sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Sempre que a cobertura de polícia toma a de política, fascistoides avançam

Não sei quem vai vencer a eleição. Flávio Bolsonaro é, em tese, favorito porque chegou à frente. Pesquisas apontam empate técnico com o presidente Lula. O precedente de nunca ter havido uma virada na eleição presidencial não é predição acima da dúvida nem um teorema. Há outro, que também não é um teorema como o de Pitágoras (a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa): em 2014, Dilma só virou sobre Aécio nas pesquisas cinco dias antes do segundo turno e acabou vencendo. Nos números da Quaest divulgados nesta quarta, o candidato do PL aparece com 46%, e o petista, com 44%. Acho que há uma novidade nestes dias: a cobertura política começou a falar um pouco de… política! Deixou de ser apenas um rodapé da seção de Polícia.

Os partidários de Lula têm feito atos Brasil afora que realmente impressionam. O de domingo, na Avenida Paulista e adjacências, disputa lugar entre os maiores da história do país. Nem de longe teve na grande imprensa a visibilidade que o fato exigiria em tempos normais. Em dias assim, certo equilibrismo em nome da isenção costuma privilegiar a administração dessa isenção em prejuízo da realidade. Talvez um dia isso seja revisto. E, pois, falemos mais de imprensa.

“Os Pilares da Sociedade” (1926), George Grosz

Nesses quatro anos da gestão Lula, dois movimentos se deram. Num sentido, a cobertura passou a ser implacável com a dita irresponsabilidade fiscal do governo. É muito difícil haver juízos “apenas técnicos” que sejam neutros, reconhecendo virtudes e defeitos ao menos. Não. É pauleira pura. No outro sentido, o bolsonarismo, que jamais abandonou a agenda golpista e reacionária, começou a ser normalizado. Perguntas de caráter até supostamente existencial têm sido feitas pelo isentismo profissional: “Os direitistas não têm o direito de se manifestar?”

Mas quando é que houve um miserável impedimento? Nunca. Convém não confundir a pregação de golpe de Estado com exercício da divergência, não é mesmo? Há coisas que chegam a ser risíveis. No domingo, no dia do grande ato dos eleitores de Lula na Paulista, um grupo de jovens resolveu pichar uma estação do metrô. O ora ultrarreacionário Tarcísio de Freitas, com fama de “moderado” na mídia, gravou um vídeo em que se referiu — sei lá se sabia o que estava dizendo ou se foi pautado por algum assessor com ou sem o concurso da IA — ao “paradoxo da tolerância”, de Karl Popper, na obra em dois volumes “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”.

Em síntese: os democratas não podem tolerar os que tentam solapar o regime justamente em nome da tolerância porque fazê-lo significa aceitar a premissa da intolerância. E não é que o homem que defende anistia para os golpistas se mostra, então, severíssimo com pichadores — e não penso que devam ser adulados —, mas passa a mão na cabeça dos que tentaram pôr fim à democracia, um plano que contemplava até o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes?

Já recomendei aqui um livro de 1980: “Friendly Fascism: The New Face of Power in America”. É o fascismo que volta com um “sorriso”, com cara “amigável”. Mas, sabemos todos, se precisar, fuzila, como se viu em São Paulo.

Ora, senhor Tarcísio, os golpistas é que não podiam ser tolerados, não é mesmo?, segundo os fundamentos expostos por Popper. Ah, claro: se não leu, não cite.

Não sei quem vai vencer no dia 25. Mas é fato que a própria imprensa só começou a cuidar de eleição propriamente depois do primeiro turno — e, ainda assim, antecipando o desastre de Lula. A mobilização da rua petista está obrigando-a a falar do pleito. Desde que André Mendonça quebrou o sigilo da investigação ilegal que mandou fazer contra Alexandre, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, o jornalismo político não cuidou de outra coisa. Melhor para Flávio, não?, que tem um programa oculto.

Até agora, ninguém sabe onde ele vai aplicar o seu “tesouraço” que tanto encanta os mercados. Mendonça e Kássio não querem que os adversários do senador sugiram que os cortes serão feitos na área social, embora isso tenha sido vazado para a imprensa por gente da própria campanha para testar reações. O Flávio que diz que vai pôr fim à era petista só prometeu aumento de gastos. Adolfo Sachsida, um de seus coordenadores econômicos, diz que a revolução dos gastos sairá do enxugamento dos ministérios e do corte de supersalários. É uma piada.

Em suma: bastou a cobertura política falar um pouco de política, e Flávio se complicou porque, ora vejam!, é adversário dos fatos. Daqui a pouco alguém ainda tem uma ideia: “Vamos retomar a agenda de polícia e a caça ao Supremo, ou nosso homem ainda perde a eleição. E lá ficaremos nós sem nosso projeto de fascismo que consideramos ‘amigável e sorridente’.”

O candidato do PL e seu coordenador político, senador Rogério Marinho (PL-RN), querem encarcerar crianças de 14 anos e choram quando pensam em golpistas presos… Lembro-me do poema “Anedota Búlgara”, de Drummond:

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.

O país real versus o país da tela

Quando você pergunta aos brasileiros se a economia vai bem ou mal, a esmagadora maioria deles responde que vai mal. No entanto, quando a pergunta é se, do ponto de vista econômico, a vida pessoal melhorou ou piorou, a maioria responde que melhorou. A que se deve esse paradoxo? Basicamente, às informações que a imprensa tradicional lhes oferece e ao que leem nas redes sociais.

O que repercute nas plataformas digitais pauta o que a imprensa tradicional publica, e vice-versa. O leitor de ambos os espaços diz confiar mais no que lê nos veículos tradicionais, mas não larga o celular para saber, se possível minuto a minuto, o que está em discussão nas redes.


Não é de hoje que os grandes veículos de comunicação se opõem com ferocidade a Lula e ao PT, buscando varrê-los do poder. Trata-se de uma questão ideológica, mas não apenas isso. É também uma questão de alinhamento com as fontes que os remuneram e que enriquecem seus proprietários.

O surgimento da internet agravou a crise financeira em que a imprensa já vivia, e hoje ela tenta sobreviver a duras penas. Como não soube — e continua sem saber — se reinventar, ela acaba, na maioria das ocasiões, mandando às favas os princípios e valores que sempre disse cultivar.

Por ser uma meta impossível, o jornalismo nunca foi totalmente imparcial, por mais que apregoe o contrário ou que essa seja a meta ideal. Cobra-se dele, pelo menos, que seja honesto. No passado, nem tão distante assim, havia um esforço sincero para tentar separar a produção de notícias da produção de anúncios. Hoje, infelizmente, está tudo misturado. Quem perde com essa fusão são os leitores, cuja maioria permanece desconhecendo a realidade.

O paradoxo entre a melhora na vida real e o pessimismo na percepção pública é o sintoma claro de uma sociedade hiperinformada, mas profundamente desorientada. Enquanto o jornalismo não resgatar sua honestidade essencial, o brasileiro continuará refém de uma realidade que ele vive diariamente, mas na qual é ensinado a não acreditar.

Banquetaço: Para a democracia não sair da mesa brasileira

Quem atua há alguns anos nas organizações sociais ligadas à busca da Soberania Alimentar jamais se esquece de duas datas que representaram guinadas no setor. Uma delas é lembrada com indignação e pesar; a outra, com satisfação e esperança. Acredito que, em seu chocante contraste, elas podem expressar a encruzilhada em que nos encontramos neste momento histórico do país.

No dia primeiro de janeiro de 2019, o recém empossado presidente Jair Messias Bolsonaro deu uma canetada que varreu do mapa conquistas fundamentais da população brasileira. Entre as medidas adotadas, estava a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), responsável pela elaboração de políticas públicas agroalimentares que se tornaram referência mundial, ao tirar, em 2014 e pela primeira vez na história, nosso país do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU).

Rapidamente, a surpresa manifestada pelos movimentos ativistas pela comida boa no prato em relação a essa brusca medida governamental foi substituída pelo sentimento de revolta e de recusa em aceitar passivamente tamanho autoritarismo e insensatez. Assim, nasceu a primeira ação nacionalizada do Banquetaço, iniciativa que, desde 2017, vem mobilizando redes e ruas por meio da realização de manifestações criativas envolvendo a comensalidade. E uma faísca se irradiou por todas as regiões do país, instigando ativistas de mais de 40 cidades a fazerem atos comensais, protestando contra o governo federal e reivindicando a permanência do CONSEA.


Apesar de todo o agito e da sólida argumentação pró-manutenção do Conselho, ele jamais veria a luz do dia durante toda a gestão do então presidente, que atualmente está cumprindo prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado, o que só comprova seu desprezo pela democracia.

As consequências dessa extinção foram dramáticas, impulsionadas também por outras medidas anti-alimentares, como o esvaziamento dos galpões da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), responsável por garantir os estoques de comida em épocas de necessidade, como nas que há o combate à alta dos preços ou o enfrentamento de desastres socioambientais.

Com a chegada da pandemia e a insistência do governo Bolsonaro em adotar uma postura negligente e até negacionista em relação ao cenário gravíssimo que enfrentávamos, o resultado não poderia ser outro: voltamos para o fatídico Mapa da Fome em 2021.

Nem mesmo a gigantesca dedicação de milhares de pessoas que se organizaram para fornecer uma marmita nutritiva para quem não tinha nada na barriga pôde evitar que o número de brasileiras e brasileiros famintos aumentasse de 3,4 milhões, ao sair do Mapa em 2014, para 33 milhões, em meados de 2022.

Por trás desses números, encontramos moradias desestruturadas; agricultores e agricultoras familiares sem apoio para cultivar suas roças; ecossistemas destruídos com uma fúria inédita, estimulada pelo próprio poder público e pela bancada ruralista; e uma sociedade na qual a exclusão e a exploração voltaram a imperar sem o menor pudor.

Mas não sem resistência! E aqui podemos retomar a conversa sobre datas marcantes, já que, após anos de muita luta, conseguimos dar um basta no desgoverno de Jair e companhia, eleger Lula presidente novamente e testemunhar, no dia 1.º de janeiro de 2023, a volta do CONSEA.

Se nos empenhamos tanto na luta contra o agrofascismo, fazendo um enfrentamento nas instâncias participativas que ainda existiam, e agindo em rede para levar outra perspectiva de vida aos setores mais vulnerabilizados da população — o que permitiu mudar o rumo do comando nacional do país em relação à Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional —, merecíamos celebrar. E foi o que fizemos, organizando novamente a comunidade do Banquetaço para fazer ações comensais nas ruas e gritar com toda a alegria: o CONSEA voltou!

Com o Conselho e os programas por ele criados e apoiados de volta, começamos uma caminhada em direção à redução dos pratos vazios nas mesas. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) teve finalmente um reajuste em seus valores e, posteriormente, passou a exigência na quantidade de alimentos provenientes da Agricultura Familiar nas escolas públicas de 30% para 45% do total. Desse modo, ele não apenas permitiu que crianças e jovens se alimentassem melhor, como estimulou quem cultiva familiarmente a aumentar a produção, gerando renda no campo e nas áreas urbanas e periurbanas em que há a presença de hortas.

Passo a passo, os estoques da CONAB foram sendo formados novamente, algo fundamental nestes tempos de emergência climática, em que secas, inundações, incêndios e outros fenômenos extremos tornaram-se frequentes. E, embora o agronegócio monocultor continue recebendo as benesses governamentais que permitem que ele não quebre frente à própria insustentabilidade de seu modelo, e o Plano Safra conceda, ano a ano, mais recursos a ele, a Agricultura Familiar voltou a respirar, tendo sua verba aumentada de R$ 53,61 bilhões, em 2022, para R$ 97,3 bilhões, neste ano.

O aumento real do salário mínimo, a isenção de impostos para quem ganha até 5 mil reais, a ampliação do Bolsa Família e outras medidas tomadas pelo governo Lula, durante o atual mandato, contribuíram para que a parcela da população que tinha sido excluída da mesa voltasse a sentar em torno dela, compartilhando os alimentos necessários para encarar os desafios da rotina imposta por uma sociedade capitalista como a nossa. As filas para pegar os ossos descartados pelos mercados feitas pelas pessoas que estavam com fome, que revelaram a dimensão do estrago feito pelo governo de Jair, sumiram dos noticiários e do cotidiano das cidades.

Mas não foram apenas as antigas políticas públicas que voltaram. Uma das inovações que mais impactaram a rede de organizações e pessoas dedicadas ao combate à fome foi a criação do Programa Cozinhas Solidárias. Ele garante apoio financeiro para que uma ampla teia de cozinheiras e cozinheiros de todos os municípios do país produza quentinhas para distribuição para quem ainda não pode arcar com os custos dos alimentos de que necessita. E se engana quem pensa que esses espaços são somente assistencialistas. Eles vão muito além e se tornaram locais de convívio, de aprendizado e de articulação social e política, impulsionando a cidadania nas comunidades.

Então veio a notícia: em meados de 2025, a ONU anunciou que o Brasil havia saído, pela segunda vez em sua trajetória de 500 anos de país invadido e colonizado, do Mapa da Fome!

E chegamos em outubro de 2026, mês em que se comemora o Dia Mundial da Soberania Alimentar (16/10) e que, neste ano, inclui a data do segundo turno das nossas eleições majoritárias (25/10). Vamos definir quem se sentará na cadeira presidencial pelos próximos quatro anos, caso o sistema da democracia representativa em que vivemos se mantenha, algo que está sob ameaça frente às investidas do bolsonarismo contra a constituição e o judiciário. O fato concreto é que as duas candidaturas já mostraram a que vieram.

O clã Bolsonaro, agora representado pelo filho primogênito de Jair, o atual senador Flávio Bolsonaro, arrasta em sua trilha uma montanha de ações contrárias ao combate à fome, além de tantas outras posturas adotadas para esmagar os direitos do povo. Enquanto as pessoas se amontoavam na fila do osso, a rede de amigos da família, ligada abertamente a milicianos, se refestelava com rachadinhas, lojas suspeitas de práticas ilegais, compras de casas com dinheiro vivo e festinhas em que garotas de programa e uísque importado eram feijão com arroz.

Já o governo Lula, embora engessado por uma composição de frente ampla, em que interesses conflituosos se digladiam, e por um Congresso Nacional que controla boa parte do orçamento, por meio das tais emendas parlamentares impositivas, tem em sua bagagem a inclusão de milhões de pessoas no grupo de quem toma café da manhã, almoça e janta todos os dias, entre muitas outras conquistas. Sabemos que ainda está longe de ser suficiente e temos feito críticas contundentes a muitas das medidas tomadas e, principalmente, à ausência de tantas outras que são necessárias. Mas é impossível não reconhecer a brutal diferença em relação ao seu oponente.

É por isso que não vamos ficar de braços cruzados, apenas assistindo a essa disputa acirrada entre os atuais candidatos à presidência, como se não houvesse uma diferença essencial entre ambos no que se refere à garantia da comida no prato. Vamos às ruas, vamos às redes e vamos às urnas.

O Banquetaço 2026 está na ativa, irradiando sua alegria criativa pelo país, e convidando as pessoas que acreditam que é possível conquistar uma sociedade em que todas, todos e todes tenham acesso a uma alimentação saudável, saborosa e integrada à cultura e à natureza a somarem suas energias nessa jornada.

Participe das atividades espalhadas pelos territórios, chame as pessoas amigas, divulgue em seus canais digitais e na vizinhança. Contribua com nosso Compartilhaço no dia 16 às 12 horas. É o momento de juntar as panelas, de juntar as vontades, de superar as desigualdades econômicas, de unir os sonhos relativos a uma forma de viver em harmonia com a Mãe Terra, e de mostrar que temos voz e vez — e jamais nos calaremos nem nos conformaremos com a injustiça, a exclusão e a exploração de seres viventes.

Traga sua caneca e seu esperançar para chacoalharmos este mês decisivo, em que a Soberania Alimentar é alvo de atenção e as urnas esperam pelos votos conscientes e responsáveis, que vão nutrir a nossa (ainda frágil, mas sempre sagrada) democracia.
Susana Prizendt

O mal não morre, apenas muda de lugar

1. Cresci fascinado com os feitos do Estado de Israel. Li todos os livros de Leon Uris, vi mais de uma vez Vitória em Entebbe, ficava arrepiado com as proezas da Mossad. Lembro-me dos discursos que fazia sobre como meia dúzia de pessoas conseguia, de forma sistemática, vencer os exércitos de vizinhos infinitamente maiores. Lembro-me também de uma espécie de orgulho com que falava do desenvolvimento económico de Israel e de como as suas cidades eram maravilhosas comparadas com as dos países à volta.

Pude confirmar tudo isso na minha primeira visita a Israel, em 1989. Confesso que olhei para o nosso guia como um herói enquanto ele contava, com alguns pormenores, a sua participação na “reconquista” (palavra dele) de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias.

Era, e é, uma obra notável a que se fez naquele pedaço de terra tão pequeno. Mais do que tudo, impressionava-me ver como um povo sistematicamente discriminado, humilhado e assassinado ao longo da História tinha conseguido unir-se, construir e defender a casa de onde saíra há tantos séculos. E logo a seguir a ter sofrido o maior genocídio a que uma gente foi sujeita: seis milhões de judeus exterminados por um país que era uma das luzes da civilização ocidental.

Pouco importava a ajuda que tivesse recebido. Nenhuma ajuda bastaria para reparar o que se fez aos judeus ao longo da História.

E tinham conseguido tudo isto sendo uma democracia. A única verdadeira democracia do Médio Oriente derrotava as mais vis ditaduras, que queriam destruí-la. Até nisso eu via a superioridade moral de Israel.


Já nessa altura não ignorava por completo o que estava a ser feito ao povo palestiniano. Mas a minha vontade de apoiar o povo judeu, tantas vezes massacrado, era tão grande que assobiava para o lado sempre que a realidade me entrava pelos olhos adentro.

Vi claramente visto que as cidades com mais árabes tinham piores condições do que as outras. Vi o desprezo com que os palestinianos eram tratados, mas para mim isso eram pormenores. Vítimas colaterais, talvez até gente que precisava de ser posta na ordem.

Não queria pensar na chave que um palestiniano trazia ao pescoço e que, dizia ele, era a da casa de onde a família fora expulsa entre 1947 e 1949, durante a Nakba. Foram mais de 700 mil os que viram as suas casas ocupadas ou destruídas e a quem a resolução da ONU de 1948 prometeu o regresso. Danos colaterais, pensaria eu, fazendo o que tantas vezes fazemos: não ver o que não queremos ver.

Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir

Voltei a ver aquelas chaves sempre que regressei. A última vez foi um mês antes do massacre de 7 de outubro, num campo de refugiados na Cisjordânia. Gente sem passaporte, que recebe água duas vezes por semana e vive em prédios onde se vão acrescentando andares que milagrosamente se aguentam de pé, porque os palestinianos não podem construir casas novas nestes enclaves. Prédios rodeados de muros com ameias de onde os soldados israelitas, de vez em quando, treinam tiro ao alvo nas rótulas de crianças.

Era a minha quinta estada em Israel. A admiração já se tinha transformado em revolta, e a tolerância numa raiva mal disfarçada. Fiz as peregrinações obrigatórias, porque ia com pessoas que nunca lá tinham estado, mas já me sentia um colaboracionista, figurante de uma farsa em que já não conseguia participar.

O mais importante, claro, é a forma como há décadas se desumanizam os palestinianos. São tratados como animais: tiram-lhes as casas, afastam-nos das suas terras, matam-lhes os filhos, tenta-se de facto aniquilar-lhes a vontade. E já não apenas a vontade. Agora há mesmo uma solução, digamos, total.

Não quero, porém, esquecer algo que continuamos a ouvir constantemente e que, como disse, também me embalava: Israel é uma democracia. E isso é assustador.

Se assim é, é todo um povo que decide democraticamente aniquilar outro. É todo um povo que vota para que isso aconteça, ou que acha que nos princípios da sua democracia cabe um projeto de assassínio em massa. Ou, no mínimo, um projeto de discriminação e violência dirigido a uma categoria de pessoas.

Uma coisa é um bando de ditadores que espezinha o próprio povo cometer barbaridades contra outros. Outra é haver pessoas a cumprir ordens democraticamente emanadas que decretam martírios.

Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas. Deixamos que os seus representantes vivam entre nós e frequentem as nossas televisões. Sentamo-nos com os seus apoiantes. Como escreve Omar El Akkad, “um dia sempre teremos sido contra isto”. Mas será tarde, demasiado tarde.

Há muito tempo que me custa escrever sobre Israel, a Palestina e tudo o que os envolve. Não é pela complexidade, nem por desconhecer as várias culpas. As razões, as causas e as consequências estão mais ou menos distantes no tempo, mas são identificáveis. As forças políticas e sociais, internas e externas, que alimentam os vários conflitos são quase transparentes. É outra coisa.

O documentário NAZA deu-me uma estranha força para falar disto, porque fez o que as obras de arte às vezes fazem: revelou-me o mundo. Muitas vezes, um mundo que não queremos mesmo ver.

Aquelas pessoas são iguais a todas as que fizeram o mesmo ao longo da História. Dizem friamente que ouvem o riso das crianças antes de as matar. Contam as centenas de inocentes que vão morrer e carregam no botão sem remorsos. Admitem que já mataram milhares. Vão beber um copo depois de mais uma matança. Comparam o que fazem a um jogo de computador. O mal não morre, apenas muda de lugar.

2. Abro uma rede social e aparece o Presidente dos Estados Unidos a insultar a Noruega porque o Nobel da Paz foi atribuído a uma antiga juíza do Tribunal Penal Internacional que se destacou na defesa dos direitos humanos, nomeadamente dos palestinianos. Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir, mas ainda a tempo de ver Putin a rir, feliz com o acordo com Trump. O mal mudou mesmo de lugar e está a ganhar. Dentro das nossas casas.
Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas.
Pedro Marques Lopes 

O que se sabe sobre o envio de tropas dos EUA à América Latina

O governo dos Estados Unidos está ampliando sua presença militar na América Latina sob a justificativa de reforçar o combate ao tráfico de drogas. Segundo reportagem do jornal The New York Times publicada na quarta-feira, o Pentágono enviará centenas de soldados para a região, em uma iniciativa que marca uma nova etapa da política do presidente Donald Trump para os países latino-americanos.

De acordo com o periódico, os primeiros integrantes de um batalhão de cerca de 600 militares da 10ª Divisão de Montanha do Exército americano – sediada em Fort Drum, Nova York – já começaram a ser deslocados para um novo centro de treinamento em selva no Panamá. Posteriormente, eles deverão participar de exercícios e treinamentos conjuntos com forças de segurança da Colômbia e de Honduras.


Oficialmente, o objetivo é fortalecer a cooperação militar com países da região no combate a organizações envolvidas no tráfico de drogas. Segundo autoridades ouvidas pelo jornal sob condição de anonimato, parte dos militares poderá dar apoio a forças especiais americanas que já assessoram operações conduzidas por exércitos locais contra grupos acusados de narcotráfico.

A ampliação da presença militar também inclui a transferência de drones de vigilância MQ-9 Reaper da África para a Colômbia e o Equador, além da criação de uma nova estrutura de comando para operações no Hemisfério Ocidental sediada em Miami, para onde centenas de soldados devem ser transferidos. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, criou ainda um escritório específico para supervisionar as atividades de combate aos cartéis.

A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla da administração Trump para pressionar governos latino-americanos a intensificarem ofensivas militares contra organizações criminosas e aceitarem operações conjuntas com os Estados Unidos.

Segundo o general Francis L. Donovan, comandante militar responsável por grande parte da América Latina, os EUA pretendem ampliar suas ações para além das operações marítimas atualmente realizadas contra embarcações suspeitas de transportar drogas. O objetivo seria expandir as operações também para áreas terrestres.

A Casa Branca tem buscado construir uma coalizão regional contra os cartéis. De acordo com o jornal, 19 países participam da aliança liderada pelos EUA, denominada Escudo das Américas, embora apenas alguns tenham aceitado oficialmente a realização de operações conjuntas em seus territórios, entre eles Colômbia e Honduras.

Pete Hegseth havia afirmado, durante uma visita ao Panamá em agosto, que a Colômbia, a Guatemala e Honduras haviam concordado em permitir que os EUA realizassem operações militares conjuntas contra grupos criminosos em seus territórios, embora a Guatemala tenha negado a existência de tal acordo.
Temores na região

A perspectiva de uma presença militar americana mais robusta desperta preocupações em parte da América Latina. A região tem um longo histórico de intervenções dos EUA ao longo dos séculos 20 e 21, frequentemente vistas por governos e setores da sociedade como violações da soberania nacional.

Organizações de direitos humanos também manifestam preocupação com a possibilidade de aumento das vítimas civis. Especialistas citados pelo jornal afirmam que a eliminação de integrantes de grupos criminosos costuma ter impacto limitado sobre o fluxo de drogas, já que lideranças podem ser rapidamente substituídas.

Outra crítica recai sobre a eficácia da estratégia. O novo grupo de trabalho criado pelo Pentágono dá continuidade a uma campanha iniciada há cerca de um ano no Caribe e no Pacífico Oriental. Segundo o governo americano, essa campanha resultou em 71 ataques contra embarcações suspeitas de tráfico e a morte de 239 pessoas que – Washington afirma, sem apresentar evidências – estariam traficando drogas. Especialistas, porém, dizem que as operações tiveram pouco efeito sobre a disponibilidade de cocaína nos Estados Unidos.

A reportagem do New York Times informa que integrantes do próprio governo americano questionam a falta de uma definição clara dos objetivos da operação. Há receio de que eventuais ataques contra militares dos EUA levem a uma escalada do envolvimento americano na região, em um momento em que as Forças Armadas do país já enfrentam forte pressão devido a outros compromissos militares no exterior, como na guerra contra o Irã.

Por enquanto, o envio das tropas tem caráter temporário. No entanto, autoridades americanas ouvidas pelo jornal admitem que essas rotações podem se tornar um componente permanente da presença militar dos Estados Unidos na América Latina.
Deutsche Welle