacionais.

Essa listagem de acontecimentos recentes nos permite dizer que os Estados Unidos não aceitam nenhuma iniciativa brasileira de busca de maior autonomia, de soberania. Não aceitam o multilateralismo: ou o governo é contra ou a favor dos Estados Unidos. E veem o governo Lula como uma ameaça ao seu domínio neocolonial na América Latina – portanto, um inimigo.


Depois do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa; de ameaçar invadir o México; de dizer que o próximo país a ser invadido pode ser Cuba; e de pressionar brutalmente a Colômbia com tarifas, o que podemos esperar nós, brasileiros?

Essa preocupação fez o presidente Lula promover uma reunião com as Forças Armadas (15 jan. 2026) e perguntar sobre nossas capacidades de defesa, incluindo propostas para reforçar a segurança do Brasil, especialmente nas fronteiras mais sensíveis. O Senado aprovou uma verba extraordinária de R$ 30 bilhões para as Forças Armadas, a ser distribuída anualmente, no valor de R$ 5 bi/ano. A indústria de armamento bélico passa a ser prioridade, com a contratação da produção de mísseis, drones, novas fragatas, carros de combate.

A situação das Forças Armadas é bastante precária na atualidade. Sem ameaças dos vizinhos, a modernização e o aprimoramento das capacidades bélicas ficaram em segundo plano. O programa nuclear da Marinha, o submarino nuclear, o caça brasileiro Gripen, sistemas de inteligência, a produção nacional de drones, tudo isso foi sendo postergado. As seis fragatas de combate estão obsoletas e quase indisponíveis. Nosso sistema de defesa é muito frágil.

Com um orçamento de defesa de R$ 132 bilhões em 2025, os recursos para o desenvolvimento tecnológico e novos armamentos são de apenas 7,4%. Inativos e pensões militares são o maior gasto, representando nada menos que 78% do orçamento total. O total gasto com recursos humanos é de 84,9%. O custeio consome outros 5,7%.

Na fronteira com a Venezuela, as Forças Armadas reforçaram nossa presença militar, foram mobilizados blindados, mantém-se um estado de prontidão para possíveis ameaças à nossa segurança.

O fato de o Paraguai ter autorizado a presença de forças militares e equipamentos norte-americanos em seu território, somando-se à disposição do presidente da Argentina, Javier Milei, de abrir espaço para a presença militar norte-americana em seu país, torna o Brasil vulnerável num território próximo à tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), que os Estados Unidos acusam de ser uma região de recrutamento de terroristas.

Completando esse quadro de riscos, há que considerar o Escudo das Américas, criado por Donald Trump em março deste ano, um pacto político-militar reunindo doze países da América Latina com governos de direita. Essa aliança de segurança e cooperação militar pretende combater cartéis de drogas e organizações criminosas internacionais, fortalecer o controle regional, reduzir a influência chinesa e eliminar a imigração irregular.

México, Brasil e Colômbia não participam do Escudo das Américas e podem sofrer pressões dos Estados Unidos, apoiados por esse pacto.

A 4ª Frota dos Estados Unidos, reativada em 2008, é uma força naval capitaneada por um porta-aviões da classe Nimitz, que aliás estará presente no litoral brasileiro nos próximos dias para operações de treinamento, a fim de garantir a segurança marítima da região. Coincidência ou não, ela foi reativada depois da descoberta do pré-sal brasileiro, em 2006.

Com metade do território da América do Sul, metade do PIB da região e metade de sua população, o Brasil e o governo Lula estão na mira. Reduzir danos vai depender de nossa habilidade diplomática; o que está em jogo é a possibilidade de o Brasil superar sua condição de dependência dos Estados Unidos e buscar novas alianças geopolíticas para seu desenvolvimento. Mas é bom que se diga: vem mais chumbo aí.

Flávio Dino e o alerta do 'Elefante Azul'

Flávio Dino resolveu usar uma imagem forte para descrever o que todos veem, mas poucos têm coragem de enfrentar: Brasília virou o palco de um desfile interminável de “elefantes pintados de azul”.

A metáfora é perfeita para o absurdo que, de tão grande e berrante, torna-se invisível, muitas vezes por conveniência. Dino, que circula pelos corredores do poder desde 1999, diz nunca ter visto tamanha quantidade de disparates desfilando pela Esplanada sob o olhar complacente de quem deveria estar vigiando.


A análise de bastidor dá nome aos bois – ou melhor, aos elefantes. O maior deles atende pelo nome de Caso Master, que explodiu em um dos maiores escândalos financeiros da nossa história. É o elefante azul que muitos sabiam que estava lá.

E a manada não para por aí. Temos as emendas parlamentares sem transparência, ministros do TST ganhando para “ensinar” advogados a atuar nos tribunais onde eles mesmos julgam, o Congresso tentando atuar como revisor das decisões do Supremo, entre outros.

A oposição acredita que esse desfile de absurdos será o carrasco de Lula nas urnas de outubro. Fica a pergunta no ar: será que o eleitor, no dia de depositar o voto, estará olhando para os elefantes do Poder? Em Brasília, a manada azul continua passeando livremente, e o silêncio de quem finge não ver é o que permite que o absurdo continue desfilando na nossa frente.

Nem sempre funcionam corretamente

Os jornais são o ponteiro dos segundos no relógio da história. Na maioria das vezes, porém, além de ser fabricado com metais menos nobres do que o dos outros dois ponteiros, raramente funciona de modo correto.

Uma grande quantidade de maus escritores vive unicamente da estultice do público, que só quer ler o que foi impresso no mesmo dia: os jornalistas. A sua designação vem mesmo a calhar, no entanto deveriam chamar-se "diaristas". O exagero de toda a espécie é para eles tão essencial quanto para a arte dramática: com efeito, trata-se de extrair o máximo possível de todo o incidente. Devido à profissão, todos os jornalistas são também alarmistas: este é o seu modo de se tornarem interessantes. No entanto, mediante tal expediente acabam por se igualar aos cãezinhos que, tão logo percebem algum movimento, põem-se a latir fortemente. Sendo assim, é preciso dar aos seus sinais de alerta apenas a atenção necessária para não prejudicar a própria digestão.

Arthur Schopenhauer(1788 – 1860)

Nem guerra nem paz é purgatório para ricos, mas inferno para pobres

Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar para casa sem a paz prometida era inconcebível.

Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".

A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.

Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.

Mas mesmo que a guerra acabasse amanhã, a normalidade demoraria meses a ser reposta nos fornecimentos de combustíveis, e já não haveria tempo, neste ano, para repor os fornecimentos de fertilizantes.


Cerca de um terço de todo o comércio marítimo mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz. O que podia ser plantado já foi decidido nestas condições de escassez. Sem falar nos compostos de enxofre, indispensáveis tanto à transformação do fosfato em fertilizante absorvível quanto à indústria de semicondutores que sustenta o setor hoje em maior pujança econômica: o da inteligência artificial.

Isto não afeta toda a gente da mesma forma. O mundo rico vive numa situação em que, pagando mais ou menos pela comida, não se passa fome.

No resto do mundo, e particularmente em regiões como o Chifre de África, vive-se como viviam os nossos antepassados. Um mau ano agrícola significa primeiro consumir as provisões do inverno, depois pular refeições, depois abater os animais que já não se conseguem alimentar e, depois, pegar a família e fugir à fome antes de morrer por ela. Essa pode ser, daqui a uns meses, a situação na Somália.

E é aqui que o problema bate à porta da Europa, que ficará na linha da frente do acolhimento de quem fugir. A mesma Europa que tem hoje uma agenda anti-imigrante; quando há uns anos a União Europeia pagava aos países europeus para receberem refugiados, estes agora pagam ao bloco para não receberem.

E são os mesmos governos que, por outro lado, decidiram cortar ajuda ao desenvolvimento. Aliás aqui também com o exemplo pioneiro dos EUA, que destruíram por dentro a Usaid apesar de saberem que esta agência de cooperação fornecia comida a países onde esse alimento faz a diferença entre vida e morte.

Olhamos para uma humanidade equipada com inteligência artificial, com tudo o que seria preciso para resolver um problema que é logístico e político, e vemos líderes que não só não fazem nada para o resolver como ainda lhe acrescentam a guerra. Só falta a peste para um retorno à Idade Média.

O mais deprimente nesta situação infernal é que não há um único elemento nela que fosse inevitável. Tudo são escolhas políticas. Nos nossos tempos, parece que um excesso de inteligência artificial nos corresponde a um excesso igual de estupidez natural.

Ladrões de votos

Vi com preocupação a derrubada, pelo Senado, sob a liderança de David Alcolumbre — não me lembro se desta feita ele rebolou em cima da mesa ou não — do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria, medida que, na prática, alivia a cana para os responsáveis pelo 8 de janeiro, os que tentaram um golpe de Estado e a abolição do estado de direito.

Senti o voto dos 49 senadores favoráveis aos golpistas como… um golpe — esse no estômago, um mal-estar físico: aquela sensação de invasão, violação e impotência diante de um assalto, quando algo é arrancado de nós, como um Rolex (imagino) ou um membro (exagerando).

Nunca havia sentido isso em relação ao voto. Compareço às urnas, como a maioria dos brasileiros, de quando em quando; nunca votei nulo ou branco — jamais justifico. O que não significa que me lembre de todos que escolhi para vereador ou deputado e que tenha valorizado meu voto o quanto que lhe é devido.


Mas também nunca havia tido a sensação de que isso me era roubado. Claro, ouvi e li as muitas histórias sobre a ditadura, o período em que roubavam na cara dura milhões e milhões de votos (é importante sempre falar disso, concordo inteiramente com Kleber Mendonça Filho). Mas uma coisa é ouvir falar. Outra é viver. E, agora, tendo assistido à destruição da Praça dos Três Poderes — o ataque ao Palácio do Planalto, ao Congresso Nacional e ao Supremo —, senti na carteira a dor daquilo que me era levado, que é onde eu carrego, sempre comigo, meu título de eleitor, ao lado da oração de São Francisco e dos cartões de banco.

A vítima de assalto é muitas vezes tida como um ingênuo. Sempre acho, ao fazer um BO (boletim de ocorrência), que o policial atrás da mesinha está tirando uma comigo. Afinal, nossa perda é sempre uma contingência. Algo que acontece sempre, e cada vez mais, especialmente em São Paulo, onde moro. Na delegacia, nosso infortúnio parece trivial frente ao dos outros.

Eu me sinto ingênuo também em relação ao meu voto. Compreendo que ele não vale muito. Reconheço que ele, em si, resolve muito pouco. Como não cuido devidamente dele, não o acompanho pelos escaninhos de Brasília ou de São Paulo, não “governo quem governa”, como recomendava Maquiavel, sou por eles governado. Pelos piores, os que ocupam o vazio deixado por quem abandona o voto, como alertava o mestre florentino.

Agora vejo, consternado, e um tanto revoltoso, o apoio a quem tentou surrupiar o meu sufrágio. À luz do dia, na cara dura, estimulando o roubo, seja atacando urna, seja defendendo anistia — ou “dosimetria”, o que dá no mesmo: Sergio Moro, Espiridião Amim, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro. Eis o cúmulo: pedem votos, para depois estimular o furto (na verdade, latrocínio, como denunciou a PGR).

Entre eles, e com certo espanto, eis que me identifico com Flávio — como o chama carinhosamente a Folha de S. Paulo. Numa tentativa de assalto no trânsito, numa avenida da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, não teve dúvidas: sacou a pistola e disparou contra os motoqueiros armados, o que rendeu boas fotos dos buracos no vidro do carro. Como ele, não gosto de ser assaltado.

A mesma indignação e valentia, porém, esse Bolsonaro não exibe quanto aos ladrões de votos. Ao contrário: promove e apoia a atitude dos que tentaram destituir o meu, o seu, o nosso voto. Deveríamos os eleitores andar armados? Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.