segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo
Fiquei aterrorizada com essa conversa sobre "mudar a Constituição" com vistas a "redemocratizar o Brasil". O assombro se fundamenta na certeza de que nossa estrutura institucional estabelecida atualmente garante, em regra, o respeito à Lei Maior do país. Salvo melhor juízo, há 41 anos este país é uma democracia.
As instituições de controle, apesar das imperfeições próprias da ação humana, estão em pleno funcionamento. A ponto de conseguirem conter uma tentativa de golpe de Estado e punir os envolvidos na maior investida antidemocrática que o país enfrentou desde a década de 1980.
A Constituição é um conjunto de normas que organizam o Estado e a divisão de poder, determinando limites de ação e direitos e deveres da população. A Carta de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, representa um marco nacional na consolidação do Estado democrático de Direito após 21 anos de ditadura militar.
Ela introduziu inovações e avanços inéditos em termos de direitos civis, direitos sociais e direitos das minorias. E essas garantias fazem da nossa Carta Magna um diploma legal importantíssimo para a proteção dos direitos humanos.
Num cenário de ascensão política de segmentos da direita e da extrema direita, falar em mudança da Constituição é coisa que apavora quem preza pela manutenção de conquistas civilizatórias num país tão desigual em múltiplos aspectos, como é o nosso.
Lembrei do filme "Anniversary", dirigido pelo cineasta polonês Jan Komasa, que explora a maneira como ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo, contaminando a sociedade e corroendo laços afetivos e de solidariedade.
Tudo em decorrência de um governo radical instalado a partir da tese de um livro chamado "A Mudança: o Novo Contrato Social", que prevê a abolição do sistema pluripartidário em favor de um regime autoritário de partido único.
Trata-se, claro, de uma obra de ficção, mas a semelhança com a realidade global é sinistra. E não é uma questão de esquerda ou direita, mas de autoritarismo.
As instituições de controle, apesar das imperfeições próprias da ação humana, estão em pleno funcionamento. A ponto de conseguirem conter uma tentativa de golpe de Estado e punir os envolvidos na maior investida antidemocrática que o país enfrentou desde a década de 1980.
A Constituição é um conjunto de normas que organizam o Estado e a divisão de poder, determinando limites de ação e direitos e deveres da população. A Carta de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, representa um marco nacional na consolidação do Estado democrático de Direito após 21 anos de ditadura militar.
Ela introduziu inovações e avanços inéditos em termos de direitos civis, direitos sociais e direitos das minorias. E essas garantias fazem da nossa Carta Magna um diploma legal importantíssimo para a proteção dos direitos humanos.
Num cenário de ascensão política de segmentos da direita e da extrema direita, falar em mudança da Constituição é coisa que apavora quem preza pela manutenção de conquistas civilizatórias num país tão desigual em múltiplos aspectos, como é o nosso.
Lembrei do filme "Anniversary", dirigido pelo cineasta polonês Jan Komasa, que explora a maneira como ressentimentos individuais alimentam o autoritarismo, contaminando a sociedade e corroendo laços afetivos e de solidariedade.
Tudo em decorrência de um governo radical instalado a partir da tese de um livro chamado "A Mudança: o Novo Contrato Social", que prevê a abolição do sistema pluripartidário em favor de um regime autoritário de partido único.
Trata-se, claro, de uma obra de ficção, mas a semelhança com a realidade global é sinistra. E não é uma questão de esquerda ou direita, mas de autoritarismo.
Flávio Bolsonaro quer destruir o que faz do Brasil, um dos lugares mais maravilhosos do mundo
Eu estou com medo. Estou com medo porque Flávio Bolsonaro pode vencer a eleição para presidente no Brasil, e o que ele quer é destruir tudo o que faz do país um dos lugares mais maravilhosos do mundo.
Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.
No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.
A sublime e misteriosa floresta amazônica, sem a qual a humanidade não pode sobreviver, e graças à qual o oxigênio do planeta é respirável, e que Flávio Bolsonaro, assim como seu pai fez antes dele, quer devastar para vendê-la ao capitalismo mais destruidor.
A alegria que explode quando, no samba, à noite, os homens e as mulheres cantam em uma só voz, homens brancos, mulheres negras, homens negros e mulheres brancas, todos ao redor dos músicos da roda de samba, sonhando com um mundo melhor e nos provando que podemos viver, cantar e sonhar juntos, todos esses corpos que Bolsonaro vai tentar colocar uns contra os outros, separar uns dos outros por meio de suas políticas racistas, da perseguição das populações negras das favelas, de todo o poder que ele vai dar à polícia, que, no mundo inteiro, nós sabemos, tem como alvo prioritário as pessoas não brancas.
O Brasil é também todas as vezes em que vi dois homens se beijando, ou duas mulheres, com total liberdade, na praia, em frente ao mar nas noites de verão, nos bares no Rio ou nas ruas quentes de São Paulo à noite, no samba do trabalhador ou nas areias de Paraty durante o festival da Flip.
Toda essa liberdade, que existe em tão poucos países no mundo, Flávio Bolsonaro tentará apagar, dando cada vez mais espaço ao fundamentalismo religioso, opondo-se aos direitos das pessoas transgênero, gays e lésbicas, como fez tantas vezes no Senado ao longo dos últimos anos.
Todas as vezes em que observei, nas praias do Rio, pela manhã, amigos bebendo água de coco para se recuperar dos efeitos do álcool, depois de uma noite de festas, risadas e encontros. Essa cultura da alegria, da amizade e da celebração popular contra a qual a família Bolsonaro sempre declarou guerra abertamente, ao atacar o Carnaval ou os desfiles de rua, supostamente ameaçadores à ordem e à "família tradicional".
O Brasil é, ainda, uma cultura musical imensa, o Brasil é todas as vezes em que eu ouvi brasileiros cantando Gilberto Gil ou Caetano Veloso, enquanto em 2022, durante a Copa do Mundo de futebol, apoiadores de Jair Bolsonaro perseguiram Gil em público, ameaçando-o e insultando-o, os mesmos apoiadores que hoje defendem Flávio Bolsonaro, que, por sua vez, defende o legado político de seu pai.
Brasil é uma literatura grandiosa que conquistou o mundo. Machado de Assis, Clarice Lispector, Victor Heringer, todos esses grandes autores que fazem a cultura brasileira brilhar mundo afora, que vieram das margens ou pertenciam a parcelas da população odiadas pela extrema direita conservadora. Machado de Assis era descendente de escravizados, Heringer era homossexual, Lispector era mulher.
Bolsonaro, ao cortar os gastos do Estado e, em consequência, os serviços públicos, tornará a vida dos pobres mais difícil, e os reduzirá, enfim, ao silêncio. Bolsonaro, que fez muitas declarações machistas e misóginas e vangloria a família tradicional, dificultará a emancipação das mulheres. Bolsonaro, ao colocar em curso políticas repressivas que terão como alvo a população mais vulnerável, e, portanto, em grande parte, a população não branca, silenciará a diversidade.
Num mundo bolsonarista, não existiria Lispector nem Machado de Assis nem Heringer. Não existiria literatura.
Eu tenho plena consciência de que, ao evocar minhas lembranças do Brasil e meu conhecimento muito limitado do país, não estou mencionando os problemas enfrentados pela sociedade brasileira, as desigualdades, a violência, a pobreza, a corrupção.
Mas, justamente, Flávio Bolsonaro vai agravar todos esses problemas. Bolsonaro quer uma sociedade do medo, da violência, da prisão, do ódio, da polarização, do desmonte do Estado. Uma sociedade da família conservadora, da brutalidade, da ordem, da desigualdade, da reprodução das classes sociais, uma sociedade onde cada um permanecerá em seu lugar, enquanto o clã Bolsonaro continuará a enriquecer com seus esquemas de corrupção.
A autora francesa Marguerite Duras certa vez escreveu que a direita e a morte são sinônimos. O Brasil que Bolsonaro quer é um Brasil morto. Um Brasil sem alegria, sem liberdade, sem música, sem negros, sem cultura, vocês percebem?
Um Brasil sem solidariedade, sem amor, sem arte, sem música, sem mulheres, sem poder beijar quem vocês quiserem, sem poder dançar quando e onde vocês quiserem. Um Brasil sem paixão, sem diversidade, sem Nordeste, ou com um Nordeste silenciado. Um Brasil sem Candido Portinari, sem literatura, sem partilha, sem Amazônia, um Brasil sem Gilberto Gil, sem sonhos, sem progresso.
O que Flávio Bolsonaro quer é um Brasil sem Brasil, ou seja, um Brasil esvaziado de tudo que constitui a força e a grandeza do Brasil, sua identidade.
O sonho de Flávio Bolsonaro é um Brasil submisso aos Estados Unidos e a serviço deles, um Brasil em que os bilionários possam continuar a desviar dinheiro do povo, um Brasil de prisões, jaulas e armas de fogo, um Brasil em que o medo reinará, um Brasil em que os brancos terão medo dos negros, os negros da polícia, um Brasil em que os pobres terão medo dos pobres, em que os jornalistas terão medo de se expressar.
Como disse recentemente um professor da Universidade de São Paulo, não deixem Bolsonaro fazer vocês acreditarem que o Brasil precisa se tornar triste para se tornar forte.
O Brasil é forte porque está vivo.
Eu estou com medo, mas eu peço a vocês que não tenham medo e que lutem nesse segundo turno das eleições.
Estou com vocês.
Eu só estive algumas vezes no Brasil. Passei apenas algumas semanas neste país. Não pretendo compreender toda sua complexidade. Eu não conheço em detalhes a história do Brasil nem sua geografia ou o conjunto das culturas que o compõem. Há tanta gente no mundo, a começar pelos próprios brasileiros, que têm muito mais a dizer do que eu sobre este lugar do planeta.
No entanto, apesar das limitações do meu conhecimento, eu sei de uma coisa: tudo que eu vi em minhas viagens ao Brasil, tudo que testemunhei, tudo que constitui a beleza, a força e a singularidade desse país, Bolsonaro quer destruir.
A sublime e misteriosa floresta amazônica, sem a qual a humanidade não pode sobreviver, e graças à qual o oxigênio do planeta é respirável, e que Flávio Bolsonaro, assim como seu pai fez antes dele, quer devastar para vendê-la ao capitalismo mais destruidor.
A alegria que explode quando, no samba, à noite, os homens e as mulheres cantam em uma só voz, homens brancos, mulheres negras, homens negros e mulheres brancas, todos ao redor dos músicos da roda de samba, sonhando com um mundo melhor e nos provando que podemos viver, cantar e sonhar juntos, todos esses corpos que Bolsonaro vai tentar colocar uns contra os outros, separar uns dos outros por meio de suas políticas racistas, da perseguição das populações negras das favelas, de todo o poder que ele vai dar à polícia, que, no mundo inteiro, nós sabemos, tem como alvo prioritário as pessoas não brancas.
O Brasil é também todas as vezes em que vi dois homens se beijando, ou duas mulheres, com total liberdade, na praia, em frente ao mar nas noites de verão, nos bares no Rio ou nas ruas quentes de São Paulo à noite, no samba do trabalhador ou nas areias de Paraty durante o festival da Flip.
Toda essa liberdade, que existe em tão poucos países no mundo, Flávio Bolsonaro tentará apagar, dando cada vez mais espaço ao fundamentalismo religioso, opondo-se aos direitos das pessoas transgênero, gays e lésbicas, como fez tantas vezes no Senado ao longo dos últimos anos.
Todas as vezes em que observei, nas praias do Rio, pela manhã, amigos bebendo água de coco para se recuperar dos efeitos do álcool, depois de uma noite de festas, risadas e encontros. Essa cultura da alegria, da amizade e da celebração popular contra a qual a família Bolsonaro sempre declarou guerra abertamente, ao atacar o Carnaval ou os desfiles de rua, supostamente ameaçadores à ordem e à "família tradicional".
O Brasil é, ainda, uma cultura musical imensa, o Brasil é todas as vezes em que eu ouvi brasileiros cantando Gilberto Gil ou Caetano Veloso, enquanto em 2022, durante a Copa do Mundo de futebol, apoiadores de Jair Bolsonaro perseguiram Gil em público, ameaçando-o e insultando-o, os mesmos apoiadores que hoje defendem Flávio Bolsonaro, que, por sua vez, defende o legado político de seu pai.
Brasil é uma literatura grandiosa que conquistou o mundo. Machado de Assis, Clarice Lispector, Victor Heringer, todos esses grandes autores que fazem a cultura brasileira brilhar mundo afora, que vieram das margens ou pertenciam a parcelas da população odiadas pela extrema direita conservadora. Machado de Assis era descendente de escravizados, Heringer era homossexual, Lispector era mulher.
Bolsonaro, ao cortar os gastos do Estado e, em consequência, os serviços públicos, tornará a vida dos pobres mais difícil, e os reduzirá, enfim, ao silêncio. Bolsonaro, que fez muitas declarações machistas e misóginas e vangloria a família tradicional, dificultará a emancipação das mulheres. Bolsonaro, ao colocar em curso políticas repressivas que terão como alvo a população mais vulnerável, e, portanto, em grande parte, a população não branca, silenciará a diversidade.
Num mundo bolsonarista, não existiria Lispector nem Machado de Assis nem Heringer. Não existiria literatura.
Eu tenho plena consciência de que, ao evocar minhas lembranças do Brasil e meu conhecimento muito limitado do país, não estou mencionando os problemas enfrentados pela sociedade brasileira, as desigualdades, a violência, a pobreza, a corrupção.
Mas, justamente, Flávio Bolsonaro vai agravar todos esses problemas. Bolsonaro quer uma sociedade do medo, da violência, da prisão, do ódio, da polarização, do desmonte do Estado. Uma sociedade da família conservadora, da brutalidade, da ordem, da desigualdade, da reprodução das classes sociais, uma sociedade onde cada um permanecerá em seu lugar, enquanto o clã Bolsonaro continuará a enriquecer com seus esquemas de corrupção.
A autora francesa Marguerite Duras certa vez escreveu que a direita e a morte são sinônimos. O Brasil que Bolsonaro quer é um Brasil morto. Um Brasil sem alegria, sem liberdade, sem música, sem negros, sem cultura, vocês percebem?
Um Brasil sem solidariedade, sem amor, sem arte, sem música, sem mulheres, sem poder beijar quem vocês quiserem, sem poder dançar quando e onde vocês quiserem. Um Brasil sem paixão, sem diversidade, sem Nordeste, ou com um Nordeste silenciado. Um Brasil sem Candido Portinari, sem literatura, sem partilha, sem Amazônia, um Brasil sem Gilberto Gil, sem sonhos, sem progresso.
O que Flávio Bolsonaro quer é um Brasil sem Brasil, ou seja, um Brasil esvaziado de tudo que constitui a força e a grandeza do Brasil, sua identidade.
O sonho de Flávio Bolsonaro é um Brasil submisso aos Estados Unidos e a serviço deles, um Brasil em que os bilionários possam continuar a desviar dinheiro do povo, um Brasil de prisões, jaulas e armas de fogo, um Brasil em que o medo reinará, um Brasil em que os brancos terão medo dos negros, os negros da polícia, um Brasil em que os pobres terão medo dos pobres, em que os jornalistas terão medo de se expressar.
Como disse recentemente um professor da Universidade de São Paulo, não deixem Bolsonaro fazer vocês acreditarem que o Brasil precisa se tornar triste para se tornar forte.
O Brasil é forte porque está vivo.
Eu estou com medo, mas eu peço a vocês que não tenham medo e que lutem nesse segundo turno das eleições.
Estou com vocês.
Édouard Louis, escritor francês, é autor de 'O Fim de Eddy', 'História da Violência' e 'Mudar: Método'
O Tribunal do Ofício Nada Santo de Kássio e Mendonça censura até a imprensa
Os ministros Kássio Nunes Marques e André Mendonça, respectivamente presidente e vice-presidente do TSE e membros do STF, resolveram se comportar como inquisidores do Tribunal do Ofício Nada Santo da Igreja Bolsonarista. Como Tomás de Torquemada (1420-1498), que mandava para a fogueira tudo o que a sua ortodoxia interesseira não tolerava, os dois passaram a tratar a campanha eleitoral de Lula como heresia a ser extirpada e punida. Atenção: Eestá em curso uma forma indireta de censura à imprensa, uma vez que até dados colhidos de reportagens — nada além de fatos, da mais inquestionável objetividade — estão sendo banidos quando reproduzidos pela chapa petista.
E isso se dá, até agora, sob o silêncio cúmplice de muitos “valentões” do colunismo, que se apresentam como defensores incondicionais da liberdade de expressão quando se trata de mensagens nas redes que fazem apologia do golpe ou pregam o rompimento do Estado de direito. Digo de novo: na prática, ambos aplicam uma forma derivada de cerceamento da imprensa e de ataque à livre manifestação do pensamento, violando os artigos 5º (Incisos IV e IX) e 220 (parágrafos 1º e 2º) da Constituição..
Neste domingo, Kássio determinou que o WhatsApp suspenda o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, atendendo a um pedido de Flávio Bolsonaro — decisão depois tornada sem efeito. Segundo o ministro, a estrutura orientava seguidores a reproduzir conteúdos que a Justiça Eleitoral já havia considerado falsos, inclusive sobre as comprovadas relações do senador com Adriano da Nóbrega, um chefão da milícia, morto em 9 de fevereiro de 2020 em confronto com a Polícia Militar da Bahia. Que o miliciano foi homenageado por Flávio é apenas um fato. Em 2005, o então deputado estadual propôs a Medalha Tiradentes ao ex-PM e empregou a mãe e a ex-mulher do criminoso em seu gabinete. Foram pagas com recursos da “rachadinha”. O próprio candidato admitiu a homenagem na sabatina do Jornal Nacional de 28 de agosto e em entrevista ao programa Roda Viva no dia 8 de abril de 2024
A suspensão do canal “Exército de Lula” valia até a homologação do resultado do segundo turno. Há um detalhe que escancara um método: no sábado, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, havia dado 72 horas para que os bolsonaristas apresentassem esclarecimentos sobre o pedido feito. O presidente do TSE não quis esperar. Atropelou o prazo fixado por Cueva, a quem cabia conduzir a questão, e cassou uma tribuna de mais de três milhões de seguidores. Parece que Kássio com K, pai de Kevin com K, anda sem paciência com o devido processo legal. Não é a primeira vez. Na sexta, o líder da “Turma do KN” já havia mandado remover publicações de Lula e de aliados, a pedido do adversário do presidente. Cueva derrubou a censura imposta pelo presidente do TSE, restabeleceu o canal e enviou o caso para o pleno.
Mendonça, por seu turno, ordenou que se apagassem do Instagram dois vídeos da campanha petista. Um deles tratava do corte de gastos num eventual governo Flávio. A alegação: o dito-cujo não consta do programa do filho de Bolsonaro. É um escândalo!
Entusiastas renomados do dito Zero Um falam abertamente de um enxugamento de despesas entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões. Há pilhas de reportagens a respeito. Como o postulante da extrema direita não explica, afinal, de onde sairia, ou não sairia, esse dinheiro, o ministro passa a atuar, então, como um coordenador de campanha que livra seu orientando de explicações difíceis. O silêncio da imprensa — que, pois, também está sendo censurada, ainda que indiretamente — grita.
Pergunta óbvia de resposta idem: este misto de deusa Têmis, da Justiça, com o rei Salomão se ocupou de ler o programa de Lula para confrontá-lo com as peças publicitárias do PL?
Querem mais? O ministro determinou a retirada do vídeo com o bordão “Se Flávio vence, você perde”. O incansável Kássio baniu propaganda eleitoral que relacionava o “Flávio do Dark Horse” a Daniel Vorcaro e ao caso Master. Também está proibido lembrar que o candidato do PL é, oficialmente, um investigado. Esses dois notáveis magistrados não veem nada demais em que o filho daquele que os indicou para o Supremo saia por aí a decretar “o fim da era PT”. Como se percebe, reproduzir notícias veiculadas pela imprensa constitui, para ambos, um possível crime eleitoral. Pregar o extermínio do adversário lhes parece coisa normal.
E olhem que o herdeiro político do golpista Jair Bolsonaro ainda não venceu a eleição. Imaginem a circunstância em que essa gente teria a Presidência e o domínio da Câmara, do Senado e do Supremo…
Os apoiadores de Jair acusavam Alexandre de Moraes de censurar sua campanha em 2022. As decisões do ministro, não custa lembrar, miravam especialmente desinformação sobre o sistema eleitoral, jamais notícias veiculadas pela própria imprensa. Olavo de Carvalho, que serviu de guru do bolsonarismo, atribuía a Lênin a seguinte frase: “Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é”. É o terraplanismo das citações. Lênin nunca escreveu essa porcaria. A partir desta campanha, os bolsonaristas, incluindo os dois ministros, podem adotar o lema como seu.
A letargia da imprensa diante da censura impressiona. Não se conhece ainda o vencedor da disputa eleitoral, e parece que já estamos às portas de uma concepção de poder com laivos de Andrei Jdanov, o comissário de Stálin que ditava os rumos do pensamento; de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, mestre da mentira repetida até virar verdade; e do já citado Torquemada, o inquisidor-geral da Espanha que fez do fanatismo religioso uma política de Estado.
Que admirável mundo velho se pode vislumbrar, a depender do que aconteça nas urnas! A divergência seria sufocada pela manipulação dos que dominam a máquina do Estado, com tudo pautado pela farsa convincente e temperado pela teologia da morte a serviço do poder.
Há, sem dúvida, os que defendem abertamente esse modelo. E, ainda assim, não conseguem ser tão abjetos como aqueles que, sem coragem de enfrentar a máquina bolsonarista, mas posando de seus críticos, preferem voltar o dedo acusador contra o próprio Lula: seria o responsável pelo eventual desastre. Eles próprios, os que se calaram ou foram coniventes com o golpismo, bem… são inocentes como as flores. Há dois tipos morais que estão sempre de braços dados com os algozes: os traidores e os covardes.
Já é um clichê, eu sei, mas obrigatório. Valem as palavras do pastor Niemöller sobre o nazismo:
Primeiro vieram buscar os comunistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era comunista.
Depois vieram buscar os socialistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era socialista.
Depois vieram buscar os sindicalistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era sindicalista.
Depois vieram buscar os judeus.
E eu não me manifestei
Porque eu não era judeu
Depois vieram me buscar.
E já não havia ninguém
Para se manifestar por mim
Tendo lutado na Primeira Guerra e sendo um nacionalista conservador, Niemöller chegou a simpatizar com o movimento nazista nos seus primórdios. Ao se dar conta do que estava em curso, passou a se opor ferrenhamente àquela bestialidade. Foi preso em 1937 e só saiu em 1945. Foi condenado a uma pena leve, mas Hitler não aceitou o veredito. Considerava-o seu prisioneiro pessoal. Tiranias não têm por que respeitar nem seu próprio aparato legal!
Que coisa! Um “nacionalista conservador” teve a coragem de fazer o que era certo. Hoje, alguns que até pagam de progressistas para agitar a “galera” dizem que política é suja, qualquer que seja o lado. Trata-se de uma “gente limpinha” que flertaria com campo de concentração em nome da sua “independência e isenção”. Querem saber como seria a face jurídica de um eventual governo Flávio? A fusão de Kássio com Mendonça até dá uma pista. Mas estejam certos: pode ser muito pior.
E isso se dá, até agora, sob o silêncio cúmplice de muitos “valentões” do colunismo, que se apresentam como defensores incondicionais da liberdade de expressão quando se trata de mensagens nas redes que fazem apologia do golpe ou pregam o rompimento do Estado de direito. Digo de novo: na prática, ambos aplicam uma forma derivada de cerceamento da imprensa e de ataque à livre manifestação do pensamento, violando os artigos 5º (Incisos IV e IX) e 220 (parágrafos 1º e 2º) da Constituição..
Neste domingo, Kássio determinou que o WhatsApp suspenda o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, atendendo a um pedido de Flávio Bolsonaro — decisão depois tornada sem efeito. Segundo o ministro, a estrutura orientava seguidores a reproduzir conteúdos que a Justiça Eleitoral já havia considerado falsos, inclusive sobre as comprovadas relações do senador com Adriano da Nóbrega, um chefão da milícia, morto em 9 de fevereiro de 2020 em confronto com a Polícia Militar da Bahia. Que o miliciano foi homenageado por Flávio é apenas um fato. Em 2005, o então deputado estadual propôs a Medalha Tiradentes ao ex-PM e empregou a mãe e a ex-mulher do criminoso em seu gabinete. Foram pagas com recursos da “rachadinha”. O próprio candidato admitiu a homenagem na sabatina do Jornal Nacional de 28 de agosto e em entrevista ao programa Roda Viva no dia 8 de abril de 2024
A suspensão do canal “Exército de Lula” valia até a homologação do resultado do segundo turno. Há um detalhe que escancara um método: no sábado, o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, havia dado 72 horas para que os bolsonaristas apresentassem esclarecimentos sobre o pedido feito. O presidente do TSE não quis esperar. Atropelou o prazo fixado por Cueva, a quem cabia conduzir a questão, e cassou uma tribuna de mais de três milhões de seguidores. Parece que Kássio com K, pai de Kevin com K, anda sem paciência com o devido processo legal. Não é a primeira vez. Na sexta, o líder da “Turma do KN” já havia mandado remover publicações de Lula e de aliados, a pedido do adversário do presidente. Cueva derrubou a censura imposta pelo presidente do TSE, restabeleceu o canal e enviou o caso para o pleno.
Mendonça, por seu turno, ordenou que se apagassem do Instagram dois vídeos da campanha petista. Um deles tratava do corte de gastos num eventual governo Flávio. A alegação: o dito-cujo não consta do programa do filho de Bolsonaro. É um escândalo!
Entusiastas renomados do dito Zero Um falam abertamente de um enxugamento de despesas entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões. Há pilhas de reportagens a respeito. Como o postulante da extrema direita não explica, afinal, de onde sairia, ou não sairia, esse dinheiro, o ministro passa a atuar, então, como um coordenador de campanha que livra seu orientando de explicações difíceis. O silêncio da imprensa — que, pois, também está sendo censurada, ainda que indiretamente — grita.
Pergunta óbvia de resposta idem: este misto de deusa Têmis, da Justiça, com o rei Salomão se ocupou de ler o programa de Lula para confrontá-lo com as peças publicitárias do PL?
Querem mais? O ministro determinou a retirada do vídeo com o bordão “Se Flávio vence, você perde”. O incansável Kássio baniu propaganda eleitoral que relacionava o “Flávio do Dark Horse” a Daniel Vorcaro e ao caso Master. Também está proibido lembrar que o candidato do PL é, oficialmente, um investigado. Esses dois notáveis magistrados não veem nada demais em que o filho daquele que os indicou para o Supremo saia por aí a decretar “o fim da era PT”. Como se percebe, reproduzir notícias veiculadas pela imprensa constitui, para ambos, um possível crime eleitoral. Pregar o extermínio do adversário lhes parece coisa normal.
E olhem que o herdeiro político do golpista Jair Bolsonaro ainda não venceu a eleição. Imaginem a circunstância em que essa gente teria a Presidência e o domínio da Câmara, do Senado e do Supremo…
Os apoiadores de Jair acusavam Alexandre de Moraes de censurar sua campanha em 2022. As decisões do ministro, não custa lembrar, miravam especialmente desinformação sobre o sistema eleitoral, jamais notícias veiculadas pela própria imprensa. Olavo de Carvalho, que serviu de guru do bolsonarismo, atribuía a Lênin a seguinte frase: “Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é”. É o terraplanismo das citações. Lênin nunca escreveu essa porcaria. A partir desta campanha, os bolsonaristas, incluindo os dois ministros, podem adotar o lema como seu.
A letargia da imprensa diante da censura impressiona. Não se conhece ainda o vencedor da disputa eleitoral, e parece que já estamos às portas de uma concepção de poder com laivos de Andrei Jdanov, o comissário de Stálin que ditava os rumos do pensamento; de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, mestre da mentira repetida até virar verdade; e do já citado Torquemada, o inquisidor-geral da Espanha que fez do fanatismo religioso uma política de Estado.
Que admirável mundo velho se pode vislumbrar, a depender do que aconteça nas urnas! A divergência seria sufocada pela manipulação dos que dominam a máquina do Estado, com tudo pautado pela farsa convincente e temperado pela teologia da morte a serviço do poder.
Há, sem dúvida, os que defendem abertamente esse modelo. E, ainda assim, não conseguem ser tão abjetos como aqueles que, sem coragem de enfrentar a máquina bolsonarista, mas posando de seus críticos, preferem voltar o dedo acusador contra o próprio Lula: seria o responsável pelo eventual desastre. Eles próprios, os que se calaram ou foram coniventes com o golpismo, bem… são inocentes como as flores. Há dois tipos morais que estão sempre de braços dados com os algozes: os traidores e os covardes.
Já é um clichê, eu sei, mas obrigatório. Valem as palavras do pastor Niemöller sobre o nazismo:
Primeiro vieram buscar os comunistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era comunista.
Depois vieram buscar os socialistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era socialista.
Depois vieram buscar os sindicalistas.
E eu não me manifestei
Porque eu não era sindicalista.
Depois vieram buscar os judeus.
E eu não me manifestei
Porque eu não era judeu
Depois vieram me buscar.
E já não havia ninguém
Para se manifestar por mim
Tendo lutado na Primeira Guerra e sendo um nacionalista conservador, Niemöller chegou a simpatizar com o movimento nazista nos seus primórdios. Ao se dar conta do que estava em curso, passou a se opor ferrenhamente àquela bestialidade. Foi preso em 1937 e só saiu em 1945. Foi condenado a uma pena leve, mas Hitler não aceitou o veredito. Considerava-o seu prisioneiro pessoal. Tiranias não têm por que respeitar nem seu próprio aparato legal!
Que coisa! Um “nacionalista conservador” teve a coragem de fazer o que era certo. Hoje, alguns que até pagam de progressistas para agitar a “galera” dizem que política é suja, qualquer que seja o lado. Trata-se de uma “gente limpinha” que flertaria com campo de concentração em nome da sua “independência e isenção”. Querem saber como seria a face jurídica de um eventual governo Flávio? A fusão de Kássio com Mendonça até dá uma pista. Mas estejam certos: pode ser muito pior.
Reinaldo Azevedo
A escolha de um governante é o espelho dos valores de uma sociedade
Está tudo aí, à mostra. Ninguém poderá dizer que não viu. A verdade é que quase todo mundo enxerga o cenário real, mas uma grande parte concorda com o que lhe é oferecido — ou simplesmente não se incomoda.
Foi exatamente assim que, em 2018, Jair Bolsonaro — um deputado do baixo clero que passou duas décadas na Câmara sem grande relevância — se elegeu presidente da República. O que ele prometia? Derrubar o sistema. Para quê? Para pôr outro no lugar. Qual? Ele nunca dizia. Como resultado, seu governo terminou com uma tentativa de golpe de Estado.
Foi exatamente assim que, em 2018, Jair Bolsonaro — um deputado do baixo clero que passou duas décadas na Câmara sem grande relevância — se elegeu presidente da República. O que ele prometia? Derrubar o sistema. Para quê? Para pôr outro no lugar. Qual? Ele nunca dizia. Como resultado, seu governo terminou com uma tentativa de golpe de Estado.
O teatro da barbárie que dá voto, nos EUA de Trump e aqui
Depois de 90 anos, os Estados Unidos voltarão a promover uma execução em público. Desta vez, com transmissão ao vivo na TV e nas redes sociais. A notícia foi confirmada pelo Departamento de Defesa, que Donald Trump mandou rebatizar de Departamento de Guerra. “Eu aprovo, com certeza”, sentenciou o 47º presidente americano.
Em entrevista a um canal de extrema direita, o secretário Pete Hegseth deu detalhes sobre o espetáculo da morte. O condenado será submetido a um pelotão de fuzilamento em 3 de dezembro. A escolha da data garantirá quase dois meses de debates inflamados sobre o assunto. É a nova aposta de Trump para mobilizar as bases antes das eleições legislativas que ameaçam tirar a maioria republicana no Congresso.No ano passado, só dois países promoveram execuções públicas: Irã e Afeganistão. Ao se juntar ao clube, os EUA engatam a marcha a ré na própria história. A última execução pública no país ocorreu em 1936, quando um homem negro condenado por estuprar uma mulher branca foi enforcado diante da multidão. O último fuzilamento foi registrado em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial.
A comunidade internacional faz o que lhe resta: protestar. O porta-voz das Nações Unidas, Stéphane Dujarric, classificou a decisão do governo Trump como “desumana” e “repugnante”. “Um governo executar alguém em público, ou diante de câmeras ao vivo, é abominável”, resumiu. A Anistia Internacional falou em “arbitrariedade” e “teatro da barbárie”. Além de audiência, a selvageria rende votos. Lá e aqui.
A eleição do domingo passado deu novo impulso à bancada da bala, que aposta na apologia da truculência estatal. O senador mais votado do país, Guilherme Derrite (PP), exaltou o cerco policial que deixou 84 mortos na Baixada Santista — ações mais letais da PM paulista desde o Massacre do Carandiru. Expulso da Rota por excesso de violência, ele é cotado para assumir o Ministério da Segurança Pública num eventual governo Flávio Bolsonaro.
No Rio, foram eleitos dois deputados estaduais e um deputado federal envolvidos na matança do ano passado nos complexos da Penha e do Alemão. O grupo inclui os ex-secretários de polícia Coronel Menezes (PL) e Felipe Curi (PP), além do delegado Bernardo Leal (PP). Todos usaram títulos e distintivos para promoção pessoal. Todos declararam apoio a Flávio e ao governador eleito Douglas Ruas (PL).
Apesar da euforia com o fuzilamento, Trump terminou a semana contrariado. Invocou-se com o anúncio do Prêmio Nobel da Paz para Navi Pillay. Aos 85 anos, a jurista sul-africana foi laureada pela longa trajetória de defesa do direito internacional como antídoto contra a barbárie. Em seu currículo estão a luta contra o apartheid, o julgamento do genocídio em Ruanda e a nomeação como primeira mulher não branca na Suprema Corte de seu país.
Nos últimos anos, Pillay presidiu a comissão da ONU que investigou ações militares de Israel em territórios palestinos ocupados. Em setembro de 2025, ela apresentou as conclusões do inquérito: “A comissão concluiu que Israel cometeu genocídio contra o povo palestino em Gaza, e está continuando com esse genocídio”.
A falta de plano na economia
A campanha de Flávio Bolsonaro prometeu um ajuste fiscal entre R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões no primeiro ano. Mas as falas dele e de sua equipe são de aumento do gasto. Ele disse que os aposentados terão reajuste acima da inflação. Sua equipe afirmou que aumento real do salário mínimo vai continuar e negou privatizações. Flávio Bolsonaro disse que as emendas parlamentares serão mantidas porque ele sabe “como é suado conseguir voto”. E ainda disse que vai cortar impostos. Tudo somado, vai manter as despesas e diminuir receita. A conta piora.
Flávio Bolsonaro fala e age como vitorioso. Na primeira semana após o primeiro turno, afirmou que fará mudanças na Constituição para “redemocratizar” o país, convidou o presidente da Colômbia para a posse, falou em aumentar o mandato que ainda não recebeu das urnas. No seu entorno, os cargos estão sendo distribuídos. Quem sai na frente no primeiro turno é o favorito e a primeira pesquisa Datafolha mostrou que ele aumentou um pouco a dianteira em relação ao presidente Lula. Mas o eleitor é que tem a palavra final. Ninguém é vencedor de véspera.
O presidente Lula não esclarece o que fará na área fiscal, na hipótese de reeleição. Chegou a dizer em setembro que o governo precisa “parar com essa babaquice de fazer superávit”. Sua equipe, no entanto, prometeu superávits crescentes nos próximos anos. O problema é que, neste fim de mandato, Lula tomou medidas que impactam as contas. No Desenrola 3, o governo vai comprar dívida. O fim das bets, independentemente do mérito da medida, significará uma frustração de receita.
O Brasil tem um problema fiscal que precisa ser enfrentado. E também precisa ser entendido para além do lugar-comum repetido pelos operadores do mercado. Só um país com estabilidade econômica pode construir políticas sociais eficientes. O ajuste fiscal nunca foi uma “babaquice”. Mas o que Flávio tem dito não fica de pé. É enrolação. Ou ele está mentindo para o eleitor ou está mentindo para o mercado financeiro.
– O mercado daria o benefício da dúvida a qualquer um que fosse contra o Lula — explica um economista de banco que tenta ficar ligado aos dados e fatos.
Esse economista lembra que houve também um bom momento com o presidente Lula. Em abril de 2023, o governo apresentou o arcabouço fiscal. Em quatro meses, a taxa de câmbio saiu de R$ 5,20 para R$ 4,70, a bolsa subiu de 100 mil pontos para 120 mil pontos e a curva de juros caiu fortemente. Ao longo de 2024, contudo, a confiança na política econômica começou a piorar.
– A equipe econômica do governo Lula admitiu o problema fiscal, e indicou que o próximo mandato poderia desacelerar o crescimento do gasto público e apresentar uma proposta para reduzir o aumento da despesa obrigatória. O problema é que o presidente nunca falou isso. Já o outro candidato não detalhou o ajuste, mas o mercado está reagindo à expectativa de ajuste, sem saber ao certo como será essa proposta.
Sérgio Vale, da MB Associados, faz uma avaliação parecida:
– O mercado já estava com essa ideia comprada de que Flávio Bolsonaro vai fazer um belo ajuste fiscal e o Lula não vai fazer. A gente sabe que não é necessariamente assim, porque a história da família Bolsonaro com ajuste fiscal não é positiva.
Vale não acredita em promessa de corte de gastos sem haver detalhamento.
— O “tesouraço” é história para o eleitor ver, contada em período eleitoral e não significa nada. Mágica para 2027 é difícil de acontecer. Se Lula diminuir um pouco o crescimento do gasto permitido pelo arcabouço, de 2,5% para 1,5% já seria uma sinalização importante.
Na economia, o governo Lula investiu o seu capital político inicial para aprovar a reforma dos impostos sobre o consumo. Uma mudança necessária e que o Brasil queria há 40 anos. A alíquota somada do CBS e IBS será alta, mas a culpa é do Congresso que se dobrou aos lobbies dos setores que queriam pagar menos. Flávio Bolsonaro prometeu acabar com um instrumento importante da reforma, o que distribui instantaneamente aos governos o imposto pago pelo consumidor, conhecido como split payment. Ele serve para combater a sonegação. A reforma perderá eficiência se isso acontecer.
Enfim, a conversa de que a questão fiscal opõe um Lula gastador a um Flávio Bolsonaro austero é balela. Lula errou e acertou na área fiscal. Flávio não diz coisa com coisa quando o assunto é economia.
Flávio Bolsonaro fala e age como vitorioso. Na primeira semana após o primeiro turno, afirmou que fará mudanças na Constituição para “redemocratizar” o país, convidou o presidente da Colômbia para a posse, falou em aumentar o mandato que ainda não recebeu das urnas. No seu entorno, os cargos estão sendo distribuídos. Quem sai na frente no primeiro turno é o favorito e a primeira pesquisa Datafolha mostrou que ele aumentou um pouco a dianteira em relação ao presidente Lula. Mas o eleitor é que tem a palavra final. Ninguém é vencedor de véspera.
O presidente Lula não esclarece o que fará na área fiscal, na hipótese de reeleição. Chegou a dizer em setembro que o governo precisa “parar com essa babaquice de fazer superávit”. Sua equipe, no entanto, prometeu superávits crescentes nos próximos anos. O problema é que, neste fim de mandato, Lula tomou medidas que impactam as contas. No Desenrola 3, o governo vai comprar dívida. O fim das bets, independentemente do mérito da medida, significará uma frustração de receita.
O Brasil tem um problema fiscal que precisa ser enfrentado. E também precisa ser entendido para além do lugar-comum repetido pelos operadores do mercado. Só um país com estabilidade econômica pode construir políticas sociais eficientes. O ajuste fiscal nunca foi uma “babaquice”. Mas o que Flávio tem dito não fica de pé. É enrolação. Ou ele está mentindo para o eleitor ou está mentindo para o mercado financeiro.
– O mercado daria o benefício da dúvida a qualquer um que fosse contra o Lula — explica um economista de banco que tenta ficar ligado aos dados e fatos.
Esse economista lembra que houve também um bom momento com o presidente Lula. Em abril de 2023, o governo apresentou o arcabouço fiscal. Em quatro meses, a taxa de câmbio saiu de R$ 5,20 para R$ 4,70, a bolsa subiu de 100 mil pontos para 120 mil pontos e a curva de juros caiu fortemente. Ao longo de 2024, contudo, a confiança na política econômica começou a piorar.
– A equipe econômica do governo Lula admitiu o problema fiscal, e indicou que o próximo mandato poderia desacelerar o crescimento do gasto público e apresentar uma proposta para reduzir o aumento da despesa obrigatória. O problema é que o presidente nunca falou isso. Já o outro candidato não detalhou o ajuste, mas o mercado está reagindo à expectativa de ajuste, sem saber ao certo como será essa proposta.
Sérgio Vale, da MB Associados, faz uma avaliação parecida:
– O mercado já estava com essa ideia comprada de que Flávio Bolsonaro vai fazer um belo ajuste fiscal e o Lula não vai fazer. A gente sabe que não é necessariamente assim, porque a história da família Bolsonaro com ajuste fiscal não é positiva.
Vale não acredita em promessa de corte de gastos sem haver detalhamento.
— O “tesouraço” é história para o eleitor ver, contada em período eleitoral e não significa nada. Mágica para 2027 é difícil de acontecer. Se Lula diminuir um pouco o crescimento do gasto permitido pelo arcabouço, de 2,5% para 1,5% já seria uma sinalização importante.
Na economia, o governo Lula investiu o seu capital político inicial para aprovar a reforma dos impostos sobre o consumo. Uma mudança necessária e que o Brasil queria há 40 anos. A alíquota somada do CBS e IBS será alta, mas a culpa é do Congresso que se dobrou aos lobbies dos setores que queriam pagar menos. Flávio Bolsonaro prometeu acabar com um instrumento importante da reforma, o que distribui instantaneamente aos governos o imposto pago pelo consumidor, conhecido como split payment. Ele serve para combater a sonegação. A reforma perderá eficiência se isso acontecer.
Enfim, a conversa de que a questão fiscal opõe um Lula gastador a um Flávio Bolsonaro austero é balela. Lula errou e acertou na área fiscal. Flávio não diz coisa com coisa quando o assunto é economia.
A glória de ser medíocre (Algo mudou?)
Cada vez mais gostamos de ser medíocres no Brasil. Sofremos uma absurda atração pela cultura da mediocridade e a elevamos a objetivo nacional. Estamos conseguindo, e com que brilho! Caminhamos para a liderança mundial em muitos quesitos. Consulte os índices de qualidade de vida, de desenvolvimento humano, de educação, de violência, de saúde pública, de saneamento, de habitação. Percorra nossas estradas, nossos portos e aeroportos, nossas escolas. Visite os estádios superfaturados e abandonados neste país que ainda usa o futebol como ópio do povo.
A atração fatal pela mediocridade se espalha em todos os níveis da sociedade. Alguns exemplos: quem acha que nosso Congresso é composto por mentes brilhantes? Quem acha que pessoas capazes ocupam nossos ministérios? Como Eike Batista chegou tão longe e acabou em Bangu? Seria apenas pela aliança com um governador que levou 16 milhões de dólares dele para o exterior? Por que tantos turistas compulsórios visitam Curitiba tendo a PF como cicerone? Onde foi que um presidente afirmou que nunca tinha lido um livro – e não lhe fez falta? Por que tantos?
Se você acha que a cultura da mediocridade para aí, está enganado. Escute com atenção as músicas que fizeram maior sucesso em 2016, curta a riqueza das letras e das melodias, encante-se com a mesmice e o ridículo. Veja um programa na televisão, desses que arrancam dinheiro do espectador a cada minuto, eleve-se ao nível da danação intelectual ou caia no fundo do poço da exploração humana. Sintonize a grade das tvs abertas e delicie-se com o vazio que elas nos impingem travestido de entretenimento. Leia também os best-sellers, mergulhe na profundidade de suas páginas, repare quanta sabedoria eles lhe trazem, quanta novidade divulgam, quanta sede de escrever diários de bananas eles propagam. Não se esqueça de ver os filmes nacionais de maior bilheteria: como são inteligentes, criativos, nem um pouco machistas e, cá entre nós, que humor. Que humor requintado! Gaste oito ou dez horas por dia, como nossos jovens, enfrentando os games e seus inspiradores combates, ache-se mais esperto, mais genial, com neurônios mais rápidos, longe da alienação e do vício.
Observe bem as propagandas nas mídias, admire os estereótipos tão maravilhosamente engendrados pelas mentes sedutoras das agências, tão sedutoras que a crise passa longe dos produtos que anunciam. Mergulhe de cabeça nos posts inovadores do Facebook ou nas mensagens do “zapzap” e sinta-se pronto para conquistar o Vale do Silício, depois do implante de um cilício mental.
A lista não tem fim. Estamos conseguindo, a passo acelerado, a mediocridade. Viva! Como é bom ser medíocre, a grande mania nacional! Deixemos que outros pensem por nós. O melhor é que a opção pela mediocridade é nossa, o gosto é nosso, as consequências cairão em nossas cabeças. Viva! Quem sabe, em 2018, para coroar o ano, não elegemos o brilhante Donald Trump nosso presidente?
A atração fatal pela mediocridade se espalha em todos os níveis da sociedade. Alguns exemplos: quem acha que nosso Congresso é composto por mentes brilhantes? Quem acha que pessoas capazes ocupam nossos ministérios? Como Eike Batista chegou tão longe e acabou em Bangu? Seria apenas pela aliança com um governador que levou 16 milhões de dólares dele para o exterior? Por que tantos turistas compulsórios visitam Curitiba tendo a PF como cicerone? Onde foi que um presidente afirmou que nunca tinha lido um livro – e não lhe fez falta? Por que tantos?
Se você acha que a cultura da mediocridade para aí, está enganado. Escute com atenção as músicas que fizeram maior sucesso em 2016, curta a riqueza das letras e das melodias, encante-se com a mesmice e o ridículo. Veja um programa na televisão, desses que arrancam dinheiro do espectador a cada minuto, eleve-se ao nível da danação intelectual ou caia no fundo do poço da exploração humana. Sintonize a grade das tvs abertas e delicie-se com o vazio que elas nos impingem travestido de entretenimento. Leia também os best-sellers, mergulhe na profundidade de suas páginas, repare quanta sabedoria eles lhe trazem, quanta novidade divulgam, quanta sede de escrever diários de bananas eles propagam. Não se esqueça de ver os filmes nacionais de maior bilheteria: como são inteligentes, criativos, nem um pouco machistas e, cá entre nós, que humor. Que humor requintado! Gaste oito ou dez horas por dia, como nossos jovens, enfrentando os games e seus inspiradores combates, ache-se mais esperto, mais genial, com neurônios mais rápidos, longe da alienação e do vício.
Observe bem as propagandas nas mídias, admire os estereótipos tão maravilhosamente engendrados pelas mentes sedutoras das agências, tão sedutoras que a crise passa longe dos produtos que anunciam. Mergulhe de cabeça nos posts inovadores do Facebook ou nas mensagens do “zapzap” e sinta-se pronto para conquistar o Vale do Silício, depois do implante de um cilício mental.
A lista não tem fim. Estamos conseguindo, a passo acelerado, a mediocridade. Viva! Como é bom ser medíocre, a grande mania nacional! Deixemos que outros pensem por nós. O melhor é que a opção pela mediocridade é nossa, o gosto é nosso, as consequências cairão em nossas cabeças. Viva! Quem sabe, em 2018, para coroar o ano, não elegemos o brilhante Donald Trump nosso presidente?
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