sexta-feira, 5 de junho de 2026
Nossos ingratos amigos
Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump — só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.
Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.
Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?
Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.
Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.
Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.
Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?
Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.
Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.
A estupidez artificial
“Acabei com um namorado porque descobri que ele escrevia as mensagens que me enviava com o ChatGPT.” O desabafo, numa roda de mulheres a meio de uma conversa que tinha escorregado para as exigências digitais do mundo, foi recebido entre caras abertas de espanto e risos constrangidos. “Ele era do tipo calado, parecia interessante. Mas mandava mensagens que não faziam sentido. Pensei que estava a ficar maluca, ou que ele era maluco.” Ela, mulher inteligente, com o tipo de beleza que faz parar salas, deu por si a ter uma relação com um (mau) simulacro de inteligência. Ficámos atónitas, incrédulas, aturdidas pela ideia de que há quem não se dê sequer ao trabalho do amor, quem queira namorar por procuração digital, quem renuncie ao que nos torna humanos, querendo talvez mascarar as falhas (reais ou imaginadas) que são a verdadeira matéria das paixões que valem a pena.
No dia a seguir a esta conversa, fui almoçar a casa de uns amigos. O arroz estava ótimo. Quis saber a receita. “É do ChatGPT”, responderam-me, enquanto me iam explicando como cada um deles se tinha tornado verdadeiramente um “gestor de agentes”. Estes “agentes” não usam gabardines nem pedem Martinis. São produtos de Inteligência Artificial, desenhados para executar tarefas, na maior parte dos casos repetitivas ou que implicam a análise massiva de dados. Como qualquer estagiário, precisam de quem lhes dê ordens, os oriente e lhes reveja o trabalho. E estes meus dois amigos passam cada vez mais tempo a fazê-lo. “Assim, é fácil ser cinco vezes mais produtivo”, diz-me ele, que graças à IA consegue desenvolver soluções informáticas muito mais rapidamente e com muito menos gente. “Fico com mais tempo livre. Mas também me faz confusão que a certa altura o meu trabalho seja corrigir o dos agentes”, desabafa ela, que está na área do marketing e que começa a perceber que não é só trabalho de sapa que calha a estes “agentes”. Eles são cada vez mais capazes de fazer “trabalho criativo”, mesmo que seja impossível escrevê-lo sem usar aspas, porque estamos a falar de dispositivos que, na prática, constroem tudo com modelos de previsão estatística depois de analisar quantidades gigantescas de dados.
Há pouco tempo, vi um vídeo de operários indianos com uma espécie de viseira presa à cabeça, que uma repórter da CNN explicava serem dispositivos para recolher informação sobre o seu trabalho manual para alimentar robots operados por Inteligência Artificial. Na mesma reportagem, mostrava-se como a Índia tem sido palco de protestos, nem sempre pacíficos, contra as brutais condições de exploração dos trabalhadores. Mas todos os que usam programas de Inteligência Artificial para procurar receitas, escrever emails, preparar listas de afazeres ou analisar tabelas de Excel estão, no fundo, a fazer a mesma coisa: a treinar estes modelos para se tornarem descartáveis. Mais do que isso: estão ativamente a deixar de usar competências cognitivas. E acho que todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar substancialmente, porque este motor de pesquisa é também um negócio (na verdade, é um conglomerado de empresas), que ganha tanto mais dinheiro quanto mais tempo nos mantiver agarrados a ele. Logo, a eficácia não é propriamente a melhor amiga do negócio.
Como quase tudo no neoliberalismo, nada disto é um erro ou o produto de um acaso. E como quase sempre nesta era dos oligarcas tecnológicos, as intenções não estão ocultas. Já foram declaradas. “Vemos um futuro em que a inteligência é um produto de consumo, como a energia ou a água. E as pessoas vão comprá-la a empresas como a nossa para a usarem”, disse Sam Altman, CEO da OpenAI.
Vou ignorar a forma como a “água”, um recurso essencial à vida, é posta nesta equação e concentrar-me na ideia de que vamos precisar de comprar inteligência. Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.
Basta pensar na frase de Sam Altman para perceber quão questionável é a utilização de IA nas salas de aula. A educação é inimiga dos objetivos estratégicos destas empresas. Tudo o que a OpenAI não quer são seres com pensamento crítico, capazes de desenvolver por si mesmos as tarefas intelectualmente mais exigentes e, já agora, as emocionalmente exigentes também, uma vez que eles querem igualmente vender-nos os tais “agentes” que tomarão conta da nossa vida amorosa, respondendo a mensagens, escritas talvez por outros “agentes”, num mundo em que já não se percebe bem quem namora quem, mas se sabe exatamente para onde é que vai o dinheiro gerado por todas essas interações.
Para que este modelo de negócio funcione, é essencial criar humanos estúpidos. A Inteligência Artificial não tem o mesmo mercado sem uma boa dose de estupidez artificial. E talvez não seja por acaso que a grande contestação à ideia de que a IA é uma “inevitabilidade” esteja a desenvolver-se nas universidades. Nos últimos dias, houve vários protestos de universitários nos Estados Unidos e no Canadá contra conferencistas que foram apresentar esta tecnologia como parte “inevitável” do progresso. Numa das manifestações, em Vancouver, alguém exibia um cartaz com a frase “Usem o vosso cérebro”. E o Wall Street Journal escrevia: “A rebelião americana contra a IA está a ganhar vapor.”
Parte desta revolta vem do facto de ser evidente que muitas, mesmo muitas, profissões se tornarão rapidamente obsoletas (basta ver os números de despedimentos em empresas como a Meta ou a Amazon para perceber a ameaça). Esse é um problema social que põe o capitalismo perante uma contradição: quem será consumidor se deixar de haver trabalhadores? Talvez haja soluções para isso (várias estão a ser estudadas). Mas muito mais inquietante é o impacto que a IA terá naquilo que significa ser humano. Nas nossas relações com os outros, nas nossas capacidades cognitivas e emocionais.
É por isso que é essencial ser analógico para ser subversivo. Por muito que possam (e devam) usar-se as ferramentas tecnológicas do nosso tempo, não podemos fazê-lo de forma inconsciente. E sobretudo não devemos tornar-nos dependentes delas a ponto de perdermos a nossa humanidade. A tecnologia não é politicamente neutra nem deve ser usada acriticamente, como se o nosso destino coletivo fosse uma espécie de fatalidade desenhada pelos deuses, por muito que os techbros (que se veem como deuses) gostassem que assim fosse.
Cabe-nos questionar, cabe-nos exigir ao poder político, a capacidade de regulação e supervisão destes mecanismos. Cabe-nos não nos demitirmos de executar as tarefas que ajudam a construir a nossa identidade, cabe-nos usar o cérebro com que nascemos e estimulá-lo para que se mantenha ativo. E, já agora, cabe-nos escrever as nossas próprias mensagens de amor.
No dia a seguir a esta conversa, fui almoçar a casa de uns amigos. O arroz estava ótimo. Quis saber a receita. “É do ChatGPT”, responderam-me, enquanto me iam explicando como cada um deles se tinha tornado verdadeiramente um “gestor de agentes”. Estes “agentes” não usam gabardines nem pedem Martinis. São produtos de Inteligência Artificial, desenhados para executar tarefas, na maior parte dos casos repetitivas ou que implicam a análise massiva de dados. Como qualquer estagiário, precisam de quem lhes dê ordens, os oriente e lhes reveja o trabalho. E estes meus dois amigos passam cada vez mais tempo a fazê-lo. “Assim, é fácil ser cinco vezes mais produtivo”, diz-me ele, que graças à IA consegue desenvolver soluções informáticas muito mais rapidamente e com muito menos gente. “Fico com mais tempo livre. Mas também me faz confusão que a certa altura o meu trabalho seja corrigir o dos agentes”, desabafa ela, que está na área do marketing e que começa a perceber que não é só trabalho de sapa que calha a estes “agentes”. Eles são cada vez mais capazes de fazer “trabalho criativo”, mesmo que seja impossível escrevê-lo sem usar aspas, porque estamos a falar de dispositivos que, na prática, constroem tudo com modelos de previsão estatística depois de analisar quantidades gigantescas de dados.
Há pouco tempo, vi um vídeo de operários indianos com uma espécie de viseira presa à cabeça, que uma repórter da CNN explicava serem dispositivos para recolher informação sobre o seu trabalho manual para alimentar robots operados por Inteligência Artificial. Na mesma reportagem, mostrava-se como a Índia tem sido palco de protestos, nem sempre pacíficos, contra as brutais condições de exploração dos trabalhadores. Mas todos os que usam programas de Inteligência Artificial para procurar receitas, escrever emails, preparar listas de afazeres ou analisar tabelas de Excel estão, no fundo, a fazer a mesma coisa: a treinar estes modelos para se tornarem descartáveis. Mais do que isso: estão ativamente a deixar de usar competências cognitivas. E acho que todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar substancialmente, porque este motor de pesquisa é também um negócio (na verdade, é um conglomerado de empresas), que ganha tanto mais dinheiro quanto mais tempo nos mantiver agarrados a ele. Logo, a eficácia não é propriamente a melhor amiga do negócio.
Também era, em parte, de negócio que falava Olga Tokarczuk, vencedora do Prémio Nobel da Literatura, quando confessou recorrer à Inteligência Artificial para acelerar o seu processo de escrita. Tokarczuk não usa a IA porque não sabe escrever, usa-a porque o mercado editorial, com a sua voragem de novidade e o baixíssimo pagamento aos escritores, obriga quem vive da escrita a ser rápido na produção, ao mesmo tempo que se desdobra em palestras pagas para sobreviver. O problema não é uma autora que ganhou o Nobel usar a IA como assistente na escrita, o problema é quantidade de jovens (e menos jovens) que está a desistir de usar as ferramentas mentais necessárias para escrever.
Como quase tudo no neoliberalismo, nada disto é um erro ou o produto de um acaso. E como quase sempre nesta era dos oligarcas tecnológicos, as intenções não estão ocultas. Já foram declaradas. “Vemos um futuro em que a inteligência é um produto de consumo, como a energia ou a água. E as pessoas vão comprá-la a empresas como a nossa para a usarem”, disse Sam Altman, CEO da OpenAI.
Vou ignorar a forma como a “água”, um recurso essencial à vida, é posta nesta equação e concentrar-me na ideia de que vamos precisar de comprar inteligência. Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.
Basta pensar na frase de Sam Altman para perceber quão questionável é a utilização de IA nas salas de aula. A educação é inimiga dos objetivos estratégicos destas empresas. Tudo o que a OpenAI não quer são seres com pensamento crítico, capazes de desenvolver por si mesmos as tarefas intelectualmente mais exigentes e, já agora, as emocionalmente exigentes também, uma vez que eles querem igualmente vender-nos os tais “agentes” que tomarão conta da nossa vida amorosa, respondendo a mensagens, escritas talvez por outros “agentes”, num mundo em que já não se percebe bem quem namora quem, mas se sabe exatamente para onde é que vai o dinheiro gerado por todas essas interações.
Para que este modelo de negócio funcione, é essencial criar humanos estúpidos. A Inteligência Artificial não tem o mesmo mercado sem uma boa dose de estupidez artificial. E talvez não seja por acaso que a grande contestação à ideia de que a IA é uma “inevitabilidade” esteja a desenvolver-se nas universidades. Nos últimos dias, houve vários protestos de universitários nos Estados Unidos e no Canadá contra conferencistas que foram apresentar esta tecnologia como parte “inevitável” do progresso. Numa das manifestações, em Vancouver, alguém exibia um cartaz com a frase “Usem o vosso cérebro”. E o Wall Street Journal escrevia: “A rebelião americana contra a IA está a ganhar vapor.”
Parte desta revolta vem do facto de ser evidente que muitas, mesmo muitas, profissões se tornarão rapidamente obsoletas (basta ver os números de despedimentos em empresas como a Meta ou a Amazon para perceber a ameaça). Esse é um problema social que põe o capitalismo perante uma contradição: quem será consumidor se deixar de haver trabalhadores? Talvez haja soluções para isso (várias estão a ser estudadas). Mas muito mais inquietante é o impacto que a IA terá naquilo que significa ser humano. Nas nossas relações com os outros, nas nossas capacidades cognitivas e emocionais.
É por isso que é essencial ser analógico para ser subversivo. Por muito que possam (e devam) usar-se as ferramentas tecnológicas do nosso tempo, não podemos fazê-lo de forma inconsciente. E sobretudo não devemos tornar-nos dependentes delas a ponto de perdermos a nossa humanidade. A tecnologia não é politicamente neutra nem deve ser usada acriticamente, como se o nosso destino coletivo fosse uma espécie de fatalidade desenhada pelos deuses, por muito que os techbros (que se veem como deuses) gostassem que assim fosse.
Cabe-nos questionar, cabe-nos exigir ao poder político, a capacidade de regulação e supervisão destes mecanismos. Cabe-nos não nos demitirmos de executar as tarefas que ajudam a construir a nossa identidade, cabe-nos usar o cérebro com que nascemos e estimulá-lo para que se mantenha ativo. E, já agora, cabe-nos escrever as nossas próprias mensagens de amor.
Os primeiros impérios privados da História
A Space X perde dinheiro a um ritmo histórico, mas é avaliada pelos investidores como se já dominasse o mundo.
Antes do final desta década, Elon Musk terá uma fortuna líquida superior ao PIB conjunto de 150 países. Esse processo vai acelerar-se, nas próximas semanas, com a entrada da Starlink em bolsa. Mas o que vem aí não é mais um surto de euforia nos mercados – é uma mudança de regime e uma nova ordem privada mundial.
Em junho, uma única empresa vai pedir ao mercado que a avalie em quase dois biliões de dólares, mais do que tudo o que Portugal produz em seis anos. Chama-se SpaceX, e é apenas a primeira da fila. A OpenAI segue em setembro, a Anthropic antes do final do ano, com a Stripe, a Databricks e a Anduril logo atrás. É o maior ciclo de IPOs tecnológicos da História, e quem o tratar como mais um surto de euforia de mercado vai perder o que realmente importa. O que aí vem não é um ciclo de bolsa. É uma mudança de regime, empacotada como notícia de negócios.
Antes do final desta década, Elon Musk terá uma fortuna líquida superior ao PIB conjunto de 150 países. Esse processo vai acelerar-se, nas próximas semanas, com a entrada da Starlink em bolsa. Mas o que vem aí não é mais um surto de euforia nos mercados – é uma mudança de regime e uma nova ordem privada mundial.
Em junho, uma única empresa vai pedir ao mercado que a avalie em quase dois biliões de dólares, mais do que tudo o que Portugal produz em seis anos. Chama-se SpaceX, e é apenas a primeira da fila. A OpenAI segue em setembro, a Anthropic antes do final do ano, com a Stripe, a Databricks e a Anduril logo atrás. É o maior ciclo de IPOs tecnológicos da História, e quem o tratar como mais um surto de euforia de mercado vai perder o que realmente importa. O que aí vem não é um ciclo de bolsa. É uma mudança de regime, empacotada como notícia de negócios.
Quem paga a conta socioambiental da corrida global pelo domínio tecnológico?
A nova corrida global pelo domínio das tecnologias de inteligência artificial (IA) vem sendo utilizada para intensificar mais uma race to the bottom no campo das políticas de sustentabilidade. No debate sobre tecnologia, o país que sediou a COP 30 em 2025, retrocede ao continuar tratando o desenvolvimento e a sustentabilidade como polos opostos de uma mesma balança. Enquanto legisladores barganham o custo ambiental em nome do “progresso”, comunidades afetadas pelo extrativismo predatório já enfrentam, no presente, os efeitos concretos da cadeia produtiva que sustenta a infraestrutura física da internet.
A recente aprovação do PL 2.780/2024 na Câmara dos Deputados retoma o debate sobre a posição que o Brasil adotará (ou deveria adotar) diante da disputa pelos recursos minerais que servem de matéria-prima para as tecnologias de fronteira. O texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas já sinaliza um movimento de fragilização das políticas ambientais em prol do chamado desenvolvimento.
À primeira vista, a menção à “promoção do desenvolvimento sustentável”, “responsabilidade socioambiental” e “energia limpa” dissimula que, em essência, o PL cria novos incentivos fiscais e um fundo bilionário para subsidiar a exploração mineral com foco em empresas estrangeiras. Na prática, o Projeto dá nova roupagem à questionável Política Pró-Minerais Estratégicos (Decreto n. 10.657/2021), privilegiando a exploração mineral sem licenciamento ambiental adequado e fragilizando direitos territoriais de populações diretamente afetadas.
O interesse no território brasileiro não é repentino, mas tornou-se mais evidente no contexto recente de pressões tarifárias na rodada das negociações entre diplomatas brasileiros e dos Estados Unidos em torno do tarifaço anunciado por Donald Trump, cujo encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil manifestou interesse do país nos minerais críticos brasileiros. Essas mobilizações revelam que há fortes interesses geopolíticos por trás da avalanche de tarifas trumpistas, o que também pode ser observado nos discursos norte-americanos sobre a Groenlândia, a República Democrática do Congo e, agora, o Brasil.
O presságio nas negociações emerge em meio à forte ascensão da China no setor tecnológico, especialmente por seu vantajoso destaque na cadeia produtiva desses artefatos tecnológicos em emergência, configurando um espremido corredor de dependência para os Estados Unidos. Essa movimentação é notória no lançamento do Minerals Security Partnership, iniciativa que reúne aliados como União Europeia, Japão e Canadá. A proposta busca garantir o fornecimento de minerais como lítio, cobalto, níquel e grafite, que são indispensáveis para a indústria tech, mas também são vitais para a indústria militar, refletindo uma tentativa coordenada de reduzir a dependência das cadeias de suprimento atualmente dominadas pela China.
Não obstante tal cenário global, a maior preocupação desse jogo geopolítico são seus impactos locais. Grande parte das regiões que concentram minerais críticos no Brasil coincide com áreas de proteção ambiental e territórios tradicionalmente ocupados. Cerca de 30% dos registros de minerais estratégicos estão localizados somente na Amazônia Legal. O território brasileiro é cobiçado pelos EUA por deter 23% das reservas de terras raras do mundo, enquanto a China responde por mais de 60% da produção global desses minerais e cerca de 90% do seu processamento, exercendo posição praticamente monopolista sobre a cadeia.
No entanto, o maior ponto de inflexão dessa disputa é o histórico brasileiro de flexibilizações regulatórias frágeis e disposições políticas a subordinar os marcos legais à lógica das grandes corporações. O Projeto de Lei 2.159/2021, mais conhecido como PL da Devastação, prevê a possibilidade de empreendimentos de médio e alto impacto serem liberados apenas com base na autodeclaração da empresa, sem estudos ambientais ou análise prévia do poder público.
A recente aprovação do PL 2.780/2024 na Câmara dos Deputados retoma o debate sobre a posição que o Brasil adotará (ou deveria adotar) diante da disputa pelos recursos minerais que servem de matéria-prima para as tecnologias de fronteira. O texto ainda precisa ser aprovado pelo Senado, mas já sinaliza um movimento de fragilização das políticas ambientais em prol do chamado desenvolvimento.
À primeira vista, a menção à “promoção do desenvolvimento sustentável”, “responsabilidade socioambiental” e “energia limpa” dissimula que, em essência, o PL cria novos incentivos fiscais e um fundo bilionário para subsidiar a exploração mineral com foco em empresas estrangeiras. Na prática, o Projeto dá nova roupagem à questionável Política Pró-Minerais Estratégicos (Decreto n. 10.657/2021), privilegiando a exploração mineral sem licenciamento ambiental adequado e fragilizando direitos territoriais de populações diretamente afetadas.
O interesse no território brasileiro não é repentino, mas tornou-se mais evidente no contexto recente de pressões tarifárias na rodada das negociações entre diplomatas brasileiros e dos Estados Unidos em torno do tarifaço anunciado por Donald Trump, cujo encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil manifestou interesse do país nos minerais críticos brasileiros. Essas mobilizações revelam que há fortes interesses geopolíticos por trás da avalanche de tarifas trumpistas, o que também pode ser observado nos discursos norte-americanos sobre a Groenlândia, a República Democrática do Congo e, agora, o Brasil.
O presságio nas negociações emerge em meio à forte ascensão da China no setor tecnológico, especialmente por seu vantajoso destaque na cadeia produtiva desses artefatos tecnológicos em emergência, configurando um espremido corredor de dependência para os Estados Unidos. Essa movimentação é notória no lançamento do Minerals Security Partnership, iniciativa que reúne aliados como União Europeia, Japão e Canadá. A proposta busca garantir o fornecimento de minerais como lítio, cobalto, níquel e grafite, que são indispensáveis para a indústria tech, mas também são vitais para a indústria militar, refletindo uma tentativa coordenada de reduzir a dependência das cadeias de suprimento atualmente dominadas pela China.
Não obstante tal cenário global, a maior preocupação desse jogo geopolítico são seus impactos locais. Grande parte das regiões que concentram minerais críticos no Brasil coincide com áreas de proteção ambiental e territórios tradicionalmente ocupados. Cerca de 30% dos registros de minerais estratégicos estão localizados somente na Amazônia Legal. O território brasileiro é cobiçado pelos EUA por deter 23% das reservas de terras raras do mundo, enquanto a China responde por mais de 60% da produção global desses minerais e cerca de 90% do seu processamento, exercendo posição praticamente monopolista sobre a cadeia.
No entanto, o maior ponto de inflexão dessa disputa é o histórico brasileiro de flexibilizações regulatórias frágeis e disposições políticas a subordinar os marcos legais à lógica das grandes corporações. O Projeto de Lei 2.159/2021, mais conhecido como PL da Devastação, prevê a possibilidade de empreendimentos de médio e alto impacto serem liberados apenas com base na autodeclaração da empresa, sem estudos ambientais ou análise prévia do poder público.
Embora a internet evoque um imaginário abstrato, a existência da rede depende de uma infraestrutura material: cabos submarinos, data centers, energia elétrica, água e minerais críticos. A materialidade da internet e das tecnologias digitais que a estruturam dependem da exploração mineral, que estão presentes desde os componentes de microchips, até as extensas infraestruturas de conectividade responsáveis pelo armazenamento e processamento massivo de dados.
Um exemplo da concretude dessa questão se observa no caso da construção do mega data center do TikTok no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará. Embora o empreendimento seja apresentado como estratégico para a economia e para a infraestrutura digital, sua instalação ocorre em uma região que se sobrepõe ao território reivindicado pelo povo Anacé junto à Funai. O processo de demarcação da Terra Indígena já se prolonga há mais de duas décadas, enquanto comunidades localizadas a poucos quilômetros do futuro data center convivem com os impactos e incertezas provocados pela expansão tecnológica e industrial.
Assim, a expansão da infraestrutura digital reorganiza territórios inteiros, intensifica disputas fundiárias e produz novos conflitos socioambientais. Nesse contexto, a questão em voga no nosso território é até que ponto a exploração desses minerais ocorre de forma consciente e sob quais protocolos e garantias institucionais ela se desenvolve para assegurar que nenhum dano irreparável ou direito fundamental seja violado. Ou, até mesmo, será que ainda podemos falar em “nosso território” diante de disputas geopolíticas cada vez mais intensas?
Um dos desafios mais emblemáticos enfrentados no Brasil permanece sendo as demarcações das terras indígenas, fator que torna o debate sobre a cadeia produtiva da infraestrutura da internet e de todo o aparato de conectividade ainda mais intrínseco às disputas territoriais. A discussão sobre conectividade, armazenamento de dados e segurança digital deixa, portanto, de ser apenas técnica para envolver também conflitos distributivos, disputas territoriais e os custos socioambientais que sustentam a própria existência da internet.
Apesar do estranhamento da correlação do tema com a internet, cabe enfatizar que não é possível falar de luta por direitos digitais quando a própria possibilidade do espaço digital só existe porque há uma infraestrutura material que o sustenta. Nesse sentido, a ausência de destaque a essa camada da internet faz com que muitos não vislumbrem que os direitos territoriais antecedem os direitos digitais. Esse vínculo toma proporções maiores no atual cenário de corrida global pelo domínio da inteligência artificial, que desloca forças políticas, econômicas e militares para além do âmbito nacional. Trata-se de uma disputa entre gigantes tecnológicos e potências globais que observam vantagens estratégicas no controle dessa tecnologia emergente, seja para fins civis, seja para aplicações militares.
Nesta arapuca de interesses e funcionalidades que recaem sobre o debate dos minérios críticos, já evidenciados na obra canônica da Kate Crawford, The Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence, obra que desmonta o imaginário da “nuvem” como um espaço abstrato e revela sua profunda territorialidade. A autora desloca o debate sobre inteligência artificial do plano puramente computacional para demonstrar seus custos materiais, ambientais e políticos, expondo aquilo que frequentemente permanece invisível no cálculo do custo socioambiental das tecnologias digitais que sustentam a rede.
Em matéria de mineração, a atividade extrativista nas jazidas de Carajás, na Amazônia Paraense, revela um custo ambiental que nunca se traduziu em diminuição das desigualdades econômicas ou erradicação da pobreza, tampouco diminuiu as desigualdades regionais entre norte e sul. No país dos crimes de Mariana e Brumadinho, insistir em tratar os impactos socioambientais da infraestrutura digital como externalidades inevitáveis significa reproduzir uma lógica já conhecida de privatização dos ganhos do progresso tecnológico e socialização dos custos sobre territórios historicamente vulnerabilizados.
Enquanto o debate sobre governança da internet e inteligência artificial permanece concentrado em protocolos, algoritmos, regulação de plataformas e riscos de deepfakes, as comunidades que sustentam materialmente essa infraestrutura seguem invisíveis. A corrida pelos minerais críticos não diz respeito apenas à competitividade tecnológica ou à soberania econômica, mas também à forma como decidimos quais vidas, territórios e direitos podem ser sacrificados em nome do futuro digital.
Um exemplo da concretude dessa questão se observa no caso da construção do mega data center do TikTok no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará. Embora o empreendimento seja apresentado como estratégico para a economia e para a infraestrutura digital, sua instalação ocorre em uma região que se sobrepõe ao território reivindicado pelo povo Anacé junto à Funai. O processo de demarcação da Terra Indígena já se prolonga há mais de duas décadas, enquanto comunidades localizadas a poucos quilômetros do futuro data center convivem com os impactos e incertezas provocados pela expansão tecnológica e industrial.
Assim, a expansão da infraestrutura digital reorganiza territórios inteiros, intensifica disputas fundiárias e produz novos conflitos socioambientais. Nesse contexto, a questão em voga no nosso território é até que ponto a exploração desses minerais ocorre de forma consciente e sob quais protocolos e garantias institucionais ela se desenvolve para assegurar que nenhum dano irreparável ou direito fundamental seja violado. Ou, até mesmo, será que ainda podemos falar em “nosso território” diante de disputas geopolíticas cada vez mais intensas?
Um dos desafios mais emblemáticos enfrentados no Brasil permanece sendo as demarcações das terras indígenas, fator que torna o debate sobre a cadeia produtiva da infraestrutura da internet e de todo o aparato de conectividade ainda mais intrínseco às disputas territoriais. A discussão sobre conectividade, armazenamento de dados e segurança digital deixa, portanto, de ser apenas técnica para envolver também conflitos distributivos, disputas territoriais e os custos socioambientais que sustentam a própria existência da internet.
Apesar do estranhamento da correlação do tema com a internet, cabe enfatizar que não é possível falar de luta por direitos digitais quando a própria possibilidade do espaço digital só existe porque há uma infraestrutura material que o sustenta. Nesse sentido, a ausência de destaque a essa camada da internet faz com que muitos não vislumbrem que os direitos territoriais antecedem os direitos digitais. Esse vínculo toma proporções maiores no atual cenário de corrida global pelo domínio da inteligência artificial, que desloca forças políticas, econômicas e militares para além do âmbito nacional. Trata-se de uma disputa entre gigantes tecnológicos e potências globais que observam vantagens estratégicas no controle dessa tecnologia emergente, seja para fins civis, seja para aplicações militares.
Nesta arapuca de interesses e funcionalidades que recaem sobre o debate dos minérios críticos, já evidenciados na obra canônica da Kate Crawford, The Atlas of AI: Power, Politics, and the Planetary Costs of Artificial Intelligence, obra que desmonta o imaginário da “nuvem” como um espaço abstrato e revela sua profunda territorialidade. A autora desloca o debate sobre inteligência artificial do plano puramente computacional para demonstrar seus custos materiais, ambientais e políticos, expondo aquilo que frequentemente permanece invisível no cálculo do custo socioambiental das tecnologias digitais que sustentam a rede.
Em matéria de mineração, a atividade extrativista nas jazidas de Carajás, na Amazônia Paraense, revela um custo ambiental que nunca se traduziu em diminuição das desigualdades econômicas ou erradicação da pobreza, tampouco diminuiu as desigualdades regionais entre norte e sul. No país dos crimes de Mariana e Brumadinho, insistir em tratar os impactos socioambientais da infraestrutura digital como externalidades inevitáveis significa reproduzir uma lógica já conhecida de privatização dos ganhos do progresso tecnológico e socialização dos custos sobre territórios historicamente vulnerabilizados.
Enquanto o debate sobre governança da internet e inteligência artificial permanece concentrado em protocolos, algoritmos, regulação de plataformas e riscos de deepfakes, as comunidades que sustentam materialmente essa infraestrutura seguem invisíveis. A corrida pelos minerais críticos não diz respeito apenas à competitividade tecnológica ou à soberania econômica, mas também à forma como decidimos quais vidas, territórios e direitos podem ser sacrificados em nome do futuro digital.
Guerra e$piritual
Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual, e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal, que vai ser expulso desse governo do Brasil este ano.
Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel.
Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus
Quero pedir a todos que orem por Jair Messias Bolsonaro, pelo Brasil, que voltará a ser uma nação irmã de Israel.
Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus
A missão de Flávio Bolsonaro: manter viva a grife da família
Desta vez não será uma escolha difícil. Em 2018, o centenário jornal O Estado de S. Paulo definiu como difícil a escolha que os brasileiros haveriam de fazer no segundo turno das eleições daquele ano: votar em Jair Bolsonaro para presidente da República ou votar em Fernando Haddad, ex-prefeito da capital paulista? Bolsonaro era candidato com o apoio dos militares. Haddad, o candidato do PT e de Lula, que estava preso em Curitiba.
A não ser que o roteirista do filme chamado Brasil apronte mais uma surpresa — e ele gosta de aprontar —, tudo indica que, em outubro próximo, seremos forçados a escolher entre Flávio Bolsonaro, filho de quem é, e Lula, que há quatro anos derrotou o pai dele na eleição mais apertada desde o fim da ditatura de 1964. Flávio está em baixa desde que ofereceu o Brasil de bandeja a Trump. Lula está em alta, impulsionado, diga-se, pela decisão tomada por Trump de aplicar ao Brasil uma nova onda de tarifas alfandegárias. Para completar, Flávio amarga a descoberta de que era unha e carne com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil.
Feliz é o candidato que pode dar-se ao luxo de escolher seu adversário. Lula escolheu o Bolsonaro original e venceu. Lula agora, e não é de hoje, escolheu a cópia encardida de Bolsonaro e parece estar com a mão na taça. Uma ampla fatia dos brasileiros gostaria de contar com outras opções, como mostram as pesquisas. Mas as alternativas disponíveis não dão sinais de que se viabilizarão. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, e paramos por aqui: alguém aposta que um deles desbancará Flávio? Improvável.
Flávio não é candidato por seus próprios méritos, mas pelos de seu pai, o inventor da direita sem vergonha de se autodeclarar direita. Nunca passou pela cabeça de Flávio que um dia ele viria a ser candidato a presidente. Foi quatro vezes deputado estadual no Rio de Janeiro graças ao pai. Elegeu-se senador pegando carona na campanha presidencial do pai, assim como os seus irmãos.
De todos eles, Flávio era o mais vocacionado para fazer negócios e enriquecer. Portanto, não tem muito a perder se for derrotado por Lula. O pai deu-lhe a missão de sucedê-lo como guardião de uma parcela expressiva dos votos da direita, evitando que algum aventureiro se apossasse dela. A grife Bolsonaro não pode desaparecer; ela rende muito dinheiro à família, e dinheiro é o que importa. Isso está no DNA do clã desde o tempo das rachadinhas.
A não ser que o roteirista do filme chamado Brasil apronte mais uma surpresa — e ele gosta de aprontar —, tudo indica que, em outubro próximo, seremos forçados a escolher entre Flávio Bolsonaro, filho de quem é, e Lula, que há quatro anos derrotou o pai dele na eleição mais apertada desde o fim da ditatura de 1964. Flávio está em baixa desde que ofereceu o Brasil de bandeja a Trump. Lula está em alta, impulsionado, diga-se, pela decisão tomada por Trump de aplicar ao Brasil uma nova onda de tarifas alfandegárias. Para completar, Flávio amarga a descoberta de que era unha e carne com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil.
Feliz é o candidato que pode dar-se ao luxo de escolher seu adversário. Lula escolheu o Bolsonaro original e venceu. Lula agora, e não é de hoje, escolheu a cópia encardida de Bolsonaro e parece estar com a mão na taça. Uma ampla fatia dos brasileiros gostaria de contar com outras opções, como mostram as pesquisas. Mas as alternativas disponíveis não dão sinais de que se viabilizarão. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, e paramos por aqui: alguém aposta que um deles desbancará Flávio? Improvável.
Flávio não é candidato por seus próprios méritos, mas pelos de seu pai, o inventor da direita sem vergonha de se autodeclarar direita. Nunca passou pela cabeça de Flávio que um dia ele viria a ser candidato a presidente. Foi quatro vezes deputado estadual no Rio de Janeiro graças ao pai. Elegeu-se senador pegando carona na campanha presidencial do pai, assim como os seus irmãos.
De todos eles, Flávio era o mais vocacionado para fazer negócios e enriquecer. Portanto, não tem muito a perder se for derrotado por Lula. O pai deu-lhe a missão de sucedê-lo como guardião de uma parcela expressiva dos votos da direita, evitando que algum aventureiro se apossasse dela. A grife Bolsonaro não pode desaparecer; ela rende muito dinheiro à família, e dinheiro é o que importa. Isso está no DNA do clã desde o tempo das rachadinhas.
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