quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ódio à solta

Sinto no ar um cheiro a ódio pesado e enjoativo, que não desaparece abrindo a janela e deixando entrar a primavera. Este cheiro é semeado por políticos, é amplificado por alguns espaços mediáticos e é replicado nas redes sociais. Pois não pensem que vou escrever sobre alguém, vou falar do método que observo.

O ódio à “esquerdalha” é o sintoma mais visível de uma doença política que se instalou no nosso sistema democrático. Uma doença que tem como linha principal a desumanização: pretende transformar a humanidade e a legitimidade do adversário por uma caricatura de maldade, criando pretextos para mentiras, insultos e distorção da realidade.


Quem integra esta corrente, liderada pelo Chega, alimenta-se do medo, da inveja e de uma apatia social que lhe é muito conveniente. Adoram teatralizar em vez de apreciar factos reais e ameaçar em vez de explicar o sentido das ideias

Ora não é a honra política de quem é alvo destes discursos que é posta em causa mas sim a qualidade da democracia.

Uma democracia sã assenta no confronto de ideias, por muito duro que ele seja. O que a extrema-direita propõe é o fim do debate e a sua substituição por um espetáculo permanente, onde o ruído ocupa o lugar da política, e quem assiste, repete amestradamente o que lhe ensinaram a gritar.

Honrar a força dos políticos de esquerda não significa subscrever tudo o que eles defendem. Significa reconhecer que a sua resistência é a nossa trincheira. Cada vez que eles se levantam no Parlamento, impassíveis perante a onda de ódio e argumentam com factos e contundência, estão a defender algo mais do que o seu partido: estão a defender o direito de todos nós a existir na nossa diferença sem sermos despedaçados.

Para enfrentar este estado de coisas é preciso nomear o monstro. Isto exige que os outros, sejam eles, da esquerda à direita democrática, percebam que o fogo que ontem lançaram à Mariana Mortágua, hoje, queima qualquer um que se atreva a enfrentar esta forma medíocre de fazer política. A normalização do discurso de ódio é o cavalo de Tróia que, uma vez dentro das muralhas, não poupa ninguém. Mas não nos enganemos: o monstro não se alimenta apenas da mentira de quem o solta, mas também do nosso cansaço e da facilidade com que aceitamos estes rótulos. Vivemos um momento em que se premeia o conflito e onde um soundbite vale muito mais do que a solução do mesmo conflito. Enfrentar este estado de coisas exige a coragem e a inteligência de não participar no circo que nos quer transformar a todos em meros espectadores de um naufrágio democrático.

Isto não é sobre a Mariana Mortágua ou sobre o Bloco, sobre o PCP ou sobre a esquerda progressista. É sobre nós. É sobre o tipo de sociedade que estamos a construir: uma que sustenta os valores de fraternidade e solidariedade ou uma que se deixa arrastar pela corrente do ódio, que é sempre um péssimo conselheiro e um ainda pior executor.

O cheiro que infesta o ar que respiro não desaparece sozinho. É preciso manter abertas as portas que Abril abriu, entrar em maio com as janelas todas abertas e arejar, arejar e resistir. Antes que seja tarde.

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