quarta-feira, 3 de junho de 2026

Os ataques online estão mais inteligentes e a culpa também é nossa

A curiosidade sempre foi o motor do hacker. Era verdade nos anos 80, quando tive contacto com a minha primeira linha de código, e continua a ser verdade hoje, mesmo que o contexto tenha mudado radicalmente.

O meu primeiro computador foi um ZX Spectrum. Entre jogos simples e gráficos rudimentares, muitos de nós acabámos por descobrir a programação quase por acidente. Queríamos perceber como tudo funcionava, principalmente os jogos, explorar possibilidades e, claro, tentar “enganar o jogo” para obter a maior pontuação possível. Talvez seja justo dizer que aprendi a programar precisamente por causa dessa curiosidade.


Hoje, provavelmente, bastaria abrir, por exemplo, o ChatGPT e escrever algo como: “Cria um código em BASIC para vencer o Chuckie Egg.” A Inteligência Artificial daria a solução em segundos. O objetivo seria atingido, mas o caminho seria completamente diferente. E é precisamente aí que encontramos uma das maiores transformações desta nova era.

Fico, aliás, com uma dúvida curiosa: teria aprendido realmente a programar se tivesse crescido com Inteligência Artificial disponível à distância de um simples prompt?

A Inteligência Artificial entrou em praticamente todas as áreas da nossa vida: trabalho, saúde, lazer e, inevitavelmente, cibersegurança. Os algoritmos atuais conseguem analisar padrões, escrever código, gerar imagens realistas e até simular vozes humanas com uma precisão impressionante. Tudo isto traz vantagens enormes, mas também riscos enormes. E os atacantes perceberam rapidamente o potencial.

O que antes exigia tempo, conhecimento técnico e alguma experiência, hoje pode ser automatizado e acelerado com IA. Vemos isso em ataques de phishing cada vez mais convincentes, escritos sem erros e adaptados à vítima. Vemos isso também na criação de palavras-passe prováveis com base em informação pública e nos deepfakes de áudio e vídeo, capazes de simular vozes e rostos com uma precisão difícil de distinguir da realidade.

Mas talvez a mudança mais importante seja outra: a IA tornou os ataques mais pessoais.

Grande parte da informação utilizada nestes ataques vem de nós próprios. Das redes sociais, das fotografias, das rotinas que partilhamos online sem pensar muito nisso. Publicamos viagens, aniversários, preferências pessoais, nomes de familiares e até detalhes aparentemente irrelevantes do nosso dia a dia. Isoladamente, parece tudo inofensivo. Junto, transforma-se em matéria-prima perfeita para ataques personalizados e emocionalmente eficazes,.

As redes sociais deixaram de ser apenas espaços de partilha. São também enormes bases de dados comportamentais. E quanto mais informação entregamos, mais fácil se torna construir ataques convincentes, credíveis e difíceis de detetar.

O problema é que continuamos a olhar para a cibersegurança como um tema técnico, quando muitos dos ataques continuam a explorar algo muito mais simples: distração, confiança excessiva, impulsividade e excesso de exposição online.

A tecnologia mudou. O alvo continua a ser a pessoa.

E é isso que torna esta nova era particularmente desafiante. Porque já não basta desconfiar de links estranhos ou emails mal escritos. Hoje, a fraude pode ter a voz de alguém que conhecemos, pode parecer legítima e pode ser praticamente indistinguível da realidade.

Os ataques cresceram em velocidade, escala e sofisticação. E vão continuar a crescer. A diferença é que, daqui para a frente, serão cada vez mais difíceis de reconhecer, porque serão construídos à nossa medida, com a informação que nós próprios fornecemos.

Por isso, a verdadeira defesa já não passa apenas por tecnologia. Passa por hábitos, consciência e literacia digital. Perceber o que devemos fazer, mas sobretudo o que devemos evitar tornou-se tão importante quanto qualquer firewall.

No fundo, talvez a melhor defesa seja a mesma que me levou a aprender a programar: a curiosidade de perceber como as coisas funcionam, antes de alguém as usar contra nós.

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