quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Prontos para a guerra?

Naquele tempo, quando as redes sociais ainda engatinhavam, as pessoas gostavam de ouvir histórias. Hoje, cada uma em sua bolha, preferem ler opiniões e trocar desaforos.
Ricardo Noblat

Cuidemos da liberdade

No ano passado, senti falta de descer a Avenida integrada n’As Toupeiras, mas ainda estava atordoada pela recente orfandade. Este ano, a ficha já caiu e com estrondo: ao fim de uma década de luta e arte, 2024 foi mesmo o último ano dos melhores cartazes do 25 de Abril (de) sempre.

O que fazer se sigo inquieta, talvez mais inquieta do que nunca?

Estive a rever as fotografias publicadas há quase dois anos no Facebook e os cartazes ficavam lindos Avenida da Liberdade abaixo, à boleia do grupo que continua a reivindicar 1% para a cultura no Orçamento do Estado. Alguns deles fazem agora parte do Ephemera, o maior arquivo privado em Portugal, fundado pelo historiador José Pacheco Pereira.


Na minha sala, tenho exposto o cartaz alusivo ao Maio de 68 com que desfilei em 2018. Num lado, lê-se “A imaginação ao poder”, a famosa frase dita por Jean-Paul Sartre a Daniel Cohn-Bendit, durante uma entrevista publicada no Nouvel Observateur, a 20 de maio de 1968 (“O que é interessante nas suas ações é que põem a imaginação no poder. Tem uma imaginação limitada como toda a gente, mas tem muito mais ideias do que os seus antepassados”). No outro lado, lê-se “Les peuples vaincront les impérialismes et la répression” (os povos vencerão o imperialismo e a repressão), a acompanhar um punho que destrói um tanque, imagem criada pelo Atelier Populaire da antiga École des Beaux-Arts para fazer eco das lutas internacionais e nacionais da época.

2018 foi o quinto ano d’As Toupeiras, assinalado pelo Público com uma reportagem que para muitos desvendou finalmente a origem do grupo de quatro amigas que um dia decidiram que gostariam de animar a manifestação da Avenida. “Eram os 40 anos da Revolução e parecia-nos que a Esquerda andava um pouco cabisbaixa e a precisar de se lhe levantar o moral”, explicava então Piedade Gralha. “Foi o que procurámos fazer em 2014: trazer a Esquerda à rua e lembrar que a Esquerda tem muito para dar e que deu muito.”

Além da professora de História, o quarteto era composto pelas artistas plásticas Bárbara Assis Pacheco e Margarida e Teresa Dias Coelho, todas com “o coração a bater à Esquerda”. Se no livro O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Marx escreve “bem escavado, velha toupeira”, sendo a “velha toupeira” a revolução, durante dez anos desceu-se a Avenida a cantar Zeca Afonso: “Eu vou ser como a toupeira / Que esburaca.”

Nesse quinto ano, a faixa congratulava-se com a luta das mulheres de uma conhecida marca de lingerie (“Viva o triumph das operárias”) e os cartazes assinalavam várias efemérides, sem esquecer a atualidade. Tanto se lia “Trump: não há mísseis ‘nice’”, como “A habitação é uma necessidade, não um lucro” ou “Os nossos sonhos não cabem nos vossos boletins de voto”.

Em 2024, ano em que a democracia fez 50 anos, As Toupeiras lembraram que “Foram dias, foram anos a esperar por um só dia” (Manuel Alegre), acreditando que “Isto vai, meus amigos, isto vai / Um passo atrás são sempre dois em frente” (Ary dos Santos). E escreveram a vermelho as derradeiras palavras de ordem (Resistência / Luta / Inquietação), prometendo continuar a cuidar da liberdade nos bastidores. Como dizia Bertolt Brecht: “Quem luta pode perder. Quem não luta já perdeu.”
Rosa Ruela

A China está acumulando dados, a matéria-prima do futuro

Quem visitar a maior feira industrial do mundo em Hanover esta semana ficará impressionado com o grande número de robôs que, controlados por inteligência artificial , são capazes de apertar mãos, responder a perguntas em vários idiomas ou soldar peças de metal.

No entanto, as verdadeiras estrelas no recinto da feira na capital da Baixa Saxônia são algo que não pode ser visto nem tocado, mas sem o qual nosso futuro industrial seria impensável. Estamos falando de dados, a verdadeira matéria-prima digital, tão importantes para nós quanto a eletricidade ou o petróleo são hoje.

Dentro de alguns anos, serão os dados que determinarão as vantagens competitivas e as quotas de mercado, e possivelmente também a força das economias nacionais.


Na China, os dados privados são coletados abertamente. Cada indivíduo recebe uma classificação com base nesses dados, conhecida como "sistema de crédito social". O governo justifica isso argumentando que busca promover maior moralidade e honestidade na vida social, bem como combater a fraude e a corrupção.

Agora, os dados industriais estão em destaque. "Nos últimos anos, o governo chinês priorizou a transformação digital e implementou medidas para promovê-la em áreas como infraestrutura de informação, economia digital e manufatura inteligente", disse à DW a pesquisadora Qi He, da Universidade Feminina de Hunan, na China.

"O ambiente político apoia essa transformação por meio de subsídios financeiros, incentivos fiscais, fundos regionais e promoção da colaboração entre a indústria, a ciência e a pesquisa", explica ele.

A importância estratégica dos dados foi reconhecida há muito tempo por funcionários do regime. Em outubro de 2023, foi criada a Administração Nacional de Dados, cujas funções incluem "coordenar e promover o desenvolvimento de infraestruturas de dados, bem como coordenar a integração, o intercâmbio, o desenvolvimento e a utilização de recursos de dados".

No entanto, em 2022, Pequim endureceu as regulamentações para transferências de dados para o exterior e tornou obrigatória uma avaliação da relevância da segurança dos dados. Foi estabelecido que "dados sensíveis" devem ser declarados antes da exportação.

A União Europeia reclama que, nos últimos anos, as empresas do Velho Continente têm enfrentado dificuldades crescentes na exportação de dados da China.

"A abordagem regulatória da China busca preservar sua soberania sobre os dados", escreve Jiwei Qian, pesquisador da Universidade Nacional de Singapura, em seu novo livro " Governing China's Digital Transformation" (Governando a Transformação Digital da China) .

"Embora essas medidas respondam a preocupações de segurança nacional, elas também representam desafios significativos para empresas que dependem de um fluxo trans-fronteiriço de dados sem problemas para manter suas operações globais", acrescenta ele.

A ideia de que os dados valem mais do que o ouro é um ponto de consenso entre a política e a economia na China. O Programa Nacional de Crescimento Econômico prevê o desenvolvimento de uma infraestrutura digital autônoma.

"A infraestrutura de IA está se desenvolvendo em larga escala e se tornando cada vez mais independente de tecnologia estrangeira. Além disso, esforços estão em andamento para promover softwares e algoritmos nacionais e para garantir um mercado eficiente para dados de treinamento de IA", explica Rebecca Arcesati, especialista em China do think tank MERICS, com sede em Berlim.

Mesmo um país industrializado como a Alemanha precisa de dados da China, especialmente das montadoras, que os utilizam para pesquisar temas como direção autônoma. Atualmente, todas as montadoras alemãs lucram com o mercado chinês. No entanto, as margens de lucro diminuirão se a inovação não for incentivada.

Em 2024, a China e a Alemanha concordaram em manter um diálogo sobre condução automatizada e conectada. Entre outras questões, pretendem garantir, até 2029, o acesso equitativo aos dados e seu processamento lícito, bem como sua coleta, uso, armazenamento e transmissão, especialmente no que diz respeito a dados de veículos e comunicações, com ênfase em sua proteção e segurança.

A UE também está muito consciente da importância da transferência de dados: "Os fluxos de dados são indispensáveis ​​para o comércio. Uma parte considerável do volume de investimento direto estrangeiro entre a UE e a China depende da capacidade das empresas de gerir os seus dados além-fronteiras", observa a Comissão Europeia.

"Isso se aplica especialmente aos setores financeiro e de seguros, à indústria farmacêutica, ao setor automotivo e às tecnologias de informação e comunicação. Os fluxos de dados transfronteiriços são fundamentais para as atividades de pesquisa e desenvolvimento e essenciais para o sucesso dos negócios."

Flávio Bolsonaro não resiste a 24 horas de ajuste fiscal

O senador Flávio Bolsonaro (PL) não resistiu a 24 horas de ajuste fiscal nas redes sociais. Pré-candidato à Presidência da República, chamou de fake news reportagem da Folha de que fará um ajuste inicial da ordem de dois pontos percentuais do PIB, caso seja eleito.

Para isso, teria como planos reajustar aposentadorias e despesas com saúde e educação só pela inflação.

O senador esqueceu de combinar o jogo com a equipe a cargo do seu programa econômico. Em busca de apoio, seus assessores têm passado para a Faria Lima e setores empresariais a mensagem de que ele seria o ministro da tesourada das despesas.

O próprio pré-candidato vem se vendendo como salvador das contas públicas em contraponto a Lula, apontado como presidente gastador.

As propostas de ajuste têm sido detalhadas nos bastidores, como antecipou o jornalista Fernando Canzian na reportagem que incomodou, pois atiçou os lulistas.

Não é fake news. São consideradas pela sua equipe a desvinculação de despesas com saúde e educação e a separação entre a política de aumento real do salário mínimo de trabalhadores na ativa e os reajustes da Previdência e do BPC. A desindexação é a mais difícil das medidas.

A negativa do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro revela que propostas de ajuste fiscal são uma granada no pé de um candidato.

No Congresso, Flávio nunca foi um defensor do ajuste fiscal durante a gestão de seu pai. A chamada PEC "DDD" (Desobrigar, Desindexar, Desvincular), apresentada em 2019 como solução para as contas públicas pelo ex-ministro da Economia, Paulo Guedes, não teve apoio do bolsonarismo, além de palavras de ordem vazias em favor da responsabilidade fiscal.

Jair Bolsonaro rejeitou acabar com abono salarial, um benefício sabidamente ineficiente, e patrocinou a PEC Kamikaze, com custo de bilhões

Se o 01 de Bolsonaro diz que é fake news, terá que falar de viva voz o que pretende fazer para ajustar as contas. Do contrário, ou está vendendo gato por lebre para o mercado ou está fazendo estelionato com eleitores.
Adriana Fernandes

As vantagens do extremismo

Há qualquer coisa de estranhamente reconfortante no extremismo. Não digo isto para o defender, mas porque, se quisermos compreendê-lo, temos primeiro de reconhecer aquilo que o torna sedutor.

No conhecido monólogo satírico de John Cleese em 1987, a ideia que expõe é simples: o extremismo seduz porque conforta. Seja à esquerda ou à direita, oferece o mesmo alívio moral: dá-nos inimigos, simplifica o mundo e faz-nos acreditar que o mal está sempre do outro lado.

A sua vantagem imediata é essa: simplificar. E o mundo já se apresenta demasiado confuso, desigual, acelerado, complicado e, muitas vezes, humilhante. É nesse contexto que o extremismo surge com uma promessa irresistível: não pense demasiado, eu explico-lhe tudo. E a explicação é sempre sedutoramente simples: há culpados, há inocentes, há um “nós” bom e um “eles” mau.


É uma proposta emocionalmente eficiente. De repente, deixamos de ter de lidar com ambiguidades, contradições, dúvidas ou responsabilidades partilhadas. Tudo passa a caber numa narrativa simples, moralmente confortável e politicamente clara.

É por isso que raramente se apresenta como extremismo. Apresenta-se como lucidez. Como coragem. Como verdade sem filtros. Como a última resistência contra a decadência, a traição, a manipulação, o sistema, as elites, os outros.

Mudam as palavras, mudam os alvos, muda a estética, mas o mecanismo repete-se.

No fundo, seja de direita ou de esquerda, oferece a mesma recompensa psicológica: aponta-nos inimigos. E ter inimigos organiza-nos por dentro. Dá-nos foco. Dá-nos pertença. Dá-nos identidade. Dá-nos, até, uma certa sensação de superioridade moral. Se o mal está concentrado nos outros, então o bem, por exclusão, fica do nosso lado. É uma economia moral extremamente conveniente.

O problema é que essa conveniência tem um preço alto. Quando nos habituamos a ver o mundo em blocos morais absolutos, deixamos de ver pessoas. Passamos a ver categorias. Rótulos. Tribos. Perfis. Discutimos menos e acusamos mais. Escutamos menos e reagimos mais. Pensamos menos e obedecemos mais.

E esse processo não acontece apenas nos extremos clássicos da política. Acontece também no comentário diário, nas redes sociais, nas pequenas indignações, na necessidade constante de exibir pureza ideológica e denunciar a impureza alheia. No “trollismo” sem densidade. Hoje, o extremismo não vive apenas em movimentos organizados. Vive também em hábitos mentais, reflexos, formas de falar e formas de reduzir o outro a um estereótipo ou a uma caricatura.


Talvez por isso seja tão fácil condenar o extremismo dos outros e tão difícil reconhecer o nosso. Porque raramente começa com ódio declarado. Muitas vezes começa com prazer moral: o prazer de ter razão, de desprezar com convicção, de sentir que pertencemos ao lado certo da história sem o incómodo de pensar demasiado sobre isso.

Mas uma democracia adulta não se constrói com prazer moral. Constrói-se com tolerância ao desconforto. Com capacidade de ouvir o que nos irrita sem transformar isso automaticamente numa ameaça. Com firmeza, sim, mas também com proporção. Com princípios, mas sem fanatismo. Com conflito, mas sem desumanização.

Recusar o extremismo não significa ser neutro perante a injustiça. Não significa aceitar tudo, relativizar tudo ou dissolver diferenças reais num centrismo preguiçoso. Significa, isso sim, recusar a lógica infantil que transforma adversários em monstros e divergências em guerras santas.

Talvez a verdadeira maturidade cívica comece quando percebemos que o extremismo não é um desvio alheio, mas uma possibilidade humana permanente. Enfrentá-lo exige mais do que denunciá-lo: exige resistir ao conforto que oferece, o conforto de ter sempre razão, de ter sempre culpados, de nunca ter dúvidas.