No dia 1 de maio, fui ao teatro ver o “Manual do Bom Fascista”, pelo TAS (Teatro de Animação de Setúbal), numa encenação de Célia David, a partir dum texto de Rui Zink. Trata-se da 152ª produção nestes 50 anos de existência, cumpridos em 2025.
Tive curiosidade em ver o que incomodava tanto o partido Chega de Setúbal que chegou a propor punir o TAS com o corte de apoios devido a esta produção. A peça trata da incoerência e boçalidade do indivíduo que é racista, misógino, politicamente extremista, tendencialmente fascista e que pulula por aí.
Fez-me lembrar da cidadã idosa dum bairro lisboeta que, do nada, resolveu destratar uma mulher negra apenas pela circunstância de se ter cruzado com ela no passeio, atirando-lhe à cara que não gostava de pretas. Lembrei-me também do idoso que há tempos matou a tiro um jovem negro num bairro de Lisboa, sem qualquer provocação e pelo mesmo motivo.
Vieram-me à memória as dezenas de mulheres portuguesas que todos os anos são alvo de violência doméstica e acabam assassinadas pelos maridos ou ex-companheiros, apenas porque sim. E também dos comentários de ódio que são publicados constantemente nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais online.
Afinal, fiquei a pensar como é tão importante que as artes e a cultura em geral se posicionem como alerta contra a vaga crescente de destruição cívica e democrática que está em curso.
O que mais impressiona é a inversão de valores que esta gente escolheu adotar. Ou seja, a sã convivência, a boa educação, o civismo e a urbanidade foram lançados no lixo. E a tolerância, a aceitação da diferença, a prepotência, a falta de vergonha e de respeito foram fazer-lhes companhia. As pessoas que optaram por este caminho perderam competências sociais e tornaram-se selvagens, destituídos de qualquer sentido de empatia e convivência democrática.
Acham-se moralmente superiores e muitas vezes batem com a mão num peito inchado de religião, presunção e água benta, em frontal desacordo com o próprio evangelho que dizem seguir. Se a fé cristã ensina a amar os inimigos, esta gente prefere odiar não apenas os inimigos – se é que os têm – mas simplesmente todos aqueles que pensam de forma diferente deles, ou pertencem a uma etnia diversa ou seguem uma outra religião.
Este ambiente tem sido amplamente cultivado pela extrema-direita e vai contagiando a própria comunicação social do País. Já não há paciência para ouvir debates em que participem elementos de partidos radicais, que nunca estão lá para debater mas apenas para evitar que os outros terminem uma frase ou a explanação dum argumento. Interrompem, falam por cima, gritam e insultam. Até quando vamos aceitar este tipo de comportamento no espaço democrático?
A verdade é que as televisões estão a claudicar perante a alarvidade desta política e começam a perder a noção da realidade. Como exemplo, recorro a António Pinho Vargas, que publicou no seu Facebook uma imagem da massa imensa de portugueses que se manifestaram no 25 de Abril, e à qual a comunicação social nem prestou a devida atenção, preferindo, como de costume, dar voz e espaço aos inimigos da Democracia e da Liberdade. Deram quase a mesma atenção a esta grandiosa manifestação popular e a uma micro-manifestação de neonazis, com umas dezenas de indivíduos…
Na luta das audiências não pode valer tudo. Sabemos da importância dos shares e da sua ligação com a vertente comercial, mas não se confunda informação com entretenimento nem com interesses comerciais ou publicitários. A licença duma televisão que trabalha em informação não se pode centrar apenas em vender sabonetes. Há mais vida para além dos trocos.
Por outro lado, é bom que não se menospreze o povo português, que neste 25 de Abril veio em força para a rua dar um sinal inequívoco de inconformismo, incluindo os jovens. Não brinquem connosco!
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