sábado, 29 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Notas sobre a mentira da era Trump

Dois dos regimes mais abomináveis da história da humanidade chegaram ao poder no século XX, e ambos se estabeleceram com base na violação e no esfacelamento da verdade, cientes de que o cinismo, o cansaço e o medo podem tornar as pessoas suscetíveis a mentiras e falsas promessas de líderes determinados a alcançar o poder incondicional. Como Hannah Arendt escreveu em seu livro de 1951, Origens do totalitarismo: “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).”


O alarmante para o leitor contemporâneo é que as palavras de Arendt soam cada vez menos como um comunicado do século passado e mais como um terrível reflexo do panorama cultural e político em que vivemos hoje — um mundo no qual as fake news e as mentiras são divulgadas em escala industrial por “fábricas” de trolls russos, lançadas num fluxo ininterrupto pela boca e pelo Twitter do presidente dos Estados Unidos, e espalhadas pelo mundo todo na velocidade da luz por perfis em redes sociais. O nacionalismo, o tribalismo, a sensação de estranhamento, o medo de mudanças sociais e o ódio aos estrangeiros estão novamente em ascensão à medida que as pessoas, trancadas nos seus grupos partidários e protegidas pelo filtro de suas bolhas, vêm perdendo a noção de realidade compartilhada e a habilidade de se comunicar com as diversas linhas sociais e sectárias.

No entanto, não quero fazer uma analogia direta entre as circunstâncias atuais e os horrores opressivos da época da Segunda Guerra Mundial, apenas olhar para determinadas condições e atitudes — ao comentar as obras de George Orwell 1984 e A revolução dos bichos, Margaret Atwood as chamou de “sinais de alerta” — que tornam um povo suscetível à demagogia e à manipulação política, e transformam uma nação numa presa fácil para os aspirantes a autocratas. Quero examinar como o descaso pelos fatos, a substituição da razão pela emoção, e a corrosão da linguagem estão diminuindo o valor da verdade, e o que isso significa para os Estados Unidos e para o mundo.

“O historiador sabe o quão frágil é a tessitura dos fatos no cotidiano em que vivemos”, escreveu Arendt em 1971, no ensaio “A mentira na política”. “Ela está sempre correndo o risco de ser perfurada por uma única mentira ou despedaçada pela mentira organizada de grupos, países ou classes, ou negada e distorcida, muitas vezes cuidadosamente acobertada por calhamaços de mentiras, ou simplesmente autorizada a cair no esquecimento. Fatos necessitam de testemunhos para serem lembrados, e de testemunhas confiáveis para serem oficializados, de modo a encontrar um lugar seguro para habitar o domínio dos interesses humanos.”

O termo “declínio da verdade” (usado pelo think tank Rand Corporation para descrever “o enfraquecimento do papel dos fatos e análises” na vida pública norte-americana) entrou para o léxico da era da pós-verdade, que inclui também expressões agora corriqueiras como “fake news” e “fatos alternativos”. E não só as notícias são falsas: também existe a ciência falsa (produzida por negacionistas das mudanças climáticas e anti-vaxxers, os ativistas do movimento antivacina), a história falsa (promovida por revisionistas do Holocausto e supremacistas brancos), os perfis falsos de norte-americanos no Facebook (criados por trolls russos) e os seguidores e “likes” falsos nas redes sociais (gerados por bots).

Trump, o 45º presidente dos Estados Unidos, mente de forma tão prolífica e com tamanha velocidade que o The Washington Post calculou que ele fez 2.140 alegações falsas ou enganosas no seu primeiro ano de governo — uma média de quase 5,9 por dia. As mentiras dele — sobre absolutamente tudo, desde as investigações sobre a interferência russa nas eleições, passando por sua popularidade e suas conquistas, até o tempo que passa vendo TV — são apenas o mais espalhafatoso entre os vários sinais de alerta acerca de seus ataques às instituições democráticas e normas vigentes. Ele ataca rotineiramente a imprensa, o sistema de justiça, as agências de inteligência, o sistema eleitoral e os funcionários públicos responsáveis pelo bom funcionamento do governo norte-americano.

Entretanto, os ataques à verdade não estão limitados aos Estados Unidos. Pelo mundo todo, ondas de populismo e fundamentalismo estão fazendo com que as pessoas recorram mais ao medo e à raiva do que ao debate sensato, corroendo as instituições democráticas e trocando os especialistas pela sabedoria das multidões. Alegações falsas sobre as relações financeiras do Reino Unido com a União Europeia (em anúncios da campanha do partido Vote Leave num ônibus) ajudaram a mudar a votação em favor do Brexit; e a Rússia intensificou a propagação da sua dezinformatsiya durante as campanhas eleitorais na França, na Alemanha, na Holanda e em outros países, em esforços orquestrados de propaganda para desacreditar e desestabilizar democracias.

O papa Francisco nos lembra: “Não existe desinformação inofensiva; acreditar na falsidade pode ter consequências calamitosas.” O ex-presidente Barack Obama comentou que “um dos maiores desafios que temos em nossa democracia é o fato de não compartilharmos a mesma base de fatos” — atualmente as pessoas estão “operando em universos de informação completamente diferentes”. E o senador republicano Jeff Flake fez um discurso no qual alertou que “2017 foi o ano em que nós vimos a verdade — objetiva, empírica, baseada em evidências — ser mais agredida e atacada do que em qualquer outro período da história norte-americana, por meio das mãos da figura mais poderosa do nosso governo”.9

Como isso aconteceu? Quais são as raízes da falsidade na era Trump? Como a verdade e o bom senso se tornaram espécies ameaçadas de extinção, e o que sua morte iminente sugere para o futuro do nosso discurso público, da nossa política e dos nossos governantes? Esse é o tema deste livro.

* * *

É muito fácil encarar Trump — um candidato que baseou sua carreira política no pecado original do nascimentismo (ou birtherism) — como um cisne negro que conquistou seu cargo graças a uma soma perfeita de fatores: um eleitorado frustrado ainda se recuperando da ressaca da crise financeira de 2008; a interferência dos russos na eleição com uma enxurrada de fake news a favor dele nas redes sociais; uma oponente altamente polarizada que simbolizava a elite de Washington, acusada pelos populistas; e uma publicidade espontânea estimada em 5 bilhões de dólares graças à cobertura dos veículos de imprensa obcecados com as visualizações e os cliques gerados pelo ex-astro de reality show.

Se um escritor criasse um vilão como Trump — uma personificação megalomaníaca e extravagante do narcisismo, mendacidade, ignorância, preconceito, grosseria e demagogia com impulsos tirânicos (isso sem falar que é alguém que consome até uma dúzia de Coca-Cola diet por dia) —, seria acusado de ter produzido um personagem muito fantasioso ou sem nenhuma verossimilhança. Na verdade, o presidente dos Estados Unidos frequentemente se apresenta como um personagem menos convincente do que seria uma mistura de Ubu Rei, Triumph the Insult Comic Dog e um personagem descartado de Molière.

No entanto, por mais que a personalidade de Trump possua traços cômicos, não devemos nos cegar diante das consequências tremendamente sérias de seus ataques à verdade e ao Estado de direito, que evidenciam a vulnerabilidade de nossas instituições e comunicações digitais. Um candidato tão exposto durante a campanha por seu histórico de mentiras e práticas comerciais enganosas dificilmente conseguiria tanto apoio popular se setores do público não tivessem adotado uma postura um tanto quanto blasé em relação à verdade. É inegável que existem problemas sistêmicos em relação ao modo como as pessoas obtêm as informações e como passaram a pensar de forma cada vez mais polarizada.

Com Trump, a esfera pessoal é política e, em muitos sentidos, ele é menos uma anomalia caricata e mais um bizarro epítome de uma série de atitudes mais amplas e interligadas que corroem lentamente a verdade nos dias de hoje, desde a mistura do noticiário e da política com o entretenimento até a polarização tóxica que tomou conta da política norte-americana, passando pelo crescente desprezo populista em relação ao conhecimento especializado.

Essas atitudes, por sua vez, são símbolos das dinâmicas que foram ganhando corpo por anos a fio, criando um ambiente perfeito no qual Veritas, a deusa da Verdade (conforme foi retratada por Goya na famosa gravura Murió la Verdad), poderia adoecer e cair morta.

Já faz décadas que a objetividade — ou mesmo a ideia de que as pessoas desejam conhecer a melhor verdade disponível — está fora de moda. A famosa frase do ex-senador Daniel Patrick Moynihan — “Todo mundo tem o direito de ter suas próprias opiniões, mas não seus próprios fatos” — é mais atual do que nunca: a polarização se tornou tão extrema nos Estados Unidos que os eleitores dos estados de maioria republicana e dos de maioria democrata estão tendo dificuldades para entrar em consenso sobre os mesmos fatos. Isso vem acontecendo desde que um verdadeiro sistema solar de sites de notícias de direita passou a orbitar a Fox News e o Breitbart News e consolidou sua força gravitacional sobre a base republicana. E esse cenário vem sendo exponencialmente acelerado pelas redes sociais, que conectam usuários que pensam da mesma forma e os abastecem com notícias personalizadas que reforçam suas ideias preconcebidas, permitindo que eles vivam em bolhas, ambientes cada vez mais fechados e sem comunicação com o exterior.

Quanto a isso, o relativismo está em ascensão desde o início das guerras culturais, na década de 1960. Naquela época, ele foi abraçado pela Nova Esquerda, ansiosa para expor os preconceitos do pensamento ocidental, burguês e primordialmente masculino; e por acadêmicos que pregavam o evangelho do Pós-modernismo, que argumentava que não existem verdades universais, apenas pequenas verdades pessoais — percepções moldadas pelas forças sociais e culturais de um indivíduo. Desde então, o discurso relativista tem sido usurpado pela direita populista, incluindo os criacionistas e os negacionistas climáticos, que insistem que suas teorias sejam ensinadas junto com as teorias “baseadas na ciência”.

O relativismo, é claro, combina perfeitamente com o narcisismo e a subjetividade que estão em expansão, desde “A década do eu”, de Tom Wolfe, até a autoestima na era das selfies. Não é nenhuma surpresa, portanto, que o efeito Rashomon — o ponto de vista de que tudo depende do seu ponto de vista — venha permeando nossa cultura, desde livros de sucesso como Destinos e Fúrias, de Lauren Groff, até séries de TV como The Affair, baseados na ideia de realidades conflitantes e narradores em quem não se pode confiar.

Tenho lido e escrito sobre muitos desses assuntos nas últimas quatro décadas, desde a ascensão do conceito de desconstrução e das batalhas acerca do cânone literário nos campi universitários; debates sobre a releitura ficcional de fatos históricos em filmes como JFK, de Oliver Stone, e A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow; esforços feitos pelos governos Clinton e Bush para se furtar à transparência e definir a realidade em seus próprios termos; a guerra de Donald Trump contra a linguagem e seus esforços para normalizar o anormal; e a influência da tecnologia na forma como processamos e compartilhamos informações. Nestas páginas pretendo recorrer à leitura de livros e da realidade atual para ligar alguns pontos acerca dos ataques à verdade e situá-los num quadro mais amplo de dinâmicas sociais e políticas que vêm se infiltrando em nossa cultura há anos. Também pretendo chamar a atenção para alguns livros e artigos proféticos do passado, que ajudam a entender melhor o dilema em que 
nos encontramos hoje.

A verdade é um dos pilares da democracia. Como observou a ex-procuradora-geral interina Sally Yates, a verdade é uma das coisas que nos separam de uma autocracia: “Nós podemos — e devemos — debater políticas e questões, mas esses debates devem se basear em fatos em comum, e não em apelações baratas à emoção e ao medo na forma de mentiras e de uma retórica polarizante.”

“Não apenas existe uma verdade objetiva, como deixar de dizê-la é uma questão importante. Não temos como controlar se os agentes públicos mentem para nós. Mas temos como controlar se eles devem responder por essas mentiras ou se então, seja por exaustão ou para proteger nossos interesses políticos, vamos olhar para o outro lado e igualar a indiferença à verdade.”

Michiko Kakutani, "A morte da verdade" (Introdução)

Desagregação profunda

Maurício Romão, que em conjunto com Adriano Oliveira e Maurício Garcia fundaram e coordenam o grupo “Pesquisa em Debate”, do Recife, hoje em todo o país, recentemente escreveu o artigo “Desaprovação de Governantes no mundo contemporâneo”, com o impressionante score de avaliação dos governos em pesquisa mundial em 22 países, da aprovação média positiva em 38,8% dos governantes, e a desaprovação média negativa em 51,7%, apontando os seguintes fatores: (a) a crise de representação das economias liberais; (b) o acirramento da polarização; (c) cada cidadão julgando o governo pela sua demanda específica, e não pela sua totalidade; (d) o indivíduo como protagonista de suas informações e desejos no mundo digital; (e) as posições políticas, exacerbadas pela religião, desemprego, percepção de direitos, e outros fatores; (f) a desorganização das bases produtivas e de distribuição decorrentes do COVID; (g) o desequilíbrio fiscal, na tentativa, por parte dos governantes, de atender às díspares demandas sociais. Uma verdadeira desagregação.

O mundo complica-se economicamente. O PIB sobe, e as diferenças sociais aumentam. Segundo o “World Inequality Report”, de 1980 para cá os 10% mais ricos aumentaram sua participação no PIB do mundo, enquanto os 50% mais baixos diminuíram a sua participação. Hoje, 2.500 pessoas detêm patrimônio equivalente a 12% do PIB mundial, na concentração das decisões e espiral do conflito.

Após a falência do “socialismo” na solução da igualdade e liberdade social; após a falência das “democracias” na solução da representatividade e distribuição de renda; vem aí o “fascismo”, no descontamento das classes média comprimidas com a representatividade atual e não aceitação de soluções à esquerda, na geração da massa de apoio a líderes radicais de direita, que também não resolverão o problema, porque olham, apenas, para si mesmos, e representam. somente, o grande capital. E as economias enfrentando as crescentes limitações ecológicas, que acirrarão ainda mais a situação. Uma desagregação completa.

Trump, ao presidir os Estados Unidos como se fosse uma S.A., aumenta a desagregação e o conflito, na anteposição às nações que ele considera como “inimigas”, e mesmo contra os interesses do que seriam os seus “aliados” mais próximos. E como disse Napoleão, “Todo homem luta com mais bravura pelos seus interesses do que pelos seus direitos”. E assim vai.

Aqui, abaixo da linha do Equador, vida que segue. Nem o PIB sobe, há 15 anos, e as diferenças sociais mais do que aumentam; estamos longe de um consenso. Equilíbrio fiscal, nem se pensar. No futebol, Alemanha 7 x 1 no Brasil na Copa do Mundo de 2014, Argentina 4 x 1 no Brasil nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, nos piores resultados já atingidos, no que parece ser o “novo normal”. Roberto DaMatta compara a pequenez de nossa economia e condições sociais com a grandeza de nossa cultura, como o futebol, a música e nossos valores, que dão a amálgama de nosso país. O que ocorre hoje no futebol brasileiro é indicador de desagregação, na prevalência de interesses corporativos.

Nesta semana, em um shopping, ocorreu de eu escutar uma criança perguntando a outra: “Você acha que o julgamento foi “puro”, ou “impuro”? Pensei, instantaneamente: “Foi nos termos da Lei”; na esperança de alguma razão. Polarização precoce, infelizmente. Que cuidemos de nossas crianças, são somente crianças.

Vã razão.
Ricardo Guedes

Os golpistas estão nus

Vem aí mais um ignóbil aniversário do golpe militar reverenciado por Jair Bolsonaro e muitos de seus fiéis. Um regime inaugurado sem cadáveres. “No dia 1° de abril de 1964 também não morreu ninguém. Mas centenas e milhares morreram depois”, lembrou Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, no julgamento que converteu em réus Bolsonaro, cinco militares e dois delegados por tentativa de golpe de Estado. Pouco antes, a colega de Corte Cármen Lúcia havia citado um livro lançado no ano passado pela historiadora mineira Heloisa Starling.

A Máquina do Golpe sustenta que a ditadura instaurada em 1964 resultou de ­duas décadas de ruminações. “Não se faz golpe num dia”, afirmou a magistrada.

A acusação pela qual Bolsonaro é réu compõe-se de vários capítulos. O primeiro é de 29 de julho de 2021 e o último, de 8 de janeiro de 2023. Não houve mortes dois anos atrás em Brasília, como não tinha havido em 1964. Já violência… Marcela da Silva Pinno, policial militar de serviço naquele dia, teve o capacete arrebentado por uma barra de ferro, como descreveu em uma CPI do Congresso em 2023. Um trecho de seu depoimento à comissão parlamentar integra um vídeo de cinco minutos exibido no Supremo na quarta-feira 26 com um apanhado de atos violentos praticados por bolsonaristas no 8 de Janeiro. O vídeo foi idealizado pelo juiz Alexandre de Moraes, relator do processo contra o ex-presidente. Para o togado, é importante enfrentar um fenômeno descrito na academia como “viés de positividade”. Este consiste em romantizar memórias. “Isso não é violência?”, perguntou ele, enquanto as imagens eram exibidas.

Bolsonaro reclamou do vídeo, por não constar dos autos. Segundo Moraes, os códigos Penal e de Processo Penal admitem o uso de fatos notórios em um julgamento. O capitão poderia tê-lo visto in ­loco, mas sua coragem esgotara-se. A Primeira Turma do STF, de cinco magistrados, levou dois dias para examinar a denúncia contra o capitão e seus comparsas proposta pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet. Na terça-feira 25 (três horas pela manhã, três à tarde) e no dia seguinte (três horas matinais). De surpresa, o ex-presidente tinha ido ao tribunal na terça, aparente demonstração de valentia que durou 24 horas. No dia seguinte, preferiu acompanhar a sessão no aconchego do gabinete de Flávio, o filho senador. No tribunal, sentara-se na primeira fila da sala. Perto, estavam dois familiares de vítimas da ditadura que ele enaltece. Hildegard Angel, irmã de Stuart Angel, estudante assassinado em 1971, e Ivo Herzog, filho de Vladimir Herzog, jornalista “suicidado” em 1975.

Nenhum fardado daquele regime assassino prestou contas à Justiça. Agora, Bolsonaro, os generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira e Walter Braga Netto, o almirante Almir Garnier e o tenente-coronel do Exército Mauro Cesar Barbosa Cid serão julgados, ao lado dos delegados federais Alexandre Ramagem e Anderson Torres. O octeto integra o que Gonet chama de “núcleo crucial” do golpe. Os cabeças, na falta de um termo melhor. O procurador-geral apresentou denúncias contra mais quatro “núcleos”, compostos ao todo por 26 conspiradores, dos quais 19 das Forças Armadas. Todos os nomeados, assinala Gonet, pertenciam a uma organização criminosa “com forte influência de setores militares” e “liderada” pelo ex-presidente. Três núcleos já têm data para saber se virarão réus: 9 e 30 de abril e 7 de maio.

Nesses julgamentos, o STF decide se a denúncia da Procuradoria reúne elementos suficientes para dar continuidade ao processo. No caso do “núcleo crucial”, a Primeira Turma entendeu que sim, por unanimidade (5 a 0). O ilícito principal estava no vídeo de ­Moraes. Diz o artigo 359-M, do Código Penal: é crime “tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído”. Em 8 de janeiro de 2023, havia faixas a clamar por uma intervenção militar. A invasão do Supremo e do Congresso caracteriza ainda o crime do artigo 359-L: “Tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais”. “Vamos entrar e tomar o que é nosso, vamos entrar e tomar o poder”, afirmava um manifestante no vídeo.

A Procuradoria selou 532 acordos para encerrar processos contra insurrectos. Estes confessaram que o objetivo era conseguir a intervenção militar. “Golpe tem povo, mas tem tropa, tem armas e tem liderança. Um ano, dois anos de investigação, não descobriram quem porventura seria esse líder”, disse Bolsonaro na porta do Senado, após se tornar réu, em pronunciamento no qual se declarou perseguido e voltou a atacar as urnas eletrônicas.

O golpe de 1964 não teve liderança única. O início da derrubada de João Goulart deu-se com o deslocamento de tropas de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, então capital do País. À frente, o general Olímpio Mourão Filho, mas o ditador seria o marechal Humberto Castelo Branco. Outro general Mourão, o senador Hamilton, ex-vice de Bolsonaro, escreveu no ano passado, no aniversário do regime: “A Nação se salvou de si mesma”. Agora, ataca (e ameaça) o STF por fazer de Bolsonaro réu: “Se o povo constatar cabalmente que a lei tem lado e a Carta Magna é ignorada, pois não protege a todos, não sabemos o que pode acontecer”.

O capitão também não quer ser responsabilizado pelas destruições patrimoniais superiores a 20 milhões de reais causados por seus partidários em Brasília. Seu octeto é réu por dano ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado, além de quadrilha, tentativa de golpe e de abolição do Estado de Direito. “Destruição, eu?”, disse o capitão, ao ressaltar que estava nos Estados Unidos desde 30 de dezembro de 2022. “Não necessariamente o acusado tenha que ter estado no dia 8 de janeiro, mas se ele concorreu para que esse evento tivesse ocorrido, ele responde nos termos da lei. Não adianta a pessoa dizer que não estava no 8 de Janeiro, se ela participou de uma série de atos que culminaram com esse evento”, afirmou o juiz Cristiano Zanin no julgamento, ao lembrar o chamado “concurso de pessoas”. Pelo artigo 29 do Código Penal, “quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade”.

Com a abertura de ação penal, o Supremo agora verificará o que Bolsonaro e os demais réus fizeram para inspirar ou provocar o 8 de Janeiro, se há provas e qual a punição cabível para tais condutas. Haverá depoimentos, perícias e todas as medidas previstas em um processo sob uma democracia. Ou seja, os golpistas terão o amparo das leis que pretendiam abolir. Em Brasília, as apostas são de que o desfecho virá ainda em 2025.

Na denúncia da Procuradoria, a tentativa de golpe começa em julho de 2021, com uma live de Bolsonaro realizada com o intuito de minar a confiança popular nas urnas e na Justiça Eleitoral. Depois, houve uma reunião ministerial em julho de 2022 de teor golpista (o que fazer para impedir ou reverter a derrota na eleição), o evento com embaixadores estrangeiros para anunciar ao mundo o “roubo” no pleito, a preparação do decreto para anular o resultado das urnas e intervir no Tribunal Superior Eleitoral, os acampamentos na porta de quartéis e a pressão sobre as Forças Armadas. O capítulo final foi o 8 de janeiro de 2023.

O voto que preparou o caminho da ação penal e teve endosso unânime no STF foi arrasador até para o único juiz que fez alguns reparos ao caso e mostrou certa boa vontade com linhas de defesa dos acusados. Em 1h50, Moraes rebateu um a um os argumentos expostos na véspera pelos advogados dos réus, um total também de 1h50 de sustentações orais. “O ministro Alexandre (de ­Moraes) não deixou pedra sobre pedra”, afirmou Luiz Fux, que considera necessário a Corte repensar o tamanho das penas aplicadas pelos crimes do 8 de Janeiro e quer participar do interrogatório do delator Mauro Cid. O Supremo condenou até agora 497 baderneiros pelo 8 de Janeiro. Do total, 249 (cerca de metade) tiveram penas de até três anos, 146 pegaram de 11 a 14 anos e 102, acima de 16 anos. São 68% de homens e 32% de mulheres. Os idosos, 8%. Os dados foram compilados por Moraes. O bolsonarismo quer convencer a opinião pública de que “velhinhas de bíblia na mão” e mães de família têm sido sentenciadas, e com mão pesada. O símbolo da campanha é a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos. Ela pichou a frase “perdeu, mané” numa estátua em frente ao STF. Começou a ser julgada e há dois votos para puni-la com 14 anos de prisão. Fux pediu vistas, o que adiou a conclusão. Neste caso, ele parece propenso a levantar a discussão de revisão da dosimetria das penas.

Quanto à delação de Cid, a anulação foi requerida por Bolsonaro e Braga Netto. Os advogados da dupla dizem que o tenente-coronel mentiu. Cid prestou nove depoimentos na delação. O último, em novembro de 2024, serviu para explicar por que havia escondido informações. A omissão quase lhe custou o cancelamento do acordo. A colaboração não o livra da ação penal, ele também se tornou réu. Caberá à Corte decidir, no processo, o beneficio que ele merece. O delator pediu pena máxima de dois anos e que sua família não seja processada. Ao aceitar a denúncia contra Bolsonaro, Cid e cia., o STF rejeitou por unanimidade a anulação.

Com a vida difícil perante a lei, Bolsonaro apela à política. Insiste na ideia de o Congresso aprovar anistia a golpista. Após a manifestação esvaziada no Rio de Janeiro em 16 de março, convocou apoiadores para outra, em 6 de abril, em São Paulo. Na mesma Avenida Paulista ocorrerá em 30 de março um ato de propósito oposto: sem anistia. A eventual vitória de um aliado na eleição presidencial de 2026 poderia ainda lhe garantir perdão. Foi o que Donald Trump fez em relação os golpistas norte-americanos que invadiram o Capitólio em 6 de janeiro de 2021. O capitão sonha ainda com um bote salva-vidas de Trump. Seu filho deputado, Eduardo, está em autoexílio nos EUA e promete infernizar a vida de Moraes. Elon Musk, dono do ex-Twitter e conselheiro de Trump, juntou-se à trincheira. No julgamento que tornou Bolsonaro réu, escreveu em sua rede social: “Alexandre de Moraes não tem bens nos EUA?”

“Nós sabemos que as milícias digitais continuam atuando, inclusive durante este julgamento (…), na tentativa de intimidar o Poder Judiciário”, comentou o magistrado. “Não perceberam que se até agora não intimidaram o Poder Judiciá­rio, não vão. Seja com milícias digitais nacionais ou estrangeiras.”
André Barrocal

Vale a pena ser honesto no Brasil?

Era para ser um almoço em família como qualquer outro. Mas, lá pelas tantas, Gilberto Braga (1945-2021) quase se engasgou com a comida ao ouvir um comentário do irmão: "Tio Darcy poderia estar rico", comentou Ronaldo, se referindo ao irmão de sua mãe, Yedda, que trabalhava como delegado na Polícia Federal. "Nunca trouxe uma garrafa de uísque", queixou-se. Passado o susto, Gilberto resolveu tomar a palavra: "Você acha que alguém não pode ser honesto e ganhar dinheiro?". Como sua pergunta ficou sem resposta, ele insistiu: "Não vale a pena ser honesto no Brasil?"

A cena acima é descrita na biografia Gilberto Braga – O Balzac da Globo, escrita pelos jornalistas Artur Xexéo (1951-2021) e Maurício Stycer. "Pela primeira vez em sua carreira, Gilberto Braga definiu o tema de uma novela antes mesmo de ter uma história para contar", explicam os autores no livro. "Uma novela sobre ética, determinada a responder: ‘Vale a pena ser honesto num país onde todo mundo é desonesto?'".

No mesmo dia do tal almoço em família, Gilberto Braga começou a escrever a sinopse daquela que seria uma de suas novelas de maior audiência: Vale Tudo. Exibida entre 16 de maio de 1988 e 6 de janeiro de 1989, fez tanto sucesso que, no aniversário de 60 anos da TV Globo, ganha uma nova versão, assinada por Manuela Dias, autora da novela Amor de Mãe e da série Justiça, entre outras produções.

"Não acho, de forma alguma, que o Brasil seja um país onde ‘todo mundo é desonesto'. Pelo contrário. Acho que o brasileiro é majoritariamente honesto e trabalhador", defende Manuela Dias, que assistiu à versão original quando tinha 11 anos e, ainda hoje, não se esquece de algumas cenas memoráveis, como aquela em que Raquel (interpretada por Regina Duarte) rasga o vestido de noiva da filha, Maria de Fátima (papel de Glória Pires). "Sou do time que acha que vale muito a pena ser honesto, tanto no Brasil quanto em qualquer lugar. Caráter é o que você faz quando não tem ninguém olhando", diz, citando uma frase atribuída ao filósofo Epicuro.

Mas Gilberto Braga não foi o primeiro a se questionar: "Vale a pena ser honesto? ". Segundo o economista Eduardo Giannetti, essa pergunta é feita desde Platão, na Grécia Antiga. No segundo livro de A República, o filósofo grego relata a fábula de um camponês que, certo dia, encontra o anel da invisibilidade. "Quem continuaria honesto se pudesse ficar invisível? ", indaga o autor de O Anel de Giges.

"Sócrates, então, tenta mostrar que, sim, vale a pena ser honesto mesmo em uma situação de total impunidade", afirma Giannetti. No caso de Vale Tudo, o economista pondera que, desde 1989, o caráter do brasileiro não mudou – o que mudou, e muito, foi a situação do país. "A derrocada do Cruzado e a volta da inflação tornavam todos os valores do sistema econômico brasileiro muito arbitrários e imprevisíveis", explica o economista. "Havia uma insegurança generalizada em relação ao futuro do país. O que predominava era a lei da selva: o salve-se quem puder."


Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Giannetti ressalta que a sociedade brasileira só conseguiu respirar aliviada em 1994 quando foi instituído o Plano Real. Mesmo assim, duas características ainda dificultam nossa adesão às normas de convivência: o individualismo exacerbado, quando se pensa muito em si mesmo e pouco, ou quase nada, no outro, e a miopia temporal, quando se privilegia o agora em detrimento do depois.

"O trânsito brasileiro talvez seja a melhor ilustração do nosso individualismo", observa Giannetti. "É como dizia aquele antigo comercial de TV: o negócio é levar vantagem em tudo", recorda, citando o anúncio do cigarro Vila Rica, apresentado pelo ex-jogador Gerson. Já a miopia temporal, explica, é o primado do presente em relação ao futuro. "As pessoas agem muito tendo em vista o imediato. Tudo que requer sacrifício momentâneo para obtenção de benefícios futuros é complicado no Brasil. Isso compromete todo e qualquer planejamento a longo prazo", adverte.

A exemplo de Giannetti, o filósofo Clóvis de Barros Filho, a historiadora Mary Del Priore e o antropólogo Roberto Da Matta também são convidados a responder a pergunta que, lá atrás, tanto inquietou Gilberto Braga: "Vale a pena ser honesto no Brasil? ".

Coautor do livro Ética e Vergonha na Cara!, ao lado do educador Mário Sérgio Cortella, Barros Filho responde que sim, vale a pena. E acrescenta: em qualquer tempo e lugar. "Não se trata de compensação. Mas, de fazer a coisa certa", afirma.

Indagado sobre se ética e honestidade são sinônimos, explica que não. Ética, ensina o "explicador", como ele gosta de ser chamado, é a arte da convivência. Já a honestidade, entre outros atributos, é uma referência de conduta. Para quem deseja viver em harmonia, ele dá uma dica: seja honesto! "A honestidade está para a ética assim como a aritmética está para a matemática", compara.

Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Mary Del Priore afirma que a desonestidade é uma característica que, há séculos, percorre o Brasil de alto a baixo. "Desde o período colonial, os interesses privados sempre se sobrepuseram aos interesses públicos", lamenta. "O ditado ‘Mateus, primeiro os meus' era regra."

A autora da coleção Histórias da Gente Brasileira afirma que, se tivesse que enumerar alguns trambiqueiros dos períodos colonial, imperial e republicano, a lista seria enorme. Mas, há, também, exemplos de probidade, e o melhor deles é Dom Pedro 2°. "Nunca quis um tostão dos cofres públicos", enfatiza. "Morreu pobre e no exílio".

Quanto à pergunta de Gilberto Braga, ela diz que continua atualíssima. E que, em todos os grupos sociais, avançamos pouco desde 1988. "Somos os únicos desonestos? Não. O atual presidente dos Estados Unidos dá o maior exemplo: responde a processos por enriquecimento ilícito, compra de favores, fraude eleitoral... Quer mais?"

Uma resposta desconcertante é a do antropólogo Roberto Da Matta. "Vale a pena, mas é difícil", diz. "Ser honesto é tão difícil quanto não mentir. Se você vive em sociedade, é impossível", acrescenta. Da Matta é autor de uma crônica intitulada "História de Pedro Honorato, o Político Honesto".

Filho de mãe rezadeira e pai lavrador, Pedro Honorato, quando garoto, prometeu a Deus ser honesto. E procurou cumprir sua promessa. Adulto, candidatou-se a prefeito. Foi eleito. De cara, demitiu duas funcionárias que não trabalhavam: a sobrinha de um senador e a amante do ex-prefeito. Logo, começou a colecionar desafetos. Um dia, negou um pedido à própria mulher. Foi a gota d'água.

"No fim, o pobre coitado não tinha onde morar. Foi expulso de casa porque não quis nomear o cunhado como secretário. Na rua da amargura, pergunta para si mesmo: o que fiz de errado?", observa o antropólogo. "Tem um axioma que explica o Brasil: tenho coragem para fazer tudo, menos para negar o pedido de um amigo."

O compositor Nilo Romero e o ator Reginaldo Faria participaram da versão original de Vale Tudo. O primeiro é coautor de Brasil, tema de abertura da novela, ao lado de Cazuza (1958-1990) e George Israel. O segundo deu vida ao empresário Marco Aurélio – aquele que, a bordo de seu jatinho, dá uma "banana" para o telespectador.

Nilo Romero conta que Brasil foi criada por encomenda: não para Vale Tudo, mas para Rádio Pirata (1987), longa de Lael Rodrigues (1951-1989). Na hora de compor a música, ele e Israel misturaram samba e rock. Em seguida, mandaram uma fita cassete para Cazuza. "A versão dele chegou a tocar nas rádios, mas o insucesso do filme fez parecer que sua trajetória como hit terminaria rapidamente", avalia.

Nisso, Gilberto Braga assistiu ao show de Gal Costa e resolveu usar a versão dela como tema de abertura. "Brasil foi escolhida na sexta-feira anterior à estreia. A música foi gravada no sábado, Gal Costa colocou a voz no domingo e a novela estreou na segunda", conta Romero.

Quando recebeu o convite do diretor Dennis Carvalho para interpretar o mau-caráter Marco Aurélio, Reginaldo Faria pensou: "Vou apanhar na rua". Braço direito de Odete Roitman (papel de Beatriz Segall), desviava dinheiro da companhia aérea TCA, onde era diretor, para sua conta bancária. Ao longo da novela, porém, não levou uma "guarda-chuvada" sequer.

"Por incrível que pareça, Marco Aurélio não foi odiado pelo público. Eu era aplaudido por onde andava. O público se identificava com ele e, se pudesse, daria uma ‘banana' em seu lugar. Não para o Brasil, mas para quem afundou o Brasil", reflete o ator.

Que fim levou Marco Aurélio? Quem arrisca um palpite é Ana Paula Guimarães, autora do livro O Brasil Mostra Sua Cara – Vale Tudo, A Telenovela Que Escancarou a Elite e a Corrupção Brasileira: "Acho improvável que ele tenha se regenerado. É mais provável que tenha voltado ao Brasil e se candidatado a um cargo público nas próximas eleições. Isso, infelizmente, é muito Brasil!".