quarta-feira, 9 de setembro de 2026

'Soberania' na Paulista

 


Mendonça usa caos como estratégia eleitoral

O noticiário recente sobre o Supremo se assemelha mais à cobertura esportiva de um ringue de luta livre que à de um tribunal, com todo respeito aos praticantes de luta livre.

André Mendonça emprega o caos institucional como estratégia de impacto eleitoral. Se inocentes fôssemos, poderíamos supor que o ministro o faz de forma a defender prerrogativas judiciais, mas ninguém mais acredita em juízes heróis desde a Lava Jato; Mendonça tem plena consciência de que as condições institucionais dadas o favorecem —a saber, a fragilidade e o ego de Moraes, a opacidade de Fachin e a eleição competitiva do filho do presidente que o nomeou para o cargo.

De jurídico, os atos de Mendonça têm apenas a forma: determina, de ofício, o afastamento da alta cúpula da PF –a mesma que efetivamente melou o esquema de roubo do Vorcaro, por suposto monitoramento de Mendonça pela PF.


Se, para Mendonça, a situação lembra Orwell na distopia "1984", a sua resposta lembra a não menos distópica obra "O Processo", de Kafka, na qual a lei serve apenas de pretexto para o absurdo.

O fato de Mendonça ser o relator do inquérito sobre o qual escolhe o que tornar publico ou não mostra que aprendeu bem na escola de Curitiba de juízes políticos.

É evidente o modo politizado como Mendonça decide. Afasta cautelarmente a liderança da Polícia Federal, após requerimento do partido Novo, mesmo após o presidente do STF, Edson Fachin, corretamente pedir no último dia 3 as manifestações das partes envolvidas e depois de o próprio Mendonça ter indicado, dois dias antes, que a matéria deveria ser analisada em plenário.

Mais que no caos, Mendonça aposta na espetacularização como arma política, o que apenas beneficia o campo político bolsonarista, ao qual foi filiado como jurista no governo Bolsonaro.

Ao selecionar o que, quando e como decidir, conforme o tempo político, com levantamentos seletivos de sigilo a menos de quatro semanas do primeiro turno, Mendonça quer que o eleitorado vote pensando em Moraes e na Polícia Federal.

Não quer que o eleitorado se lembre de como os Bolsonaros e aliados estão profundamente imbricados com Vorcaro nem de como o ex-banqueiro roubou dinheiro público e de pessoas pobres —em um esquema bilionário envolvendo, em sua grande maioria, integrantes da direita nacional. Ele quer, por fim, que o eleitor esqueça como o próprio Mendonça se assemelha mais a Sérgio Moro que a um juiz que age em nome da lei.

A mineração distribui seus produtos pelo mundo, mas deixa seus riscos nos territórios

Uma pessoa vive, trabalha, pesca, planta e constrói sua história em determinado território. Nunca comprou minério, jamais contratou uma mineradora e não participou das decisões sobre a instalação ou o funcionamento de uma barragem.

Ainda assim, quando ocorre o desastre, passa a “consumir” tudo o que aquela atividade econômica deixou para trás: lama, medo, perda de renda, água insegura, adoecimento, deslocamento e incerteza sobre o futuro.

Que relação existe entre uma empresa e as pessoas que nunca contrataram seus serviços, mas foram obrigadas a suportar seus riscos?

Em agosto de 2026, o Superior Tribunal de Justiça ofereceu uma resposta juridicamente relevante. No julgamento do Tema 1.280, a Corte reconheceu que as vítimas do desastre de Brumadinho podem ser consideradas consumidoras por equiparação. Com isso, estabeleceu a aplicação do prazo de cinco anos previsto no Código de Defesa do Consumidor para o ajuizamento das ações indenizatórias abrangidas pelo precedente.

A decisão resolve uma controvérsia sobre prescrição, mas também revela algo maior: a inexistência de contrato não torna a vítima estranha à atividade econômica que a atingiu. 

Quando se pretende demonstrar a importância da mineração, sua cadeia produtiva parece não ter fronteiras.

Ela começa na pesquisa, passa pela extração, pelo beneficiamento e pelo transporte, alcança a indústria, a exportação, as tecnologias digitais e a transição energética. Gera divisas, atrai investimentos e conecta o país à economia global.

Tudo está relacionado quando se fala em valor.


Quando ocorre o dano, porém, essa cadeia repentinamente se estreita. As pessoas afetadas passam a ser descritas como terceiros, vizinhos, moradores do entorno, populações indiretamente impactadas ou potenciais beneficiários de programas compensatórios.

A comunidade que era central para viabilizar territorialmente o empreendimento torna-se periférica no momento de exigir reparação.

Para distribuir valor, a cadeia mineral é global. Para distribuir responsabilidade, ela frequentemente tenta tornar-se local, contratual e limitada.

As pessoas atingidas não decidem onde o empreendimento será instalado, quais tecnologias serão empregadas, quanto será investido em segurança ou quais riscos serão considerados aceitáveis. Não controlam os sistemas de monitoramento nem dispõem das mesmas informações técnicas das empresas.

Apesar disso, são elas que podem perder a casa, o trabalho, a água, o acesso ao rio, os vínculos comunitários e a segurança sobre o futuro.

Essa vulnerabilidade não começa no momento do rompimento. É construída antes, pela concentração das informações e do poder de decisão nas mãos de quem explora economicamente a atividade.

O Tema 1.280 rompe parcialmente essa invisibilidade. A pessoa atingida deixa de ser apresentada apenas como alguém que estava no caminho do desastre. Passa a ser reconhecida como sujeito vulnerável diante da atividade econômica que produziu o risco.

A vítima pode não ter consumido o produto colocado no mercado. Foi obrigada, entretanto, a consumir as consequências de sua produção.

Nos grandes processos de reparação, sofrer o dano e ser reconhecido institucionalmente como atingido são acontecimentos diferentes.

Uma pessoa pode perder acesso à água, deixar de pescar, sofrer redução de renda ou ver seu modo de vida desorganizado. Ainda assim, poderá esperar anos até que essas perdas sejam admitidas por um cadastro, programa administrativo, estudo técnico ou decisão judicial.

A condição de atingido precede seu reconhecimento burocrático. Os sistemas de reparação, entretanto, frequentemente invertem essa lógica. Em vez de o responsável identificar integralmente os efeitos de sua atividade, transfere-se à vítima o dever de provar que existe, que pertence ao território e que suas perdas possuem relação com o desastre.

Essa travessia institucional é marcada por documentos, formulários, critérios de elegibilidade, perícias, negativas e reavaliações. Quem teve a vida desorganizada precisa aprender rapidamente a linguagem das matrizes de danos, dos acordos e dos programas de reparação.

Ninguém acessa um direito que não consegue reconhecer como seu.

Entre sofrer o dano e participar efetivamente da reparação, existe um percurso: reconhecer-se como atingido, compreender-se como sujeito de direitos, acessar informações, participar das decisões e acompanhar o cumprimento das medidas prometidas.

O mesmo problema aparece na contagem do tempo. Enquanto o prazo jurídico corre, a pessoa pode estar reconstruindo documentos, buscando nova moradia, tentando recuperar a renda, cuidando da saúde ou esperando estudos que revelem a extensão dos danos.

A ampliação do prazo para cinco anos é importante. Mas não encerra a discussão sobre danos continuados, manifestações tardias e assimetria de informações.

A prescrição pode organizar o sistema de Justiça. Não pode ser utilizada para organizar o esquecimento.

Consumidor é suficiente para nomear quem perdeu um território?

Reconhecer o atingido como consumidor por equiparação amplia sua proteção. Mas a palavra “consumidor” consegue expressar tudo o que se perde em um desastre socioambiental?

O consumidor é tradicionalmente pensado a partir do mercado. A pessoa atingida também é constituída por relações que não cabem nele.

Uma pescadora privada do acesso ao rio não perde somente renda. Perde práticas, conhecimentos e relações construídas em torno da água. Uma comunidade deslocada não perde apenas imóveis. Perde vizinhança, memória e pertencimento. Um povo tradicional privado de seu território não sofre somente um prejuízo patrimonial. Pode ter ameaçada a continuidade de sua identidade.

Nem toda perda pode ser adequadamente convertida em dinheiro. Nem todo dano pode ser individualizado. Nem toda reparação se realiza por meio de indenização.

Por isso, a figura do consumidor por equiparação deve ser entendida como proteção adicional, não como substituição da substituição da identidade jurídica e política da pessoa atingida.

O Direito do Consumidor oferece instrumentos importantes para enfrentar a vulnerabilidade e facilitar o acesso à reparação. Não pode, entretanto, reduzir o desastre a uma soma de acidentes individuais de mercado.

A categoria de consumidor pode ampliar a proteção da vítima. Não deve diminuir a compreensão do desastre.

O julgamento ocorre no momento em que o Brasil procura ampliar sua posição na economia mundial dos minerais críticos.

Lítio, cobre, níquel, grafite e terras raras são apresentados como essenciais para baterias, tecnologias digitais e sistemas de baixo carbono. A nova corrida mineral é justificada pela transição energética, pela soberania tecnológica e pela necessidade de reduzir dependências externas.

Essa transição, contudo, não será justa apenas porque os minerais extraídos serão empregados em tecnologias consideradas limpas.

É preciso perguntar quem decidirá sobre os novos projetos, quais territórios receberão os empreendimentos, quem será consultado, como os benefícios serão distribuídos e quem suportará os riscos.

Nenhum mineral é limpo quando sua cadeia depende da invisibilidade de quem recebe seus impactos.

A transição energética poderá transformar as tecnologias utilizadas pelo mundo sem modificar a estrutura que concentra benefícios e territorializa prejuízos. Se as comunidades continuarem afastadas das decisões e obrigadas a provar reiteradamente seus danos, haverá inovação tecnológica sem transformação democrática.

A mineração do futuro não pode continuar produzindo atingidos submetidos às antigas práticas de invisibilidade, negação e transferência dos riscos.

Atingido também é consumidor?

Juridicamente, o STJ respondeu que sim em relação às ações abrangidas pelo Tema 1.280. Politicamente, a resposta revela um paradoxo.

As comunidades não escolheram o empreendimento, não controlaram seus riscos e não participaram proporcionalmente de seus resultados. Foram incorporadas à cadeia econômica pelo pior caminho: o dano.

A indenização é indispensável, mas não esgota a reparação. Reparar também significa recuperar condições de vida, restabelecer meios de subsistência, proteger vínculos comunitários, garantir acesso à informação e assegurar participação nas decisões sobre o futuro.

Quem foi excluído das escolhas que produziram o risco não pode ser novamente excluído das escolhas sobre a reparação.

O Tema 1.280 amplia o tempo disponível para que as vítimas de Brumadinho busquem seus direitos. Sua mensagem mais profunda, entretanto, atravessa os limites da prescrição.

Nenhuma atividade econômica pode considerar as comunidades externas à sua cadeia quando são elas que recebem seus rejeitos, perdem suas águas, reorganizam suas vidas e carregam seus riscos por gerações.

Se a mineração alcança o território, a responsabilidade também precisa alcançá-lo.

As pessoas atingidas não são acidentes localizados na margem do desenvolvimento. São sujeitos de direitos colocados, sem escolha, no centro de suas consequências.

Decisão sobre Andrei é ilegal; Mendonça, Savonarola e face do golpe

As eleições no Brasil estão sob intervenção de um juiz do Supremo. A evidência é escancarada. O ministro André Mendonça, do STF, afasta do cargo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, provocado por uma petição do Partido Novo, divulga as 33 páginas de sua decisão — lidas, não se encontra ali nenhuma miserável razão que a justificasse, ainda que legal fosse —, e obtém, em nove minutos, o apoio de dois outros integrantes da Segunda Turma: Luiz Fux e Nunes Marques. Ou por outra: a decisão antecede os motivos apontados. Gilmar Mendes pediu vista. Dias Toffoli não deve votar. Vamos ver que encaminhamento dará Jorge Messias, advogado-geral da União. Andrei estava marcado por Mendonça havia algum tempo — já escrevi a respeito —, e Messias parecia assistir à crise de camarote.


Recapitulação rápida. No dia 24 de agosto, Mendonça determinou que a PF investigasse Alexandre de Moraes. Duas agressões à legalidade: 1) chamava para si funções de polícia e 2) ignorava o próprio tribunal que integra, onde o relator da tramoia golpista tem foro, como evidenciou a Procuradoria-geral da República.

Mas não fez só isso: enviou sua petição ao STF, não aguardando nem mesmo a manifestação do Ministério Público, suspendeu o sigilo e expôs Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues à execração pública. O bolsonarismo se inflamou. O 7 de setembro convocado por Flávio estava condenado a ser um mico. Ainda assim, já escrevi a respeito, foi. Não por falta de ajuda de Mendonça: no domingo, ganhou títulos anunciando que seu voto estava pronto para exame da Segunda Turma.

A “flopada” do ato da Avenida Paulista nem chegou a ser notícia direito porque eis que uma pesquisa Quaest tomava o noticiário, com um empate rigoroso entre Lula e Flávio em 41% no segundo turno. Há cinco dias, 42% a 41% para o petista. Vale dizer: de uma pesquisa para outra, nada aconteceu. A margem de erro é de dois pontos. Mas se produziu quase uma dezena de títulos com “dados internos” do levantamento, apontando como tudo era ruim para o petista. Sendo a coisa tão trágica, resta o mistério de saber por que só um ponto separa um levantamento de outro — alguma boa notícia o petista pode ter haurido…

Mendonça virou o senhor absoluto da investigação, numa intervenção jamais havida na Polícia Federal. Seu aparato tem controle dos dados brutos extraídos de celulares, e os conteúdos são vazados pelo “VILMO” — VAZADOR DE INFORMES CONTRA LULINHA E MORAES — ao arrepio dos próprios delegados que comandam as as Operações Compliance Zero e Sem Desconto. A imprensa chegou a publicar detalhes que nem entraram depois nos dados da investigação. Há uma óbvia quebra da cadeia de custódia de provas.

Mendonça chama os relatórios de inteligência a que apelou Moraes de “clandestinos”, mas deve considerar — porque seus desmandos têm sido aplaudidos — que suas investidas, ao arrepio da lei, contra seu antípoda interno e contra Rodrigues são verdadeiras odes ao devido processo legal. Como sabem os leitores que me acompanham desde 2014, ano de criação da Lava Jato, eu não esperava outro desdobramento. Sempre que um herói se alevanta acima da legalidade, como aconteceu com Sergio Moro então, para fazer justiça com a própria toga, as primeiras vítimas são o devido processo legal e as instituições.

Deve-se admitir o óbvio: Mendonça não quer afastar Moraes em razão de seu suposto envolvimento com o Master. Para tanto, diga-se, teria de apontar os crimes cometidos e apresentar as provas. Ou porque, ainda que sem imputação, vislumbrasse alguma relação promíscua. Fosse assim, teria de se insurgir também contra Dias Toffoli, Nunes Marques e Luiz Fux. E noto: não estou aqui a fazer acusações. Indago os critérios de atuação do ministro e seus princípios. Dois desses três votaram em favor do afastamento de Andrei. Pergunta óbvia: a quem interessa tirá-lo da PF?

Mais: fosse mesmo o caso Master a raiz do ódio a Alexandre — de Mendonça e dos demais bolsonaristas —, o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro não teria sido cantado em prosa e verso no ato na Paulista. Há pouco, nas redes sociais, Flávio Bolsonaro comemorou o afastamento de Andrei. Sim, o mesmo Flávio dos US$ 13 milhões de Vorcaro para supostamente fazer um filme… O que se tem é um ajuste de contas.

Há tempos tenho chamado a atenção aqui e em toda parte: vaza tudo dos dois inquéritos contra Lulinha que estão sob a relatoria de Mendonça. O “aparato” que ele criou, como mostra um dos relatórios de inteligência, explica por quê. A investigação ilegal contra Moraes também buscava o terremoto político. Tudo devidamente feito na boca da urna.

Há dois outros detalhes perversos nas 33 páginas redigidas por este homem santo. Ele faz questão de recuperar decisões de Moraes do passado, que nada têm a ver com o caso em tela, como a dizer: “Estou fazendo o mesmo”. E há quem esteja caindo na esparrela. Alguém se lembra de intervenção dessa natureza na Polícia Federal? O único que meteu a mão grande lá foi Bolsonaro.

Mendonça também alude a um voto da ministra Cármen Lúcia que considerou ilegal o monitoramento ideológico, pela Polícia Federal, de professores e servidores. Para lembrar: a Secretaria de Operações Integradas (Seopi) do Ministério da Justiça fez um relatório sigiloso, em junho de 2020, sobre o monitoramento ilegal de um grupo de 579 servidores públicos. Entre os monitorados, considerados integrantes do “movimento antifascismo”, havia professores universitários, além de policiais civis e federais críticos ao governo Bolsonaro. O caso foi revelado pelo UOL. Quem era ministro? Mendonça. Que assumiu a pasta em 29 de abril de 2020, depois de Bolsonaro anunciar que interviria, sim, na Polícia Federal. E interveio.

Leandro Almada, o diretor de Inteligência também afastado, era o Superintendente da PF da Bahia que disse “não” a Anderson Torres, então ministro da Justiça, que está preso, quando recebeu a determinação de barrar potenciais eleitores de Lula na Bahia, em 2022. Silvinei Vasques, então diretor da Polícia Rodoviária Federal, topou a parada. Também está em cana.

Está em curso, reitero, um óbvio “ajuste de contas”. Como Mendonça se tornou o novo ungido, inclusive por setores da imprensa, contra a corrução, então ele se concede todas as licenças, inclusive a do caos. E isso nada tem a ver com investigação.

Procurem saber quem foi Savonarola (1452-1498), o frade dominicano que aterrorizou Florença por um tempo e que nos legou a “fogueira das vaidades”. Considerava-se o inimigo número um da aristocracia corrupta de então e acabou governando a cidade por um tempo sob a égide do terror moralista. Não deu certo nem para os florentinos pobres nem para ele. Ora vejam: Savonarola considerava que o papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia) era o grande inimigo da “verdadeira fé”. O frade decidiu, então, para enfrenta-lo, comportar-se como se fosse Alexandre Magno.

Os estudos são ambíguos a respeito do porra-louca. Há dúvidas sobre se acreditava mesmo nos absurdos que dizia ou fazia ou apenas se aproveitava do prestígio de que gozava para o exercício do poder. Uma coisa é certa: não media consequências e parece que não sabia distinguir direito aliados de adversários, tão imerso estava em seu fanatismo.

Desse mal em particular, convenham, não se deve acusar Mendonça. Os seus alvos podem até ter muitos lados. MAS LHE FALTA UM LADO SÓ… Há um esforço para tirar do eleitor o poder de escolha. Trata-se de uma nova face do golpismo, com o apoio de setores da imprensa. E também isso, na história, não é novo.

Vorcaro, Cosimo e a verdadeira virtú de Maquiavel

Preparando a minha aula de ética e política sobre o príncipe de Maquiavel abro os jornais e observo a granada de mão jogada pelo ministro do STF no campo da opinião pública. É fascinante e, ao mesmo tempo, tragicômico, ver a tampa do esgoto ser aberta na praça dos três poderes. De um lado, um ministro pressionado puxa o pino de segurança do artefato bélico e, como bem observou meu amigo analista do campo político, infringe a única lei implícita do corporativismo jurídico e dedura seus próprios colegas de toga. Violou a omertà do magistrado.

Algo que se compara ao assassinato de Francisco Ferdinando em 1914 – estopim da Primeira Guerra, o tiro à queima roupa do ministro do STF culminará, ao ver de muitos, na maior crise política das instituições republicanas nesse grande ano eleitoral de 2026. Mais engraçadas ainda são as ramificações de outros atores do cenário institucional: cenas que envolvem whisky escocês, charutos e assentos em jatinho. Tudo isso me fez pensar o quanto o agente político Daniel Vorcaro, uma peça importante desse tabuleiro, se assemelha ao que Maquiavel chamara de virtù de Cosimo de Médici. 


Maquiavel é visto por aqueles que entendem de teoria política como o pensador que inaugura o Realismo Político, a realpolitik e a raison d’état. Palavras bonitas que demonstram, a meu ver, que a contemplação dos affairs institucionais inaugura um tratado muito importante sobre a ação e a ética na vida e na conduta política. Sua principal obra é O príncipe, que fala exatamente disso: a manutenção do poder, interesse nu e a insana e errônea percepção que os meios justificariam os fins. Muita gente por aí lê esta obra e deduz que o príncipe, para manter seu território, deve fazer o que for possível dentro e fora do limite ético – da boa moralidade – para se manter no controle do seu território.

Daniel Vorcaro nunca foi um príncipe de Maquiavel nessa interpretação comum, não só porque ele falhou na missão de conquistar o poder político e mantê-lo, mas também porque está atrás das grades. Nem se pode afirmar que ele agiu com boas intenções, ou seja, não estamos falando de um indivíduo de boa moral na opinião pública. No entanto, ouso afirmar que Vorcaro possuía a famosa reputazione. O caso Master exemplifica, como bem comentou meu outro amigo de política, que, no Brasil de Raymundo Faoro, como ninguém tem, quem tem manda em todo mundo. Mas o que políticos querem ter? No caso, estamos falando de caronas em aviões particulares, de charutos – provavelmente cubanos pois são os mais estimados pelo seu alto valor inflacionado –, e whiskys Macallan que, por possuírem uma poderosa campanha de marketing, são alvos preferidos dos ricos e abastados.

Contudo, voltemos a revisitar a história italiana e do porquê eu considero esta específica similitude. Por ironia da história, Cosimo foi um banqueiro e conduziu, depois do seu pai, o banco Médici, uma das principais instituições bancárias da Europa. Percebemos, ao ler O príncipe, que o sujeito, para alcançar o poder, deve, sobretudo, ter em posse a espada. Francesco Sforza – força na tradução – é o maior exemplo que Maquiavel dá acerca dessa virtù armada. Militar e condottiere italiano, virou duque de Milão pelo uso da força em 1450; nem pela fortuna ou por herança, alçou seu lugar ao sol por sua própria virtù. Porém, essa não é a história toda. Como escreveu Maquiavel em Discursos e histórias florentinas, Sforza precisou da ajuda financeira de um banqueiro muito abastado, que via com bons olhos a tomada de Milão – Cosimo de Médici.

Cosimo reinou em Florença por trinta anos sem ocupar nenhum cargo público. Ele conquistou isso através do dinheiro que investia nas instituições públicas, que gerou o acúmulo do que Maquiavel chama de reputazione. Se engraçou com políticos, foi generoso e fez boas ações, pagou casamentos e obras públicas, mediou conflitos e através disso converteu os seus beneficiários em partidários das suas ações generosas. Quem bancou a produção de um filme da história do ex-presidente? Quem pagou viagem e emprestou aeronaves para membros do judiciário? Quem provavelmente deu de presente caixas de charutos Cohiba e garrafas de destilado escocês?

Estamos diante do que Maquiavel entende como sucesso – mesmo que passageiro – da virtù desarmada. Cosimo não fingiu ser bom nem “bancou o herói”, ele, ao contrário, realmente praticava boas ações que lhe davam reputação. E, na época, a lei não permitia a condenação pública de tamanha generosidade, o que deixou seus rivais impotentes. Maquiavel fala aqui na ampliação da concepção de poder para além da força bruta, a incorporação da dominação através do consentimento fabricado por normas culturais. Algo que posteriormente Max Weber e Antonio Gramsci chamariam de hegemonia.

Temos no Brasil um Cosimo oportunista fichado pela Política Federal e a maior elite do atraso de que nos demos conta, que quer ter o que não tem. Só Deus sabe do que será daqueles que venderam a sua alma por charutos Montecristo, whisky Macallan e assentos em aeronaves para viagens de compras luxuosas. Como disse outra vez o principal ministro envolvido nesse episódio tragicômico: de tédio e monotonia ninguém irá morrer neste ano de eleições, cada dia uma aventura.

Deus escreve reto com linhas tortas

Parecem uma onda, um tsunami. Os Estados Unidos, a Itália, a Argentina, a França, a Espanha, a Colômbia, El Salvador e mais signatários: cada um desses países — e outros — tenta nos convencer de que formam uma espécie de internacional fascista e que, portanto, o poder de cada um se multiplica pelo poder dos outros, de todos juntos.

Isso não é verdade, claro: nem isto. O choque entre o protecionismo arraigado de Trump e as políticas de livre comércio de Milei ou Bukele, por exemplo, seria suficiente para desencadear várias guerras. Mas hoje eu queria me concentrar, sobretudo, na diferença entre seus modelos pessoais. Porque acredito que cada um deles é um representante digno, e ao mesmo tempo indigno, da cultura que, infelizmente, o gerou: uma síntese de sua sociedade.

E eis que chegam, já na passarela onde desfilam uma após a outra, com o braço direito estendido ou apenas a mãozinha:

A mulher italiana é como um mero floreio, um detalhe numa estátua de Bernini, uma surpresa efêmera: onde a história e a lógica fascistas sugerem uma figura austera, com cabelos ralos e um semblante belicoso, os italianos nos oferecem uma loira. Algo como o completo oposto: uma tentativa de mostrar que se pode ser de extrema-direita e, ao mesmo tempo, uma pessoa moderna, amigável e sorridente. Que a extrema-direita é para todos, que eles não são mais aqueles tiranos antiquados; que pode ser qualquer um, você e eu, aquela jovem. É uma tentativa louvável, mas italiana: desmorona rapidamente. Um dia ela finge confrontar Trump; dois dias depois, responde-lhe com “sim, senhor”.


O americano é o epítome da leveza, a bolha: em contraste com aqueles cavalheiros que levavam tudo tão a sério, que transformavam a vida num conjunto de regras invioláveis — um verdadeiro saco —, agora temos um velho despreocupado , com o cabelo e a pele tingidos, que dá passinhos de dança imitando minha avó para que você não se esqueça de que ele também é isso, um estuprador condenado que nunca foi preso, alguém que faz o que quer, quando quer, porque quer. A leveza reside no fato de que não é preciso fazer beicinho ao matar centenas de meninas em escolas distantes. Que podemos fazer isso como se não nos importássemos, simplesmente porque podemos: porque nós — tentam dizer — ainda estamos no comando. O problema é o exagero deles: acabamos acreditando no contrário.

O argentino é um espelho: ele concluiu que, se a sociedade argentina era um caos inextricável, ele seria tão ruim quanto — ou pior —, é claro. Porque a essência da caricatura é exagerar aquilo que caricatura. Funcionou para ele no início, e milhões se identificaram com ele: “Ele sabe que isso não está certo, ele sabe disso por experiência própria”. Mas é difícil manter o ritmo: o caos, se continuar, torna-se a norma, e doses cada vez maiores são necessárias para continuar produzindo o mesmo Efeito Caos. E chega um ponto em que o mecanismo sai do controle, e o pobre palhaço que trabalhava tanto mimando quanto minando seu país se torna um fantoche quebrado. É triste vê-lo nesse estado. (Ver a nós mesmos nesse estado é mais do que triste: é humilhante.)

A francesa é outra forma de caricatura: aquela que não admite, a bonequinha. Bonecas são assustadoras porque são exatamente o que deveriam ser: são assim de uma forma imutável, sempre as mesmas, sempre as mesmas. Marine Le Pen se apresenta como uma boneca — uma caricatura involuntária — da típica burguesa francesa, uma mulher enérgica, mas sensata, uma daquelas que precisam viver para conter a violência do marido — que, neste caso, é o pai dela. Essa é a sua arma mais poderosa: ela se aproveita da comparação. Ela será sempre um pouco menos brutal que o pai e tão francesa e tão defensora das tradições antigas quanto ele. Embora ela tenha um problema: aquelas senhoras, naqueles salões, geralmente não usavam tornozeleiras eletrônicas como as de prisioneiras.

O salvadorenho é uma construção astuta de opostos: um jovem elegante, com sua barba por fazer, seu sorriso, seus bonés ao estilo de Miami — todo aquele charme mimado e herdado, plantado sobre a base de centenas de corpos empilhados e arruinados, restos mortais despojados de sua própria essência. Em uma cultura de confronto, um país que mata há décadas, Bukele encena o desfecho dessa guerra: os vilões finalmente perdem porque ele está disposto a estripá-los, a transformá-los em carniça. O presidente sozinho é insignificante; o presidente em pé sobre aqueles restos mortais despedaçados é uma imagem aterradora. Bukele usa a astúcia de parecer triunfante o tempo todo: ele cairá quando, através de Goya ou Faro , todos nós testemunharmos os Caprichos de sua guerra, suas garras carnívoras.

O colombiano não poderia ser mais apropriado: o homem parece ser a expressão quintessencial — falsificada na China — de uma sociedade que se tornou aspiracional quando alguns comerciantes de classe média obtiveram tanto sucesso que se viram com uma quantia exorbitante de dinheiro e tiveram que inventar novas e exóticas maneiras de usá-lo, dedicando incontáveis esforços e hipopótamos à tarefa. Ao fazer isso, eles também inundaram seu mercado interno com dinheiro e mais dinheiro, e a cultura local com a ideia de que o sucesso só vale a pena se você puder esfregá-lo na cara do seu vizinho. E que só existe sucesso no triunfo individual. Aí reside a piada: se alguém grita que seu triunfo consiste em prejudicar todos os outros, como os outros podem escolhê-lo, presumindo que ele não os prejudicará? De qualquer forma, a armadilha está armada: eventualmente, entenderemos que esse homem personifica — involuntariamente — a crítica mais extrema a uma cultura que pressupõe que, quando você pode escolher o que realmente deseja, você escolhe ser inútil.

E isso nos deixa, por hoje, com o espanhol, um caso bem menor, um funcionário público que trabalha para algum partido de direita há 25 anos. Parece que o homem ou não queria ou não conseguia pensar: que se rendeu sem resistência ao suposto literalismo ibérico. Na Espanha, dizem, as coisas devem ser o que são. O Sr. Abascal é um fascista, exatamente como os fascistas devem ser nos sonhos de suas mães fascistas, céus: um homem grande, um pouco acima do peso, que sempre usa roupas tão apertadas que ficam à mostra, com cara de vilão de filme ruim, barba de barbeiro barato e a expressão perpetuamente severa de quem carrega muitos destinos nos ombros e uma espingarda de brinquedo. O Sr. Abascal é, de cabo a rabo, um vilão de brinquedo. Tudo é um brinquedo: seu destino depende da infantilidade de seus compatriotas.

Alguns estão aqui, outros estão desaparecidos. Todos querem tirar proveito de alguma característica de seus países e culturas. Eles procuram, buscam uns aos outros: todos falam muito sobre seu deus, mas nenhum deles acredita que seu deus os tenha feito como são. Eles sabem — todos sabem — que seu deus escreve reto com linhas tortas.