domingo, 30 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


A verdade dividida

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade, "Contos Plausíveis"

A abominação é mútua

É muito raro que alguém de quem não gostamos nada goste um bocadinho de nós. Geralmente, as pessoas gostam tanto ou tão pouco de nós como nós gostamos delas.

É preciso ser-se vaidoso – coisa que quase todos nós somos, se arranharmos um pouco o verniz com que nos tapamos – para pensar que os outros gostam mais de nós do que nós deles.

A fantasia por trás da nossa vaidade é que os outros são parvos – e é por isso que pensam que nós gostamos deles. Até nos rimos desse desnível ilusório, tal é a nossa sobranceria.

Do fundo da nossa periclitante autoestima, achamos uma coisa inacreditável: “Eu sou melhor do que eles e, como tal, eles gostam mais de mim do que eu gosto deles, porque lhes trago mais do que eles me dão a mim, e assim atinge-se uma espécie de equilíbrio.”

Nós ouvimos Pete Hegseth, J.D. Vance e Trump a dizer que nós, os europeus, somos patéticos e achamos que eles foram apanhados a faltar-nos ao respeito. Mas por que carga de algodão-doce é que aquelas três bestas hão-de gostar mais de nós do que nós gostamos deles?

Eles sentem-se desprezados por nós. Estão fartos de saber o que nós pensamos deles – até porque nós não nos calamos.

Os americanos já fervem com a arrogância e a condescendência dos europeus, com as nossas falinhas mansas quando queremos cravar mais uns dólares e, sobretudo, com a nossa convicção que é aqui na Europa, encharcados em cultura e civilização, que sabemos viver, enquanto os americanos que votaram no Trump não passam de selvagens.

Aqueles três brutamontes sentem, com razão, que os europeus são quase todos aliados dos adversários de Trump. E sabem que essa aliança entre americanos e europeus à esquerda de Trump – uma multidão imensa – tudo fará para os ridicularizar e perseguir.

Fica-nos mal fingirmos que fomos surpreendidos, quando, na verdade, ficámos mais do que satisfeitos: confirmou-se o que pensávamos deles.

Fazemos bem em odiá-los. Mas também temos de deixar que eles nos odeiem também.
Miguel Esteves Cardoso

O tempo passa rápido

Às vezes, quando me encontro com velhos amigos, lembro-me da rapidez com que o tempo passa. E isso faz-me pensar se temos utilizado o nosso tempo de forma adequada ou não. A utilização adequada do tempo é tão importante. Enquanto tivermos este corpo e especialmente este cérebro humano incrível, eu acho que cada minuto é algo precioso. O nosso dia-a-dia é muito vivido à base de esperança, embora não exista a garantia do nosso futuro. Não há garantia de que amanhã a esta hora estejamos aqui. Mas estamos sempre na expectativa de que isso aconteça, puramente na base da esperança. Por isso, precisamos de fazer o melhor uso possível do nosso tempo. Acredito que a utilização adequada do tempo é a seguinte: se você puder, esteja disponível para as outras pessoas, ou para outros seres sensíveis. Se não, pelo menos, abster-se de os prejudicar. Eu acho que esta é toda a base da minha filosofia.

Concluindo, precisamos de refletir no que é realmente de valor na vida, o que dá sentido às nossas vidas, e definir as nossas prioridades com base nisso. O propósito da nossa vida precisa de ser positivo. Nós não nascemos com o propósito de causar problemas, prejudicando outros. Para que a nossa vida seja de valor, acho que devemos desenvolver boas qualidades humanas básicas – o calor, a bondade, a compaixão. Então, a nossa vida torna-se significativa e mais pacífica, mais feliz.
Dalai Lama, "A Arte da Felicidade"

STF descuida da dimensão política e arrisca anistia ampla

Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF) começou a aceitar as denúncias dos acusados de liderar os movimentos antidemocráticos. O julgamento tem uma dimensão jurídica, que acontece nas Cortes, mas também uma dimensão política, junto à opinião pública. A dimensão política não tem sido bem cuidada, e isso tem permitido que o sentimento de injustiça contra as duras penas aplicadas a populares que invadiram as sedes dos três Poderes seja manipulado em favor de uma anistia ampla. Ao ignorar essa dimensão, o STF corre o risco de minar a legitimidade das punições e de abrir espaço à impunidade do ex-presidente Bolsonaro e das outras lideranças.


Uma punição dura para aqueles que participaram da tentativa de golpe de Estado no final do governo Bolsonaro é fundamental para a preservação da democracia brasileira. Se a democracia não mostrar que tem dentes, não será respeitada. A contrapartida dessa firme defesa da democracia, porém, é que o julgamento seja técnico, sóbrio e equilibrado. Mais que isso: tem também de parecer técnico, sóbrio e equilibrado. Precisamos da dureza da pena para dissuadir. Mas também da sobriedade e do equilíbrio da decisão para que a dureza da pena tenha legitimidade social.

O avanço da campanha pela anistia aos envolvidos nos atos antidemocráticos é bastante palpável. Em dezembro de 2024, uma pesquisa Datafolha mostrou que 33% dos brasileiros apoiavam a anistia para os responsáveis pelo ataque do 8 de Janeiro, parcela semelhante à que tinha sido medida pelo instituto em março de 2024. Pesquisas mais recentes têm mostrado apoio maior. Em fevereiro, a AtlasIntel deu 51% de apoio à anistia aos presos do 8 de Janeiro. Na semana passada, o PoderData apontou 37% de apoio à anistia aos presos. Os números variam bastante de acordo com a metodologia, mas podemos dizer que algo entre um terço e metade dos brasileiros apoia a anistia. Seja mais ou seja menos, o patamar é preocupante.

O apoio relativamente alto à anistia se deve ao fato de o público não ter sido convencido de que o 8 de Janeiro tenha sido um golpe — o entendimento majoritário é que foi apenas vandalismo (65%). É o que a pesquisa Datafolha, citada há pouco, revela. A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) era especialmente pobre na documentação da concepção e articulação do 8 de Janeiro — e não contribuiu para mudar esse sentimento.

O Congresso captou o humor do público e tem se movido. O jornal O Estado de S. Paulo mediu o apoio à anistia na Câmara dos Deputados e contou 191 apoiadores, 37% da casa, o suficiente para aprovar um pedido de urgência. Ainda mais revelador são os 196 deputados (38% da Câmara) que não responderam, provavelmente porque podem ir para um lado ou para outro, a depender da direção do vento. A avaliação do líder do PT na Câmara também é que haja 200 deputados a favor da anistia.

A campanha pela anistia está muito concentrada nos populares que foram presos na invasão das sedes dos três Poderes sem que tenham praticado vandalismo ou violência e, mesmo assim, pegaram sentenças duras de prisão. O caso mais controverso é a cabeleireira Débora Rodrigues, ativista que escreveu a frase “Perdeu, Mané” na estátua da Justiça em frente ao prédio do STF, prestes a ser sentenciada a 14 anos de prisão por abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, dano qualificado com violência e associação criminosa armada.

Diante da incompreensão generalizada de que o 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe de Estado, as penas duras aos manifestantes que não cometeram atos de vandalismo ou violência acabam apenas por fortalecer a causa da anistia. O sentimento de injustiça em relação aos peixes pequenos pode ser aproveitado por forças políticas interessadas em ampliar os efeitos da anistia ao ex-presidente e aos generais que, estes sim, não podem ficar impunes.

Se a Polícia Federal, PGR e o STF não conseguirem persuadir a sociedade de que os ataques do 8 de Janeiro foram planejados para provocar instabilidade e justificar uma intervenção militar, talvez seja preciso se resignar e revisar para baixo as penas dos manifestantes não violentos — sob o risco de ver prosperar uma anistia ampla.

A ameaça do STF de que considerará inconstitucional uma anistia aprovada pelo Congresso é suicídio político para uma instituição que já enfrenta uma crise de legitimidade com a metade da cidadania que votou em Bolsonaro. Em vez de tensionar ainda mais o ambiente político, o Supremo precisa recuperar sua autoridade por meio da sobriedade, da comunicação pública e da capacidade de distinguir entre os diferentes níveis de responsabilidade nos movimentos golpistas.

Medo na terra da liberdade

Primeiro eles foram atrás dos venezuelanos. Imagens de centenas de supostos criminosos sumariamente deportados dos Estados Unidos sem representação legal e submetidos a tratamento degradante em uma prisão salvadorenha são uma demonstração de crueldade com um único objetivo: aterrorizar milhões de imigrantes ilegais que vivem e trabalham no país. Não importa que a medida seja ilegal. Quando isso for decidido no tribunal, o medo de sair às ruas terá destruído muitas vidas. O americano médio não vai defender os direitos de supostos criminosos (o governo não apresentou nenhuma evidência de que eles o farão), mas em breve as táticas do medo como arma política começarão a afetar mais profundamente. Ele já está fazendo isso.

O segundo governo de Donald Trump, livre de autoridades indesejadas, está estendendo a mesma estratégia a todos os níveis da sociedade. Por meio de vários decretos presidenciais, Trump pretende eliminar qualquer voz que contradiga sua ideologia política, não apenas dentro de sua administração — onde ele eliminou todos os departamentos e empregos relacionados à diversidade e inclusão — mas também em toda a sociedade. Ele começou ameaçando grandes empresas com a perda de contratos públicos, e algumas cederam.


Neste projeto, silenciar as críticas é essencial. Agora é a vez das universidades, que, usando a desculpa de protestos contra o massacre de civis em Gaza, estão ameaçadas de perder o financiamento federal — grande parte dele dedicado à pesquisa científica — se não derem um basta aos protestos estudantis. Nesse caso, o primeiro alvo que todos deveriam observar foi Columbia, Nova York. A universidade concordou em negociar com a Administração. O presidente da instituição renunciou na sexta-feira.

Das universidades aos próprios estudantes. O mundo viu imagens, típicas de uma operação antidrogas, da prisão nas ruas de um estudante turco da Universidade de Boston por participar de manifestações pró-Palestina. Centenas de vistos de estudantes internacionais foram revogados por esse motivo, e um juiz teve que suspender a tentativa de deportação contra um estudante da Columbia com autorização de residência permanente. O medo de dizer algo inconveniente ao governo se estende nada menos que ao âmbito do ensino superior, da liberdade acadêmica e da liberdade de crítica.

O próximo alvo são os advogados. Neste caso, a ameaça implícita é que, se representarem indivíduos ou instituições em casos contra a atual Casa Branca, perderão contratos públicos . Pelo menos duas empresas decidiram processar o governo, mas outras duas concordaram em negociar. Essas são empresas multimilionárias que se recusam a reagir, então a mensagem é letal para o resto da profissão, com capacidades muito mais modestas. Mais uma vez, por meio da intimidação, o governo está ganhando terreno na sociedade americana. Ele já havia ameaçado a imprensa antes. Seguindo o mesmo padrão, ele escolheu a Associated Press, a agência de notícias mais respeitada do país, para dar o exemplo. A AP se recusou a se referir ao Golfo do México como Golfo da América, como Trump quer, e foi excluída do grupo de veículos de comunicação com acesso ao Salão Oval.

O objetivo desta ofensiva vai além da agenda pessoal de Trump: ela também serve ao fanatismo reacionário que o cerca. Assim, por meio da chantagem, toma forma a ideia artificial dos Estados Unidos como um país branco, heterossexual e conservador, no qual todos aqueles que não se encaixam nesse padrão são meros hóspedes com papel subordinado na sociedade. A democracia americana foi construída sobre uma concepção extrema de liberdade individual. Isso pode mudar para sempre se a rejeição dessa política não se tornar generalizada. Dada a passividade do Congresso, as ações de alguns juízes continuam. Cada concessão é um espaço de poder ocupado pelo trumpismo, ou seja, a doutrina do medo.