segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


A desgraça


A maldade e a vilania, o mal e a injustiça, são comuns, mas não são um estado de graça. São uma desgraça! 

Uma receita para o Brasil navegar em meio à anarquia internacional de Trump

Passado um ano de política externa de Donald Trump, já temos elementos mais do que suficientes para traçar uma estratégia de como o Brasil deve navegar na nova anarquia internacional. Os EUA passam a concentrar sua energia geopolítica nas Américas. Significa que os países da região precisam dispor de meios dissuasórios para conter intervenções americanas, que combinam pressão econômica e ameaça militar. Trata-se de elevar o custo dessas imposições para assegurar estabilidade e autonomia.


O Brasil precisa exibir sólidos fundamentos econômicos para fazer frente às turbulências que sanções comerciais e financeiras, impostas a nós ou a outros países, podem ocasionar. A gestão precisa melhorar e a questão fiscal, ser equacionada, de modo a aumentar a atratividade dos títulos brasileiros mesmo com redução de juros e a dar recursos para o Estado cumprir seus papéis.

As medidas listadas aqui soam como necessidades crônicas, porque a superação das fragilidades econômicas e de segurança de um país exige arrumar a casa. O mesmo debate, com nuances, ocorre na Europa, Canadá, Índia, Japão, Coreia do Sul, Austrália.

O acordo Mercosul-União Europeia é um incentivo para investirmos na competitividade da indústria, reformarmos o ambiente de negócios e baixarmos as barreiras comerciais. A segurança nacional vive uma emergência. A inteligência, nos âmbitos da Abin, Polícia Federal e Ministérios Públicos federal e de alguns Estados, tem se aprimorado. Mas vamos continuar enxugando gelo se a corrupção nas polícias e no Judiciário não for atacada.

Do orçamento de R$ 142 bilhões da Defesa, em 2025, R$ 33 bilhões foram para salários, R$ 37 bilhões para aposentadorias e R$ 28 bilhões para pensões. O que as viúvas e filhas de militares receberam em um ano é quase o mesmo valor que a Defesa pretende gastar em cinco anos com modernização: R$ 3o bilhões. A folha de pagamento responde por 77% do orçamento. Nos EUA, essa fatia é de 22%.

A corrupção e os privilégios obscenos no setor público, em todas as esferas, não podem continuar. A imprensa, em especial o Estadão, tem feito um trabalho corajoso de expor os abusos. A vergonha pública não parece servir mais de contenção. Então, os eleitores precisam se mobilizar para garantir que os políticos coniventes com a drenagem dos recursos sejam castigados nas urnas. Se não nos organizarmos, estamos fadados a dois destinos igualmente sombrios: entrar em embates autodestrutivos com os EUA ou nos tornarmos subservientes, como a Argentina de Javier Milei e o Paraguai de Santiago Peña.

Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado

Embora o início da conhecida marchinha carnavalesca seja "Eu sou o pirata da perna de pau...", é oportuno substituir perna por cara no contexto político onde reinam Donald Trump e uma direita sem escrúpulos e recato. No cinema americano, cara de pau era Fred McMurray, uma expressão invariável ao longo de qualquer drama: contrapartida a Victor Mature e suas contorções faciais intensas, paródia de esforço fisiológico a cada cena. Cara de pau metaforiza agora cinismo como política de Estado: "Quero a Groenlândia porque não me deram o Prêmio Nobel".


Trump sintetiza todos os casos. Na cara, inova com boca chupa-ovo, algo natural, não estudado como as caretas oratórias de Hitler, coreografadas por Goebbels. O Führer comparece, porque seu avatar o reprisa em aspirações geopolíticas, apenas trocando ocupação territorial por anexação comercial: protetorados "oleogárquicos". Além disso, tenta evitar a desdolarização do mercado comercial e financeiro, barrando outras moedas fortes. Sem diplomacia, "meu limite é a minha moralidade", a guerra cínica faz história.

Nessa nova modalidade de geopolítica ou de "geonegócio", cara de pau é justa designação para o imperialismo travestido de pirataria, com precedente histórico: um pirata americano, William Walker, foi presidente imperial da Nicarágua (1856-57). As invasões nazistas ainda tinham um pano de fundo, a doutrina do "Lebensraum", espaço vital almejado pelo Terceiro Reich. Agora, na apoteose de um poder ilimitado, ideias não suscitam adesões. Pirata não tem ideologia, tem bandeira. A violência auto justifica-se.

Tanto que o sequestro de Maduro, garantido pela mais poderosa frota de flibusteiros que já navegou no Caribe, não tem consistência jurídica nem moral: narcotraficantes e ditadores sanguinários convivem bem com os americanos. Vai-se Maduro, ficam o chavismo e a miséria popular. Os que foram deixados, sátrapas, são iguais ou piores: corruptos, torturadores, assassinos. Já caindo de podre, o bode expiatório foi sacrificado pelos seus. Primeiro golpe de Estado cara de pau.

Mas não o primeiro a expor a impotência do Direito Internacional. Trump diz "o Direito sou eu", a ONU já era. Clinton, Obama, Biden sempre o comprovaram, apenas longe da América do Sul. Juntos, poderiam fazer um cover dos "Secos & Molhados", cantando "rompi tratados / traí os ritos..." Mas o trumpista "vamos dirigir a Venezuela e ganhar mais dinheiro" é obscenidade que deixaria vexado o próprio Hitler, mais afeito a sangue vermelho (cimento ideológico do nazifascismo) do que negro, extraído da terra. O neoextrativismo americano desconhece fronteiras soberanas. E no estilo da pirataria, prospera em intimidações e ataques pontuais.

Daí o estúpido balido jubiloso das ovelhas que, legitimadas pela cara de pau, se desembaraçam das simulações de nacionalismo, patriotismo, dignidade e o quê mais. Acredite quem quiser: na euforia bolsonarista, marmanjos crescidos, governadores de estados, deliram com invasão pirata. Viria aquela Força Delta com vistosos uniformes do Império e enorme artilharia fálica nas mãos, suspiram, a mesma que Trump acompanhou pela televisão, capturando Maduro. Mas esses pelo menos pintam a cara antes do crime.

Por que o ICE deve ser compreendido como terrorista?

Em 7 de janeiro de 2026, Renee Nicole Good – mãe, poeta e residente de Minnesota, de 37 anos – foi morta a tiros por um agente do ICE em Minneapolis. Good não era uma criminosa violenta; de acordo com múltiplos relatos de testemunhas e vídeos, ela estava desarmada dentro de seu veículo durante uma grande operação federal de fiscalização migratória quando um agente disparou várias vezes, a matando. Pessoas que denunciam e pessoas que defendem esse assassinato recorrem ao termo “terrorismo doméstico” para explicar essa situação tenebrosa.

O terrorismo doméstico consiste em atos violentos e criminosos cometidos por indivíduos ou grupos para promover objetivos ideológicos; é impertinente debater quem, nesse cenário, é o verdadeiro terrorista. Good resistia pacificamente às ações de agentes de uma instituição ideológica que comete crimes violentos para instalar o medo em contingentes marginalizados da sociedade americana – e enfrentou a fúria letal deles.

A morte de Good é um exemplo extremo de como agências federais com poderes amplos e vagamente delimitados podem empregar força letal contra populações civis sem responsabilização transparente – e de por que qualquer cidadão sensato afirma que essas agências operam de maneiras que aterrorizam comunidades. Com razão, sua morte desencadeou protestos generalizados nos Estados Unidos.

O papel do ICE na sociedade contemporânea dos Estados Unidos é comparável a diversas formas de policiamento estatal cuja violência é estruturalmente tolerada e normalizada, como a Polícia Militar nas favelas brasileiras e as Forças de Defesa de Israel (IDF) na Palestina. Essas instituições operam com autoridade expansiva, pouca supervisão civil e utilizam força letal de maneira desproporcional contra comunidades marginalizadas, contribuindo para padrões de medo e repressão, e não de segurança.


No Rio de Janeiro, operações da Polícia Militar em favelas resultam em massacres recorrentes, com disparos indiscriminados e alto número de vítimas civis. Essas operações equivalem a punições coletivas que aterrorizam moradores e afetam de forma desproporcional populações negras e pobres. Na Palestina, a ocupação, a proteção a colonos e as políticas de bloqueio conduzidas pela IDF produziram ampla destruição e numerosas mortes de civis, muitas vezes sem mecanismos transparentes de responsabilização, reforçando assimetrias estruturais de poder e aterrorizando comunidades.

Esse padrão indica não eventos isolados, mas uma violência sistêmica inerente às estruturas de policiamento. O ICE, uma agência federal responsável pelo controle migratório, realiza operações muito além da fronteira dos EUA e emprega táticas agressivas que instilam medo, causam ferimentos e resultam em mortes em comunidades imigrantes – e, como se vê, muito além delas.


Defensores do ICE enfatizam seu mandato legal para aplicar as leis de imigração. Oponentes argumentam que, quando agências de fiscalização utilizam força avassaladora sem responsabilização, o efeito é o terrorismo de Estado – isto é, o uso sistemático da violência por agentes governamentais para controlar, intimidar ou reprimir populações civis. Essa compreensão chama atenção para o impacto aterrorizante sobre comunidades que vivem sob a ameaça constante de uma força descontrolada.

O assassinato de Renee Good se tornou um ponto de inflexão porque ocorreu durante uma operação que vinha aterrorizando moradores de Minneapolis por semanas. Assim como a militarização policial nas favelas brasileiras é criticada por fomentar um clima de medo e violência extrajudicial, as operações da IDF resultam em mortes de civis que traumatizam a população palestina. Enquanto isso, as operações domésticas do ICE, conduzidas com supervisão local limitada, produzem terror e trauma entre imigrantes e o público em geral.

A National Alliance Against Racist and Political Repression (NAARPR) defende estruturas que enfrentam diretamente essa ameaça de terror ao colocar a supervisão civil e a ‘responsabilização’ (combata à impunidade) no centro do policiamento e da fiscalização. Uma supervisão real exige participação comunitária, transparência e poder para moldar políticas e disciplinar as forças de segurança.

A Campanha pelo Controle Comunitário da Polícia da NAARPR exemplifica essa abordagem ao exigir que as comunidades – e não apenas os conselhos internos dos departamentos – tenham autoridade para supervisionar operações policiais, orçamentos e processos disciplinares. Ao democratizar o controle da segurança pública, esses movimentos buscam reduzir a violência e ampliar a responsabilização, garantindo que as agências não operem como forças de coerção sem regulação.

Grupos como o Eye on Surveillance integram a infraestrutura da sociedade civil que pressiona pela existência dessa supervisão, exigindo transparência das polícias e dos operadores de vigilância, e conectando comunidades a seus direitos e a iniciativas de política pública capazes de criar estruturas formais de responsabilização.

Essa rede pesquisa como sistemas de vigilância, do reconhecimento facial ao ‘policiamento preditivo,’ são implantados sem consentimento público e sem transparência adequada, frequentemente direcionados a populações vulneráveis à violência policial.

Sejam as operações do ICE, as operações policiais militarizadas no Brasil ou as tecnologias de vigilância utilizadas pela IDF e globalmente, a dinâmica subjacente é a mesma: agências equipadas com poder estatal e recursos tecnológicos agem sem consentimento comunitário, produzindo terror. Mecanismos de supervisão civil e transparência enfrentam isso ao submeter o policiamento e a vigilância ao controle público, em vez de deixá-los nas mãos de burocracias de fiscalização isoladas.

De Minneapolis ao Rio de Janeiro, até Gaza e zonas de conflito ao redor do mundo, a violência de Estado sob o pretexto da segurança cria ambientes em que civis são aterrorizados pelas próprias forças que deveriam protegê-los.

Reconhecer que agências como o ICE e forças policiais militarizadas podem agir de maneiras que aterrorizam comunidades não é mero recurso retórico; é um chamado à transformação estrutural. Defensores do controle comunitário da polícia e da supervisão civil oferecem alternativas concretas ao poder estatal descontrolado, exigindo transparência, responsabilização e governança democrática do policiamento.

Se quisermos viver sem o medo da força estatal arbitrária e letal, as estruturas de supervisão devem estar enraizadas nas próprias comunidades, com poder para moldar políticas, impor disciplina e assegurar que a fiscalização sirva à segurança pública – e não à repressão e ao terror.

De volta às veias abertas?

Como em toda época de terremoto social, o mundo está de ponta-cabeça. Ninguém, nem mesmo os adversários mais encarniçados de Donald Trump, pode mais lhe negar o caráter rupturista, especialmente neste segundo mandato, vivido por toda parte como tumulto e imprevisibilidade. O experimento “iliberal”, neologismo criado na Hungria de Viktor Orbán, em 2014, para marcar a dissociação autoritária entre democracia e liberalismo, instalou-se de vez no coração do sistema, e daí se espalha agressivamente por todo o Hemisfério Ocidental. Descontada a imprevisibilidade indecorosa dos mapas, é neste hemisfério que estamos politicamente situados – as Américas no seu conjunto e, talvez, a Europa.


Em toda e qualquer ruptura subitamente ficam para trás, deixando só um tênue rastro, as antigas maneiras de pensar. Há apenas alguns anos, o ex-presidente Joseph Biden, um liberal no sentido norte-americano, tentava formular diversamente o conflito global. Ele consistiria na acirrada competição entre regimes democráticos e não democráticos, à frente dos quais a China, depois de interrompida sua relativa liberalização política na segunda década do século 21. A superioridade de uns sobre os outros não se definiria só em termos de bem-estar material, mas também de afirmação de sociedades mais abertas e inclusivas.

O horizonte proposto pelo presidente Trump é de outra natureza. Por um lado, segundo ele, seu país deve renunciar ao papel de Atlas a suportar nos ombros, como antes, a ordem global em nome de princípios liberais. Por outro, bem vistas as coisas, há no argumento trumpista uma nada oculta apologia dos homens fortes e das respectivas autocracias. No plano estritamente pessoal, aliás, são mais do que evidentes as afinidades eletivas entre Donald Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin, para não mencionar autocratas menos votados.

Manifestações retóricas à parte, os Estados Unidos passaram a abrir mão do soft power do século americano, que terá se estendido por muitas décadas até a grande recessão de 2008 e suas devastadoras consequências. A cultura daquele país, agora, deve perder seu caráter expansivo e se fechar no louvor paroquial às glórias e aos heróis do passado, considerados pelo metro de um nacionalismo branco e cristão que recorda formas de fascismo.

A identidade “ocidental” proclamada é a negação do Ocidente e dos elementos de universalidade que este último, no seu conjunto, soube ou pôde construir. A contaminação com outras culturas ou civilizações não é mais bemvinda. Não se trata de ordenar razoavelmente a imigração, mas de impedi-la com o objetivo de barrar uma suposta “somalização” – termo de abjeta inspiração racista forjado descaradamente nos círculos dirigentes.

Sintomático, em todo este contexto, o pressuposto de que em nosso tempo a unidade política fundamental é – deve ser – o Estado-nação. O mitológico Atlas, aqui, corrói e corrompe os fundamentos de uma obra que não é só sua, mas, de fato, coletiva, erguida sobre os escombros de grandes conflitos.

Transnacional por natureza, tal obra pretendia limitar a soberania absoluta dos Estados, introduzindo duas novidades capitais. Primeiro, o veto às anexações de território, com fins expansionistas; segundo, a construção paulatina de uma rede de órgãos e instâncias dedicados à promoção dos direitos humanos em cada uma das entidades nacionais. Se quiser, um embrião de sociedade civil internacional, a se movimentar segundo a máxima de que todo poder corrompe e, por isso, deve ser limitado e condicionado.

O programa essencial do trumpismo consiste em destruir esse embrião e, simultaneamente, arremeter contra a própria sociedade civil interna, enfraquecendo os clássicos mecanismos de controle e participação. O resultado pretendido é a disseminação das formas autoritárias de mando em cada realidade nacional, bem como a perigosa competição entre Estados-nação autocraticamente constituídos. E, ao proclamar com brutalidade a consigna “America first”, a certeza é de que, no Hemisfério Ocidental, a primazia caberá, por uma espécie de lei natural darwiniana, ao país econômica e militarmente mais forte.

A União Europeia, por isso, é uma indesejada entidade supranacional a ser cancelada e conduzida de volta aos velhos nacionalismos, responsáveis por séculos de derramamento de sangue. Para esta tarefa, de resto, se convocam e incentivam os tais “partidos patrióticos” da extrema direita, hoje em plena ofensiva eleitoral.

A América Latina, por seu turno, deve se contentar com ser objeto do “corolário Trump” à Doutrina Monroe, destituída de qualquer sentido anticolonial que possa ter tido no passado. Como demonstrado na Venezuela pós-sequestro do ditador, não é impossível que a vontade imperial se combine, sem maiores complicações, com o mesmo regime de antes, simbolicamente decapitado. Se tudo isso faz sentido, só uma resposta profundamente democrática – e cosmopolita, à altura do tempo – impedirá que voltemos a empregar, ainda com mais rigor, a metáfora das veias abertas do nosso continente.