quarta-feira, 3 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


Nova colônia?

Quando um país interfere nas decisões de outro, a liberdade morre. Convido toda a Colômbia a votar livremente e a não se tornar escrava ou colônia de ninguém

Gustavo Petro, presidente da Colômbia

Os cabos que a guerra pode cortar: Ormuz e a fragilidade digital do mundo

O Estreito de Ormuz é inegavelmente um ponto de estrangulamento global. Por ele trafega um quinto do petróleo mundial e grande parte dos fertilizantes agrícolas que alimentam cadeias produtivas em todos os continentes. Além desses recursos, o estreito também é uma rota vital para insumos da indústria de tecnologia, como o hélio – essencial para o resfriamento de equipamentos que produzem chips. Vale destacar que 64,7% do hélio importado pelo setor de semicondutores da Coreia do Sul é fornecido pelo Catar e escoado, em grande parte, por Ormuz.

Contudo, a relevância do estreito vai muito além das necessidades logísticas. A agência iraniana Tasnim News Agency, alinhada com o Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), publicou uma reportagem sobre os cabos submarinos e a infraestrutura de nuvem do Golfo Pérsico, que exibia um mapa dos sistemas de fibra óptica mais críticos da região, com destaque para o sistema FALCON, e foi interpretada pelo MEMRI e pela Iran International como uma ameaça velada ao corte deliberado dessas infraestruturas. O temor era de que a interrupção simultânea desses cabos pudesse provocar apagões digitais severos com impacto muito além do Oriente Médio.


Ao contrário da percepção comum, o funcionamento da internet não é provido primariamente por satélites, mas sim por mais de seiscentos cabos submarinos que percorrem o fundo dos oceanos. Essas infraestruturas são responsáveis pela transmissão de mais de 99% do tráfego intercontinental de dados: informações pessoais, governamentais e financeiras. Na economia, esses cabos viabilizam mais de 10 trilhões de dólares em transações financeiras diárias. Essa importância é amplificada pela crescente demanda das empresas de tecnologia por dados em escala massiva, essenciais para o treinamento de modelos de inteligência artificial. Por isso, os cabos de fibra óptica intercontinentais tornaram-se o centro de disputas geopolíticas entre potências como Estados Unidos e China, que competem pela instalação, controle e manutenção dessas infraestruturas críticas.

De acordo com dados do International Cable Protection Committee (ICPC), entre 150 e 200 cabos são danificados anualmente por atividade humana acidental, principalmente ancoragem e pesca. Embora a maioria desses rompimentos seja considerada acidental, crescem as suspeitas de sabotagem deliberada. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o número de incidentes no Mar Báltico aumentou de forma sistemática. Em novembro de 2024, o navio chinês Yi Peng 3, que havia partido do porto russo de Ust-Luga, foi investigado pelo rompimento de dois cabos no Mar Báltico em menos de 24 horas: o cabo BCS, que conecta Suécia e Lituânia, cortado em 17 de novembro, e o C-Lion1, que liga Alemanha e Finlândia, cortado no dia seguinte. O ministro da Defesa alemão Boris Pistorius afirmou publicamente que assumia tratar-se de sabotagem. Esses eventos levantaram a suspeita de uma guerra híbrida submarina destinada a fragilizar a economia europeia em meio às tensões do conflito ucraniano. Taiwan, por sua vez, registra um número crescente de incidentes de cabos danificados nas suas águas costeiras, com cinco casos em 2025 contra três em cada um dos dois anos anteriores, segundo o Ministério de Assuntos Digitais de Taipé.

É nesse contexto estratégico e de ameaças que se inserem as infraestruturas submersas no Estreito de Ormuz. Embora a maioria das fibras submarinas intercontinentais apenas contorne o Oriente Médio, algumas entram pelo Estreito de Ormuz e são os “cordões umbilicais” da região.Foto: Domínio público

Entre os cabos mais críticos que atravessam Ormuz, três se destacam pelo impacto potencial de um corte.

O Gulf Bridge International Cable System/Middle East North Africa Cable System (GBICS/MENA), conhecido como GBI, é considerado o cabo mais importante intra-Golfo. Sediado no Catar, ele desenha um “anel” dentro do Golfo Pérsico, conectando todos os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã – além de possuir ligações fundamentais no Iraque (em Al Faw), no Irã e na Índia. Sua conectividade garante também a ligação com o continente europeu.

O sistema Asia Africa Europe-1 (AAE-1), com 25 mil km de extensão, é um dos maiores troncos globais de dados, interligando Ásia, África e Europa. Como parte de seu trajeto atinge o Golfo Pérsico, seu corte teria implicações que vão além da economia regional, impactando significativamente o tráfego de dados para o continente asiático. O FALCON conecta Índia, Omã, países do Golfo e o Egito, e tem sido explicitamente citado por agências de notícias ligadas a militares iranianos como um “alvo estratégico” – tornando-o símbolo mais visível dessa dimensão do conflito em Ormuz. A interrupção de qualquer um desses sistemas teria consequências que vão muito além da conectividade regional.

Embora a arquitetura da internet seja projetada para garantir redundância, o corte de um cabo submarino não afeta apenas serviços de streaming convencionais, mas a própria economia e a defesa globais. As consequências imediatas incluem o atraso nas transações do SWIFT e a degradação da latência em plataformas de nuvem que gerenciam a extração inteligente de petróleo em refinarias e plataformas marítimas, o que pode impactar o preço da energia para o consumidor final.

A dimensão militar é igualmente crítica. A “máquina de guerra” dos Estados Unidos depende maciçamente desses dados, afetando diretamente o Comando Central (CENTCOM) no Catar e a 5ª Frota no Bahrein. Embora as Forças Armadas façam uso de satélites de órbita baixa como o Starlink/Starshield, existe um limite real para o que a banda de satélite consegue suportar: a vigilância por drones de alta resolução e a logística de operações de grande escala ainda exigem a capacidade dos cabos físicos de fibra óptica. Satélites oferecem mobilidade; cabos oferecem volume. Em uma guerra de alta intensidade no Golfo, essa distinção pode ser decisiva.

Nos últimos anos, com o objetivo de transformar suas economias de extrativistas para tecnológicas, os países do Golfo têm atraído pesados investimentos de empresas como Amazon, Microsoft, Google, Oracle e Nvidia. Diante da crescente instabilidade dos mares, cada país revelou uma postura estratégica distinta frente à vulnerabilidade dos cabos.

Os protegidos são aqueles que, por geografia ou planejamento, conseguem contornar o gargalo de Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos (EAU) consolidaram-se como o polo de inteligência artificial do Oriente Médio, com empresas como a G42 e o modelo de linguagem Falcon LLM, além do centro financeiro de Dubai – todos demandando larguras de banda colossais. A estratégia dos EAU reside no fato de ser o único país da região banhado pelo Golfo de Omã, o que lhes garante uma saída do Estreito. Isso permitiu concentrar a aterrissagem de cabos em Fujairah: em caso de bloqueio em Ormuz, Abu Dhabi e Dubai permaneceriam conectadas ao mundo, transmitindo dados por terra até o litoral externo. Omã, por sua vez, capitalizou sua localização geográfica com investimentos que transformaram Muscat e Salalah em grandes polos de data centers – como os da Equinix. Estrategicamente, Omã atua como um grande bypass para Europa e Ásia, não sendo diretamente impactado por cortes dentro do Estreito.

Os vulneráveis são aqueles cujos cabos precisam cruzar todas as águas tensionadas do Golfo. O Catar exemplifica essa exposição: apesar de concentrar o Qatar Science & Technology Park e atrair provedores como Google Cloud e Microsoft Azure, vitais para seu setor financeiro e para serviços de mídia como a Al Jazeera, seu confinamento geográfico dentro do Golfo Pérsico o torna altamente frágil. Um corte nos cabos submarinos obrigaria Doha a depender de rotas terrestres que cruzam a Arábia Saudita. A Arábia Saudita, embora geograficamente menos confinada que o Catar, também enfrenta exposição significativa: sua Vision 2030 depende de conectividade digital robusta – o país investiu mais de US$ 1 bilhão em novos cabos submarinos para se tornar hub digital regional –, e seus principais sistemas compartilham as mesmas rotas tensionadas do Golfo e do Mar Vermelho. Kuwait e Iraque, posicionados no extremo norte do Golfo, seriam ainda mais afetados: qualquer sistema que os sirva precisa cruzar todas as águas tensionadas de Ormuz. O Kuwait, em particular, cuja Vision 2035 – o plano “New Kuwait” de transformação da economia em hub tecnológico-financeiro regional – depende criticamente de parcerias com empresas globais de tecnologia e de conectividade externa para ser executado.

Os oportunistas são aqueles que podem transformar a crise em vantagem. O Iraque, através de sua estação de aterrissagem em Al Faw, é visto tanto como um ponto vulnerável quanto como uma rota alternativa. Diante da periculosidade dos mares, cresce o interesse em rotas terrestres alternativas, como o projeto “Development Road” – um corredor de US$ 17 bilhões que ligaria o porto iraquiano de Al Faw à fronteira turca e, daí, à Europa –, concebido originalmente para logística de mercadorias, mas cada vez mais relevante também como possível rota alternativa para cabos terrestres de fibra óptica caso os corredores marítimos de Ormuz e do Mar Vermelho venham a falhar simultaneamente.

A limitação do tráfego naval imposta em Ormuz restringe a movimentação dos navios de manutenção de cabos submarinos, aumentando ainda mais a vulnerabilidade dessas infraestruturas a danos e ataques.

O Oriente Médio ficou incrivelmente rico exportando petróleo pelos mares. Mas seu futuro na economia digital pode ser refém dos mesmos corredores. Para mitigar essa dependência, a solução emergente poderia ser o enterramento de cabos terrestres pelo deserto (interligando Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã e Jordânia), já que os mares se tornaram militarmente voláteis demais para as fibras ópticas responsáveis por mais de 99% do tráfego intercontinental de dados e, com ele, a maior parte da economia digital do planeta.

Se os oceanos se tornaram zonas de guerra híbrida, a pergunta que permanece é geopolítica antes de ser técnica: a prioridade será aprimorar a segurança e a governança dos vulneráveis cabos submarinos, ou a disputa será focada em quem controlará as rotas terrestres do futuro digital, traçadas pelos desertos? A resposta pode definir o equilíbrio de poder do século XXI tanto quanto o petróleo definiu o do século XX.

Os ataques online estão mais inteligentes e a culpa também é nossa

A curiosidade sempre foi o motor do hacker. Era verdade nos anos 80, quando tive contacto com a minha primeira linha de código, e continua a ser verdade hoje, mesmo que o contexto tenha mudado radicalmente.

O meu primeiro computador foi um ZX Spectrum. Entre jogos simples e gráficos rudimentares, muitos de nós acabámos por descobrir a programação quase por acidente. Queríamos perceber como tudo funcionava, principalmente os jogos, explorar possibilidades e, claro, tentar “enganar o jogo” para obter a maior pontuação possível. Talvez seja justo dizer que aprendi a programar precisamente por causa dessa curiosidade.


Hoje, provavelmente, bastaria abrir, por exemplo, o ChatGPT e escrever algo como: “Cria um código em BASIC para vencer o Chuckie Egg.” A Inteligência Artificial daria a solução em segundos. O objetivo seria atingido, mas o caminho seria completamente diferente. E é precisamente aí que encontramos uma das maiores transformações desta nova era.

Fico, aliás, com uma dúvida curiosa: teria aprendido realmente a programar se tivesse crescido com Inteligência Artificial disponível à distância de um simples prompt?

A Inteligência Artificial entrou em praticamente todas as áreas da nossa vida: trabalho, saúde, lazer e, inevitavelmente, cibersegurança. Os algoritmos atuais conseguem analisar padrões, escrever código, gerar imagens realistas e até simular vozes humanas com uma precisão impressionante. Tudo isto traz vantagens enormes, mas também riscos enormes. E os atacantes perceberam rapidamente o potencial.

O que antes exigia tempo, conhecimento técnico e alguma experiência, hoje pode ser automatizado e acelerado com IA. Vemos isso em ataques de phishing cada vez mais convincentes, escritos sem erros e adaptados à vítima. Vemos isso também na criação de palavras-passe prováveis com base em informação pública e nos deepfakes de áudio e vídeo, capazes de simular vozes e rostos com uma precisão difícil de distinguir da realidade.

Mas talvez a mudança mais importante seja outra: a IA tornou os ataques mais pessoais.

Grande parte da informação utilizada nestes ataques vem de nós próprios. Das redes sociais, das fotografias, das rotinas que partilhamos online sem pensar muito nisso. Publicamos viagens, aniversários, preferências pessoais, nomes de familiares e até detalhes aparentemente irrelevantes do nosso dia a dia. Isoladamente, parece tudo inofensivo. Junto, transforma-se em matéria-prima perfeita para ataques personalizados e emocionalmente eficazes,.

As redes sociais deixaram de ser apenas espaços de partilha. São também enormes bases de dados comportamentais. E quanto mais informação entregamos, mais fácil se torna construir ataques convincentes, credíveis e difíceis de detetar.

O problema é que continuamos a olhar para a cibersegurança como um tema técnico, quando muitos dos ataques continuam a explorar algo muito mais simples: distração, confiança excessiva, impulsividade e excesso de exposição online.

A tecnologia mudou. O alvo continua a ser a pessoa.

E é isso que torna esta nova era particularmente desafiante. Porque já não basta desconfiar de links estranhos ou emails mal escritos. Hoje, a fraude pode ter a voz de alguém que conhecemos, pode parecer legítima e pode ser praticamente indistinguível da realidade.

Os ataques cresceram em velocidade, escala e sofisticação. E vão continuar a crescer. A diferença é que, daqui para a frente, serão cada vez mais difíceis de reconhecer, porque serão construídos à nossa medida, com a informação que nós próprios fornecemos.

Por isso, a verdadeira defesa já não passa apenas por tecnologia. Passa por hábitos, consciência e literacia digital. Perceber o que devemos fazer, mas sobretudo o que devemos evitar tornou-se tão importante quanto qualquer firewall.

No fundo, talvez a melhor defesa seja a mesma que me levou a aprender a programar: a curiosidade de perceber como as coisas funcionam, antes de alguém as usar contra nós.

Trump apoia De la Espriella e Petro defende votação livre

O presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu ontem seu apoio na terça-feira ao candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, que disputará a presidência da Colômbia no segundo turno das eleições, em 21 de junho, contra o esquerdista Iván Cepeda.

"Os resultados desta eleição são muito importantes para o futuro da Colômbia e para o seu relacionamento com os Estados Unidos. Pelas suas grandes conquistas na vida e pelo apoio que me deu pessoalmente, tenho a honra de conceder a Abelardo o meu total e irrestrito apoio", escreveu Trump na Truth Social.

Trump descreveu De la Espriella como um líder "inteligente, forte e determinado" que luta pelo seu país e garantiu que, se ele se tornasse presidente, promoveria o crescimento econômico, a criação de empregos, o comércio, o combate ao crime e ao tráfico de drogas, bem como a restauração da "lei e da ordem".

O presidente dos EUA também destacou a importância do segundo turno para o futuro da Colômbia e para a relação bilateral com os Estados Unidos, observando que o candidato colombiano enfrentará um candidato do que ele chama de "esquerda radical" nas eleições finais.

Trump também afirmou que era uma "honra" dar seu apoio a De la Espriella, citando tanto suas conquistas profissionais quanto seu apoio político ao presidente dos EUA, e concluiu garantindo que "El Tigre" não decepcionaria o povo colombiano.

As felicitações do republicano surgem horas depois de o Registro Nacional da Colômbia ter confirmado que 99,94% dos resultados da contagem preliminar foram apurados, colocando de la Espriella como o mais votado, seguido pelo esquerdista Iván Cepeda, o que significa que ambos disputarão a Presidência no segundo turno, em 21 de junho.

A Missão de Observação Eleitoral da União Europeia (EU EOM) descartou hoje "qualquer manipulação" dos dados, tanto na contagem preliminar quanto na contagem final dos votos do primeiro turno das eleições presidenciais , e enfatizou que as eleições foram realizadas de forma "ordenada, transparente e fluida".

O chefe da missão e vice-presidente do Parlamento Europeu, Esteban González Pons, garantiu que uma auditoria do software utilizado na contagem preliminar dos votos foi encomendada a uma organização internacional e que os partidos que a solicitaram receberam as conclusões "dois dias antes das eleições".

Contrariando as afirmações do presidente Gustavo Petro, ele disse ter "provas concretas de possível fraude", que entregará às autoridades competentes.

Petro visitou Trump em Washington em fevereiro passado, num contexto de tensão regional devido às ameaças diretas do republicano de intervir na Colômbia, tal como fizera com a Venezuela.

Após tomar conhecimento do apoio de Trump a De la Espriella, Petro criticou seu homólogo americano e pediu aos cidadãos que "votassem com total liberdade".

A esse respeito, o presidente colombiano disse ao seu homólogo americano: "Toda uma geração de jovens homens e mulheres de Nova Granada lutou ao lado de (os heróis Simón) Bolívar e (Antonio) Nariño para nos dar Liberdade e Soberania. Se o coração do mundo perder sua liberdade e soberania, a esperança do mundo e da Colômbia se extinguirá."

O inesperado “L” feito por Donald Trump

A intenção de Donald Trump certamente não era essa, mas não exagera quem diz que ele fez o “L” de Lula ao anunciar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos. Tarifaço ou, se preferirem, “Tariflávio”, como passou a ser chamado nas redes sociais para desespero do inexperiente e sem ideias senador Flávio Bolsonaro, candidato do seu pai à Presidência da República e herdeiro dos seus votos, pelo menos até aqui. Amanhã, talvez perca uma parte deles, nunca se sabe. Flávio sangra desde que se envolveu no escândalo do Banco Master, amiguinho de unha e carne de Daniel Vorcaro, que está preso. Está ameaçado de seguir sangrando. A política tem dessas coisas.

O PIX foi criado pelo Banco Central no governo de Jair Bolsonaro, o qual, a princípio, não soube dizer do que se tratava. Quando o informaram, explorou-o a seu favor na campanha para se reeleger. Em janeiro de 2025, a direita propagandeou que Lula taxaria o PIX — notícia falsa, mas que derrubou a popularidade de Lula. O primeiro tarifaço de Trump serviu para que Lula se enrolasse na bandeira nacional, passasse a defender a soberania do Brasil e recuperasse pontos perdidos. Ora, vejam só: agora é Trump, depois de ser visitado por Flávio na Casa Branca, que quer acabar com o PIX. Coitado do Flávio.

Perguntou-se até ontem: afinal, quando Lula e o PT começariam a bater duramente em Flávio, que há meses vem batendo duramente em Lula e no PT? O dia chegou com mais uma tentativa de Trump de intervir nos assuntos internos do Brasil. Flávio foi obrigado a defender-se publicamente três vezes no curto período de 24 horas.


Na primeira, em um vídeo, negou que tivesse pedido a Trump para punir o Brasil com um novo tarifaço, e culpou Lula pelo que Trump fez, acusando-o de se distanciar dos Estados Unidos. Não colou. Então, Flávio divulgou uma carta que diz ter enviado a Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos, na qual pede a suspensão do tarifaço e agradece a equiparação de organizações criminosas do Brasil a organizações terroristas — coisa que elas não são. Não bastou.

À noite, em Belo Horizonte, disse que processará Lula por ter desejado sua morte por enforcamento. Aproveitou para comparar-se a Tiradentes, o líder da Inconfidência Mineira e herói nacional, morto enforcado e cujo corpo foi esquartejado. Lula chamou Flávio de “imbecil” e de “vendilhão da Pátria”, referindo-se a Joaquim Silvério dos Reis, que traiu os inconfidentes, como alguém que teria sido morto enforcado. Confundiu-se. O único enforcado foi Tiradentes. Se Flávio pensa que isso subtrairá votos de Lula, insista em vitimar-se para ver no que vai dar: em nada.

Os torpedos disparados por Trump contra o Brasil atingiram todos, em cheio, a Flávio. Trump definiu Flávio como “um rapaz esperto que ama seu país”; divulgou uma foto na qual Flávio aparece reunido com ele na Casa Branca; designou para embaixador dos Estados Unidos no Brasil um deputado da Flórida que reza pela cartilha de Rubio; e disse que apoia à presidência da Colômbia a candidatura do advogado ultradireitista Abelardo de la Espriella, por sinal um admirador de Jair Bolsonaro.

Em depoimento a uma comissão do Congresso, Rubio citou Cuba, Nicarágua, Venezuela, Colômbia e Brasil como países não amigos dos Estados Unidos. Embora não confesse, Lula está grato, gratíssimo a Trump pelo apoio subliminar à sua candidatura.