segunda-feira, 16 de março de 2026

A paz é inconveniente

O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano

Quando, a 28 de fevereiro, os Estados Unidos bombardearam o Irão, percebeu-se rapidamente que o Médio Oriente voltaria a entrar em polvorosa. À medida que acumulamos anos e experiência, vamos compreendendo que há ciclos que se repetem. Tal como existem ciclos económicos, também existem ciclos de conflito.

A minha consciência política surgiu no início do milénio, com a invasão do Iraque, na era Bush. Hoje percebo que existe um padrão histórico que se repete. Se isto soa frio, soa. Mas talvez seja precisamente essa frieza analítica que nos permite reconhecer como os conflitos regressam, década após década.

Ainda assim, qualquer guerra — especialmente nos dias que correm — soa a despropósito. Estamos em pleno século XXI. Temos inteligência artificial a entrar nas nossas vidas, tecnologias capazes de transformar economias e sociedades inteiras, e continuamos, paradoxalmente, a assistir a homens poderosos que gostam de “brincar” às guerras para afirmar posições geopolíticas os escamotear questões “domésticas”.

O problema é que essas “brincadeiras” não acontecem em tabuleiros abstratos. O facto de homens poderosos gostarem de “brincar” às guerras não seria particularmente grave se o fizessem nos seus quintais, com espadas. A realidade, porém, é outra: quem paga o preço são os inocentes. Quem morre, quem perde a casa, quem vê a sua vida suspensa são pessoas que não têm voz nem voto nas decisões que lhes destroem o quotidiano.

É neste contexto que surge aquilo que, em termos económicos e políticos, se designa por economia de guerra. Tradicionalmente, o conceito refere-se à reorganização das economias para sustentar conflitos: produção industrial orientada para armamento, mobilização de recursos estratégicos e concentração de poder económico e político. No entanto, no mundo contemporâneo, a economia de guerra tornou-se também um sistema que se alimenta da própria instabilidade.

Serve para afastar milhões de pessoas de uma vida digna. Serve para desestabilizar países ricos em recursos naturais, que acabam depois explorados em condições pouco dignas. Serve para alimentar cadeias de mão de obra barata — por vezes quase escrava. E serve, inevitavelmente, para gerar lucros para quem investe neste sistema. Porque há uma elite económica e financeira que investe nesta economia e que, em certa medida, precisa dela para continuar a prosperar.

O resultado é conhecido: gerações inteiras privadas de uma vida em paz. Povos que continuam sem voz, sem dignidade e sem liberdade, muitas vezes enquanto se invocam intervenções externas em nome da “libertação”.

Se existe tanto poder concentrado numa percentagem mínima da população mundial, seria legítimo esperar que esse poder fosse usado para promover a paz. No entanto, o argumento de que um conflito pode ser um “mal menor” para alcançar estabilidade lembra a velha máxima romana: o povo contenta-se com pão e circo.

Num país com 90 milhões de habitantes, onde cerca de 80% da população se posiciona contra o regime, capacitar o povo para que a democracia nasça das suas próprias mãos não parece ser o caminho mais lucrativo. Afinal, como se testa arsenal militar? Como se alimenta a indústria da defesa? Como se exploram recursos num país informado e com um povo verdadeiramente capaz?

Talvez seja precisamente por isso que, tantas vezes, a paz se torne tão inconveniente.

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