segunda-feira, 16 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


O quintal sob vigilância

O governo de Donald Trump deu os primeiros passos para implementar uma estratégia deliberada de militarização do continente, incentivado pelo êxito do sequestro de ­Nicolás Maduro e o controle do governo venezuelano. O anúncio da ofensiva regional não poderia ter ocorrido em outro lugar a não ser na Flórida, bunker da extrema-direita latino-americana e foco da busca dos republicanos pelo voto latino.

Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e lançar o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.

Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.


A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações criminosas da região ganharam esse status.

Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025 por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a militarização do continente era um dos pilares.

Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai. Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou taxas.

Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez, ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.

Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países e seus povos”, afirmou Jamieson Greer,­ representante de Comércio dos EUA.

Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de cooperação espacial com Pequim.

Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma “força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e antecipar ações dos EUA.

A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de 518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a governos no Hemisfério Ocidental.

Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em curso

Ser criança é difícil

Dia a dia nega-se às crianças o direito de ser criança. Os fatos, que zombam desse direito, ostentam seus ensinamentos na vida cotidiana. O mundo trata os meninos ricos como se fossem dinheiro, para que se acostumem a atuar como o dinheiro atua. O mundo trata os meninos pobres como se fossem lixo, para que se transformem em lixo. 

E os do meio, os que não são ricos nem pobres, conserva-os atados à mesa do televisor, para que aceitem, desde cedo, como destino, a vida prisioneira. Muita magia e muita sorte têm as crianças que conseguem ser crianças.
Eduardo Galeano

Insensibilidade e falta de senso

Mesmo quando os factos são os mesmos ou, no mínimo, semelhantes, as nossas reações perante eles estão sempre dependentes de diversos fatores: o nosso ponto de vista, o grau de proximidade, o nível de confiança na informação que recebemos e, naturalmente, os vieses ideológicos, sociais ou até religiosos que temos, mesmo sem nos darmos conta deles. É por tudo isto que, quando somos confrontados com o relato de atrocidades, nem sempre reagimos da mesma forma − até quando elas são tão brutais e violentas que nem sequer deveriam suscitar qualquer tipo de compreensão ou desculpa sobre quem as perpetrou.

Se quisermos ser rigorosos e independentes, não existe qualquer circunstância em que o bombardeamento de uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças e dos seus professores, possa deixar de ser considerado um escândalo mundial, merecendo a imediata condenação unânime e conduzindo a um rápido e conclusivo apuramento de responsabilidades. Numa guerra geograficamente próxima de nós ou em que as vítimas fossem parecidas connosco, com os mesmos traços físicos e culturais, seria isso que logo aconteceria. E, se calhar, se fosse na Ucrânia, já haveria um novo pacote de sanções económicas a caminho, contra o invasor russo − e muito bem.

O massacre ocorreu, no entanto, na escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no Irão, logo nas primeiras horas da ofensiva dos EUA e de Israel. Embora ainda não se saiba o número exato de vítimas, ninguém duvida de que foi mais de uma centena, quase todas meninas entre os 7 e os 12 anos. Também sabemos que a escola ficava situada junto a uma base da Guarda Revolucionária Islâmica, o tenebroso braço armado do regime dos aiatolas. Segundo o New York Times, há imagens de satélite que indicam que o prédio da escola esteve anteriormente conectado com as instalações militares, mas foi posteriormente isolado com muros.


O secretário de Guerra dos EUA, e antigo apresentador da Fox News, Pete Hegseth, tem-se esforçado por desmentir que o ataque tenha sido perpetrado por americanos, mesmo quando se acumulam evidências a esse respeito, nomeadamente entre peritos das Nações Unidas, e se sabe que alguns dos alvos da Operação Fúria Épica foram definidos através de Inteligência Artificial − porventura incapaz, sem intervenção humana, de deslindar se o edifício da escola continuava ou não integrado nas instalações militares.

O problema, no entanto, nem sequer é a insensibilidade de Hegseth e da restante Administração em Washington − Donald Trump, claro, já assegurou que os EUA não têm qualquer responsabilidade e fê-lo com a veemência habitual: a mesma que lhe permitiu, no espaço de uma semana, enunciar sete objetivos diferentes para esta guerra, quase todos antagónicos uns dos outros. Na verdade, de Trump e dos seus súbditos MAGA não se esperaria outra coisa.

O problema é mesmo a falta de senso que se generalizou e que leva a que uma situação destas já não suscite a indignação e a repulsa que merecia. Até porque isso tem consequências profundas: banaliza-nos a violência e o horror da guerra, levando-nos a olhar para as atrocidades como se fossem naturais. E, como ocorrem em locais distantes, criando até a sensação de que pouco ou nada têm a ver connosco.

A realidade nua e crua sobre o estado atual do mundo é esta: milhões de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que com a morte de mais de uma centena de crianças no bombardeamento de uma escola.

Este é um sintoma do que acontece quando os líderes começam a desprezar os valores mais básicos em que deviam assentar o relacionamento humano e o respeito pelo próximo e pelo semelhante. O direito internacional, nomeadamente com a definição de regras para as guerras, é um dos pilares do progresso da Humanidade. Desrespeitá-lo é fazer regressar o mundo à lei da selva, em que o mais forte manda e os outros obedecem ou são eliminados. É plausível que o ataque à escola de Minab não tenha sido uma ação intencional dos EUA − ao contrário dos muitos assassínios de mulheres e crianças perpetrados pelo regime de Teerão, ao longo dos últimos anos. Mas quando falha a sensibilidade para perceber que este é um caso que devia ser esclarecido o mais depressa possível é porque, de facto, já se desceu demasiado fundo em termos de valores e de respeito pelos direitos humanos. O erro, nesse caso, não foi do bombardeiro, mas de quem, no comando, não teve coragem para assumir a sua culpa. E os culpados, no fundo, somos também todos nós, que vemos este caso apenas como mais uma ocorrência “normal” de guerra e não como uma consequência do estado a que chegámos, enquanto sociedade. 

A paz é inconveniente

O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano

Quando, a 28 de fevereiro, os Estados Unidos bombardearam o Irão, percebeu-se rapidamente que o Médio Oriente voltaria a entrar em polvorosa. À medida que acumulamos anos e experiência, vamos compreendendo que há ciclos que se repetem. Tal como existem ciclos económicos, também existem ciclos de conflito.

A minha consciência política surgiu no início do milénio, com a invasão do Iraque, na era Bush. Hoje percebo que existe um padrão histórico que se repete. Se isto soa frio, soa. Mas talvez seja precisamente essa frieza analítica que nos permite reconhecer como os conflitos regressam, década após década.

Ainda assim, qualquer guerra — especialmente nos dias que correm — soa a despropósito. Estamos em pleno século XXI. Temos inteligência artificial a entrar nas nossas vidas, tecnologias capazes de transformar economias e sociedades inteiras, e continuamos, paradoxalmente, a assistir a homens poderosos que gostam de “brincar” às guerras para afirmar posições geopolíticas os escamotear questões “domésticas”.

O problema é que essas “brincadeiras” não acontecem em tabuleiros abstratos. O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano.

É neste contexto que surge aquilo que, em termos económicos e políticos, se designa por economia de guerra. Tradicionalmente, o conceito refere-se à reorganização das economias para sustentar conflitos: produção industrial orientada para armamento, mobilização de recursos estratégicos e concentração de poder económico e político. No entanto, no mundo contemporâneo, a economia de guerra tornou-se também um sistema que se alimenta da própria instabilidade.

Serve para afastar milhões de pessoas de uma vida digna. Serve para desestabilizar países ricos em recursos naturais, que acabam depois explorados em condições pouco dignas. Serve para alimentar cadeias de mão de obra barata — por vezes quase escrava. E serve, inevitavelmente, para gerar lucros para quem investe neste sistema. Porque há uma elite económica e financeira que investe nesta economia e que, em certa medida, precisa dela para continuar a prosperar.

O resultado é conhecido: gerações inteiras privadas de uma vida em paz. Povos que continuam sem voz, sem dignidade e sem liberdade, muitas vezes enquanto se invocam intervenções externas em nome da “libertação”.

Se existe tanto poder concentrado numa percentagem mínima da população mundial, seria legítimo esperar que esse poder fosse usado para promover a paz. No entanto, o argumento de que um conflito pode ser um “mal menor” para alcançar estabilidade lembra a velha máxima romana: o povo contenta-se com pão e circo.

Num país com 90 milhões de habitantes, onde cerca de 80% da população se posiciona contra o regime, capacitar o povo para que a democracia nasça das suas próprias mãos não parece ser o caminho mais lucrativo. Afinal, como se testa arsenal militar? Como se alimenta a indústria da defesa? Como se exploram recursos num país informado e com um povo verdadeiramente capaz?

Talvez seja precisamente por isso que, tantas vezes, a paz se torne tão inconveniente.

Proposta de Trump de militarizar combate aos cartéis dificilmente funcionará

Depois de derrubar o presidente venezuelano Maduro e impor um bloqueio ao regime cubano, o governo dos EUA formalizou, no sábado, mais um elemento-chave da chamada Doutrina Donroe, que busca alcançar a supremacia de Washington na América Latina. Donald Trump anunciou a criação de uma nova coalizão regional chamada Escudo das Américas durante uma cúpula em Miami.

A iniciativa reuniu uma dúzia de governos latino-americanos alinhados a Washington e tem como objetivo ampliar a cooperação em segurança e combater cartéis de drogas e redes de tráfico na região. Durante o encontro, Trump deixou claro que a militarização do combate ao narcotráfico é o eixo central de sua estratégia para a região. Ele defendeu que os países do hemisfério recorram mais ao uso das forças armadas para enfrentar organizações criminosas e incentivou líderes latinos a permitir operações militares conjuntas com os EUA em seus territórios. “Assim como formamos uma coalizão para derrotar o Estado Islâmico no Oriente Médio, agora precisamos fazer o mesmo para erradicar os cartéis aqui no nosso hemisfério”, disse. Numerosos cartéis da América Latina e do Caribe foram classificados como organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos EUA, e ataques contra lanchas supostamente usadas para transportar drogas deixaram, ao longo do último ano, cerca de 150 mortos.

A nova coalizão reúne, em grande parte, governos ideologicamente próximos do presidente americano, incluindo líderes de Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Honduras, Panamá, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Trinidad e Tobago e Bolívia, além do presidente eleito do Chile. O encontro, no entanto, excluiu alguns dos principais países da região, como Brasil, México e Colômbia, cujos governos não foram convidados.

Não é apenas a exclusão desses três países que levanta dúvidas sobre a eficácia da iniciativa. Da mesma forma, a designação de cartéis como grupos terroristas não considera que narcotraficantes têm estratégias e objetivos muito diferentes de terroristas da Al-Qaeda. O maior problema é que, como Matias Spektor e Oto Montagner mostram em

artigo recente no New York Times, a ideia de derrotar cartéis por meio da força militar parte de um equívoco fundamental sobre como o crime organizado opera hoje. Os grandes grupos criminosos da América Latina já não estão confinados a um território específico: eles operam como redes transnacionais integradas a cadeias globais de comércio ilícito, que conectam produtores, intermediários financeiros e mercados consumidores em diferentes partes do mundo.

RESILIÊNCIA. Nesse contexto, destruir bases ou eliminar líderes – como ocorreu no México, onde o narcotraficante “El Mencho” foi morto – dificilmente desmonta essas redes. A experiência mostra que operações militares tendem apenas a deslocar a atividade criminosa ou torná-la mais fragmentada e difícil de rastrear. Além disso, enquanto houver forte demanda global por drogas, a repressão armada frequentemente aumenta o valor do mercado ilegal, tornando os cartéis ainda mais lucrativos e adaptáveis. Da mesma forma, Robert Muggah observa que estratégias baseadas principalmente em operações militares costumam produzir efeitos de deslocamento, não de eliminação do problema. A pressão sobre uma rota ou território frequentemente apenas eleva os preços e incentiva novas formas de adaptação por parte das organizações criminosas.

Dados recentes reforçam esse diagnóstico. Meio século após o lançamento da chamada “guerra às drogas” pelos EUA, a produção e o consumo global de cocaína continuam em níveis recordes. Cadeias de suprimento ilícitas tornaram-se mais diversificadas e resilientes. Mesmo quando operações policiais ou militares interrompem determinadas rotas, o fluxo tende a se deslocar rapidamente para outras regiões.

Para Spektor e Montagner, o combate exige algo diferente: cooperação internacional de inteligência, integração de dados financeiros e logísticos e ações coordenadas para desarticular as redes que sustentam o crime transnacional. Transformar a América Latina em um novo teatro de operações militares terá um custo humano e econômico enorme, mas dificilmente resolverá o problema.
Oliver Stuenkel

'Metrópolis', de Fritz Lang: o futuro é agora

Veículos voadores cortam o céu diante de enormes fachadas de vidro e aço. Em imponentes arranha-céus vive uma elite cercada de luxo. Abaixo, nas entranhas da cidade, trabalhadores labutam incansavelmente para sustentar a riqueza dos poderosos. Eles mantêm em funcionamento as máquinas que garantem a operação de Metrópolis, a cidade que o cineasta alemão Fritz Lang imaginou em seu visionário filme de 1927, escrito em parceria com sua esposa, a romancista e roteirista Thea von Harbou.

A história se passa em 2026, ou seja, nos dias atuais. Uma de suas personagens centrais é Maria, uma das primeiras "mulheres-robô" do cinema. Essa humanoide personifica o que hoje chamamos de inteligência artificial (IA) . Muitos dos temores atuais em relação a essa tecnologia já estavam, de certa forma, prenunciados em sua personagem há quase um século.


Como humana, Maria alerta os trabalhadores sobre os abusos dos poderosos. O governante de Metrópolis decide então copiar sua aparência e transferi-la para um robô, um Maschinenmensch (homem-máquina), com a ajuda de um cientista obcecado que persegue seus próprios objetivos. Transformada em uma máquina com forma humana, Maria deve manipular os trabalhadores para que os poderosos possam explorá-los ainda mais. E como os trabalhadores não conseguem distinguir entre a mulher real e o androide, o plano parece funcionar.

Quando Fritz Lang imaginou sua visão distópica do trabalho em 2026, ele visualizou um mundo onde humanos serviriam às máquinas. Hoje, quase diariamente surgem reportagens em que especialistas especulam sobre quais empregos poderiam desaparecer devido à inteligência artificial. Recentemente, por exemplo, o empresário americano Matt Schumer alertou na rede social X sobre possíveis demissões em massa: em um ou dois anos, disse ele, nenhum emprego de escritório estaria realmente seguro.
Androides no cinema

No cinema, a "máquina humana" muitas vezes tem um lado sombrio. Maria, de Metrópolis, tornou-se um modelo para muitas histórias de ficção científica em que as pessoas acabam sendo vítimas de suas próprias criações.

Em "O Exterminador do Futuro ", de James Cameron, um robô viaja no tempo para garantir um futuro onde as máquinas dominem a humanidade. Com seus esqueletos de aço, eles enxergam os humanos que os criaram como uma ameaça.

Os "replicantes" em "Blade Runner", de Ridley Scott , foram projetados para realizar trabalhos perigosos durante a colonização do espaço. A Terra tornou-se um lugar inóspito: poluída, superpovoada e constantemente castigada por chuvas torrenciais. Para permitir que os humanos aspirem a uma vida melhor em outros planetas, esses androides são designados primeiro para as tarefas mais árduas. Mas, como desenvolvem suas próprias emoções ao longo do tempo — e com elas a capacidade de se rebelar —, sua expectativa de vida é limitada a quatro anos. Mesmo assim, alguns se recusam a obedecer e desafiam seus criadores.

Sejam eles "exterminadores" ou "replicantes", são quase sempre indistinguíveis do Homo sapiens, como a robô Maria em Metrópolis . Apenas raramente os robôs aparecem como aliados dos humanos. Um exemplo é C-3PO, o androide de "Star Wars" criado por George Lucas, um assistente útil e pacífico.

Aqueles que defendem o desenvolvimento da inteligência artificial vislumbram algo semelhante hoje: androides vivendo ao nosso lado e auxiliando em tarefas cotidianas, como cuidar de idosos, atender crianças ou realizar tarefas domésticas. Os críticos, no entanto, alertam para os riscos dessa tecnologia e comparam seu avanço à invenção da bomba atômica.

Em "Metrópolis", a cidade não é destruída por uma guerra nuclear, mas por uma enorme inundação que causa inúmeras mortes. A culpada é a robô Maria, que incita os trabalhadores a se rebelarem e destruírem o sistema.

Nesse sentido, Fritz Lang encarava as máquinas com tanta desconfiança quanto diretores como Cameron ou Scott encarariam décadas depois. Um androide perfeito como Maria, do filme, ainda não existe. Mas outras ideias que apareceram em "Metrópolis" se tornaram realidade: por exemplo, o monotrilho ou as videochamadas.

Essas ferramentas se tornaram uma necessidade cotidiana. Com um smartphone, não apenas ouvimos a pessoa com quem estamos falando, como também a vemos. Equipes espalhadas pelo mundo se reúnem diariamente em videoconferências como se estivessem na mesma sala. E desligar a câmera pode levantar suspeitas: Será que ainda estão de pijama? Ou será que têm olheiras depois de uma longa noite de sono?

Talvez Fritz Lang, há quase um século, não estivesse simplesmente mostrando o progresso, mas também as potenciais armadilhas que ele acarreta. Seja qual for a interpretação, hoje ninguém pode dizer que as visões de Metrópolis não têm nada a ver com nossas vidas atuais. O futuro já chegou.

Quando o mundo escolhe quem merece luto: a nossa cumplicidade na morte das crianças

Rabindranath Tagore (1861–1941) muitas vezes chamado de “Bardo de Bengala”, nascido em Calcutá, foi um polímata bengali, uma das figuras literárias e filosóficas mais influentes do início do século XX e o primeiro não‑europeu a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1913.

Tagore escreveu que “Every child comes with the message that God is not yet discouraged of man”, lembrando‑nos que cada criança é uma promessa, um sopro de esperança que renova o sentido da humanidade. Ao evocarmos estas palavras, somos confrontados com a ideia de que a vida infantil é o mais puro gesto de confiança no futuro. Quando uma criança morre — sobretudo de forma violenta — essa confiança é traída, e uma parte essencial do nosso próprio significado coletivo é destruída.

É à luz desta verdade simples e luminosa que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado a 11 de março de 2026 na VISÃO (Edição 1723), se torna ainda mais insuportável e mais necessário. Guedes recorda-nos que o mundo reage com mais veemência a um aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que ao bombardeamento de uma escola no Irão, onde mais de uma centena de meninas entre os 7 e os 12 anos perderam a vida. Esta constatação não é apenas um diagnóstico jornalístico: é uma acusação moral.


O autor descreve como os nossos vieses – geográficos, ideológicos, culturais ou simplesmente afetivos – moldam a forma como sentimos ou deixamos de sentir a dor dos outros. Mesmo perante evidências crescentes de que o ataque poderá ter sido perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, especialistas das Nações Unidas insistem num apuramento rigoroso de responsabilidades, enquanto grande parte do mundo continua indiferente.

O problema, como sublinha o jornalista, não se limita à tragédia em si, mas à desigualdade do luto. A mesma atrocidade, ocorrida na Europa ou num país culturalmente próximo, provocaria condenação imediata, ações diplomáticas coordenadas e um coro global de indignação. No entanto, quando as vítimas têm outros rostos, outras línguas, outras paisagens, a urgência moral desvanece-se — como se o sofrimento também tivesse nacionalidade. Esta seletividade emocional revela mais sobre nós do que sobre os factos: demonstra o quanto normalizámos a violência à distância, o quanto deixámos de reconhecer a humanidade onde ela permanece inteira.

E é precisamente aqui que regressamos a Martin Luther King Jr., cuja convicção ribomba como um eco incontornável: “Injustice anywhere is a threat to justice everywhere.”. As palavras de King recordam-nos que cada injustiça — sobretudo quando recai sobre aqueles que nada fizeram para merecê-la — corrói o edifício moral que sustenta a convivência humana. A morte de crianças, seja onde for, é a forma mais absoluta dessa injustiça. Não existe equilíbrio ético possível enquanto aceitarmos que existam vítimas toleráveis e vítimas intoleráveis; enquanto permitirmos que a dor seja hierarquizada e a indignação, seletiva.

O editorial do Rui Tavares Guedes é, assim, um alarme urgente — e profundamente atual — à re-humanização do olhar, à superação dos nossos vieses morais e à recusa firme da normalização da morte de inocentes, onde quer que aconteça. Recorda-nos que a compaixão não pode ser geográfica; que a empatia não pode depender do idioma em que se grita; que a vida de uma criança iraniana vale tanto como a de uma criança europeia ou de qualquer outro lugar do mundo.

É um apelo para recuperarmos aquilo que nos faz humanos: a capacidade de reconhecermos a dor alheia como nossa, de recusarmos a indiferença como resposta, de não aceitarmos que o mundo continue a girar como se nada fosse quando o futuro — porque as crianças são sempre o futuro — é destruído a sangue-frio.