sábado, 8 de maio de 2021

Falta assumir guerra ao povo

A pena de morte só é permitida no Brasil em situação de guerra. E, salvo engano, o Brasil não está em guerra. A não ser que haja uma guerra do Brasil contra seu próprio povo. E aí é um povo muito bem delimitado. É um povo preto, pobre, favelado e periférico. Se há uma guerra contra esse povo, é só o Estado brasileiro assumir. E aí as execuções de hoje serão inquestionáveis legalmente e juridicamente 

A exceção como regra

Ao nomear como “Exceptis” a operação que invadiu a comunidade de Jacarezinho, na capital fluminense, na última quita feira, o governo já deixava claro que a lei não condicionaria a ação dos seus agentes, antecipando o que se converteu numa das maiores chacinas no do Estado do Rio de Janeiro nas últimas décadas.

O fato é que o ideal civilizatório de que todas as pessoas e, em especial, os agentes públicos (civis e militares) devem pautar as suas condutas pela legalidade jamais se consolidou no Brasil. Certamente, os dois regimes de exceção, fundados na ruptura da ordem constitucional, exercidos por meio do arbítrio e coroados pela impunidade daqueles que cometeram crimes contra a humanidade, não contribuíram para fortalecer, em nossa acidentada história republicana, a noção básica de império da lei.

A incompletude do estado de direito no Brasil transcende, porém, os regimes propriamente autoritários. A profunda e persistente desigualdade, o racismo estrutural e a forte hierarquização social têm se demonstrado obstáculos intransponíveis para que todas as pessoas sejam reconhecidas como sujeitos de direitos e, portanto, tratadas como igual respeito e consideração.


O que a imagem de corpos sempre pretos ensanguentados a cada nova chacina reforça é a realidade bruta de que a lei, nessas plagas, não é para todos. Que no Jacarezinho e nas demais periferias sociais brasileiras vigora um permanente estado de exceção. Que a “ordem” é determinada pelo arbítrio das milícias, do tráfego e, quando necessário, pelo arbítrio dos agentes do Estado.

Mais de três décadas de democracia não foram suficientes para pôr fim a um regime de exceção permanente que se impõe à grande parte da população. A perda de mais de 1 milhão de vidas, vitimadas por homicídios neste período, e a crueldade das experiências de comunidades dilaceradas pela violência, não foram suficientes para que governos democráticos levassem a cabo um plano de reformas das instituições de aplicação da lei, voltado a expandir o Estado de direito para todos os brasileiros.

Os poucos líderes que se propuseram modernizar as policias e o sistema de segurança e aplicação da lei criminal sucumbiram à resistência de interesses corporativos ilegítimos e políticos irresponsáveis, quando não coniventes ou mesmo beneficiários da deterioração do sistema de justiça criminal. O medo do crime abriu um amplo mercado para milícias e poder para maus policiais. Também rende votos para aqueles que oferecem uma solução rápida, fácil, mas, no entanto, incapaz de reduzir a criminalidade.

As políticas do “bandido bom é bandido morto”, da “Rota na rua”, dos “direitos humanos para humanos direitos” e de “armar o cidadão de bem”, que prevaleceram no Brasil nas últimas décadas, com amplo apoio da direita —como fez questão de deixar claro o general Mourão, ao legitimar a operação “Exceptis”— redundaram num retumbante fracasso. Com raras exceções, a constrangedora omissão de liberais e incompetência da esquerda também contribuíram para o fiasco na segurança pública.

A eleição de Bolsonaro e aliados armados, paradoxalmente, premiou justamente aqueles que mais têm contribuído para que a população se encontre refém da criminalidade e da violência de Estado.

A operação “Exceptis” não apenas afronta o Supremo Tribunal Federal, que impediu a realização de operações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia, mas também deixa clara a indisposição de determinados setores do Estado brasileiro de se submeter ao império da lei.

Privatizando o SUS

O governo federal está realizando consulta pública para implantar uma certa “Política Nacional de Saúde Suplementar para o enfrentamento da Pandemia da Covid-19” que, na visão de especialistas e instituições dedicadas à saúde pública, significa um pedido de autorização para “privatizar” o SUS. A consulta foi autorizada pelo Consu, o Conselho Nacional de Saúde Suplementar, formado pelos ministros da Saúde, da Casa Civil, da Economia e da Justiça, assumindo competência que tecnicamente deveria ser da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Segundo dois grupos de estudos, um da Faculdade de Medicina da USP e outro do Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ, o governo está aproveitando a pandemia para “passar a boiada” em favor das operadoras de planos de saúde.

A consulta, lançada na plataforma digital Participa + Brasil, da Presidência da República, tem 18 pontos. Segundo o Grupo de Estudos sobre Planos de Saúde da Faculdade de Medicina da USP (Geps) e o Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento na Saúde da UFRJ (GPDES), todos os pontos atendem aos interesses privados das operadoras em detrimento do interesse coletivo. Ao instituir a política, a consulta propõe integrar as ações da saúde suplementar ao SUS. Segundo os dois grupos, as práticas da saúde pública e da complementar são heterogêneas e muitas vezes divergentes, o que inviabiliza esta integração. A menos que se queira transformar o SUS numa “rede protetora das operadoras privadas”.


O governo propõe em sua consulta pública garantir o atendimento à saúde em “prazos razoáveis”. De acordo com análise feita pelo Geps e pelo GPDES, a ideia por trás deste ponto é remover o artigo 3º da Resolução Normativa 259 da ANS, que definiu prazos máximos para o atendimento e que “é uma pedra no sapato para a comercialização de planos de cobertura restrita”. A consulta também sugere proporcionar um ambiente de entendimento para solucionar conflitos entre operadoras e prestadores de serviços de saúde. Significa, segundo a análise dos grupos, aumentar a interferência dos planos nas condutas de médicos e outros profissionais de saúde.

Um dos pontos críticos é o que estabelece que um dos objetivos da política é “contribuir para o desenvolvimento sustentável do setor de saúde privada do país”. Para Geps e GPDES, “não há justificativa para o apoio governamental ao setor privado”. Está se oferecendo “suportes públicos para ampliar a privatização da saúde”. O que é ilegal e imoral num país tão desigual quanto o Brasil. Em outro ponto, a consulta propõe “estabelecer ações que visem o desestímulo ao atendimento de beneficiários de planos de saúde no SUS, no limite das coberturas contratadas”. De acordo com Januário Montone, primeiro presidente da ANS ainda no governo de Fernando Henrique, “querem baratear os planos para garantir maior acesso à população, reduzindo a cobertura e impondo limites de utilização”.

Há ainda diversas armadilhas enumeradas na análise da proposta feita pelos grupos da USP e da UFRJ e publicada em seus sites no dia 5 de maio. Uma delas é a inversão de valores hierárquicos, ao submeter a Agência Nacional de Saúde ao Conselho de Saúde Suplementar. O artigo 5º da proposta em consulta afirma que as ações da política nacional serão elaboradas pela ANS e “aprovadas” pelo Consu. O Conselho é um órgão político, sem qualificação técnica, ao contrário da Agência. Segundo Januário Montone, o Consu “perdeu sua finalidade com a criação da agência reguladora no ano 2000 e acabou sendo absorvido pelo Conselho Nacional de Saúde”.

Montone afirma “que esse plano tenta solapar os mais de 20 anos de regulação do setor de saúde suplementar”. Ele lembra as muitas medidas introduzidas na regulação do setor pela Lei Geral dos Planos de Saúde, como a proibição de restrições ao acesso aos planos, o direito à assistência de urgência e o ressarcimento ao SUS de custos gerados por detentores de planos. “Diziam que o mercado ia quebrar. Não quebrou. Em 2019 sua receita foi equivalente a 72% do orçamento do SUS, somando União, estados e municípios”. Para os grupos da UFRJ e da USP trata-se de “mais uma ofensa à saúde e à vida” que não pode ser tolerada. Diante disso, o governo recua ou tenta contradizer tantas constatações. Vai ser difícil.

O Brasil involuiu 20 anos

O isolamento brasileiro diante da histórica decisão do governo dos Estados Unidos de apoiar a suspensão temporária de patentes de vacinas para Covid-19 é especialmente emblemático porque nos permite fazer um retrato de hoje e de exatos 20 anos atrás, quando vivemos uma epopeia oposta da diplomacia brasileira e cravamos uma das nossas principais vitórias em organismos multilaterais, justamente no tema de patentes para remédios.

Foi em novembro de 2001, ainda sob os escombros do 11 de Setembro, que a mesma OMC, palco da guinada de Joe Biden, aprovou, em sua 4ª Conferência Ministerial realizada em Doha, no Qatar, uma resolução proposta inicialmente pelo Brasil prevendo que, em casos de epidemias, os países-membros da organização poderiam flexibilizar as regras de patentes previstas no Acordo de Direitos de Propriedade Intelectual Relacionadas ao Comércio e Saúde Pública (conhecido como Trips).

A resolução foi o marco final do que ficou conhecido como “guerra das patentes”, uma ofensiva do governo FHC em várias frentes (diplomática, econômica e de comunicação) para pressionar a indústria farmacêutica a baixar preços dos medicamentos que compunham o coquetel anti-Aids, fornecido gratuitamente pelo Ministério da Saúde, ameaçando com a quebra das patentes.


Corta para 2021, quando um desarvorado Itamaraty foi pego totalmente de surpresa pela mudança de posição dos Estados Unidos, que passaram a apoiar a proposta encabeçada pela Índia e pela África do Sul no fim de 2020, e apoiada por mais de 100 países, para a suspensão das patentes de vacinas contra a Covid-19 enquanto durar a pandemia.

Isso ajudaria a aumentar a produção de vacinas e a equalizar sua aplicação no mundo. Dados mostram que mais de 80% das doses aplicadas até hoje se concentram em países ricos.

O Brasil, que nem é rico nem está bem na fila da vacina, achou por bem fincar pé na posição anterior e ver a caravana global passar diante dos seus olhos, com grande possibilidade de até a União Europeia evoluir para acompanhar a posição americana.

Uma coisa era a discussão posta até o anúncio da posição dos Estados Unidos, em que o Congresso brasileiro discutia a quebra das patentes em território nacional: essa medida, isoladamente, teria pouco efeito prático, pois nossa capacidade de produção própria de vacinas, como temos visto, é pequena, ainda mais sem transferência de tecnologia. Além disso, havia setores fortes da diplomacia defendendo que isso poderia nos criar embaraço com os grandes fabricantes, atrasando ainda mais a chegada de imunizantes ao país.

Mas o cenário muda drasticamente com o apoio da Casa Branca à suspensão temporária das vacinas, ainda mais porque ele levará a uma pressão dos demais países também sobre os Estados Unidos e demais países ricos para a disponibilização imediata do excedente de vacinas que compraram, para a transferência de tecnologia a países pobres e para o fim de medidas protecionistas para a exportação de insumos destinados à produção desses imunizantes.

É desesperador que o Brasil opte por ficar falando sozinho diante de uma resolução com tamanho impacto histórico, geopolítico e econômico.

A desorientação demonstrada pela diplomacia brasileira nesse episódio é fruto e sinal do desmonte da política externa promovida pela nuvem de gafanhotos bolsonarista. É da mesma cepa dos sucessivos surtos que fazem o presidente insistir em brigar com a China neste momento grave em que dependemos dos chineses para a chegada de insumos para nossas poucas vacinas.

<p>Vinte anos depois de brilharmos nos palcos internacionais com políticas de saúde pública e de diplomacia internacional arrojadas e inovadoras, estamos no cantinho da vergonha.

O gasto em pessoal militar

Uma lição que tentava passar para meus alunos quando dava aulas de Finanças Públicas era: “Sempre que for possível, abram o dado”. Ou seja, antes de fazer afirmações peremptórias sobre algo, é preciso entender bem o que está acontecendo. O gasto público está aumentando? Sim, ok. Por causa de que rubricas? INSS? Perfeito, onde? Aposentadorias urbanas ou rurais? Por idade ou por tempo de contribuição? O problema está nas “outras despesas”? Quais delas, então?

Agora faço uma observação similar quando vejo análises gerais sobre a despesa com pessoal. Esta é uma rubrica que, sem dúvidas, era necessário rever no começo do atual governo, haja vista o fato de que, desde que o teto do gasto fora adotado em 2016, ela e o INSS foram os dois grandes itens que continuaram mantendo seu crescimento, em contraste com a evolução do terceiro grande bloco de despesa – as “outras” – que encolheram muito entre 2016 e 2019.

A razão se localiza na decisão do Governo Temer de validar os aumentos salariais negociados politicamente - ainda no Governo Dilma - com a maioria das carreiras do funcionalismo, acarretando um incremento real do gasto.

Esse item, então, pressionou severamente as chamadas “despesas discricionárias”, que têm sido espremidas nos últimos cinco anos.

Como, porém, aqueles aumentos nominais se esgotavam em 2019, é útil colocar uma lupa na questão e analisar o que continuou acontecendo em 2020 e 2021. A observação dos dados sugere que chegou a hora de tratar de um tema que, até agora, tem merecido escassa ou nenhuma importância nas análises da maioria dos analistas.

Parodiando o nome de um famoso filme, eu diria que “precisamos falar sobre a despesa com pessoal dos militares”. O rigor analítico exige apresentar os números de forma nua e crua.


Vejamos as questões com maior grau de detalhamento. Entre 2016 – ano da aprovação da “regra do teto” – e 2019, as despesas com pessoal passaram de 20,6 % para 22,2 % do total do gasto. O que aconteceu com essa rubrica em 2020?

Neste ponto, há que lembrar a negociação que ocorreu em 2019, visando a aceitação, por parte dos militares, de uma reforma previdenciária da categoria que fosse aceitável por parte das Forças Armadas. Eles acabaram apoiando a proposta específica de reforma enviada ao Congresso, em troca de aumentos salariais maiores ao longo da carreira, vinculados a determinados requisitos.

O fato é que, muito provavelmente, o que os economistas chamamos de “integral de remuneração”, ou seja, o valor de quanto será pago a essa pessoa ao longo de toda a sua vida, será maior do que antes da reforma, uma vez que, embora o tempo de vigência da aposentadoria será menor, o valor gasto na ativa, após os aumentos, será muito superior que ao que iria ser pago antes dos aumentos concedidos, além de outros detalhes que não há espaço aqui para comentar.

Alguém poderia alegar que isso ocorreria só em forma dilatada ao longo do tempo, mas não é o que os dados mostram. A realidade dos números é inequívoca: deflacionando os dados pelo IPCA médio anual, em 2020, o gasto com pessoal civil teve uma redução real de 2%, enquanto o gasto militar teve um incremento real de nada menos que 4% - no ano em que o PIB caiu 4%!

E, quando se olha para o pessoal ativo, devido ao congelamento nominal de uns e aos aumentos concedidos a outros, o contraste entre civis e militares foi maior ainda: o gasto com ativos civis caiu, em termos reais, 4%, enquanto o gasto com pessoal ativo militar teve um salto real de 7%.

E, nos primeiros três meses de 2021, essa realidade se acentuou: a despesa com ativos civis caiu em termos reais mais 6% e com pessoal ativo militar aumentou novamente outros 7% reais.

Não é preciso ser um profundo conhecedor de política para entender a lógica desse processo. Em outras épocas, dir-se-ia que se tratava de uma “questão de correlação de forças”. Neste caso, literalmente.

Fabio Giambiagi

Pensamento do Dia

 


O Brasil com fome

A crise econômica e política que o Brasil amarga há anos foi agravada em 2020 pela pandemia e redobrada pela incompetência e desídia do governo federal. Em 2021, no pico da pandemia, o País enfrenta uma nova crise: a fome.

Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, no fim de 2020, 55,2% dos domicílios, abrigando 116,8 milhões de brasileiros, sofriam algum grau de insegurança alimentar. Desses, 19,1 milhões (9% da população) padeciam de insegurança grave, ou seja, passavam fome. Uma pesquisa da Universidade Livre de Berlim mostra um quadro ainda mais tétrico, com 59% dos domicílios em insegurança alimentar e 15% em situação grave.


A violência da pandemia atingiu um sistema de segurança alimentar já vulnerável. Em 2014, o País havia pela primeira vez saído do Mapa da Fome das Nações Unidas, que inclui países nos quais mais de 5% da população consome níveis insuficientes de calorias. Esse foi o resultado de programas como o Bolsa Família ou o Fome Zero, mas também de políticas como o plano de segurança alimentar, a estruturação de conselhos regionais ou o fortalecimento dos programas de alimentação escolar.

Mas entre 2013 e 2018, segundo o IBGE, a insegurança alimentar grave cresceu 8% ao ano. Entre 2018 e 2020, o aumento da fome foi de 27,6%. O investimento federal no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) caiu de R$ 1,1 bilhão em 2012 para R$ 232 milhões em 2018. A merenda, que chegou a receber R$ 4,7 bilhões em 2010, foi reduzida para R$ 3,9 bilhões em 2019.

Esse sistema já precário foi atropelado pela pandemia. O preço médio da cesta básica em São Paulo saltou de R$ 862 em abril de 2020 para R$ 1.014 em 2021. Nem todos os municípios mantiveram a merenda, o que agravou as dificuldades. Se a média nacional de insegurança alimentar, conforme a Universidade de Berlim, é de 59%, nos domicílios com crianças de até 4 anos esse número salta para 71%; e nos domicílios com jovens entre 5 e 17 anos, para 63%. No ano passado, conforme o Portal da Transparência, foram destinados R$ 168,2 milhões ao PAA, dos quais apenas R$ 27,16 milhões foram executados. Para este ano o governo propôs um orçamento de R$ 101,7 milhões.

Além de robustecer o financiamento, é urgente reconstituir a Câmara Interministerial de Segurança Alimentar, a quem cabe elaborar e coordenar a Política de Segurança Alimentar. Também é preciso fortalecer a atuação dos Equipamentos de Segurança Alimentar e fomentar a criação dos comitês subnacionais para o combate à fome. Os governos subnacionais podem mobilizar equipamentos públicos como escolas, centros comunitários ou restaurantes populares.

Se a média nacional de insegurança alimentar para as cidades é de 55,7%, no campo é de 75%. Por isso, é crucial elaborar estratégias de acesso ao financiamento para a agricultura familiar.

Vale lembrar que, segundo o Banco Central, com o auxílio federal e a arrecadação superior ao esperado, Estados e municípios fecharam 2020 com um superávit primário de R$ 43 bilhões. Muitos têm realizado programas para complementar o auxílio emergencial federal, mas, diante da fome, é preciso fazer mais.

No meio da calamidade, contudo, não basta cobrar políticas públicas. Toda pessoa, física ou jurídica, precisa se engajar para colocar cestas básicas nos lares de famílias com fome. Em indicadores globais, o nível da filantropia brasileira é historicamente medíocre. Nos primeiros meses da pandemia, houve um salto expressivo em doações. Mas, desde o segundo semestre, os números caíram dramaticamente. “As pessoas não estão enxergando a fome”, disse Gilson Rodriguez, presidente nacional do G10 Favelas. “Vivemos em um Brasil de fome, em que uma parte faz ‘home office’ e a outra passa fome dentro de casa.”

Tal como o sistema de saúde e de proteção social em geral, a experiência da pandemia exigirá uma reconstrução do sistema de proteção alimentar. Esse trabalho começa agora. Mas, antes de reconstruir o que quer que seja, é preciso impedir que os construtores morram de fome. É hora de doar.

O massacre de Jacarezinho tira a máscara de sensatez de Mourão

Então fica combinado assim: se depender do general Hamilton Mourão, vice-presidente da República, e de autoridades que pensam como ele, o país poderia muito bem abolir o Poder Judiciário, transferindo às polícias, civis e militares, as atribuições de investigar, oferecer denúncia e condenar criminosos.

Também fica combinado que a pena de morte, que chegou a existir no Brasil por um curto período de tempo na época da ditadura militar de 64, mas que nunca foi aplicada, poderá ser restabelecida, conferindo assim um ar de legalidade a assassinatos de autoria dos chamados agentes da lei e da ordem pública.

Revogue-se, pois, qualquer entendimento em contrário. Revoguem-se os tratados assinados pelo Brasil, entre eles a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e acordos que representem um obstáculo à ação meritória do zeladores da paz social, capazes de sacrificar a própria vida por nós.


Horas depois do massacre de 28 moradores da favela do Jacarezinho, no Rio, que resultou também na morte de um policial com um tiro na cabeça, o diretor-geral do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa, Roberto Cardoso, concluiu que não houve execução e que todos eram bandidos.

Para o secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Allan Turnowski, a operação policial foi “técnica e madura”. Serviu para mostrar à sociedade “que aquele traficante que invadiu aquela casa da moradora, ele é o inimigo”. O governador Cláudio Castro observou que a operação baseou-se em “dados de inteligência”.

Na manhã de ontem, em entrevista a uma rádio gaúcha, o vice-presidente Hamilton Mourão, que cogita candidatar-se ao Senado pelo Rio Grande do Sul, saiu em socorro da polícia. Decretou que todos os mortos eram bandidos. Àquela altura, nem a polícia carioca havia identificado todos os cadáveres.

Com o que disse, Mourão garantiu lugar na galeria dos que pensam que “bandido bom é bandido morto”, como há de concordar o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, admiradores de milicianos no Rio e agradecidos pelos votos que costumam colher nas áreas da cidade controladas por milicianos e traficantes de droga.

Por que será que Mourão, geralmente sensato, deu uma derrapada tão feia? À parte a fortaleza de suas convicções, há meses que ele anda abatido porque Bolsonaro não lhe dá a mínima bola. Se nunca deu, muito menos depois de se convencer de que Mourão conspirava para tomar seu lugar. Paranoia de Bolsonaro, evidente!

Há décadas que massacres como o de Jacarezinho e outros se repetem com maior ou menor intensidade no Rio e país afora. Alguns se tornam famosos, como a dos garotos que dormiam na calçada da Igreja da Candelária, no Rio, ou o dos presos do Carandiru, em São Paulo. A maioria é logo esquecida.

Em que medida a segurança pública aumentou com ações como a de Jacarezinho? Aumentou, sim, a insegurança pública, multiplicaram-se as facções criminosas, o tráfico de drogas e o contrabando de armas rolam soltos. Sozinha, a polícia do Rio mata mais do que a soma das polícias dos Estados Unidos.

A brasileira é uma sociedade tolerante com a violência desde o período colonial, quando o país foi o maior importador de escravos do mundo. Foi também o último a abolir a escravidão. Isso talvez explique por que o número de mortos pelo vírus vai ultrapassar a casa dos 500 mil mortos sem despertar revolta.

Faltam presentes do Dia da Mães

A cada Dia das Mães, há sempre uma dúvida quanto ao presente que daremos a ela?

Temos que pensar no valor, no gosto, na utilidade, na moda, nos hábitos etc. Os presentes são ofertados pelo mercado em grande variedade e as pessoas pedem na internet ou buscam nas lojas algo para surpreender as mães. Alguns até ousam escrever poemas em homenagem a ela. E talvez este seja o objeto mais sincero, mas de pouco valor. Em Pico na Veia”, livro de 2002, o escritor curitibano Dalton Trevisan ironizava esta tendência no fragmento narrativo número 73: “Dia das Mães. Quantos crimes literários, ai, mãe, são cometidos em teu nome”.

Chegamos a uma palavra forte. Crime.

Durante esta pandemia, estive duas vezes rapidamente com minha mãe, que mora a mais de 400 quilômetros de onde vivo, sem dormir na casa dela. Foram pouco mais de quatro horas de convivência em todo o período de ataque do coronavírus. Eu mesmo fui contaminado, estive internado e hoje estou provisoriamente com a imunidade alta.


Mais do que em outros dias das mães, neste gostaria de estar alegremente com ela, sem preocupações. Eu teria que viajar de carro durante meio dia, com os riscos na estrada e o perigo de aglomerar na casa dela. Minha família não está vacinada e estamos expostos em nossos trabalhos. Resolvemos então continuar distantes. Será mais um Dia das Mães em atividades emocionais remotas.

O diferente é que este ano minha mãe já recebeu antecipado o seu presente. Pela idade, acabou de tomar a segunda dose da vacina. Não postamos fotos, não festejamos, por entendermos que a maioria das mães brasileiras não tem acesso ainda a esta proteção. De todas as coisas que a pandemia nos priva, a mais cara delas é a convivência. Seja pela morte de pessoas queridas, seja pela internação ou por precaução, fomos afastados abruptamente de nosso círculo de relações.

Com isso, estamos perdendo o hábito de conviver. De abraçar. Quando nos encontramos com pessoas queridas, vem o desejo de contato físico, logo reprimido. Nós nos tornamos mais solitários e será solitário este Dia das Mães, pois não poderemos nos reunir em torno delas.

Tenho certeza de que, nesta data, se os filhos e as filhas pudessem escolher, eles já saberiam o que dar a suas mães. As doses de vacina. Para garantir a segurança de pessoas amadas e aumentar a proteção da maioria.

Mas este item, infelizmente, graças à ignorância política que tomou conta do país, presidido por um robô descontrolado que repete bobagens bêbadas, não está disponível para muitas mães, impedidas assim de receber o presente que seus filhos mais gostariam de lhes dar.

Sob Bolsonaro, indústria da raiva é o empreendimento que mais cresce

A pandemia empurrou o Brasil para uma zona de incerteza que desperta o pessimismo. O país vive uma época de faltas: falta de emprego, falta de estabilidade financeira, de esperança, de convivência, de cordialidade, falta de vacinas. O país vive, em contrapartida, uma época de excessos: excesso de dívidas, excesso de ansiedade, de ruídos, de dramaticidade, de instabilidade, de cloroquina, excesso de cadáveres.

Apesar de tudo, a política nacional forneceu nos últimos dias sinais de que as coisas nunca são tão ruins que não possam piorar. O Brasil já vinha enfrentando a guerra contra o vírus de forma atípica. Em vez de se unir, a federação se dividiu. Bolsonaro recusou o papel de coordenador nacional da crise sanitária.

Na primeira semana de funcionamento efetivo, a CPI da Covid acentuou essa divisão. Sentindo-se acuado, o presidente tentou uma aproximação com o relator da CPI, o multiencrencado senador Renan Calheiros. Não deu certo. E Bolsonaro decidiu religar o ventilador.

No atacado, Bolsonaro renovou a acusação de que os governadores roubam verbas federais da Saúde. No varejo, insinuou que colocará o braço investigativo do Estado na cola de Renan Filho, governador de Alagoas. De resto, o presidente chamou a CPI de "xaropada", xingou de "canalhas" os críticos da cloroquina e insinuou que o coronavírus nasceu de uma proveta da China como parte de uma guerra bacteriológica. Tudo isso num intervalo de cinco dias.

A pandemia e a guerra política ofuscaram os outros problemas. Mas eles não deixaram de existir. As atenções estão voltadas para o Ministério da Saúde. Entretanto, os problemas se acumulam em outros setores estratégicos —como Educação e Meio Ambiente, por exemplo.

Em condições normais, o país precisaria de duas ideias fixas: apressar a vacinação contra Covid e decidir o rumo a seguir depois que o vírus estiver sob controle. Parece simples. Mas falta algo trivial: sensatez. A caminho de 2022, o Brasil atravessa uma conjuntura em que o empreendimento que mais cresce é a indústria da raiva.