quarta-feira, 15 de abril de 2026
Homenagem a Alexei Sakarov
de cima do palanque
LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO, POLVO
UM DIA.
O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.
E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima
de cima da rampa
olhar de cima
LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO, POLVO
UM DIA.
O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.
E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.
Hilda Hilst
Ideia perigosa
O Brasil não gosta de ideias que ameacem seu status quo social, especialmente a divisão da população entre um "andar de cima", formado pela elite rica, e um "andar de baixo", composto pelo povão. A única ideia ousada foi a abolição da escravatura sem indenização aos proprietários. Depois de 350 anos, cerca de 800 mil escravizados foram soltos, mas temia-se que a agricultura não funcionaria sem o trabalho escravo e que a elite perderia seus serviçais negros.
Ainda assim, foi uma ousadia contida: foram soltos, mas não foram libertados, porque não receberam o "mapa" para caminhar — um pedaço de terra e uma escola. Um século e meio depois, o temor continua: não se fez reforma agrária nem se implantou um sistema educacional de qualidade para os descendentes sociais dos escravizados. Os ousados abolicionistas que defenderam a libertação não ousaram incluir mais um artigo na Lei Áurea: "Fica implantado um Sistema Único Nacional Público de Educação em todo o território nacional, onde estudarão, nas mesmas escolas, os filhos de escravizados e os filhos de seus ex-escravocratas".
Desde então, o Brasil adiou até mesmo ideias moderadamente ousadas: o direito a férias remuneradas para trabalhadores, só foi outorgado em 1925; a primeira universidade, 1922; a criação de um Ministério da Educação, 1930; a instituição do salário mínimo, 1936; o décimo terceiro salário, 1962; o piso salarial para professores e a obrigatoriedade de vaga a partir dos quatro anos, em 2008; e vaga até o final do ensino médio, em 2009.
Eram ideias relativamente modestas e, ainda assim, temidas, que demoraram a ser adotadas. Por isso, quase na metade do século 21, nenhum partido — nem mesmo os que se dizem de esquerda — propõe a criação de um sistema nacional público único de educação básica, com a mesma qualidade, no qual estudem os filhos da elite e os filhos do povão, independentemente da renda e do endereço. A esquerda contemporânea defende, corretamente, políticas de cotas para ingresso no ensino superior, mas não avança na defesa de um sistema educacional capaz de torná-las desnecessárias. Tem o humanismo dos emancipacionistas, sem a perigosa ousadia dos abolicionistas. Teme os efeitos de uma ideia perigosa.
Perigosa para o resto do mundo, pois o Brasil se tornaria uma das cinco maiores economias globais ao mobilizar o potencial intelectual de seus 200 milhões de habitantes, com a produtividade decorrente de educação de alta qualidade. Em 1888, tiramos as algemas das mãos e, nos anos 1930, dos pés; falta tirar as algemas dos cérebros, o que não ocorre por falta de uma escola de qualidade máxima para todos. A democratização do uso dos pés em quadras de clubes futebolísticos nos fez uma potência futebolística; a inclusão de todos os cérebros bem formados nos fará uma potência científica, tecnológica e econômica. No século 21, o imperialismo inglês ganhou com a Abolição, o atual imperialismo global teme um Brasil educado.
Perigosa por romper o "condomínio educacional" que protege os filhos dos ricos da concorrência com os filhos dos pobres. No livro "Jogados ao mar", uma médica militante de esquerda demite a empregada porque ela reivindicava matricular seu filho na mesma escola do filho da patroa. Ao colocar todos na mesma escola, quebra-se a barreira que impede a ascensão social dos pobres pela educação, salvo raríssimas exceções. O exemplo do futebol assusta: depois da abertura das quadras aos brasileiros negros, quase nenhum filho de classe média ou alta chega à seleção, porque a bola é redonda para todos, e a maioria é de classe pobre.
Perigosa para os quase 6 mil dirigentes de sindicatos de professores, porque o sistema único teria um sindicato único, que seria parceiro da educação. Também seria perigosa para os políticos locais, que perderiam o poder sobre a construção de prédios e a nomeação de servidores nas escolas municipais.
Perigosa pela tentação de o governo federal centralizar a gestão, em vez de adotar uma federalização com autonomia, como dispõem as universidades e as escolas federais atuais.
No entanto, essa ideia perigosa representaria o grande salto do Brasil: completaria a abolição inacabada, elevaria a produtividade, aumentaria e distribuiria melhor a renda nacional conforme o talento e o esforço, dinamizaria a cultura, promoveria maior equidade social, pacificaria a sociedade, consolidaria a democracia e poderia transformar um país periférico em protagonista no cenário global — na economia, na ciência, na tecnologia, na cultura e na diplomacia.
Ainda assim, foi uma ousadia contida: foram soltos, mas não foram libertados, porque não receberam o "mapa" para caminhar — um pedaço de terra e uma escola. Um século e meio depois, o temor continua: não se fez reforma agrária nem se implantou um sistema educacional de qualidade para os descendentes sociais dos escravizados. Os ousados abolicionistas que defenderam a libertação não ousaram incluir mais um artigo na Lei Áurea: "Fica implantado um Sistema Único Nacional Público de Educação em todo o território nacional, onde estudarão, nas mesmas escolas, os filhos de escravizados e os filhos de seus ex-escravocratas".
Desde então, o Brasil adiou até mesmo ideias moderadamente ousadas: o direito a férias remuneradas para trabalhadores, só foi outorgado em 1925; a primeira universidade, 1922; a criação de um Ministério da Educação, 1930; a instituição do salário mínimo, 1936; o décimo terceiro salário, 1962; o piso salarial para professores e a obrigatoriedade de vaga a partir dos quatro anos, em 2008; e vaga até o final do ensino médio, em 2009.
Eram ideias relativamente modestas e, ainda assim, temidas, que demoraram a ser adotadas. Por isso, quase na metade do século 21, nenhum partido — nem mesmo os que se dizem de esquerda — propõe a criação de um sistema nacional público único de educação básica, com a mesma qualidade, no qual estudem os filhos da elite e os filhos do povão, independentemente da renda e do endereço. A esquerda contemporânea defende, corretamente, políticas de cotas para ingresso no ensino superior, mas não avança na defesa de um sistema educacional capaz de torná-las desnecessárias. Tem o humanismo dos emancipacionistas, sem a perigosa ousadia dos abolicionistas. Teme os efeitos de uma ideia perigosa.
Perigosa para o resto do mundo, pois o Brasil se tornaria uma das cinco maiores economias globais ao mobilizar o potencial intelectual de seus 200 milhões de habitantes, com a produtividade decorrente de educação de alta qualidade. Em 1888, tiramos as algemas das mãos e, nos anos 1930, dos pés; falta tirar as algemas dos cérebros, o que não ocorre por falta de uma escola de qualidade máxima para todos. A democratização do uso dos pés em quadras de clubes futebolísticos nos fez uma potência futebolística; a inclusão de todos os cérebros bem formados nos fará uma potência científica, tecnológica e econômica. No século 21, o imperialismo inglês ganhou com a Abolição, o atual imperialismo global teme um Brasil educado.
Perigosa por romper o "condomínio educacional" que protege os filhos dos ricos da concorrência com os filhos dos pobres. No livro "Jogados ao mar", uma médica militante de esquerda demite a empregada porque ela reivindicava matricular seu filho na mesma escola do filho da patroa. Ao colocar todos na mesma escola, quebra-se a barreira que impede a ascensão social dos pobres pela educação, salvo raríssimas exceções. O exemplo do futebol assusta: depois da abertura das quadras aos brasileiros negros, quase nenhum filho de classe média ou alta chega à seleção, porque a bola é redonda para todos, e a maioria é de classe pobre.
Perigosa para os quase 6 mil dirigentes de sindicatos de professores, porque o sistema único teria um sindicato único, que seria parceiro da educação. Também seria perigosa para os políticos locais, que perderiam o poder sobre a construção de prédios e a nomeação de servidores nas escolas municipais.
Perigosa pela tentação de o governo federal centralizar a gestão, em vez de adotar uma federalização com autonomia, como dispõem as universidades e as escolas federais atuais.
No entanto, essa ideia perigosa representaria o grande salto do Brasil: completaria a abolição inacabada, elevaria a produtividade, aumentaria e distribuiria melhor a renda nacional conforme o talento e o esforço, dinamizaria a cultura, promoveria maior equidade social, pacificaria a sociedade, consolidaria a democracia e poderia transformar um país periférico em protagonista no cenário global — na economia, na ciência, na tecnologia, na cultura e na diplomacia.
Parem!
Parem com a idolatria do ego e do dinheiro! Parem com as demonstrações de poder! Parem com a guerra!
Papa León XIV
Papa León XIV
Como ficar rico no Brasil?
São ideais de vida neste nosso mundo de desencantamento lunar e de bilionários que vivem a vida como um negócio. A variante brasileira, que amarra a burocracia do capital financeiro à esperteza malandra dos favores pessoais e do populismo salvacionista, subtrai o que os inventores do capitalismo chamam de “work” – ação, invenção e movimento – base desse modo de enriquecer.
Isso explica por que, no Brasil, o luxo vence a riqueza, pois, entre nós, trabalhar ainda é castigo. Significados rotineiros numa sociedade de base histórico-cultural, escravagista.
Nela, aspira-se ao luxo e à riqueza com pouco ou sem trabalho. Dizem que ficamos ricos trabalhando, mas ficamos podres de rico com a ajuda de amigos do peito com quem trocamos favores. É isso que o noticiário estampa, e nós fingimos surpresa e indignação...
O luxo coroa a riqueza. Ele se estampa no estilo de vida ostentatório, escorado pelo fausto das despesas excessivas e ilimitadas, como as de um banqueiro cujo programa incluía enriquecer com “amigos” com poderes supremos, numa sociedade na qual elos pessoais predominam sobre leis universais.
Pode haver riqueza sem luxo, mas não há luxo sem riqueza e, para comprovar esse elo, basta ler esses casos que chamamos de “corrupção”, observando que roubar por meio do governo é um estilo de governar.
O que chamamos de “política” é o campo aberto a esse ideal de enriquecer, pairando acima das pessoas comuns como você e eu, leitor... Como ficar rico? “Entrando na política”, na qual se pode transformar o ilegal no legal com canetadas e desengavetamentos.
No nosso caso, são raras as mitologias de pioneirismo financeiro, exceto nos episódios de assalto aos bens públicos.
Os “espertos” que cultivam laços com agentes estratégicos do Estado assaltam tranquilamente a sociedade. É fascinante observar o luxo em que vivem políticos eleitos em nome do povo pobre, que constitui o capital de suas vidas. Os privilégios e as leis privadas para certas categorias funcionais transformam governantes em donos do poder, como apontou Raymundo Faoro.
Tudo isso para ressaltar que o dono do Master mostrou que, para enricar, se deve mapear a elite e seduzi-la, seguindo uma lógica relacional de prestação de favores luxuosos. Pois eles obrigam a contraprestações que, independentemente de ideologia, pavimentam a estrutura da elite brasileira.
Vorcaro teve uma perfeita compreensão de que elos sociais particularistas neutralizam obrigações universalistas, liquidando as imparcialidades e isenções que formam a base do Estado Democrático de Direito. Ou, como viu Oliveira Viana, que amizades regadas a luxo e contratos milionários produzem coragem para tudo, menos para dizer não aos amigos; e eu diria, com a devida modéstia, a nós mesmos.
Isso explica por que, no Brasil, o luxo vence a riqueza, pois, entre nós, trabalhar ainda é castigo. Significados rotineiros numa sociedade de base histórico-cultural, escravagista.
Nela, aspira-se ao luxo e à riqueza com pouco ou sem trabalho. Dizem que ficamos ricos trabalhando, mas ficamos podres de rico com a ajuda de amigos do peito com quem trocamos favores. É isso que o noticiário estampa, e nós fingimos surpresa e indignação...
O luxo coroa a riqueza. Ele se estampa no estilo de vida ostentatório, escorado pelo fausto das despesas excessivas e ilimitadas, como as de um banqueiro cujo programa incluía enriquecer com “amigos” com poderes supremos, numa sociedade na qual elos pessoais predominam sobre leis universais.
Pode haver riqueza sem luxo, mas não há luxo sem riqueza e, para comprovar esse elo, basta ler esses casos que chamamos de “corrupção”, observando que roubar por meio do governo é um estilo de governar.
O que chamamos de “política” é o campo aberto a esse ideal de enriquecer, pairando acima das pessoas comuns como você e eu, leitor... Como ficar rico? “Entrando na política”, na qual se pode transformar o ilegal no legal com canetadas e desengavetamentos.
No nosso caso, são raras as mitologias de pioneirismo financeiro, exceto nos episódios de assalto aos bens públicos.
Os “espertos” que cultivam laços com agentes estratégicos do Estado assaltam tranquilamente a sociedade. É fascinante observar o luxo em que vivem políticos eleitos em nome do povo pobre, que constitui o capital de suas vidas. Os privilégios e as leis privadas para certas categorias funcionais transformam governantes em donos do poder, como apontou Raymundo Faoro.
Tudo isso para ressaltar que o dono do Master mostrou que, para enricar, se deve mapear a elite e seduzi-la, seguindo uma lógica relacional de prestação de favores luxuosos. Pois eles obrigam a contraprestações que, independentemente de ideologia, pavimentam a estrutura da elite brasileira.
Vorcaro teve uma perfeita compreensão de que elos sociais particularistas neutralizam obrigações universalistas, liquidando as imparcialidades e isenções que formam a base do Estado Democrático de Direito. Ou, como viu Oliveira Viana, que amizades regadas a luxo e contratos milionários produzem coragem para tudo, menos para dizer não aos amigos; e eu diria, com a devida modéstia, a nós mesmos.
O marketing não ganha eleição
Quem ganha a eleição é o candidato. A frase, que à primeira vista pode soar como uma simplificação, encerra uma verdade que a prática política insiste em confirmar: não há estratégia capaz de sustentar, por muito tempo, um projeto vazio de substância humana, política e simbólica. O marketing pode potencializar virtudes, corrigir imperfeições, organizar narrativas. Mas não cria, do nada, aquilo que o eleitor busca — benefícios, coerência e presença.
A profissionalização das campanhas eleitorais trouxe ganhos inegáveis. Hoje, nenhuma candidatura competitiva prescinde de planejamento, pesquisa qualitativa e quantitativa, definição de públicos, construção de mensagens e domínio das linguagens midiáticas. O marqueteiro tornou-se peça relevante nesse tabuleiro, atuando como um estrategista que organiza o discurso, ajusta o tom da comunicação, sugere agendas, calibra promessas e orienta o candidato diante dos humores da opinião pública.
Mas há um limite claro — e intransponível — para essa engenharia. O marketing não substitui a essência. Pode polir, mas não inventa caráter. Podemos iluminar trajetórias, mas não construir biografias. Pode até criar momentos de empatia, mas não sustenta emoções que não sejam óbvias. Em campanhas eleitorais, essa fronteira costuma aparecer de forma dramática quando candidatos encontrados “produzidos” revelam-se frágeis diante do improviso, da crítica ou do confronto.
O eleitor contemporâneo, mais informado e mais exposto a múltiplas fontes de informação, desenvolveu uma espécie de radar para detectar artificialidades. Discursos ensaiados demais, gestos coreografados, frases de efeito desconectadas da realidade — tudo isso tende a produzir um efeito reverso. Em vez de aproximar, afastar. Em vez de convencer, despertar desconfiança.
Uma analogia com produtos de consumo, tão utilizados no passado, mostra-se cada vez mais conveniente. Candidato não é sabonete. Não é um objeto inerte a ser embalado, perfumado e distribuído no mercado eleitoral. É um ser humano, com história, contradições, virtudes e falhas. E é justamente essa dimensão humana que estabelece o vínculo com o eleitor. A política, afinal, continua sendo, antes de tudo, uma relação de confiança.
Isso não significa minimizar o papel do marketing — ao contrário. Um bom profissional de comunicação política é aquele que compreende essa complexidade. Sua função não é fabricar um personagem, mas revelar, com inteligência e sensibilidade, o melhor do candidato. Cabe a ele identificar pontos fortes, atenuar fragilidades, organizar ideias e traduzi-las em linguagem acessível, sem deformar a essência do protagonista da campanha.
Esse profissional precisa atuar com visão sistêmica. O marketing eleitoral não se resume à propaganda de televisão ou às redes sociais. Envolve posicionamento estratégico, leitura de cenário, articulação entre discurso e prática, coerência entre promessa e trajetória. Exige domínio técnico, mas também percepção política. Não se trata apenas de comunicar, mas de compreender o ambiente em que se comunica.
Quando essa integração falha, surgem campanhas dissonantes. De um lado, uma comunicação sofisticada; de outro, um candidato incapaz de sustentar o que está aqui. O resultado é previsível: perda de compensação. Porque, no fim das contas, o eleitor não vota na peça publicitária — vota na pessoa.
As campanhas mais bem-sucedidas são aquelas em que o marketing e o candidato operam em sintonia. O discurso não é tão artificial porque nasce de convicções reais. A linguagem não é um disfarce, mas uma ponte. A estratégia não impõe um personagem, mas organiza uma identidade já existente.
Em tempos de hiperexposição digital, essa coerência tornou-se ainda mais decisiva. O candidato é apresentado o tempo todo — nas entrevistas, nos debates, nas redes sociais, nos encontros públicos. Qualquer descompasso entre o que diz e o que tende a ser rapidamente percebido e amplificado. Não há edição que resista à reprodução cotidiana da incoerência.
Por isso, slogans e chavões, isoladamente, perdem a força. Podem funcionar como síntese, como elemento de memorização, mas não substituir conteúdo. O eleitor quer mais do que frases prontas: busca sentido, direção, consistência. Quer considerar no candidato alguém capaz de compreender seus problemas e oferecer caminhos plausíveis.
A boa comunicação política, portanto, não é uma arte de maquiar a realidade, mas de organizá-la de forma inteligível e persuasiva. É um exercício de tradução — do pensamento em linguagem, da proposta em narrativa, da intenção em compromisso público. E, como toda tradução, depende da fidelidade ao original.
No fim, fica a lição essencial: o marketing pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não ganha sozinho. Sem densidade humana, sem proteção e sem coerência, qualquer campanha — por mais sofisticada que seja — corre o risco de desmoronar diante do olhar atento do eleitor. Porque, na política, como na vida, não há estratégia que substitua a verdade de quem se apresenta.
A profissionalização das campanhas eleitorais trouxe ganhos inegáveis. Hoje, nenhuma candidatura competitiva prescinde de planejamento, pesquisa qualitativa e quantitativa, definição de públicos, construção de mensagens e domínio das linguagens midiáticas. O marqueteiro tornou-se peça relevante nesse tabuleiro, atuando como um estrategista que organiza o discurso, ajusta o tom da comunicação, sugere agendas, calibra promessas e orienta o candidato diante dos humores da opinião pública.
Mas há um limite claro — e intransponível — para essa engenharia. O marketing não substitui a essência. Pode polir, mas não inventa caráter. Podemos iluminar trajetórias, mas não construir biografias. Pode até criar momentos de empatia, mas não sustenta emoções que não sejam óbvias. Em campanhas eleitorais, essa fronteira costuma aparecer de forma dramática quando candidatos encontrados “produzidos” revelam-se frágeis diante do improviso, da crítica ou do confronto.
O eleitor contemporâneo, mais informado e mais exposto a múltiplas fontes de informação, desenvolveu uma espécie de radar para detectar artificialidades. Discursos ensaiados demais, gestos coreografados, frases de efeito desconectadas da realidade — tudo isso tende a produzir um efeito reverso. Em vez de aproximar, afastar. Em vez de convencer, despertar desconfiança.
Uma analogia com produtos de consumo, tão utilizados no passado, mostra-se cada vez mais conveniente. Candidato não é sabonete. Não é um objeto inerte a ser embalado, perfumado e distribuído no mercado eleitoral. É um ser humano, com história, contradições, virtudes e falhas. E é justamente essa dimensão humana que estabelece o vínculo com o eleitor. A política, afinal, continua sendo, antes de tudo, uma relação de confiança.
Isso não significa minimizar o papel do marketing — ao contrário. Um bom profissional de comunicação política é aquele que compreende essa complexidade. Sua função não é fabricar um personagem, mas revelar, com inteligência e sensibilidade, o melhor do candidato. Cabe a ele identificar pontos fortes, atenuar fragilidades, organizar ideias e traduzi-las em linguagem acessível, sem deformar a essência do protagonista da campanha.
Esse profissional precisa atuar com visão sistêmica. O marketing eleitoral não se resume à propaganda de televisão ou às redes sociais. Envolve posicionamento estratégico, leitura de cenário, articulação entre discurso e prática, coerência entre promessa e trajetória. Exige domínio técnico, mas também percepção política. Não se trata apenas de comunicar, mas de compreender o ambiente em que se comunica.
Quando essa integração falha, surgem campanhas dissonantes. De um lado, uma comunicação sofisticada; de outro, um candidato incapaz de sustentar o que está aqui. O resultado é previsível: perda de compensação. Porque, no fim das contas, o eleitor não vota na peça publicitária — vota na pessoa.
As campanhas mais bem-sucedidas são aquelas em que o marketing e o candidato operam em sintonia. O discurso não é tão artificial porque nasce de convicções reais. A linguagem não é um disfarce, mas uma ponte. A estratégia não impõe um personagem, mas organiza uma identidade já existente.
Em tempos de hiperexposição digital, essa coerência tornou-se ainda mais decisiva. O candidato é apresentado o tempo todo — nas entrevistas, nos debates, nas redes sociais, nos encontros públicos. Qualquer descompasso entre o que diz e o que tende a ser rapidamente percebido e amplificado. Não há edição que resista à reprodução cotidiana da incoerência.
Por isso, slogans e chavões, isoladamente, perdem a força. Podem funcionar como síntese, como elemento de memorização, mas não substituir conteúdo. O eleitor quer mais do que frases prontas: busca sentido, direção, consistência. Quer considerar no candidato alguém capaz de compreender seus problemas e oferecer caminhos plausíveis.
A boa comunicação política, portanto, não é uma arte de maquiar a realidade, mas de organizá-la de forma inteligível e persuasiva. É um exercício de tradução — do pensamento em linguagem, da proposta em narrativa, da intenção em compromisso público. E, como toda tradução, depende da fidelidade ao original.
No fim, fica a lição essencial: o marketing pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não ganha sozinho. Sem densidade humana, sem proteção e sem coerência, qualquer campanha — por mais sofisticada que seja — corre o risco de desmoronar diante do olhar atento do eleitor. Porque, na política, como na vida, não há estratégia que substitua a verdade de quem se apresenta.
Façam todos as suas apostas na guerra
Bet não dá. Desconfio que no futuro todas essas celebridades, jogadores, comentaristas e narradores de futebol serão considerados cúmplices desse crime financeiro e sanitário, que lava bilhões de dinheiros e neurônios pelo planeta. Todavia, o que acontece no Trumpistão é de faltar palavra, melhor, não falta, é mais um traço de uma patologia chamada extrema-direita. Há inúmeras suspeitas de que funcionários do governo laranja, de todos os escalões, estão lucrando com apostas relacionadas às guerras.
Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem apostar em eventos reais: eleições, decisões econômicas e na guerra. Uma matéria da Associated Press, publicada no dia 9 de abril, mostrou que ao menos 50 contas recém-criadas no Polymarket fizeram apostas em um cessar-fogo entre os EUA e o Irã nas horas, e até mesmo minutos, que antecederam o anúncio do cessar-fogo feito pelo presidente Donald Trump na noite de terça-feira.
Em janeiro, um usuário anônimo do Polymarket obteve um lucro de 400 mil dólares ao apostar que o líder venezuelano Nicolás Maduro seria destituído do cargo, horas antes de Maduro ser capturado. Nas horas que antecederam o início da guerra com o Irã, outra conta lucrou cerca de 550 mil dólares em uma série de negociações, apostando efetivamente que os EUA atacariam o Irã e que o aiatolá Ali Khamenei seria destituído do cargo.
Trata-se da conversão da guerra em ativo financeiro. Esses plataformas funcionam como bolsas de probabilidade. Nelas, usuários compram e vendem contratos baseados em eventos futuros.. Em tese, seriam instrumentos de previsão agregada. Na prática, tornam-se espaços onde a informação e, evidentemente, a informação privilegiada, pode ser convertida diretamente em lucro. E claro, tudo isso funciona sem regulação, como os liberais amam amar.
Assim, a fronteira entre especulação financeira e vazamento de inteligência se dissolve e desaba na negociação direta de eventos geopolíticos. Ok, vivemos um massacrante processo de financeirização, em que o lucro se desloca da produção. Mas o que os mercados de apostas em guerra introduzem é um passo adicional rumo ao abismo.
Virou história da carochinha (quanto tempo não usava essa palavra) os lucros dos aliados de Trump, que ganharam bilhões ao comprar dólares antes do presidente dos EUA anunciar seus ensandecidos tarifaços. Compraram na baixa e venderam na alta. Informação privilegiada é isso.
Só que nesse cenário, a instabilidade geopolítica virou recurso econômico. Quanto maior a incerteza, maior o potencial de lucro. Mortes, deslocamentos e destruição, que antes eram decisões restritas a generais e presidentes, passam a ser variáveis de um cálculo financeiro. Quem sabe, e nesse sabe quase reside uma certeza, grandes volumes de apostas poderão amplificar narrativas e até pressionar decisões políticas. E a gente achando que os drones eram uma revolução bélica.
Plataformas como Polymarket e Kalshi permitem apostar em eventos reais: eleições, decisões econômicas e na guerra. Uma matéria da Associated Press, publicada no dia 9 de abril, mostrou que ao menos 50 contas recém-criadas no Polymarket fizeram apostas em um cessar-fogo entre os EUA e o Irã nas horas, e até mesmo minutos, que antecederam o anúncio do cessar-fogo feito pelo presidente Donald Trump na noite de terça-feira.
Em janeiro, um usuário anônimo do Polymarket obteve um lucro de 400 mil dólares ao apostar que o líder venezuelano Nicolás Maduro seria destituído do cargo, horas antes de Maduro ser capturado. Nas horas que antecederam o início da guerra com o Irã, outra conta lucrou cerca de 550 mil dólares em uma série de negociações, apostando efetivamente que os EUA atacariam o Irã e que o aiatolá Ali Khamenei seria destituído do cargo.
Trata-se da conversão da guerra em ativo financeiro. Esses plataformas funcionam como bolsas de probabilidade. Nelas, usuários compram e vendem contratos baseados em eventos futuros.. Em tese, seriam instrumentos de previsão agregada. Na prática, tornam-se espaços onde a informação e, evidentemente, a informação privilegiada, pode ser convertida diretamente em lucro. E claro, tudo isso funciona sem regulação, como os liberais amam amar.
Assim, a fronteira entre especulação financeira e vazamento de inteligência se dissolve e desaba na negociação direta de eventos geopolíticos. Ok, vivemos um massacrante processo de financeirização, em que o lucro se desloca da produção. Mas o que os mercados de apostas em guerra introduzem é um passo adicional rumo ao abismo.
Virou história da carochinha (quanto tempo não usava essa palavra) os lucros dos aliados de Trump, que ganharam bilhões ao comprar dólares antes do presidente dos EUA anunciar seus ensandecidos tarifaços. Compraram na baixa e venderam na alta. Informação privilegiada é isso.
Só que nesse cenário, a instabilidade geopolítica virou recurso econômico. Quanto maior a incerteza, maior o potencial de lucro. Mortes, deslocamentos e destruição, que antes eram decisões restritas a generais e presidentes, passam a ser variáveis de um cálculo financeiro. Quem sabe, e nesse sabe quase reside uma certeza, grandes volumes de apostas poderão amplificar narrativas e até pressionar decisões políticas. E a gente achando que os drones eram uma revolução bélica.
Conflito na Faixa de Gaza: nem guerra nem paz
Há vários meses, esforços de mediação internacional estão em andamento para alcançar um cessar-fogo estável entre o Hamas e Israel. Recentemente, no domingo, 12 de abril, uma delegação do Hamas viajou ao Cairo. Lá, estava previsto um encontro com mediadores egípcios para discutir os próximos passos. O foco está nas questões pendentes da primeira fase do cessar-fogo, acordada há mais de seis meses, e na possibilidade de se alcançar uma segunda fase, e principalmente uma fase final.
O Hamas, grupo militante islâmico classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia, Estados Unidos e outros países, desencadeou a devastadora guerra na Faixa de Gaza com seu ataque a Israel em 7 de outubro de 2023. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, mas é constantemente minado por ataques isolados.
No entanto, segundo especialistas, o resultado da trégua até agora é desanimador. As negociações políticas estagnaram e, com elas, as perspectivas de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa permanece em grande parte não cumprida", como afirma, por exemplo, uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
Os esforços de mediação e resolução, atualmente ofuscados pelas repercussões do conflito Irã-Contras, têm apresentado poucos avanços há algum tempo. Por exemplo, o trabalho da Comissão de Paz, iniciativa do presidente dos EUA, Donald Trump, tem se mostrado amplamente ineficaz até o momento: embora tenha começado com grandes ambições políticas — em competição com a ONU —, teve pouco impacto até agora. Apesar da criação de estruturas institucionais e da promessa de bilhões em recursos, segundo relatórios de agências, grande parte desse financiamento chega com atraso ou simplesmente não chega.
Peter Lintl, especialista em Israel e no Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação com a mesma cautela: "No momento, tudo parece estar girando em círculos", afirma. As questões cruciais — o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses — permanecem sem solução há meses. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos eficazes para implementar quaisquer acordos potenciais, caso venham a ser alcançados, explica Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, islamólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém, compartilha dessa visão: as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente perdidos, segundo sua observação. De modo geral, a impressão de um impasse diplomático está se consolidando. A dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação, explicou Fuchs em entrevista à DW.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais, bem como da sequência de etapas, que está relacionada aos pontos mais difíceis de resolver: por exemplo, permanece uma controvérsia entre as partes em conflito sobre se o Hamas deve ser desarmado primeiro ou se deve haver uma retirada militar por parte de Israel primeiro.
“Observadores internacionais independentes monitorarão o processo de desmilitarização na Faixa de Gaza”, declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início deste ano. Embora esses planos demonstrem que, em parte, existem ideias bastante concretas para uma transição, tal proposta exige que ambos os lados façam concessões fundamentais, e é precisamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, é claro: primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", explica Fuchs. Ambos os lados, portanto, mantêm posições que, por ora, são praticamente irreconciliáveis, acrescenta ele.
As consequências recaem principalmente sobre a população civil. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, até piorou. A falta de suprimentos, o aumento dos preços e a infraestrutura danificada definem o cotidiano. O especialista em Oriente Médio, Fuchs, descreve essa situação como uma "espiral descendente". Mesmo onde chegam os suprimentos de ajuda, a insegurança permanece alta. "As experiências de escassez anteriores, e especialmente a fome de 2025, continuam a ter repercussões e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, é difícil avaliar o clima político na Faixa de Gaza a partir de fora. Relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas dentro de seus territórios continua sendo reprimida, em alguns casos brutalmente, afirma Peter Lintl. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Enquanto isso, os palestinos permanecem preocupados com o deslocamento permanente provocado por Israel.
Não parece que haverá qualquer progresso em breve.
Peter Lintl afirma não acreditar que um avanço seja provável a curto prazo. Segundo ele, os custos políticos são muito altos para ambos os lados neste momento.
Em todo caso, muitos analistas internacionais concordam que o cessar-fogo, em certa medida, alivia o cotidiano das pessoas, apesar das inúmeras mortes, da fuga, do deslocamento e da destruição. O problema é que ele só funciona até certo ponto, e uma solução política viável permanece indefinida. Por ora, a Faixa de Gaza parece presa em um estado que não é nem guerra nem paz. E isso está longe de ser certo, já que, em princípio, uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
O Hamas, grupo militante islâmico classificado como organização terrorista pela Alemanha, União Europeia, Estados Unidos e outros países, desencadeou a devastadora guerra na Faixa de Gaza com seu ataque a Israel em 7 de outubro de 2023. Um frágil cessar-fogo está em vigor desde 10 de outubro de 2025, mas é constantemente minado por ataques isolados.
No entanto, segundo especialistas, o resultado da trégua até agora é desanimador. As negociações políticas estagnaram e, com elas, as perspectivas de uma estabilização duradoura. Seis meses depois, essa "promessa permanece em grande parte não cumprida", como afirma, por exemplo, uma análise do Conselho Norueguês para Refugiados.
Os esforços de mediação e resolução, atualmente ofuscados pelas repercussões do conflito Irã-Contras, têm apresentado poucos avanços há algum tempo. Por exemplo, o trabalho da Comissão de Paz, iniciativa do presidente dos EUA, Donald Trump, tem se mostrado amplamente ineficaz até o momento: embora tenha começado com grandes ambições políticas — em competição com a ONU —, teve pouco impacto até agora. Apesar da criação de estruturas institucionais e da promessa de bilhões em recursos, segundo relatórios de agências, grande parte desse financiamento chega com atraso ou simplesmente não chega.
Peter Lintl, especialista em Israel e no Oriente Médio do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) em Berlim, descreve a situação com a mesma cautela: "No momento, tudo parece estar girando em círculos", afirma. As questões cruciais — o desarmamento do Hamas, a futura administração de Gaza e a retirada das tropas israelenses — permanecem sem solução há meses. Ao mesmo tempo, há uma falta de mecanismos eficazes para implementar quaisquer acordos potenciais, caso venham a ser alcançados, explica Lintl à DW.
Simon Wolfgang Fuchs, islamólogo da Universidade Hebraica de Jerusalém, compartilha dessa visão: as negociações não estão progredindo e os prazos têm sido repetidamente perdidos, segundo sua observação. De modo geral, a impressão de um impasse diplomático está se consolidando. A dinâmica é caracterizada mais por desconfiança do que por reaproximação, explicou Fuchs em entrevista à DW.
Não se trata apenas de detalhes, mas de questões fundamentais, bem como da sequência de etapas, que está relacionada aos pontos mais difíceis de resolver: por exemplo, permanece uma controvérsia entre as partes em conflito sobre se o Hamas deve ser desarmado primeiro ou se deve haver uma retirada militar por parte de Israel primeiro.
“Observadores internacionais independentes monitorarão o processo de desmilitarização na Faixa de Gaza”, declarou o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, no início deste ano. Embora esses planos demonstrem que, em parte, existem ideias bastante concretas para uma transição, tal proposta exige que ambos os lados façam concessões fundamentais, e é precisamente isso que tem faltado até agora.
"Para Israel, é claro: primeiro o desarmamento, depois a retirada. Para o Hamas, é exatamente o oposto", explica Fuchs. Ambos os lados, portanto, mantêm posições que, por ora, são praticamente irreconciliáveis, acrescenta ele.
As consequências recaem principalmente sobre a população civil. A situação humanitária na Faixa de Gaza permanece precária e, em muitos lugares, até piorou. A falta de suprimentos, o aumento dos preços e a infraestrutura danificada definem o cotidiano. O especialista em Oriente Médio, Fuchs, descreve essa situação como uma "espiral descendente". Mesmo onde chegam os suprimentos de ajuda, a insegurança permanece alta. "As experiências de escassez anteriores, e especialmente a fome de 2025, continuam a ter repercussões e reforçam a sensação de ameaça constante", afirma Fuchs.
Ao mesmo tempo, é difícil avaliar o clima político na Faixa de Gaza a partir de fora. Relatos indicam que qualquer crítica ao Hamas dentro de seus territórios continua sendo reprimida, em alguns casos brutalmente, afirma Peter Lintl. Isso complica ainda mais uma avaliação confiável. Enquanto isso, os palestinos permanecem preocupados com o deslocamento permanente provocado por Israel.
Não parece que haverá qualquer progresso em breve.
Peter Lintl afirma não acreditar que um avanço seja provável a curto prazo. Segundo ele, os custos políticos são muito altos para ambos os lados neste momento.
Em todo caso, muitos analistas internacionais concordam que o cessar-fogo, em certa medida, alivia o cotidiano das pessoas, apesar das inúmeras mortes, da fuga, do deslocamento e da destruição. O problema é que ele só funciona até certo ponto, e uma solução política viável permanece indefinida. Por ora, a Faixa de Gaza parece presa em um estado que não é nem guerra nem paz. E isso está longe de ser certo, já que, em princípio, uma nova escalada permanece possível a qualquer momento.
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