quinta-feira, 26 de março de 2026

Pensamento do Dia




Flávio Bolsonaro moderado é conversa mole para boi dormir

O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, anda vendendo uma imagem de moderado. Não vai colar. Para citar a velha canção "Touradas em Madri", isso é conversa mole para boi dormir. Estamos falando do filho 01 de Jair Bolsonaro, o líder da extrema direita brasileira, condenado e preso por tentativa de golpe e atentado à democracia e ao Estado de Direito.

A coreografia de moderado tem certo interesse. Atrai, por exemplo, simpatias da direita liberal, viúva da sempre chorada terceira via, que rejeita Lula e o PT, e tem histórico de se inclinar por projetos autoritários, na expectativa de que adotem uma linha privatista na economia. O caso mais recente foi o apoio ao próprio Jair Bolsonaro.


É um tipo de perfil que se observa em outros países da região. O filósofo Vladimir Safatle apelidou essa irrefreável tendência de liberais latino-americanos à aliança com a extrema direita de "complexo de Vargas Llosa". Referência ao grande escritor e político menor peruano que, lido e esclarecido, na hora da decisão optava pela pior direita.

Flávio Bolsonaro ainda não foi submetido ao ambiente de campanha. Tem-se a impressão de que a esquerda está até evitando fazer marola para esperar a confirmação da candidatura de Tarcísio de Freitas à reeleição paulista, que deve ocorrer no início do próximo mês.

Tão logo o clima comece a esquentar, o 01 vai ter que explicitar suas posições ideológicas, suas simpatias por Donald Trump, seu reacionarismo profundo. Terá também que dar respostas a encrencas pregressas, como o esquema de rachadinha em seu gabinete, a proximidade fraternal com a milícia no Rio e acusações de lavagem de dinheiro, entre outras situações, para dizer o mínimo, desconfortáveis.

Por enquanto, a subida do candidato nas pesquisas, que têm revelado empate em segundo turno contra Lula, não é desprezível, porém não diz muita coisa sobre a corrida eleitoral pela frente.

É certo que o petista tem problemas, a começar pelo desgaste do personagem, o cansaço que sua longevidade política naturalmente acarreta. Mesmo alguns setores de inclinação progressista parecem sentir falta de novidade, prefeririam um candidato de renovação da centro-esquerda que Lula representa. Não se sabe bem as razões pelas quais conquistas verificáveis do atual governo, em economia e outras áreas, não se transformam em aumento de popularidade.

Lula, contudo, é um animal eleitoral e terá a máquina federal na mão.

Quanto ao cenário mais amplo, há enorme incerteza. Não apenas pelas aventuras de Donald Trump, mas sobretudo pelos desdobramentos do caso Master. Virá uma delação? Será confiável? Está muito claro que até aqui o abacaxi está muito mais difícil de ser descascado pela direita, em que pesem power points e tentativas frequentes de colocar o escândalo no colo da esquerda.

É de se perguntar também se a manutenção de Jair Bolsonaro em casa irá mudar alguma coisa. Deixará de ser tratado como vítima do STF e do "sistema sádico" da esquerda. Flávio não ganha com isso. Para um nome que não reúne qualidades para conquistar o cargo, talvez o melhor seja continuar fazendo dancinhas, como a que apresentou no Nordeste ao som de "01, novo capitão".
Marcos Augusto Gonçalves

'Eleitos' só mudam de cara

De uma forma que pode surpreender aqueles que vivem em um ambiente tão turbulento, existem apenas três casos no Oriente Médio em que um Estado ou poderes dentro dele são liderados por entidades que se declaram representantes de Deus na Terra: o Irã, governado pelo aiatolá (literalmente, sinal de Deus), detentor da autoridade suprema no país; o Hezbollah (Partido de Deus), que foi liderado pelo líder dominante Hassan Nasrallah até seu assassinato; e Israel, onde partidos religiosos, de todo o espectro ultra ortodoxo e nacionalista, desempenham um papel decisivo na esfera política e na sobrevivência do governo Netanyahu.

Roni Weinstein, no jornal Haaretz de Israel

Esse grande simulacro

Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma

ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de Santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento

Mario Benedetti

Donald Trump faltou às aulas de História

A partida, para um leigo, enviar uma força militar com a missão de capturar ou liquidar o líder de um país parece uma tarefa que obedece a um mesmo plano de ação: aniquilar a voz de comando e, dessa forma, fazer cair o regime e, ato contínuo, impor um novo poder ou uma nova forma de coerção.

No entanto, se as operações militares podem ser semelhantes ou até procurar objetivos aparentemente iguais, há muito mais que precisa de ser levado em linha de conta, antes de dar ordem para avançar.

É preciso ter respostas prontas para uma mão-cheia de perguntas: Como é a estrutura desse regime? Qual a sua antiguidade? De que forma se preparou para um eventual ataque? Qual é o histórico do país face a invasores externos? De que forma a geografia do seu território pode albergar e ampliar um foco de resistência?


Naturalmente, como já se percebeu, é totalmente diferente uma ação militar de decapitação do líder do regime num país fundado há apenas dois séculos, como a Venezuela, de outra numa nação, como o Irão, que, apesar das suas transformações, é a herdeira de uma civilização com três mil anos de História. É como querer comparar a personalidade de uma criança de 2 anos com a do seu avô, octogenário.

No entanto, cada vez parece mais evidente que esse foi o erro infantil cometido por Donald Trump, ao aceder aos apelos do seu parceiro Benjamin Netanyahu para intervir militarmente no Irão – onde o único beneficiado, no final do dia, seria o primeiro-ministro israelita, que precisa de estar permanentemente em batalha atrás de batalha para continuar no poder.

Pensar que, por exemplo, o regime tenebroso dos aiatolas seria derrubado apenas com o corte da sua “cabeça” principal é, no mínimo, não ter memória histórica. E é não perceber que o sentimento antiamericano no Irão não nasceu em 1979, com a fundação da República Islâmica, por Khomeini. As sementes do antiamericanismo foram plantadas pelos próprios líderes de Washington, em 1953, quando promoveram o golpe que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, para manterem o acesso ao petróleo iraniano, cuja exploração aquele governante democraticamente eleito queria nacionalizar.

Como a História indica, as mudanças de regime impostas de fora raramente resultam em democracias estáveis. E pior: costumam até radicalizar a população contra o invasor. Foi isso que sucedeu, no início dos anos 1980, quando o Iraque invadiu o Irão, dando início a uma das mais sangrentas guerras da segunda metade do século XX. Esse conflito, iniciado com um ataque externo, acabou por ser fundamental para unir as fações internas, fortalecendo as jovens instituições criadas com a revolução islâmica, em vez de as enfraquecer.

Depois, temos a geografia. Não só as montanhas que dificultam o acesso ao território, mas também a localização estratégica e fundamental para a economia mundial, que permite ao Irão controlar o estreito de Ormuz – aquele acidente geográfico que já há cinco séculos o português Afonso de Albuquerque percebeu ser fundamental para controlar o comércio no Índico (quando ainda nem se sabia para que serviria aquele líquido viscoso e negro a que chamamos petróleo…).

Como bem observou, recentemente, o historiador britânico Niall Ferguson (conhecido, aliás, pelas suas posições profundamente conservadoras), os EUA podem estar prestes a repetir o erro cometido pelos britânicos, na I Guerra Mundial, quando o jovem Winston Churchill, então primeiro lorde do almirantado e confiante na imensa capacidade militar do Império Britânico, ordenou a invasão de Galípoli, com o objetivo de abrir o estreito de Dardanelos, que permite a ligação entre o Mediterrâneo e o mar Negro, e que os otomanos tinham bloqueado. A operação revelou-se um desastre total e ficou como uma das maiores derrotas de sempre das forças britânicas.

Ninguém, com seriedade, pode esperar que Donald Trump se debruce sobre a História e a geografia dos países em que deseja intervir. Ele só se preocupa com a defesa dos seus interesses – especialmente, aqueles que podem ter mais impacto nos seus negócios e nos da sua família. Por isso, o problema não é Trump decidir por instinto, com base na ignorância e sem uma avaliação correta dos riscos. O que preocupa mesmo é o muro de silêncio que ele conseguiu erguer à sua volta, sem que ninguém tenha autoridade para o chamar à razão ou ao confronto com as lições do passado. Trump pode ter faltado às aulas de História, mas se insistir neste caminho, a História não vai perdoar-lhe. E, se calhar, bem mais depressa do que ele pensa.
Rui Tavares Guedes

Domiciliar de Bolsonaro é caso de memória curta e editoriais de ocasião

Há uma coincidência curiosa nas páginas de opinião dos grandes jornais essa semana: Tanto O Globo quanto o Estadão decidiram que é hora de o Supremo Tribunal Federal ter um “gesto de sensatez e humanidade” e transferir Jair Bolsonaro para a prisão domiciliar. O argumento é o quadro clínico sensível. É a mesma música cantada pela família e pelos advogados de defesa, agora com o coro da dita imprensa tradicional.

Engraçado que essa súbita onda de humanitarismo parece ter destino certo.

Não se lê nos mesmos editoriais uma linha sequer sobre os milhares de presos que sofrem de doenças graves, muitas vezes piores que as de Bolsonaro, e que continuam mofando e morrendo nos presídios brasileiros sem qualquer “extrema cautela” das instituições. Para esses, a legislação que admite a domiciliar em casos de saúde incompatível com o cárcere parece não existir.

O Estadão fala em “dever de maturidade” e lembra que a prisão de um ex-presidente nunca é um fato trivial. De fato, não é. Bolsonaro é o primeiro ex-presidente condenado por tentativa de golpe. Mas onde estava essa mesma sensibilidade institucional quando Lula, preso em Curitiba, foi impedido de ir ao velório do próprio neto? Onde estavam os editoriais pedindo “serenidade” e “humanidade” naquele momento?

O que guardamos na memória é o editorial de 2018 que classificava a escolha entre a democracia e o golpismo como uma “escolha difícil”.

A tentativa de comparar o caso de Bolsonaro ao de Fernando Collor – que obteve a domiciliar alegando males como Parkinson – ignora o essencial: o comportamento do réu. Bolsonaro sempre foi um desrespeitador contumaz das ordens judiciais. Foi para a Papudinha justamente porque não sabe conviver com os limites da lei.

Dar a Bolsonaro o benefício da domiciliar agora, sob o pretexto de um quadro que o Estado já se provou capaz de tratar com 144 atendimentos em um mês, não é humanidade. É privilégio. É tratar um cidadão comum como se ainda estivesse acima da lei por conta do cargo que ocupou e que tentou manter no grito.