quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

A dependência da propriedade

Todos os homens são proprietários, mas na realidade nenhum possui. Não são proprietários apenas porque até o último dos pedintes tem sempre alguma coisa além do que traz em cima, mas porque cada um de nós é, a seu modo, um capitalista.

Além dos proprietários de terras, de mercadorias, de máquinas e de dinheiro, existem, ainda mais numerosos, os proprietários de capitais pessoais, que se podem alugar, vender ou fazer frutificar como os outros. São os proprietários e locadores de força física - camponeses, operários, soldados - e proprietários e prestadores de forças intelectuais - médicos, engenheiros, professores, escritores, burocratas, artistas, cientistas. Quem aluga os seus músculos, o seu saber ou o seu engenho obtém um rendimento, que pressupõe um patrimônio.

Um demagogo ou um dirigente de partido pode viver pobremente, mas se milhões de homens estão dispostos a obedecer a uma palavra sua, é, na realidade, um capitalista, que, em vez de possuir milhões de liras, possui milhões de vontades.

O talento visual de um pintor, a eloquência de um advogado, o espírito inventivo de um mecânico são verdadeiros capitais e medem-se pelo preço que deve pagar, para obter os seus produtos, quem não os possui e carece deles. E não existe ninguém, a menos que seja paralítico ou néscio, que não possua uma porção de capitais da segunda espécie, ainda que seja a sua capacidade de trabalho físico, vendível, como qualquer outro bem, com um contrato verdadeiro e apropriado.

Dir-se-á que os possuidores dos capitais pessoais são forçados, para viver, a cedê-los, dia a dia, aos capitalistas que dispõem dos bens visíveis e estão, por isso, ao seu serviço. Mas essa dependência, para quem vê claro, é recíproca: um proprietário de terras, mesmo que possua meio país, é como se não tivesse nada, se não encontra camponeses que façam frutificar os seus latifúndios; o grande fabricante tem de vender como sucata as suas excelentes máquinas, se não conta com operários que as façam funcionar e produzir lucros; o político está às ordens do especulador, mas este não poderá efetuar os seus negócios, se não dominar, por meio daquele, a opinião pública e o Estado; e se médicos, advogados e professores não poderiam viver sem doentes, culpados e ignorantes, é igualmente verdade que os segundos, em determinados momentos, não podem prescindir dos primeiros. Até o aleijado, o cego e o leproso obtêm um certo rendimento das suas muletas, da sua escuridão e das suas chagas.

Por conseguinte, aqueles a que os instigadores da plebe chamam ‘possuidores de nada’, ‘destituídos’ ou ‘deserdados’ não existem.

Giovanni Papini, "Relatório Sobre os Homens"

Penúria


Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.

Charles Chaplin


O plano oculto de Netanyahu

Para entender os posicionamentos irredutíveis de Benjamin Netanyahu, é preciso situá-lo no contexto de sua doutrinação ideológica. Ele é adepto do sionismo revisionista, formulado em Odessa pelo ativista e pensador Zeev Jabotinsky (1880-1940) na primeira metade do século passado. O revisionismo foi adotado pelo Irgun, organização clandestina judaica que combateu com armas os ingleses durante o mandato britânico na antiga Palestina. Com a independência de Israel, o Irgun deu origem ao partido político Herut, que originou o Likud, atual partido de Netanyahu.

O movimento revisionista pregava a implementação de uma nação judaica em seu território ancestral, se necessário pela força, na então Palestina Otomana, incluindo desde a fronteira leste da atual Cisjordânia até o Mar Mediterrâneo.

O traçado da Partilha da ONU, de 1947 — conferindo a Israel um trecho somente do Rio Jordão até o oceano —, foi respeitado durante 20 anos, até o país ser atacado pela Jordânia na Guerra dos Seis Dias. A derrota da Jordânia determinou a ocupação da Cisjordânia. Dessa ocupação resultou a instalação pontual de assentamentos como postos avançados de defesa.


Netanyahu assumiu o poder em 2009, decidiu pôr em prática a doutrina expansionista do revisionismo, incrementando a instalação frenética de assentamentos ocupados por judeus ortodoxos, condição que fortalecia suas coalizões com os partidos religiosos para formar maiorias parlamentares e gabinetes governamentais.

Netanyahu passou a chamar biblicamente a Cisjordânia palestina como Judeia e Samaria, alusão ao apogeu dos reinados de Davi e Salomão. Essa reivindicação territorial se baseou numa argumentação esdrúxula em termos do século XXI: eram terras concedidas por Deus ao povo judeu, portanto deveriam pertencer ao Estado de Israel.

Atrás dessa retórica, Netanyahu desenvolvia seu plano oculto de anexar a Cisjordânia, apesar da previsível oposição dos Estados Unidos e da comunidade internacional. Havia, porém, um obstáculo ainda maior: a Suprema Corte de Israel, que, por força de sua tradição e respeito à ordenação jurídica, decerto anularia qualquer medida referente à anexação.

Foi por isso que, ao retornar ao poder em novembro de 2022, Netanyahu formulou uma reforma judiciária por meio da qual o Knesset (Parlamento) passaria a ter o poder de revisar as resoluções da Suprema Corte. Quer dizer: uma decisão da Corte de anular qualquer anexação seria rejeitada pelo Parlamento. O plano oculto de Netanyahu assim obteria um grande triunfo.

Há dias, a Suprema Corte de Israel anulou a reforma judiciária no país. Ela seria o primeiro passo na marcha da insensatez de Netanyahu. O fim da guerra em Gaza determinará o fim de sua carreira política.