domingo, 2 de agosto de 2026

Macaquice tem lugar de fala

Guerra não é motivo de orgulho moral e cívico para país nenhum. Bem o sabem os argentinos, modestos em feitos armados, afora a luta pela independência. Nas duas vezes contra o Brasil (Guerra Cisplatina e do Prata), foram derrotados. Depois, ao lado dos brasileiros e uruguaios na Tríplice Aliança contra o Paraguai, foram caso invulgar de indisciplina militar, desertando das fileiras de combate. Reza a crônica que, após a desastrosa batalha de Curupaiti, às vezes tinham de ser amarrados para não fugirem.

É relevante, porém, o registro histórico de sua vida cultural. Em seguida ao apogeu econômico (1880-1914), quando a Argentina se tornou uma das economias mais prósperas do mundo, sobreveio o cultural (1920-1950), que fez de Buenos Aires um dos principais centros de letras do mundo hispânico. Disso davam prova escritores de projeção internacional como Silvina Ocampo e Jorge Luis Borges, além de universidades, editoras e livrarias. São detentores de cinco Prêmios Nobel. "Paris da América do Sul" era epíteto da capital portenha.

É glória passada. Mas parece persistir, embora discutível, o conceito de caráter nacional, por uma espécie de "síndrome aspiracional", se não tanto em setores mais ponderados, pelo menos em estratos médios, que passaram a sentir na pele os efeitos da decadência econômica e das convulsões do caudilhismo peronista desde a segunda metade do século 20. A história tem fundo duplo, o mito, que pode emergir nas crises, distorcido por ideologias nacionalistas. O mito do gaúcho, personagem central da cultura pratense, hábil em "peleas" de faca, ganhou vezo identitário nacional.




Decadência, quando afeta moralidade ou ética social imediata, caminha junto com ressentimento e crueldade. O país abriu portas a criminosos nazistas. Das ditaduras sul-americanas desde os anos 1970, a argentina foi a mais mortífera: cerca de 30 mil mortos e desaparecidos, crianças sequestradas, torturas inomináveis. Na Guerra das Malvinas, desfez-se o mito do gaúcho destemido, impotente frente às tropas inglesas de desembarque. Julgados e condenados, os generais da ditadura tiveram de entender a diferença de facilidade entre assassinar civis e enfrentar um exército estrangeiro.

Da persistência psicossocial das distorções do velho fundo mítico, acompanhada de abalos econômicos no cotidiano argentino, tem aflorado um mal-estar civilizatório. Reforçou-se o ethos de troca imaginária da condição sul-americana pela europeia, coisa que nem europeus reivindicam para si mesmos, pois se identificam como franceses, ingleses, alemães etc. O patético racismo de jogadores e torcidas de futebol soa como mecanismo compensatório. E é extensivo às turbulências de comportamento tribal fora do país.

Javier Milei, capacho das elites financeiras e de Trump, é chorume desse histórico lixo existencial. Atua à revelia das boas relações oficiais entre Brasil e Argentina. Zé cuecas da política, palhaço dentro e fora do picadeiro, ele enxovalhou a liturgia do cargo presidencial ao insultar e macaquear no lançamento da candidatura de seu par. Se leu, não entendeu "História Universal da Infâmia", do compatriota Borges, e veio encenar um personagem. Infame, "por supuesto".

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