sexta-feira, 5 de junho de 2026

A estupidez artificial

“Acabei com um namorado porque descobri que ele escrevia as mensagens que me enviava com o ChatGPT.” O desabafo, numa roda de mulheres a meio de uma conversa que tinha escorregado para as exigências digitais do mundo, foi recebido entre caras abertas de espanto e risos constrangidos. “Ele era do tipo calado, parecia interessante. Mas mandava mensagens que não faziam sentido. Pensei que estava a ficar maluca, ou que ele era maluco.” Ela, mulher inteligente, com o tipo de beleza que faz parar salas, deu por si a ter uma relação com um (mau) simulacro de inteligência. Ficámos atónitas, incrédulas, aturdidas pela ideia de que há quem não se dê sequer ao trabalho do amor, quem queira namorar por procuração digital, quem renuncie ao que nos torna humanos, querendo talvez mascarar as falhas (reais ou imaginadas) que são a verdadeira matéria das paixões que valem a pena.


No dia a seguir a esta conversa, fui almoçar a casa de uns amigos. O arroz estava ótimo. Quis saber a receita. “É do ChatGPT”, responderam-me, enquanto me iam explicando como cada um deles se tinha tornado verdadeiramente um “gestor de agentes”. Estes “agentes” não usam gabardines nem pedem Martinis. São produtos de Inteligência Artificial, desenhados para executar tarefas, na maior parte dos casos repetitivas ou que implicam a análise massiva de dados. Como qualquer estagiário, precisam de quem lhes dê ordens, os oriente e lhes reveja o trabalho. E estes meus dois amigos passam cada vez mais tempo a fazê-lo. “Assim, é fácil ser cinco vezes mais produtivo”, diz-me ele, que graças à IA consegue desenvolver soluções informáticas muito mais rapidamente e com muito menos gente. “Fico com mais tempo livre. Mas também me faz confusão que a certa altura o meu trabalho seja corrigir o dos agentes”, desabafa ela, que está na área do marketing e que começa a perceber que não é só trabalho de sapa que calha a estes “agentes”. Eles são cada vez mais capazes de fazer “trabalho criativo”, mesmo que seja impossível escrevê-lo sem usar aspas, porque estamos a falar de dispositivos que, na prática, constroem tudo com modelos de previsão estatística depois de analisar quantidades gigantescas de dados.

Há pouco tempo, vi um vídeo de operários indianos com uma espécie de viseira presa à cabeça, que uma repórter da CNN explicava serem dispositivos para recolher informação sobre o seu trabalho manual para alimentar robots operados por Inteligência Artificial. Na mesma reportagem, mostrava-se como a Índia tem sido palco de protestos, nem sempre pacíficos, contra as brutais condições de exploração dos trabalhadores. Mas todos os que usam programas de Inteligência Artificial para procurar receitas, escrever emails, preparar listas de afazeres ou analisar tabelas de Excel estão, no fundo, a fazer a mesma coisa: a treinar estes modelos para se tornarem descartáveis. Mais do que isso: estão ativamente a deixar de usar competências cognitivas. E acho que todos sabemos o efeito que o Google já teve na nossa memória. Deixámos de nos preocupar com a ideia de memorizar alguma coisa porque sabemos que podemos “googlá-la”. Problema? Os resultados do Google têm vindo a piorar substancialmente, porque este motor de pesquisa é também um negócio (na verdade, é um conglomerado de empresas), que ganha tanto mais dinheiro quanto mais tempo nos mantiver agarrados a ele. Logo, a eficácia não é propriamente a melhor amiga do negócio.

Também era, em parte, de negócio que falava Olga Tokarczuk, vencedora do Prémio Nobel da Literatura, quando confessou recorrer à Inteligência Artificial para acelerar o seu processo de escrita. Tokarczuk não usa a IA porque não sabe escrever, usa-a porque o mercado editorial, com a sua voragem de novidade e o baixíssimo pagamento aos escritores, obriga quem vive da escrita a ser rápido na produção, ao mesmo tempo que se desdobra em palestras pagas para sobreviver. O problema não é uma autora que ganhou o Nobel usar a IA como assistente na escrita, o problema é quantidade de jovens (e menos jovens) que está a desistir de usar as ferramentas mentais necessárias para escrever.

Como quase tudo no neoliberalismo, nada disto é um erro ou o produto de um acaso. E como quase sempre nesta era dos oligarcas tecnológicos, as intenções não estão ocultas. Já foram declaradas. “Vemos um futuro em que a inteligência é um produto de consumo, como a energia ou a água. E as pessoas vão comprá-la a empresas como a nossa para a usarem”, disse Sam Altman, CEO da OpenAI.

Vou ignorar a forma como a “água”, um recurso essencial à vida, é posta nesta equação e concentrar-me na ideia de que vamos precisar de comprar inteligência. Quem é que precisa de comprar aquilo com que nasceu? A resposta é simples e testada com sucesso há décadas pelo capitalismo: criando uma nova necessidade. Mas como é que se cria a necessidade de “inteligência”? Garantindo que a que temos naturalmente não se desenvolve completamente ou, pelo menos, que não é desenvolvida em setores suficientemente grandes da população para ter um mercado.

Basta pensar na frase de Sam Altman para perceber quão questionável é a utilização de IA nas salas de aula. A educação é inimiga dos objetivos estratégicos destas empresas. Tudo o que a OpenAI não quer são seres com pensamento crítico, capazes de desenvolver por si mesmos as tarefas intelectualmente mais exigentes e, já agora, as emocionalmente exigentes também, uma vez que eles querem igualmente vender-nos os tais “agentes” que tomarão conta da nossa vida amorosa, respondendo a mensagens, escritas talvez por outros “agentes”, num mundo em que já não se percebe bem quem namora quem, mas se sabe exatamente para onde é que vai o dinheiro gerado por todas essas interações.

Para que este modelo de negócio funcione, é essencial criar humanos estúpidos. A Inteligência Artificial não tem o mesmo mercado sem uma boa dose de estupidez artificial. E talvez não seja por acaso que a grande contestação à ideia de que a IA é uma “inevitabilidade” esteja a desenvolver-se nas universidades. Nos últimos dias, houve vários protestos de universitários nos Estados Unidos e no Canadá contra conferencistas que foram apresentar esta tecnologia como parte “inevitável” do progresso. Numa das manifestações, em Vancouver, alguém exibia um cartaz com a frase “Usem o vosso cérebro”. E o Wall Street Journal escrevia: “A rebelião americana contra a IA está a ganhar vapor.”

Parte desta revolta vem do facto de ser evidente que muitas, mesmo muitas, profissões se tornarão rapidamente obsoletas (basta ver os números de despedimentos em empresas como a Meta ou a Amazon para perceber a ameaça). Esse é um problema social que põe o capitalismo perante uma contradição: quem será consumidor se deixar de haver trabalhadores? Talvez haja soluções para isso (várias estão a ser estudadas). Mas muito mais inquietante é o impacto que a IA terá naquilo que significa ser humano. Nas nossas relações com os outros, nas nossas capacidades cognitivas e emocionais.

É por isso que é essencial ser analógico para ser subversivo. Por muito que possam (e devam) usar-se as ferramentas tecnológicas do nosso tempo, não podemos fazê-lo de forma inconsciente. E sobretudo não devemos tornar-nos dependentes delas a ponto de perdermos a nossa humanidade. A tecnologia não é politicamente neutra nem deve ser usada acriticamente, como se o nosso destino coletivo fosse uma espécie de fatalidade desenhada pelos deuses, por muito que os techbros (que se veem como deuses) gostassem que assim fosse.

Cabe-nos questionar, cabe-nos exigir ao poder político, a capacidade de regulação e supervisão destes mecanismos. Cabe-nos não nos demitirmos de executar as tarefas que ajudam a construir a nossa identidade, cabe-nos usar o cérebro com que nascemos e estimulá-lo para que se mantenha ativo. E, já agora, cabe-nos escrever as nossas próprias mensagens de amor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário