segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando o mundo escolhe quem merece luto: a nossa cumplicidade na morte das crianças

Rabindranath Tagore (1861–1941) muitas vezes chamado de “Bardo de Bengala”, nascido em Calcutá, foi um polímata bengali, uma das figuras literárias e filosóficas mais influentes do início do século XX e o primeiro não‑europeu a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1913.

Tagore escreveu que “Every child comes with the message that God is not yet discouraged of man”, lembrando‑nos que cada criança é uma promessa, um sopro de esperança que renova o sentido da humanidade. Ao evocarmos estas palavras, somos confrontados com a ideia de que a vida infantil é o mais puro gesto de confiança no futuro. Quando uma criança morre — sobretudo de forma violenta — essa confiança é traída, e uma parte essencial do nosso próprio significado coletivo é destruída.

É à luz desta verdade simples e luminosa que o editorial de Rui Tavares Guedes, publicado a 11 de março de 2026 na VISÃO (Edição 1723), se torna ainda mais insuportável e mais necessário. Guedes recorda-nos que o mundo reage com mais veemência a um aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que ao bombardeamento de uma escola no Irão, onde mais de uma centena de meninas entre os 7 e os 12 anos perderam a vida. Esta constatação não é apenas um diagnóstico jornalístico: é uma acusação moral.


O autor descreve como os nossos vieses – geográficos, ideológicos, culturais ou simplesmente afetivos – moldam a forma como sentimos ou deixamos de sentir a dor dos outros. Mesmo perante evidências crescentes de que o ataque poderá ter sido perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, especialistas das Nações Unidas insistem num apuramento rigoroso de responsabilidades, enquanto grande parte do mundo continua indiferente.

O problema, como sublinha o jornalista, não se limita à tragédia em si, mas à desigualdade do luto. A mesma atrocidade, ocorrida na Europa ou num país culturalmente próximo, provocaria condenação imediata, ações diplomáticas coordenadas e um coro global de indignação. No entanto, quando as vítimas têm outros rostos, outras línguas, outras paisagens, a urgência moral desvanece-se — como se o sofrimento também tivesse nacionalidade. Esta seletividade emocional revela mais sobre nós do que sobre os factos: demonstra o quanto normalizámos a violência à distância, o quanto deixámos de reconhecer a humanidade onde ela permanece inteira.

E é precisamente aqui que regressamos a Martin Luther King Jr., cuja convicção ribomba como um eco incontornável: “Injustice anywhere is a threat to justice everywhere.”. As palavras de King recordam-nos que cada injustiça — sobretudo quando recai sobre aqueles que nada fizeram para merecê-la — corrói o edifício moral que sustenta a convivência humana. A morte de crianças, seja onde for, é a forma mais absoluta dessa injustiça. Não existe equilíbrio ético possível enquanto aceitarmos que existam vítimas toleráveis e vítimas intoleráveis; enquanto permitirmos que a dor seja hierarquizada e a indignação, seletiva.

O editorial do Rui Tavares Guedes é, assim, um alarme urgente — e profundamente atual — à re-humanização do olhar, à superação dos nossos vieses morais e à recusa firme da normalização da morte de inocentes, onde quer que aconteça. Recorda-nos que a compaixão não pode ser geográfica; que a empatia não pode depender do idioma em que se grita; que a vida de uma criança iraniana vale tanto como a de uma criança europeia ou de qualquer outro lugar do mundo.

É um apelo para recuperarmos aquilo que nos faz humanos: a capacidade de reconhecermos a dor alheia como nossa, de recusarmos a indiferença como resposta, de não aceitarmos que o mundo continue a girar como se nada fosse quando o futuro — porque as crianças são sempre o futuro — é destruído a sangue-frio.

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