Extraordinária é a capacidade de criação do roteirista do filme Brasil. Analistas que detestam o governo disseram que o Lula 3 acabara, estava morto. Só faltava removê-lo de cena para dar lugar, em outubro, ao governo de Flávio Bolsonaro.
Contrafeitos, esses mesmos analistas já começaram a dizer que Lula é um homem de sorte, dado que seu encontro com Donald Trump na Casa Branca terminou bem. Ao chamá-lo de “homem de sorte”, o que pretendem é desvalorizar seus passos certos.
O encontro era para ter durado meia hora, ou um pouco mais. Estendeu-se por quase três horas. Perguntado sobre como transcorreu, Lula respondeu: “Olhem para minha cara. Pareço feliz ou não?” — e abriu um largo sorriso.
Tanto mais feliz porque, como homem de sorte, ele estava fora de Brasília no dia em que o bolsonarismo amargou um duro golpe: a operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, cotado para vice na chapa de Flávio.
Quem o disse? O próprio Flávio, em 14 de junho do ano passado, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo:
— Em relação à vice, quem eu acho que tem todas as credenciais para ser é o Ciro. Mas essa é uma decisão que se toma muito mais na frente. O perfil do Ciro é um bom perfil. É nordestino, é de um partido bem forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele. Então, sem dúvida alguma, é o nome que está colocado.
Ontem, em nota oficial, Flávio “largou a mão” de Ciro para não se queimar:
— O senador Flávio Bolsonaro acompanha com atenção e considera graves as informações divulgadas pela imprensa. Entendemos que fatos dessa natureza devem ser apurados com rigor e transparência pelas autoridades competentes, sempre com respeito ao devido processo legal. […] Esperamos por uma ampla apuração.
Marcado para a próxima segunda-feira, o ato que formalizaria o apoio público do PP de Ciro à reeleição de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, deverá ser adiado. Os que antes o festejavam agora querem distância dele. Não sem razão.
A Polícia Federal considera que os benefícios recebidos por Ciro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, extrapolavam as relações de amizade entre os dois. A saber:
Mesadas recorrentes: pagamentos mensais que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.
Viagens e hospedagens: custeio de voos privados e estadias em hotéis de luxo, como o Park Hyatt, em Nova York.
Cartão de crédito: disponibilização de cartões de Vorcaro para cobrir gastos pessoais e restaurantes de alto padrão.
Uso de imóvel: desfrute gratuito de um imóvel de luxo pertencente ao banqueiro, utilizado “como se fosse do próprio parlamentar”.
Negócios societários: Ciro, seu irmão, suas filhas e sua ex-mulher teriam adquirido uma participação de 30% em uma empresa de Vorcaro (avaliada em R$ 13 milhões) por apenas R$ 1 milhão.
E tudo em troca do quê?
A principal contrapartida política identificada foi a apresentação, por Ciro, da Emenda nº 11 à Proposta de Emenda à Constituição 65/2023. Ela propunha elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. A Polícia Federal afirma que o texto foi redigido pela assessoria do Banco Master e entregue em um envelope na casa de Ciro. A medida beneficiaria bancos médios como o Master, permitindo que Vorcaro expandisse operações com garantias do FGC.
Lá dos Estados Unidos, para Ciro e os demais investigados, Lula mandou o recado: “Espero que todos sejam inocentes”. Com isso, ele mostra que está mais vivo do que nunca, firme no jogo e, claro, com a sorte ao seu lado. Que continue assim.
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