domingo, 2 de agosto de 2026
Extrema direita usa medo como arma
Foi um surto humano que durou 24 horas. Na sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67. Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo o Missing Migrants Project.
Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.
Tudo começou às primeiras horas de quinta-feira, quando uma massa humana de migrantes marroquinos se pôs em movimento. Pela fartura de imagens disponíveis, a massa era eufórica, celebrante de uma espécie de segunda Copa do Mundo. Avançou pelo mar, escalou pedras, atropelou barreiras e obstáculos até se aplastar, exausta, pelas ruas de Ceuta. Estima-se que mais de 60 mil tenham desembocado no exclave de meros 84 mil habitantes, quando a média costuma ser de mil entradas irregulares por ano.
Foram recebidos com pavor, os postos de acolhimento transbordaram, e Ceuta se fechou. Nenhum pedaço de pão, nenhuma farmácia, nada ficou aberto. A primeira noite de liberdade foi um pesadelo — sem comida, sem teto, sem água, sem chão. Logo nas primeiras horas da madrugada seguinte, o fluxo inverteu-se. Cabisbaixos, em silêncio e em formação quase ordeira, um total de 48.200 errantes haviam abandonado o cobiçado solo europeu já no final da sexta-feira.
Deixaram para trás uma nova onda de xenofobia europeia, um cipoal de encrencas para o socialista Sánchez e uma oportunidade não desperdiçada pelo presidente americano, Donald Trump, de se fazer ouvir. No fundo, a massa humana que pensou ser agente de seu destino não passou de figurante da geopolítica em curso.
Dez dias atrás, Sánchez havia feito uma visita oficial à Argélia, vizinha e nem sempre alinhada ao Marrocos. Regressara da viagem com um cobiçado acordo bilateral na mala: um aumento substancial nas importações de gás argelino. A notícia deve ter desagradado ao rei marroquino, Mohammed VI. Compreende-se: até 2021, o gás extraído da Argélia atravessava 540 quilômetros de território de seu país até chegar à Espanha. Durante todo esse tempo, a monarquia marroquina cobrava pedágio e ficava com parte do fornecimento para si — de graça. Desde a existência do gasoduto Medgaz, que liga a Argélia diretamente à cidade espanhola de Almeria, isso acabou, e Sánchez ganhou em tempo e dinheiro. Não é de todo fantasioso citar esse fato para explicar a súbita facilidade com que a massa de emigrados conseguiu forçar a fronteira com Ceuta.
Há quem atribua a culpa pela invasão à própria Suprema Corte espanhola, que havia proibido, a partir deste mês, a deportação de migrantes irregulares antes de exauridos todos os recursos judiciais a que têm direito na Espanha, criando assim um incentivo indireto à pressão na fronteira.
Seja como for, a reação das lideranças mundiais espelha o que está em curso. Trump saiu à frente com postagens alarmadas afirmando que os Estados Unidos serão uma Ceuta se os democratas vencerem as eleições em 2028. Vice-presidente, Departamento de Segurança Interna e integrantes do gabinete fizeram coro: “Se a Espanha tivesse um presidente como Donald Trump, isso não ocorreria”, “Se os espanhóis não encontrarem logo um novo Franco, se extinguirão”, “Lembrem-se dessas imagens — podemos ser nós em dois anos”.
As lideranças europeias de extrema direita estudam medidas para conter a “ameaça real à segurança das fronteiras continentais”. A França reforçou em cinco vezes a estrutura de suas fronteiras, e a Itália de Giorgia Meloni já deu entrada no pedido de suspensão da Espanha do espaço Schengen de livre circulação. É como se os hunos estivessem às portas da Europa.
Um mundo turbinado pelo medo é fácil de domar. É a arma mais barata e poderosa à disposição de líderes medíocres. E a mais fácil de desarmar: pelo voto.
Em tempo: Por falar em voto, na semana passada o influenciador Paulo Figueiredo, bolsonarista raivoso de terceira geração, achou interessante divulgar uma de suas taras contra jornalistas profissionais do Brasil. Denunciado na Justiça por vários crimes contra o Estado Democrático de Direito, Paulo toca sua vida cívica rastejante nos Estados Unidos. Considera-se jornalista. Do jornalismo profissional, merece repulsa. Dos alvos de sua covardia verbal, nem sequer desdém merece — um polpudo corretivo processual basta.
Dorrit Harazim
Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.
Tudo começou às primeiras horas de quinta-feira, quando uma massa humana de migrantes marroquinos se pôs em movimento. Pela fartura de imagens disponíveis, a massa era eufórica, celebrante de uma espécie de segunda Copa do Mundo. Avançou pelo mar, escalou pedras, atropelou barreiras e obstáculos até se aplastar, exausta, pelas ruas de Ceuta. Estima-se que mais de 60 mil tenham desembocado no exclave de meros 84 mil habitantes, quando a média costuma ser de mil entradas irregulares por ano.
Foram recebidos com pavor, os postos de acolhimento transbordaram, e Ceuta se fechou. Nenhum pedaço de pão, nenhuma farmácia, nada ficou aberto. A primeira noite de liberdade foi um pesadelo — sem comida, sem teto, sem água, sem chão. Logo nas primeiras horas da madrugada seguinte, o fluxo inverteu-se. Cabisbaixos, em silêncio e em formação quase ordeira, um total de 48.200 errantes haviam abandonado o cobiçado solo europeu já no final da sexta-feira.
Deixaram para trás uma nova onda de xenofobia europeia, um cipoal de encrencas para o socialista Sánchez e uma oportunidade não desperdiçada pelo presidente americano, Donald Trump, de se fazer ouvir. No fundo, a massa humana que pensou ser agente de seu destino não passou de figurante da geopolítica em curso.
Dez dias atrás, Sánchez havia feito uma visita oficial à Argélia, vizinha e nem sempre alinhada ao Marrocos. Regressara da viagem com um cobiçado acordo bilateral na mala: um aumento substancial nas importações de gás argelino. A notícia deve ter desagradado ao rei marroquino, Mohammed VI. Compreende-se: até 2021, o gás extraído da Argélia atravessava 540 quilômetros de território de seu país até chegar à Espanha. Durante todo esse tempo, a monarquia marroquina cobrava pedágio e ficava com parte do fornecimento para si — de graça. Desde a existência do gasoduto Medgaz, que liga a Argélia diretamente à cidade espanhola de Almeria, isso acabou, e Sánchez ganhou em tempo e dinheiro. Não é de todo fantasioso citar esse fato para explicar a súbita facilidade com que a massa de emigrados conseguiu forçar a fronteira com Ceuta.
Há quem atribua a culpa pela invasão à própria Suprema Corte espanhola, que havia proibido, a partir deste mês, a deportação de migrantes irregulares antes de exauridos todos os recursos judiciais a que têm direito na Espanha, criando assim um incentivo indireto à pressão na fronteira.
Seja como for, a reação das lideranças mundiais espelha o que está em curso. Trump saiu à frente com postagens alarmadas afirmando que os Estados Unidos serão uma Ceuta se os democratas vencerem as eleições em 2028. Vice-presidente, Departamento de Segurança Interna e integrantes do gabinete fizeram coro: “Se a Espanha tivesse um presidente como Donald Trump, isso não ocorreria”, “Se os espanhóis não encontrarem logo um novo Franco, se extinguirão”, “Lembrem-se dessas imagens — podemos ser nós em dois anos”.
As lideranças europeias de extrema direita estudam medidas para conter a “ameaça real à segurança das fronteiras continentais”. A França reforçou em cinco vezes a estrutura de suas fronteiras, e a Itália de Giorgia Meloni já deu entrada no pedido de suspensão da Espanha do espaço Schengen de livre circulação. É como se os hunos estivessem às portas da Europa.
Um mundo turbinado pelo medo é fácil de domar. É a arma mais barata e poderosa à disposição de líderes medíocres. E a mais fácil de desarmar: pelo voto.
Em tempo: Por falar em voto, na semana passada o influenciador Paulo Figueiredo, bolsonarista raivoso de terceira geração, achou interessante divulgar uma de suas taras contra jornalistas profissionais do Brasil. Denunciado na Justiça por vários crimes contra o Estado Democrático de Direito, Paulo toca sua vida cívica rastejante nos Estados Unidos. Considera-se jornalista. Do jornalismo profissional, merece repulsa. Dos alvos de sua covardia verbal, nem sequer desdém merece — um polpudo corretivo processual basta.
Dorrit Harazim
Petições e memes: estudantes tornam o protesto visível
Aquele vídeo estava destinado a se tornar viral.
Em 22 de julho de 2026, em uma Mumbai chuvosa, uma jovem entrou na frente de uma viatura policial que transportava um grupo de estudantes detidos. Ela colocou a palma da mão sobre o capô, forçando o veículo a parar.
Os celulares registraram o momento de todos os ângulos. Ela chegou a levantar o próprio celular e gravar tudo. Em poucas horas, o vídeo se espalhou pelas redes sociais na Índia e em outros países, tornando-se uma das imagens marcantes dos protestos do Partido Janata Barata , um movimento no qual estudantes exigiam transparência e responsabilização após o vazamento de informações nos exames de admissão para faculdades de medicina, culminando na renúncia do ministro da educação .
Embora o vídeo seja de uma geração criada nas redes sociais , o impulso por trás dele é muito mais antigo. De petições e cartazes revolucionários a fotografias, guarda-chuvas e memes, os movimentos estudantis transformaram as ferramentas e os símbolos disponíveis em veículos de dissidência.
Muito antes de a televisão ou as redes sociais levarem a dissidência além-fronteiras, os estudantes já encontravam maneiras de expressar suas queixas. Na Dinastia Han Oriental (China), por exemplo, acadêmicos da Academia Imperial aliaram-se a funcionários reformistas para se oporem aos todo-poderosos eunucos da corte, amplamente vistos como corruptos e autoritários.
Numa época em que a comunicação política fluía por canais oficiais, as chamadas "petições" eram uma das formas estabelecidas de apresentar queixas ao trono. Redigidas em linguagem formal e entregues através de um sistema burocrático, elas levavam as preocupações dos estudantes diretamente para o sistema de comunicação do Estado.
Séculos mais tarde, os mecanismos mudaram radicalmente. Em Paris, em 1968, por exemplo, os estudantes desafiaram as autoridades universitárias e a ordem social conservadora do pós-guerra. À medida que as manifestações se espalhavam, surgiram os cartazes, uma das contribuições mais duradouras do movimento.
A ideia surgiu no porão da Escola de Belas Artes. Lá, o Atelier Populaire imprimiu milhares de cartazes com gráficos chamativos, silhuetas e slogans. Produzidos coletivamente, eles ajudaram a transformar a dissidência em uma voz pública unificada e a amplificar a presença visual do protesto.
Os protestos também ganharam maior impacto quando as imagens ultrapassaram fronteiras. Em Soweto, em junho de 1976, estudantes sul-africanos marcharam contra as políticas educacionais do apartheid, rejeitando o africâner como língua obrigatória de instrução nas escolas para pessoas negras. Muitos o consideravam a língua de um estado opressor e uma barreira à igualdade educacional.
Com milhares de estudantes nas ruas, a polícia abriu fogo. Em meio ao caos, o fotógrafo sul-africano Sam Nzima capturou uma imagem que correu o mundo: a fotografia de Hector Pieterson, de 12 anos, sendo carregado nos braços após ser morto a tiros.
A fotografia tornou-se uma das imagens icônicas do apartheid. Para muitos fora da África do Sul, ela ajudou a compreender o protesto, contribuindo para a conscientização internacional e para a oposição ao regime racista.
Na primavera de 1989, milhares de estudantes reuniram-se na Praça Tiananmen, em Pequim, para exigir reformas democráticas, liberdade de expressão e o fim da corrupção. À medida que os protestos cresciam, aumentava também a necessidade de símbolos que pudessem comunicar a sua mensagem.
A história logo se encarregou disso. Após a brutal repressão do regime chinês contra os manifestantes, uma fotografia de um homem solitário em frente a uma coluna de tanques correu o mundo, um símbolo de desafio à autoridade e de resistência.
Com o tempo, a comunicação sobre os protestos deixou de fluir exclusivamente dos organizadores para o público. Multidões e espectadores passaram a contribuir cada vez mais para moldá-la.
Nos protestos de 2011 no Chile, os estudantes exigiram reformas educacionais e usaram flash mobs , performances e espetáculos públicos para chamar a atenção para sua causa. O protesto deixou de ser algo que as pessoas meramente observavam e se tornou algo ao qual podiam se juntar.
Em Hong Kong, em 2014, estudantes que protestavam contra os planos de reforma eleitoral de Pequim transformaram objetos do cotidiano em símbolos políticos. O que começou como uma resposta prática ao gás lacrimogêneo tornou-se a imagem que define o Movimento dos Guarda-Chuvas.
E existem também as plataformas políticas que permitem que o alcance dos símbolos seja ainda mais amplificado, como aconteceu recentemente na Índia.
Os estudantes que protestavam contra irregularidades nos exames apropriaram-se de um insulto que lhes era dirigido, e "barata" rapidamente se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis do movimento.
Memes e vídeos curtos se espalham mais rápido do que comunicados oficiais, e os estudantes os utilizam para responder a críticas, zombar de oponentes e mobilizar apoio.
Assim como os cartazes em Paris ou os guarda-chuvas em Hong Kong, este caso mostra como os memes podem transformar um rótulo pejorativo em um poderoso símbolo de protesto.
Em 22 de julho de 2026, em uma Mumbai chuvosa, uma jovem entrou na frente de uma viatura policial que transportava um grupo de estudantes detidos. Ela colocou a palma da mão sobre o capô, forçando o veículo a parar.
Os celulares registraram o momento de todos os ângulos. Ela chegou a levantar o próprio celular e gravar tudo. Em poucas horas, o vídeo se espalhou pelas redes sociais na Índia e em outros países, tornando-se uma das imagens marcantes dos protestos do Partido Janata Barata , um movimento no qual estudantes exigiam transparência e responsabilização após o vazamento de informações nos exames de admissão para faculdades de medicina, culminando na renúncia do ministro da educação .
Embora o vídeo seja de uma geração criada nas redes sociais , o impulso por trás dele é muito mais antigo. De petições e cartazes revolucionários a fotografias, guarda-chuvas e memes, os movimentos estudantis transformaram as ferramentas e os símbolos disponíveis em veículos de dissidência.
Muito antes de a televisão ou as redes sociais levarem a dissidência além-fronteiras, os estudantes já encontravam maneiras de expressar suas queixas. Na Dinastia Han Oriental (China), por exemplo, acadêmicos da Academia Imperial aliaram-se a funcionários reformistas para se oporem aos todo-poderosos eunucos da corte, amplamente vistos como corruptos e autoritários.
Numa época em que a comunicação política fluía por canais oficiais, as chamadas "petições" eram uma das formas estabelecidas de apresentar queixas ao trono. Redigidas em linguagem formal e entregues através de um sistema burocrático, elas levavam as preocupações dos estudantes diretamente para o sistema de comunicação do Estado.
Séculos mais tarde, os mecanismos mudaram radicalmente. Em Paris, em 1968, por exemplo, os estudantes desafiaram as autoridades universitárias e a ordem social conservadora do pós-guerra. À medida que as manifestações se espalhavam, surgiram os cartazes, uma das contribuições mais duradouras do movimento.
A ideia surgiu no porão da Escola de Belas Artes. Lá, o Atelier Populaire imprimiu milhares de cartazes com gráficos chamativos, silhuetas e slogans. Produzidos coletivamente, eles ajudaram a transformar a dissidência em uma voz pública unificada e a amplificar a presença visual do protesto.
Os protestos também ganharam maior impacto quando as imagens ultrapassaram fronteiras. Em Soweto, em junho de 1976, estudantes sul-africanos marcharam contra as políticas educacionais do apartheid, rejeitando o africâner como língua obrigatória de instrução nas escolas para pessoas negras. Muitos o consideravam a língua de um estado opressor e uma barreira à igualdade educacional.
Com milhares de estudantes nas ruas, a polícia abriu fogo. Em meio ao caos, o fotógrafo sul-africano Sam Nzima capturou uma imagem que correu o mundo: a fotografia de Hector Pieterson, de 12 anos, sendo carregado nos braços após ser morto a tiros.
A fotografia tornou-se uma das imagens icônicas do apartheid. Para muitos fora da África do Sul, ela ajudou a compreender o protesto, contribuindo para a conscientização internacional e para a oposição ao regime racista.
Na primavera de 1989, milhares de estudantes reuniram-se na Praça Tiananmen, em Pequim, para exigir reformas democráticas, liberdade de expressão e o fim da corrupção. À medida que os protestos cresciam, aumentava também a necessidade de símbolos que pudessem comunicar a sua mensagem.
A história logo se encarregou disso. Após a brutal repressão do regime chinês contra os manifestantes, uma fotografia de um homem solitário em frente a uma coluna de tanques correu o mundo, um símbolo de desafio à autoridade e de resistência.
Com o tempo, a comunicação sobre os protestos deixou de fluir exclusivamente dos organizadores para o público. Multidões e espectadores passaram a contribuir cada vez mais para moldá-la.
Nos protestos de 2011 no Chile, os estudantes exigiram reformas educacionais e usaram flash mobs , performances e espetáculos públicos para chamar a atenção para sua causa. O protesto deixou de ser algo que as pessoas meramente observavam e se tornou algo ao qual podiam se juntar.
Em Hong Kong, em 2014, estudantes que protestavam contra os planos de reforma eleitoral de Pequim transformaram objetos do cotidiano em símbolos políticos. O que começou como uma resposta prática ao gás lacrimogêneo tornou-se a imagem que define o Movimento dos Guarda-Chuvas.
E existem também as plataformas políticas que permitem que o alcance dos símbolos seja ainda mais amplificado, como aconteceu recentemente na Índia.
Os estudantes que protestavam contra irregularidades nos exames apropriaram-se de um insulto que lhes era dirigido, e "barata" rapidamente se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis do movimento.
Memes e vídeos curtos se espalham mais rápido do que comunicados oficiais, e os estudantes os utilizam para responder a críticas, zombar de oponentes e mobilizar apoio.
Assim como os cartazes em Paris ou os guarda-chuvas em Hong Kong, este caso mostra como os memes podem transformar um rótulo pejorativo em um poderoso símbolo de protesto.
Milei é o cunhado picareta do Brasil,
Na falta de brasileiros que o apoiem, Flávio Bolsonaro segue recrutando estrangeiros que o defendem em troca de sabe Deus o quê.
Na convenção do PL que lançou o filho do Jair para presidente, nem os grandes partidos de direita brasileiros apareceram para declarar apoio. Carluxo preferiu ir visitar Eduardo nos Estados Unidos. Michelle mandou um vídeo em que elogiava Flávio com menos naturalidade do que o Jair de inteligência artificial.
Depois de papai Trump e de tio Netanyahu, Flávio agora trouxe para a campanha Javier Milei.
Do ponto de vista do Brasil, Milei é como aquele cunhado picareta que perdeu tudo em um esquema de criptomoeda e agora está endividado com o agiota.
O agiota, no caso, é a Casa Branca. O governo Trump deu US$ 20 bilhões para ajudar Milei a segurar a economia argentina até a última eleição.
Enquanto não descobre como pagar, Javier tenta agradar a seu credor fazendo serviços ocasionais de promoção de golpe de Estado na vizinhança. Nesse espírito, foi à convenção do PL declarar seu apoio a Flávio Bolsonaro e ofender a democracia brasileira.
Ao contrário dos chefes do Exército e da Aeronáutica em 2022, Javier assinou a minuta do golpe que Flávio lhe apresentou. Comprou o pacote inteiro: continua apoiando Jair, mesmo depois do 8 de Janeiro. Atacou Alexandre de Moraes por todos os motivos errados: afinal, se atacasse Xandão pelos contatos com o Banco Master, deixaria seu anfitrião sem graça. Aliás, vale investigar se não chegou dinheiro do Master na direita argentina pelas conexões internacionais de Eduardo.
Mesmo se você apoiar o programa econômico de Milei, tem que admitir que no Brasil ele conspira com os golpistas e com Trump contra nossa democracia.
O objetivo de Milei é ajudar Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e superior hierárquico do presidente argentino na internacional de extrema direita, a concorrer à Presidência tendo no currículo uma América Latina submissa aos Estados Unidos.
Se não fosse a possibilidade de intervenção americana, a atual "onda azul" de vitórias direitistas nas eleições sul-americanas seria inteiramente normal. Havia muitos governantes de esquerda, houve alternância de poder, agora há muitos governantes de direita. Nos últimos 30 anos, ondas semelhantes se sucederam, vindas de lados diferentes, sem maiores turbulências.
Mas se há uma superpotência desequilibrando a competição eleitoral a favor de seus candidatos favoritos, temos um problema.
Em uma democracia sólida, os eleitores votam pensando "Qual desses candidatos me entregará melhor qualidade de vida?". Se eles começarem a votar pensando "Qual desses candidatos se submeterá o suficiente aos Estados Unidos para que meu país não sofra sanções econômicas?", tudo muda: os americanos, que não lutariam pelo Brasil em caso de guerra nem pagam impostos aqui, passarão a ter poder sobre nossos eleitores, que pagam impostos aqui e lutariam pelo Brasil na guerra.
Enquanto nossa irmã Argentina estiver casada com Milei, temos que administrá-lo com alguma mistura de indiferença e imposição de limites. O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor.
Na convenção do PL que lançou o filho do Jair para presidente, nem os grandes partidos de direita brasileiros apareceram para declarar apoio. Carluxo preferiu ir visitar Eduardo nos Estados Unidos. Michelle mandou um vídeo em que elogiava Flávio com menos naturalidade do que o Jair de inteligência artificial.
Depois de papai Trump e de tio Netanyahu, Flávio agora trouxe para a campanha Javier Milei.
Do ponto de vista do Brasil, Milei é como aquele cunhado picareta que perdeu tudo em um esquema de criptomoeda e agora está endividado com o agiota.
O agiota, no caso, é a Casa Branca. O governo Trump deu US$ 20 bilhões para ajudar Milei a segurar a economia argentina até a última eleição.
Enquanto não descobre como pagar, Javier tenta agradar a seu credor fazendo serviços ocasionais de promoção de golpe de Estado na vizinhança. Nesse espírito, foi à convenção do PL declarar seu apoio a Flávio Bolsonaro e ofender a democracia brasileira.
Ao contrário dos chefes do Exército e da Aeronáutica em 2022, Javier assinou a minuta do golpe que Flávio lhe apresentou. Comprou o pacote inteiro: continua apoiando Jair, mesmo depois do 8 de Janeiro. Atacou Alexandre de Moraes por todos os motivos errados: afinal, se atacasse Xandão pelos contatos com o Banco Master, deixaria seu anfitrião sem graça. Aliás, vale investigar se não chegou dinheiro do Master na direita argentina pelas conexões internacionais de Eduardo.
Mesmo se você apoiar o programa econômico de Milei, tem que admitir que no Brasil ele conspira com os golpistas e com Trump contra nossa democracia.
O objetivo de Milei é ajudar Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e superior hierárquico do presidente argentino na internacional de extrema direita, a concorrer à Presidência tendo no currículo uma América Latina submissa aos Estados Unidos.
Se não fosse a possibilidade de intervenção americana, a atual "onda azul" de vitórias direitistas nas eleições sul-americanas seria inteiramente normal. Havia muitos governantes de esquerda, houve alternância de poder, agora há muitos governantes de direita. Nos últimos 30 anos, ondas semelhantes se sucederam, vindas de lados diferentes, sem maiores turbulências.
Mas se há uma superpotência desequilibrando a competição eleitoral a favor de seus candidatos favoritos, temos um problema.
Em uma democracia sólida, os eleitores votam pensando "Qual desses candidatos me entregará melhor qualidade de vida?". Se eles começarem a votar pensando "Qual desses candidatos se submeterá o suficiente aos Estados Unidos para que meu país não sofra sanções econômicas?", tudo muda: os americanos, que não lutariam pelo Brasil em caso de guerra nem pagam impostos aqui, passarão a ter poder sobre nossos eleitores, que pagam impostos aqui e lutariam pelo Brasil na guerra.
Enquanto nossa irmã Argentina estiver casada com Milei, temos que administrá-lo com alguma mistura de indiferença e imposição de limites. O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor.
Um ato de lesa-banana
Na quinta (30), cometi um ato de lesa-banana ao definir Flávio Bolsonaro como um político marca banana, por seus espasmos de filhinho do papai, choramingas e entreguista em campanha pela Presidência. Arrisquei que, se Flávio B. já é tão flácido como candidato, como seria no trono, posto que exige maturidade, firmeza e decisão? Ao mesmo tempo, deixei em aberto a possibilidade de ser isso o que a Faria Lima quer: um banana na Presidência, fácil de ser manipulado.
Leitores concordaram em massa, mas alguns saíram em defesa da banana, lamentando vê-la rebaixada a fláviobolsonaro. Admito que, ao escrever, hesitei —em outras ocasiões, ao me render à tradição de comparar notórias figuras da política a serpentes, antas ou hienas, também fui recriminado pela ofensa aos animais. Daí, a partir de agora, espero não incorrer no erro e quero crer que o uso dessas menções injustas esteja no fim. Um dia, nenhum animal será citado para definir certos humanos.
E tampouco a banana. O que devemos a ela como fonte de prazer, de sobrevivência e de energia nunca poderá ser pago. Prata, d’água ou da terra, crua, cozida ou em calda, é o que mantém muitos brasileiros de pé, um dos quais eu —não há dia em que não mande pelo menos uma para dentro. O respeito pela banana deverá eliminar também o verbo "embananar", sentir-se confuso, sem ação, e o gesto de "dar uma banana", dar com a mão no covo do braço a fim de mandar alguém simbolicamente para tal lugar. Mais respeito, portanto, com a banana.
Para desgraça da banana, ela já está ligada à família Bolsonaro pela alcunha de Eduardo, Dudu Bananinha, irmão de Flávio B., não se sabe bem por quê. Em nome da banana, sugiro que seja removida. Eduardo Bolsonaro e seu repelente servo Paulo Figueiredo dispensam analogias — basta ler ou ouvir o que zurram. Epa! —nada também de atribuir-lhes a voz de nossos irmãos jumentos.
Donde retiro a palavra banana para classificar Flávio B., embora ele se delicie em operar no produto resultante da digestão da dita banana.
Leitores concordaram em massa, mas alguns saíram em defesa da banana, lamentando vê-la rebaixada a fláviobolsonaro. Admito que, ao escrever, hesitei —em outras ocasiões, ao me render à tradição de comparar notórias figuras da política a serpentes, antas ou hienas, também fui recriminado pela ofensa aos animais. Daí, a partir de agora, espero não incorrer no erro e quero crer que o uso dessas menções injustas esteja no fim. Um dia, nenhum animal será citado para definir certos humanos.
E tampouco a banana. O que devemos a ela como fonte de prazer, de sobrevivência e de energia nunca poderá ser pago. Prata, d’água ou da terra, crua, cozida ou em calda, é o que mantém muitos brasileiros de pé, um dos quais eu —não há dia em que não mande pelo menos uma para dentro. O respeito pela banana deverá eliminar também o verbo "embananar", sentir-se confuso, sem ação, e o gesto de "dar uma banana", dar com a mão no covo do braço a fim de mandar alguém simbolicamente para tal lugar. Mais respeito, portanto, com a banana.
Para desgraça da banana, ela já está ligada à família Bolsonaro pela alcunha de Eduardo, Dudu Bananinha, irmão de Flávio B., não se sabe bem por quê. Em nome da banana, sugiro que seja removida. Eduardo Bolsonaro e seu repelente servo Paulo Figueiredo dispensam analogias — basta ler ou ouvir o que zurram. Epa! —nada também de atribuir-lhes a voz de nossos irmãos jumentos.
Donde retiro a palavra banana para classificar Flávio B., embora ele se delicie em operar no produto resultante da digestão da dita banana.
Macaquice tem lugar de fala
Guerra não é motivo de orgulho moral e cívico para país nenhum. Bem o sabem os argentinos, modestos em feitos armados, afora a luta pela independência. Nas duas vezes contra o Brasil (Guerra Cisplatina e do Prata), foram derrotados. Depois, ao lado dos brasileiros e uruguaios na Tríplice Aliança contra o Paraguai, foram caso invulgar de indisciplina militar, desertando das fileiras de combate. Reza a crônica que, após a desastrosa batalha de Curupaiti, às vezes tinham de ser amarrados para não fugirem.
É relevante, porém, o registro histórico de sua vida cultural. Em seguida ao apogeu econômico (1880-1914), quando a Argentina se tornou uma das economias mais prósperas do mundo, sobreveio o cultural (1920-1950), que fez de Buenos Aires um dos principais centros de letras do mundo hispânico. Disso davam prova escritores de projeção internacional como Silvina Ocampo e Jorge Luis Borges, além de universidades, editoras e livrarias. São detentores de cinco Prêmios Nobel. "Paris da América do Sul" era epíteto da capital portenha.
É glória passada. Mas parece persistir, embora discutível, o conceito de caráter nacional, por uma espécie de "síndrome aspiracional", se não tanto em setores mais ponderados, pelo menos em estratos médios, que passaram a sentir na pele os efeitos da decadência econômica e das convulsões do caudilhismo peronista desde a segunda metade do século 20. A história tem fundo duplo, o mito, que pode emergir nas crises, distorcido por ideologias nacionalistas. O mito do gaúcho, personagem central da cultura pratense, hábil em "peleas" de faca, ganhou vezo identitário nacional.
Decadência, quando afeta moralidade ou ética social imediata, caminha junto com ressentimento e crueldade. O país abriu portas a criminosos nazistas. Das ditaduras sul-americanas desde os anos 1970, a argentina foi a mais mortífera: cerca de 30 mil mortos e desaparecidos, crianças sequestradas, torturas inomináveis. Na Guerra das Malvinas, desfez-se o mito do gaúcho destemido, impotente frente às tropas inglesas de desembarque. Julgados e condenados, os generais da ditadura tiveram de entender a diferença de facilidade entre assassinar civis e enfrentar um exército estrangeiro.
Da persistência psicossocial das distorções do velho fundo mítico, acompanhada de abalos econômicos no cotidiano argentino, tem aflorado um mal-estar civilizatório. Reforçou-se o ethos de troca imaginária da condição sul-americana pela europeia, coisa que nem europeus reivindicam para si mesmos, pois se identificam como franceses, ingleses, alemães etc. O patético racismo de jogadores e torcidas de futebol soa como mecanismo compensatório. E é extensivo às turbulências de comportamento tribal fora do país.
Javier Milei, capacho das elites financeiras e de Trump, é chorume desse histórico lixo existencial. Atua à revelia das boas relações oficiais entre Brasil e Argentina. Zé cuecas da política, palhaço dentro e fora do picadeiro, ele enxovalhou a liturgia do cargo presidencial ao insultar e macaquear no lançamento da candidatura de seu par. Se leu, não entendeu "História Universal da Infâmia", do compatriota Borges, e veio encenar um personagem. Infame, "por supuesto".
É relevante, porém, o registro histórico de sua vida cultural. Em seguida ao apogeu econômico (1880-1914), quando a Argentina se tornou uma das economias mais prósperas do mundo, sobreveio o cultural (1920-1950), que fez de Buenos Aires um dos principais centros de letras do mundo hispânico. Disso davam prova escritores de projeção internacional como Silvina Ocampo e Jorge Luis Borges, além de universidades, editoras e livrarias. São detentores de cinco Prêmios Nobel. "Paris da América do Sul" era epíteto da capital portenha.
É glória passada. Mas parece persistir, embora discutível, o conceito de caráter nacional, por uma espécie de "síndrome aspiracional", se não tanto em setores mais ponderados, pelo menos em estratos médios, que passaram a sentir na pele os efeitos da decadência econômica e das convulsões do caudilhismo peronista desde a segunda metade do século 20. A história tem fundo duplo, o mito, que pode emergir nas crises, distorcido por ideologias nacionalistas. O mito do gaúcho, personagem central da cultura pratense, hábil em "peleas" de faca, ganhou vezo identitário nacional.
Decadência, quando afeta moralidade ou ética social imediata, caminha junto com ressentimento e crueldade. O país abriu portas a criminosos nazistas. Das ditaduras sul-americanas desde os anos 1970, a argentina foi a mais mortífera: cerca de 30 mil mortos e desaparecidos, crianças sequestradas, torturas inomináveis. Na Guerra das Malvinas, desfez-se o mito do gaúcho destemido, impotente frente às tropas inglesas de desembarque. Julgados e condenados, os generais da ditadura tiveram de entender a diferença de facilidade entre assassinar civis e enfrentar um exército estrangeiro.
Da persistência psicossocial das distorções do velho fundo mítico, acompanhada de abalos econômicos no cotidiano argentino, tem aflorado um mal-estar civilizatório. Reforçou-se o ethos de troca imaginária da condição sul-americana pela europeia, coisa que nem europeus reivindicam para si mesmos, pois se identificam como franceses, ingleses, alemães etc. O patético racismo de jogadores e torcidas de futebol soa como mecanismo compensatório. E é extensivo às turbulências de comportamento tribal fora do país.
Javier Milei, capacho das elites financeiras e de Trump, é chorume desse histórico lixo existencial. Atua à revelia das boas relações oficiais entre Brasil e Argentina. Zé cuecas da política, palhaço dentro e fora do picadeiro, ele enxovalhou a liturgia do cargo presidencial ao insultar e macaquear no lançamento da candidatura de seu par. Se leu, não entendeu "História Universal da Infâmia", do compatriota Borges, e veio encenar um personagem. Infame, "por supuesto".
As vítimas invisíveis do duplo terremoto na Venezuela
"Ser pobre em uma zona de desastre já é uma tragédia por si só. Talvez sua casa não tenha desabado, mas sua vida sim." Com essa frase, Omar Zambrano, fundador e economista-chefe da ANOVA Policy Research, retrata uma dimensão pouco vista da catástrofe causada pelo duplo terremoto de 24 de junho na Venezuela .
Enquanto as câmeras e a atenção pública se concentravam na paisagem devastadora de prédios desabados ao longo da faixa costeira do estado de La Guaira, outra tragédia se desenrolava silenciosamente entre mais de cem mil pessoas que já viviam em condições de extrema vulnerabilidade naquela região. São cidadãos que, sem necessariamente perderem suas casas, viram sua renda, seus meios de subsistência, o acesso a serviços vitais como água, saneamento e eletricidade, além de educação, saúde e transporte, tudo desmoronar.
Isso foi revelado no estudo "Duplo Sísmico: População Vulnerável, Distribuição de Danos e Priorização Territorial em La Guaira", publicado em 23 de julho pela ANOVA Policy Research. Ao cruzar a avaliação de danos em edifícios por satélite, realizada pelo Laboratório de Pesquisa de IA para o Bem da Microsoft, com um Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), o estudo constatou que o mapa territorial de danos físicos não coincidia com o mapa de vulnerabilidade social das populações ao longo da costa de Guaira.
Essa disparidade, aponta o relatório, é um fator determinante para a elaboração de uma resposta calibrada, oportuna e relevante para todas as vítimas da tragédia: "Se a estratégia de políticas públicas e a mobilização de recursos de cooperação internacional se concentrarem exclusivamente nas áreas de devastação física causadas pelos terremotos, os efeitos sociais do colapso do circuito econômico de La Guaira serão estruturalmente negligenciados."
Omar Zambrano, coautor do estudo ANOVA, conversou com a Deutsche Welle sobre as conclusões mais relevantes desta pesquisa, algumas das políticas públicas que poderiam ser derivadas de suas descobertas e as fragilidades estruturais do Estado venezuelano na concepção e implementação desse tipo de resposta.
O estudo ANOVA estima que, antes do duplo terremoto, 187.305 dos 310.592 habitantes das sete paróquias de La Guaira viviam em condições de vulnerabilidade social. A reconstrução, portanto, ocorrerá em um território onde a fragilidade social não é marginal, mas sim a condição predominante.
Para identificar prioridades e tipos de atendimento, os pesquisadores cruzaram dados sobre vulnerabilidade social com dados sobre danos físicos e classificaram os resultados em quatro grandes quadrantes.
Numa das extremidades do espectro encontram-se os quadrantes III e IV, que abrangem os setores com menor urgência relativa. O quadrante III compreende 59.766 pessoas, o equivalente a 19,2% da população. Concentrado principalmente ao longo do corredor costeiro de segundas residências para turistas, corresponde a agregados familiares localizados em áreas de elevado dano material, mas com maior capacidade de absorver perdas de rendimento. O quadrante IV, por outro lado, inclui 32.920 pessoas com baixa vulnerabilidade e baixo dano material.
No outro extremo está o Quadrante I, onde ocorreu a tempestade perfeita. Ali, concentram-se 105.681 pessoas, o equivalente a 34% da população analisada, apresentando alta vulnerabilidade social e elevado nível de danos físicos. Segundo o estudo, este é o grupo que requer atenção mais urgente, pois combina necessidades de abrigo e substituição habitacional com exigências imediatas de proteção social.
Mas a descoberta mais surpreendente do estudo está no quadrante II. Este quadrante contém o maior grupo: 112.225 pessoas que vivem em áreas de alta vulnerabilidade social, mas com baixos níveis de danos físicos. Elas representam 36,1% da população analisada. De acordo com a ANOVA, esses indivíduos constituem o grupo com maior risco de serem negligenciados caso a resposta do governo se concentre exclusivamente em casas destruídas.
Zambrano afirma que, embora milhares de pessoas desse grupo tenham mantido suas casas, seus meios de subsistência desapareceram da noite para o dia. "Grande parte da força de trabalho de La Guaira é empregada por instituições públicas — o gabinete do governador, a prefeitura, o porto ou o aeroporto. Essas quatro instituições estão basicamente inoperantes ou funcionando apenas parcialmente após o terremoto", declara o economista.
A isso se soma o impacto do terremoto na economia informal e nas atividades ligadas ao turismo. "Muitas pessoas viviam do comércio informal, vendendo na praia ou trabalhando em atividades relacionadas ao turismo da região. Tudo isso acabou", diz Zambrano, que alerta que essa parte do circuito econômico de La Guaira pode levar anos para se recuperar.
Segundo o estudo, essas famílias vulneráveis que mantiveram suas casas, mas perderam seus meios de subsistência, necessitam urgentemente de proteção social e políticas de recuperação produtiva especificamente concebidas para a sua situação.
O primeiro passo, segundo Zambrano, seria criar um cadastro direto da população afetada para identificar quem perdeu sua renda, quais atividades econômicas foram interrompidas e quais famílias enfrentam maiores dificuldades para suprir suas necessidades básicas. Seria necessário também localizar, dentro desse grupo, as famílias com crianças, idosos, doentes ou pessoas com deficiência.
Para proteger temporariamente a renda dos afetados, o economista propõe um programa de transferências diretas de renda, por pelo menos um ano, para compensar parcialmente essa dificuldade econômica. No caso dos servidores públicos, ele sugere uma política de realocação temporária para outras funções dentro da administração ou para o próprio processo de reconstrução.
A recuperação também deve proteger os negócios que sobreviveram. Com base na experiência do terremoto do Haiti, Zambrano alerta que a assistência baseada unicamente na distribuição gratuita de bens pode acabar deslocando os comerciantes e produtores locais, incapazes de competir com produtos entregues sem custo. Portanto, ele sugere que uma parte dos fundos de reconstrução e ajuda seja direcionada aos comerciantes, transportadores, pousadas, restaurantes e fornecedores locais que permanecerem em atividade.
Como aponta o relatório da ANOVA, os terremotos são fenômenos naturais, mas suas consequências humanas e econômicas não o são. Diante de eventos de tal magnitude, a mortalidade, as perdas e a velocidade da recuperação dependem em grande parte da capacidade institucional do Estado de produzir informações, estabelecer prioridades e implementar respostas oportunas.
A Venezuela enfrenta essa tragédia com capacidades institucionais profundamente fragilizadas. A falta de estatísticas territoriais atualizadas — a Venezuela não publica uma pesquisa domiciliar confiável desde 2015 — aliada à deterioração dos equipamentos técnicos, limita a elaboração e a implementação de políticas direcionadas. Zambrano resume a situação categoricamente: "É impossível para este governo, no atual estado das coisas, realizar uma reconstrução efetiva com base em critérios técnicos e evidências. Eles estão navegando às cegas."
Zambrano alerta que essa fragilidade institucional ameaça amplificar as consequências do desastre. Se as famílias que mantiveram suas casas, mas perderam seus meios de subsistência, não receberem apoio estatal decisivo e imediato, muitas poderão ser deslocadas para outras regiões ou se juntar a uma nova onda migratória. Esse despovoamento privaria La Guaira de trabalhadores, consumidores e empreendedores essenciais para a reconstrução de sua economia e, em última análise, agravaria a tragédia que as políticas públicas deveriam conter.
Enquanto as câmeras e a atenção pública se concentravam na paisagem devastadora de prédios desabados ao longo da faixa costeira do estado de La Guaira, outra tragédia se desenrolava silenciosamente entre mais de cem mil pessoas que já viviam em condições de extrema vulnerabilidade naquela região. São cidadãos que, sem necessariamente perderem suas casas, viram sua renda, seus meios de subsistência, o acesso a serviços vitais como água, saneamento e eletricidade, além de educação, saúde e transporte, tudo desmoronar.
Isso foi revelado no estudo "Duplo Sísmico: População Vulnerável, Distribuição de Danos e Priorização Territorial em La Guaira", publicado em 23 de julho pela ANOVA Policy Research. Ao cruzar a avaliação de danos em edifícios por satélite, realizada pelo Laboratório de Pesquisa de IA para o Bem da Microsoft, com um Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), o estudo constatou que o mapa territorial de danos físicos não coincidia com o mapa de vulnerabilidade social das populações ao longo da costa de Guaira.
Essa disparidade, aponta o relatório, é um fator determinante para a elaboração de uma resposta calibrada, oportuna e relevante para todas as vítimas da tragédia: "Se a estratégia de políticas públicas e a mobilização de recursos de cooperação internacional se concentrarem exclusivamente nas áreas de devastação física causadas pelos terremotos, os efeitos sociais do colapso do circuito econômico de La Guaira serão estruturalmente negligenciados."
Omar Zambrano, coautor do estudo ANOVA, conversou com a Deutsche Welle sobre as conclusões mais relevantes desta pesquisa, algumas das políticas públicas que poderiam ser derivadas de suas descobertas e as fragilidades estruturais do Estado venezuelano na concepção e implementação desse tipo de resposta.
O estudo ANOVA estima que, antes do duplo terremoto, 187.305 dos 310.592 habitantes das sete paróquias de La Guaira viviam em condições de vulnerabilidade social. A reconstrução, portanto, ocorrerá em um território onde a fragilidade social não é marginal, mas sim a condição predominante.
Para identificar prioridades e tipos de atendimento, os pesquisadores cruzaram dados sobre vulnerabilidade social com dados sobre danos físicos e classificaram os resultados em quatro grandes quadrantes.
Numa das extremidades do espectro encontram-se os quadrantes III e IV, que abrangem os setores com menor urgência relativa. O quadrante III compreende 59.766 pessoas, o equivalente a 19,2% da população. Concentrado principalmente ao longo do corredor costeiro de segundas residências para turistas, corresponde a agregados familiares localizados em áreas de elevado dano material, mas com maior capacidade de absorver perdas de rendimento. O quadrante IV, por outro lado, inclui 32.920 pessoas com baixa vulnerabilidade e baixo dano material.
No outro extremo está o Quadrante I, onde ocorreu a tempestade perfeita. Ali, concentram-se 105.681 pessoas, o equivalente a 34% da população analisada, apresentando alta vulnerabilidade social e elevado nível de danos físicos. Segundo o estudo, este é o grupo que requer atenção mais urgente, pois combina necessidades de abrigo e substituição habitacional com exigências imediatas de proteção social.
Mas a descoberta mais surpreendente do estudo está no quadrante II. Este quadrante contém o maior grupo: 112.225 pessoas que vivem em áreas de alta vulnerabilidade social, mas com baixos níveis de danos físicos. Elas representam 36,1% da população analisada. De acordo com a ANOVA, esses indivíduos constituem o grupo com maior risco de serem negligenciados caso a resposta do governo se concentre exclusivamente em casas destruídas.
Zambrano afirma que, embora milhares de pessoas desse grupo tenham mantido suas casas, seus meios de subsistência desapareceram da noite para o dia. "Grande parte da força de trabalho de La Guaira é empregada por instituições públicas — o gabinete do governador, a prefeitura, o porto ou o aeroporto. Essas quatro instituições estão basicamente inoperantes ou funcionando apenas parcialmente após o terremoto", declara o economista.
A isso se soma o impacto do terremoto na economia informal e nas atividades ligadas ao turismo. "Muitas pessoas viviam do comércio informal, vendendo na praia ou trabalhando em atividades relacionadas ao turismo da região. Tudo isso acabou", diz Zambrano, que alerta que essa parte do circuito econômico de La Guaira pode levar anos para se recuperar.
Segundo o estudo, essas famílias vulneráveis que mantiveram suas casas, mas perderam seus meios de subsistência, necessitam urgentemente de proteção social e políticas de recuperação produtiva especificamente concebidas para a sua situação.
O primeiro passo, segundo Zambrano, seria criar um cadastro direto da população afetada para identificar quem perdeu sua renda, quais atividades econômicas foram interrompidas e quais famílias enfrentam maiores dificuldades para suprir suas necessidades básicas. Seria necessário também localizar, dentro desse grupo, as famílias com crianças, idosos, doentes ou pessoas com deficiência.
Para proteger temporariamente a renda dos afetados, o economista propõe um programa de transferências diretas de renda, por pelo menos um ano, para compensar parcialmente essa dificuldade econômica. No caso dos servidores públicos, ele sugere uma política de realocação temporária para outras funções dentro da administração ou para o próprio processo de reconstrução.
A recuperação também deve proteger os negócios que sobreviveram. Com base na experiência do terremoto do Haiti, Zambrano alerta que a assistência baseada unicamente na distribuição gratuita de bens pode acabar deslocando os comerciantes e produtores locais, incapazes de competir com produtos entregues sem custo. Portanto, ele sugere que uma parte dos fundos de reconstrução e ajuda seja direcionada aos comerciantes, transportadores, pousadas, restaurantes e fornecedores locais que permanecerem em atividade.
Como aponta o relatório da ANOVA, os terremotos são fenômenos naturais, mas suas consequências humanas e econômicas não o são. Diante de eventos de tal magnitude, a mortalidade, as perdas e a velocidade da recuperação dependem em grande parte da capacidade institucional do Estado de produzir informações, estabelecer prioridades e implementar respostas oportunas.
A Venezuela enfrenta essa tragédia com capacidades institucionais profundamente fragilizadas. A falta de estatísticas territoriais atualizadas — a Venezuela não publica uma pesquisa domiciliar confiável desde 2015 — aliada à deterioração dos equipamentos técnicos, limita a elaboração e a implementação de políticas direcionadas. Zambrano resume a situação categoricamente: "É impossível para este governo, no atual estado das coisas, realizar uma reconstrução efetiva com base em critérios técnicos e evidências. Eles estão navegando às cegas."
Zambrano alerta que essa fragilidade institucional ameaça amplificar as consequências do desastre. Se as famílias que mantiveram suas casas, mas perderam seus meios de subsistência, não receberem apoio estatal decisivo e imediato, muitas poderão ser deslocadas para outras regiões ou se juntar a uma nova onda migratória. Esse despovoamento privaria La Guaira de trabalhadores, consumidores e empreendedores essenciais para a reconstrução de sua economia e, em última análise, agravaria a tragédia que as políticas públicas deveriam conter.
Céu de brigadeiro para Tarcísio e tempo fechado para Flávio
O diabo é sábio não porque é diabo, mas porque é velho e acumula conhecimentos. Esse é o caso de Luiz Inácio Lula da Silva, que já disputou seis eleições presidenciais, tendo perdido as três primeiras (1989, 1994 e 1998) e vencido as três seguintes (2002, 2006 e 2022). Concorrerá à sétima daqui a exatos 63 dias.
Devido à idade (80 anos) e à lei que impede o exercício de três mandatos consecutivos, esta será a última eleição da vida de Lula. A não ser que, se reeleito, ele renuncie à Presidência em abril de 2030 para se candidatar ao Senado, talvez por Pernambuco, seu estado natal. Nesse cenário, o vice-presidente Geraldo Alckmin assumiria o cargo.
Ao redor de Lula, mas longe dos seus ouvidos, há quem já comece a falar sobre essa possibilidade. Se acontecer, não será nenhuma novidade. Depois de presidir o Brasil de 1985 a 1989, o maranhense José Sarney foi senador pelo Amapá durante 24 anos, o equivalente a três mandatos. Sarney segue vivo e em boa forma física e mental aos 96 anos de idade.
Lula considera-se pronto para derrotar o filho daquele a quem venceu em 2022. Flávio foi educado pelo pai para comportar-se como se fosse um boneco de ventríloquo. Por isso, pouco aprendeu por conta própria. Em compensação, nada esqueceu do que lhe foi incutido, vagando por aí sem saber direito o que fazer, confiando apenas na força política de quem o escolheu.
Os irmãos parecem mais espertos do que ele. O do meio pode acabar se elegendo senador por um estado onde não nasceu, mas que se tornou o reduto eleitoral da família (Santa Catarina). O terceiro autoexilou-se nos Estados Unidos, país onde gostaria de ter nascido. O quarto irmão é candidato a deputado federal por estrita imposição do pai.
Se a inveja matasse, Flávio estaria morto. Ele compareceu à convenção do Republicanos que lançou Tarcísio de Freitas candidato a governar São Paulo por mais quatro anos. Enquanto Tarcísio conta com o apoio de uma ampla coligação de 12 partidos (Avante, MDB, Podemos, PP, União Brasil, PL, PSD, Novo, PRD, Mobiliza, PSDB e Cidadania), Flávio vê seu arco de alianças restrito basicamente ao PL.
O mar de bandeiras que inundou o local da convenção estampava o nome de Tarcísio e dos candidatos aos demais cargos em disputa. O nome de Flávio, contudo, não apareceu em nenhuma delas. Tarcísio só o mencionou em seu discurso para declarar lealdade ao pai dele, afirmando: “Ele tinha genialidade e carisma. Nós amamos Jair Messias Bolsonaro”.
Por último, nada chamou mais atenção na convenção que aclamou Tarcísio do que a fragilidade da candidatura do filho do ex-presidente enfermo e condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Devido à idade (80 anos) e à lei que impede o exercício de três mandatos consecutivos, esta será a última eleição da vida de Lula. A não ser que, se reeleito, ele renuncie à Presidência em abril de 2030 para se candidatar ao Senado, talvez por Pernambuco, seu estado natal. Nesse cenário, o vice-presidente Geraldo Alckmin assumiria o cargo.
Ao redor de Lula, mas longe dos seus ouvidos, há quem já comece a falar sobre essa possibilidade. Se acontecer, não será nenhuma novidade. Depois de presidir o Brasil de 1985 a 1989, o maranhense José Sarney foi senador pelo Amapá durante 24 anos, o equivalente a três mandatos. Sarney segue vivo e em boa forma física e mental aos 96 anos de idade.
Lula considera-se pronto para derrotar o filho daquele a quem venceu em 2022. Flávio foi educado pelo pai para comportar-se como se fosse um boneco de ventríloquo. Por isso, pouco aprendeu por conta própria. Em compensação, nada esqueceu do que lhe foi incutido, vagando por aí sem saber direito o que fazer, confiando apenas na força política de quem o escolheu.
Os irmãos parecem mais espertos do que ele. O do meio pode acabar se elegendo senador por um estado onde não nasceu, mas que se tornou o reduto eleitoral da família (Santa Catarina). O terceiro autoexilou-se nos Estados Unidos, país onde gostaria de ter nascido. O quarto irmão é candidato a deputado federal por estrita imposição do pai.
Se a inveja matasse, Flávio estaria morto. Ele compareceu à convenção do Republicanos que lançou Tarcísio de Freitas candidato a governar São Paulo por mais quatro anos. Enquanto Tarcísio conta com o apoio de uma ampla coligação de 12 partidos (Avante, MDB, Podemos, PP, União Brasil, PL, PSD, Novo, PRD, Mobiliza, PSDB e Cidadania), Flávio vê seu arco de alianças restrito basicamente ao PL.
O mar de bandeiras que inundou o local da convenção estampava o nome de Tarcísio e dos candidatos aos demais cargos em disputa. O nome de Flávio, contudo, não apareceu em nenhuma delas. Tarcísio só o mencionou em seu discurso para declarar lealdade ao pai dele, afirmando: “Ele tinha genialidade e carisma. Nós amamos Jair Messias Bolsonaro”.
Por último, nada chamou mais atenção na convenção que aclamou Tarcísio do que a fragilidade da candidatura do filho do ex-presidente enfermo e condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
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