"Faltam quase 200 semanas: é assustador", Estadão, 13/4/25, A4), foi o título de artigo que publiquei neste espaço, há exatamente um ano, a propósito das primeiras 12 semanas do governo Trump. Já era possível então antever um futuro incerto e perigoso, para os EUA e para o mundo. O panorama é agora ainda mais assustador.
Nação perigosa (Dangerous Nation) é o título do livro publicado há exatos 20 anos por Robert Kagan. A obra mostra que desde a independência, os norte-americanos aumentaram seu poder e influência por meio da expansão comercial e territorial, do combate à influência no continente norte-americano de franceses, espanhóis, russos e mesmo de britânicos, da alienação dos native americans. Em detalhado reexame desse processo histórico, Kagan mostra como os EUA, desde seus primórdios como nação, foram vistos pelo resto do mundo não apenas como uma fonte inspiradora de mudança política, cultural e social, mas também como uma nação ambiciosa, por vezes perigosa.
A vigorosa expressão – perigosa nação – assume neste segundo mandato de Donald Trump significado novo e trágico, marcado pelo que George Kennan chamou de orgulho do tamanho desmedido (hubris of inordinate size): a inclinação de países de grande porte a buscar sonhos de poder, glória e ambições desmedidas. Tais sonhos podem ser benevolentes em intenção. Mas, como notou Kennan décadas atrás, a crença de um país de que pode fazer bem a outra nação intervindo em seus assuntos internos costuma ser, desde o princípio, ilusão. Alimentar tais sonhos tende a ser um exemplo da proverbial estrada para o inferno, aquela que é pavimentada de boas intenções.
Em entrevista recente à editora-chefe da revista The Economist, Steve Bannon, importante estrategista do movimento Make America Great Again (Maga) e um dos líderes da International Conservative Conference, insistiu que Donald Trump seria reeleito em 2028. Já em 2019, Adam Przeworski, em seu livro Crises of Democracy, apresentara o que chamou de “roteiro de pesadelo” para que isso aconteça. Vale lembrá-lo.
Primeiro, o Congresso aprova uma lei proibindo a publicação de “escritos falsos, escandalosos e maliciosos contra o governo dos EUA, o Congresso ou o presidente, com a intenção de transformá-los em objeto de desprezo e descrédito”. São condenados a até 20 anos de prisão aqueles que usem “linguagem desleal, profana, difamatória ou ofensiva contra o governo, sua bandeira ou suas Forças Armadas, ou que levem outras pessoas a verem com desprezo o governo americano ou suas instituições.”
Depois, a Suprema Corte autoriza legislativos estaduais a preparar planos de redesenho dos distritos eleitorais. O Congresso aprova uma lei segundo a qual tornar públicos documentos oficiais sem a autorização de uma repartição governamental sujeita o autor a multas ou prisão. E ainda outra lei contra a fraude eleitoral, ordenando aos Estados que adotem regras relativas a documentos exigidos no registro para votar.
O presidente baixa uma ordem executiva decretando que “todas as pessoas que têm o privilégio de estar empregadas nos departamentos e repartições do governo devem ser confiáveis, fidedignas, de boa conduta e bom caráter” e precisam demonstrar “lealdade inabalável aos EUA”. Centenas de funcionários públicos são então exonerados. O número de juízes federais nomeados pelo governo pode chegar a uma centena em um mandato.
O Congresso aprova lei retirando a isenção de impostos de organizações não governamentais que “obstruam a implementação de leis e regulamentos em vigor”. E uma lei antiterrorismo, segundo a qual qualquer pessoa que “ameace a segurança nacional” está sujeita a prisão preventiva. Dois ministros da Suprema Corte são substituídos por ministros nomeados pelo governo.
O presidente é reeleito. Baixa uma série de ordens executivas sobre assuntos que até então eram da competência do Poder Legislativo. O Congresso continua mudo. A Suprema Corte continua muda. Cai o pano. O roteiro imaginário é (perversamente) engenhoso, porque inspirado em itens concretos da legislação dos EUA ao longo do tempo. Como afirmou Antonin Scalia, ex-ministro da Corte Suprema dos EUA: “Você se engana se pensa que não vai acontecer de novo. Porque (...) em tempos de guerra, as leis se calam”.
Os checks and balances, os pesos e contrapesos da democracia norte-americana, hão de impedir, ainda que a um custo inicial elevado, que esse cenário de horror se materialize. Afinal, pesquisas mostram que, em abril de 2026, a aprovação média do governo Trump era de 39% e a desaprovação de 57%. Nas eleições de novembro próximo, é possível que o Partido Democrata assuma a maioria da Câmara dos Deputados. Alguns estimam que o mesmo poderia ocorrer no Senado.
Os EUA vivem uma calcificada polarização, em muito semelhante à observada no Brasil: republicanos aprovaram unanimemente a administração Trump, democratas o rejeitaram quase que totalmente. Independentes, lá como aqui, serão os grupos decisivos. Como diria Rubem Fonseca, os próximos meses serão de “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, no mundo como no Brasil.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Estamos mudos e isolados
Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra-pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.
Franz Kafka, "Conversas com Kafka", de Gustav Janouch
Franz Kafka, "Conversas com Kafka", de Gustav Janouch
Narcisos loucos guiam cegos no planeta
‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.
O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.
O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional. Não é preciso concordar com o tom combativo do economista Jeffrey Sachs, professor de políticas públicas na Universidade Columbia, para validar sua preocupação com a mente transtornada de dois governantes específicos que não dão paz à humanidade. Em artigo no site progressista Common Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de Deus”, Sachs refere-se assim a Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de violência israelense:
— Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina como instrumento político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (...) Eles estão dominados por três patologias em cascata. A primeira é de personalidade: ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que têm o poder de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer contenção. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que são messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo que, juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.
Para Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. Foi cunhado em 1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever Adolf Hitler como “fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial numa única estrutura de caráter”. “O narcisista maligno não é apenas vaidoso. É estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e movido por uma convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser destruídos”, disse Fromm.
Nunca é demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a nuvem nuclear ao alcance da mão.
A Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta semana, e ninguém — nem mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito cessar-fogo de duas semanas, acordado mas não respeitado pelas partes. Israel, escanteado das gestões, continua a transformar o sul do Líbano em escombros como se não houvesse um amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura política pode ter sido ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não coerente o bastante para sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as bombas caem em Beirute e que um lado afirma que a área estava coberta pelo acordo enquanto o outro diz que não, o problema deixa de ser um mal-entendido técnico. Torna-se uma falha estrutural na própria trégua.
Saltam aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes sobre os termos do cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10 pontos era tratado como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um entendimento muito mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os Estados Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco, tanto que, até a noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à navegação statu quo ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu engolir um drone militar de espionagem dos Estados Unidos que fazia bisbilhotagem. Nenhum Departamento de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um equipamento de US$ 200 mil (mais de R$ 1 bilhão).
Neste mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos por natureza, faltam vozes como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo pai, o Rei Lear. Shakespeare, presente.
O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.
O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional. Não é preciso concordar com o tom combativo do economista Jeffrey Sachs, professor de políticas públicas na Universidade Columbia, para validar sua preocupação com a mente transtornada de dois governantes específicos que não dão paz à humanidade. Em artigo no site progressista Common Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de Deus”, Sachs refere-se assim a Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de violência israelense:
— Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina como instrumento político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (...) Eles estão dominados por três patologias em cascata. A primeira é de personalidade: ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que têm o poder de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer contenção. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que são messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo que, juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.
Para Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. Foi cunhado em 1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever Adolf Hitler como “fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial numa única estrutura de caráter”. “O narcisista maligno não é apenas vaidoso. É estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e movido por uma convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser destruídos”, disse Fromm.
Nunca é demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a nuvem nuclear ao alcance da mão.
A Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta semana, e ninguém — nem mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito cessar-fogo de duas semanas, acordado mas não respeitado pelas partes. Israel, escanteado das gestões, continua a transformar o sul do Líbano em escombros como se não houvesse um amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura política pode ter sido ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não coerente o bastante para sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as bombas caem em Beirute e que um lado afirma que a área estava coberta pelo acordo enquanto o outro diz que não, o problema deixa de ser um mal-entendido técnico. Torna-se uma falha estrutural na própria trégua.
Saltam aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes sobre os termos do cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10 pontos era tratado como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um entendimento muito mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os Estados Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco, tanto que, até a noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à navegação statu quo ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu engolir um drone militar de espionagem dos Estados Unidos que fazia bisbilhotagem. Nenhum Departamento de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um equipamento de US$ 200 mil (mais de R$ 1 bilhão).
Neste mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos por natureza, faltam vozes como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo pai, o Rei Lear. Shakespeare, presente.
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