sexta-feira, 9 de outubro de 2026
A renda digital e a erosão da propriedade
Já não me lembro bem de quando foi que deixei de usar os cadernos que se acumulavam na minha secretária para tirar notas e comecei a usar o iPhone para isso. Abrir um email para o enviar para mim própria tornou-se um reflexo impensado de cada vez que preciso de transcrever declarações de fontes ou anotar coisas importantes. O meu Gmail foi-se atulhando destas pequenas anotações, às vezes apenas compreensíveis para mim própria, mas também dos contratos importantes, das mensagens que não se podem perder e de tudo aquilo que de uma maneira ou de outra sei que vou precisar de me lembrar um dia. É um pouco como uma estante que se vai enchendo de papéis, faturas, cadernos e post-its. Por isso, senti-me em pânico quando a empresa que gere o meu email começou a enviar notificações para me avisar de que o meu espaço estava a esgotar-se. “Como assim?”, pensei, tomada da ansiedade de perceber que há um limite para a quantidade de coisas que posso ali empilhar.
Comecei por apagar algumas coisas. Tentei perceber o que ocupava ali mais espaço. E, como acontece quando se arrumam prateleiras, encontrei algumas relíquias, como o email que enviei aos meus pais com o vídeo da primeira ecografia da minha primeira filha. Também encontrei lixo, coisas que não percebi porque tinha guardado e o que nem imaginava que alguma vez tinha tido no email. Apesar disso, a barra que sinaliza a ocupação de armazenamento continuava teimosamente a vermelho. E, como muitas vezes em que sei que tenho de arrumar armários, percebi que não tinha muito tempo para andar ali a mexer na tralha, tentando entender o que era importante e o que podia ser descartado. Pressionada pelas notificações alarmantes que me indicavam o fim da capacidade de memória, comprei mais espaço.
Foi nesse momento que me dei conta de que a minha existência digital me obriga já a pagar uma renda. E não é pequena. É preciso pagar a Cloud para onde vão as minhas memórias. É preciso pagar a certificação das redes sociais que garante a fiabilidade da identidade das minhas contas. É preciso pagar aplicações que me ajudam a fazer as coisas. É, claro, preciso pagar a própria internet, sem a qual já não consigo desempenhar as mais básicas tarefas. Sim, viver em Lisboa está cada vez mais caro. Mas existir digitalmente também não está barato.
Quando, na pausa para café de uma conferência sobre Inteligência Artificial e Jornalismo, troco umas palavras com quem me recorda a importância de lembrar o lado material do digital (cada vez mais sedento de recursos físicos como água, energia e terras raras), comento a minha constatação recente sobre o custo de viver na internet. A minha interlocutora abre os olhos e diz-me com ar de descoberta: “É verdade! Nunca tinha pensado nisso!”
O facto de as nossas existências digitais terem custos crescentes coloca, claro, um problema de desigualdade entre quem pode e quem não pode pagar por estas extensões de si mesmo, cada vez mais importantes para as nossas vidas profissionais e sociais. Mas há ainda outra questão que se coloca quando pensamos na forma como a desmaterialização de alguns bens põe em causa a própria noção de propriedade. A minha geração ainda cresceu a fazer coleções físicas de música, filmes, fotografias e videojogos. Eram coisas que ocupavam espaço nas prateleiras das casas e podiam ser dadas, emprestadas, revendidas ou herdadas. Discos, cassetes, DVD e álbuns eram objetos físicos dos quais podíamos dispor. Eram nossos. Mas essa é uma propriedade cada vez mais precária quando o que adquirimos são licenças de uso, seja sob a forma da contratação de streaming ou plataformas. Não somos verdadeiramente donos dos filmes da Netflix, das músicas do Spotify, das fotografias que guardamos no Google Photos, dos videojogos que compramos adquirindo uma caixa com um código de acesso. Ninguém vai poder herdar as nossas coleções e não podemos emprestá-las nem revendê-las. Mais: se alguma destas plataformas deixar de existir, podemos perder tudo; se deixarmos de pagar as licenças, deixamos de poder aceder aos conteúdos; se as empresas forem vendidas ou fundidas, os catálogos podem mudar e aquele filme a que julgávamos ter acesso vai deixar de estar disponível.
Isto é uma mudança de placas tectónicas na ideia de propriedade. Nesta nova fase do capitalismo, a propriedade torna-se etérea, volátil, precária, sujeita a pagamentos permanentes e a alterações das condições de uso. Mas só para alguns. Na verdade, a propriedade desloca-se da base para o topo. Os donos das plataformas concentram a propriedade, nós perdemo-la.
Perceber este movimento de acumulação da base para o topo é essencial para entendermos a era em que vivemos. Essa noção está presente na forma como a base é cada vez mais sobrecarregada de impostos, ao mesmo tempo que os mais ricos dos mais ricos quase não os pagam. Está presente quando as instituições trocam a decisão democrática pela tecnocracia. Quando há movimentos que defendem o regresso do voto censitário, propondo excluir as mulheres ou os pobres. Quando as tecnologias de que dependemos crescentemente estão nas mãos de uns poucos, quase sem escrutínio nem controlo público. Quando os mais poderosos dispõem livremente do poder, indiferentes à pressão popular ou à opinião pública.
Agora, o que está em causa é uma alteração profunda do conceito de propriedade, através da desmaterialização dos bens. A questão é importante porque o Estado é uma ferramenta essencial para a definição da propriedade. É o Estado que tem as ferramentas para reconhecer e proteger os direitos dos proprietários. Esta desmaterialização corresponde a um movimento que impõe fronteiras a pessoas, mas as dilui quando estão em causa os capitais. Os Estados perdem sentido, a não ser como garantes de financiamento massivo para os projetos dos techbros, que vivem dos impostos que não pagam. Não deixa de ser muito irónico que seja este capitalismo desenfreado a pôr em causa a noção de propriedade. Mas não é por acaso que isso acontece numa altura em que a ideia política de classe média perde importância estratégica, ao ritmo a que a coerção ganha terreno sobre a democracia. Estes são sinais que devem fazer-nos entender a importância de reclamar o poder dos muitos sobre os poucos. O caso de Maricarmen, em Espanha, mostra que a mobilização popular massiva e consistente continua a ser uma arma que verga até os que parecem muito poderosos. E essa é já uma esperança.
A mobilização popular massiva e consistente continua a ser uma arma que verga até os que parecem muito poderosos
Comecei por apagar algumas coisas. Tentei perceber o que ocupava ali mais espaço. E, como acontece quando se arrumam prateleiras, encontrei algumas relíquias, como o email que enviei aos meus pais com o vídeo da primeira ecografia da minha primeira filha. Também encontrei lixo, coisas que não percebi porque tinha guardado e o que nem imaginava que alguma vez tinha tido no email. Apesar disso, a barra que sinaliza a ocupação de armazenamento continuava teimosamente a vermelho. E, como muitas vezes em que sei que tenho de arrumar armários, percebi que não tinha muito tempo para andar ali a mexer na tralha, tentando entender o que era importante e o que podia ser descartado. Pressionada pelas notificações alarmantes que me indicavam o fim da capacidade de memória, comprei mais espaço.
Foi nesse momento que me dei conta de que a minha existência digital me obriga já a pagar uma renda. E não é pequena. É preciso pagar a Cloud para onde vão as minhas memórias. É preciso pagar a certificação das redes sociais que garante a fiabilidade da identidade das minhas contas. É preciso pagar aplicações que me ajudam a fazer as coisas. É, claro, preciso pagar a própria internet, sem a qual já não consigo desempenhar as mais básicas tarefas. Sim, viver em Lisboa está cada vez mais caro. Mas existir digitalmente também não está barato.
Quando, na pausa para café de uma conferência sobre Inteligência Artificial e Jornalismo, troco umas palavras com quem me recorda a importância de lembrar o lado material do digital (cada vez mais sedento de recursos físicos como água, energia e terras raras), comento a minha constatação recente sobre o custo de viver na internet. A minha interlocutora abre os olhos e diz-me com ar de descoberta: “É verdade! Nunca tinha pensado nisso!”
O facto de as nossas existências digitais terem custos crescentes coloca, claro, um problema de desigualdade entre quem pode e quem não pode pagar por estas extensões de si mesmo, cada vez mais importantes para as nossas vidas profissionais e sociais. Mas há ainda outra questão que se coloca quando pensamos na forma como a desmaterialização de alguns bens põe em causa a própria noção de propriedade. A minha geração ainda cresceu a fazer coleções físicas de música, filmes, fotografias e videojogos. Eram coisas que ocupavam espaço nas prateleiras das casas e podiam ser dadas, emprestadas, revendidas ou herdadas. Discos, cassetes, DVD e álbuns eram objetos físicos dos quais podíamos dispor. Eram nossos. Mas essa é uma propriedade cada vez mais precária quando o que adquirimos são licenças de uso, seja sob a forma da contratação de streaming ou plataformas. Não somos verdadeiramente donos dos filmes da Netflix, das músicas do Spotify, das fotografias que guardamos no Google Photos, dos videojogos que compramos adquirindo uma caixa com um código de acesso. Ninguém vai poder herdar as nossas coleções e não podemos emprestá-las nem revendê-las. Mais: se alguma destas plataformas deixar de existir, podemos perder tudo; se deixarmos de pagar as licenças, deixamos de poder aceder aos conteúdos; se as empresas forem vendidas ou fundidas, os catálogos podem mudar e aquele filme a que julgávamos ter acesso vai deixar de estar disponível.
Isto é uma mudança de placas tectónicas na ideia de propriedade. Nesta nova fase do capitalismo, a propriedade torna-se etérea, volátil, precária, sujeita a pagamentos permanentes e a alterações das condições de uso. Mas só para alguns. Na verdade, a propriedade desloca-se da base para o topo. Os donos das plataformas concentram a propriedade, nós perdemo-la.
Perceber este movimento de acumulação da base para o topo é essencial para entendermos a era em que vivemos. Essa noção está presente na forma como a base é cada vez mais sobrecarregada de impostos, ao mesmo tempo que os mais ricos dos mais ricos quase não os pagam. Está presente quando as instituições trocam a decisão democrática pela tecnocracia. Quando há movimentos que defendem o regresso do voto censitário, propondo excluir as mulheres ou os pobres. Quando as tecnologias de que dependemos crescentemente estão nas mãos de uns poucos, quase sem escrutínio nem controlo público. Quando os mais poderosos dispõem livremente do poder, indiferentes à pressão popular ou à opinião pública.
Agora, o que está em causa é uma alteração profunda do conceito de propriedade, através da desmaterialização dos bens. A questão é importante porque o Estado é uma ferramenta essencial para a definição da propriedade. É o Estado que tem as ferramentas para reconhecer e proteger os direitos dos proprietários. Esta desmaterialização corresponde a um movimento que impõe fronteiras a pessoas, mas as dilui quando estão em causa os capitais. Os Estados perdem sentido, a não ser como garantes de financiamento massivo para os projetos dos techbros, que vivem dos impostos que não pagam. Não deixa de ser muito irónico que seja este capitalismo desenfreado a pôr em causa a noção de propriedade. Mas não é por acaso que isso acontece numa altura em que a ideia política de classe média perde importância estratégica, ao ritmo a que a coerção ganha terreno sobre a democracia. Estes são sinais que devem fazer-nos entender a importância de reclamar o poder dos muitos sobre os poucos. O caso de Maricarmen, em Espanha, mostra que a mobilização popular massiva e consistente continua a ser uma arma que verga até os que parecem muito poderosos. E essa é já uma esperança.
Proposta de Flávio reabre brecha à sonegação e mexe na reforma tributária
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) promete acabar com o split payment, uma das peças centrais da reforma tributária.
O anúncio foi feito por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e porta-voz econômica do candidato, que também quer rever outros pontos da reforma depois da eleição – caso seja, de fato, eleito.
É uma promessa de quem já se vê no Planalto e com votos no Congresso para refazer o que o país levou décadas para aprovar.
O nome em inglês quer dizer pagamento dividido. Hoje, quando você compra algo, o imposto vem embutido no preço. A loja recebe do consumidor e repassa a parte do governo somente semanas depois, é aproveitando dessa brecha que parte das empresas cobra o imposto do cliente e não repassa.
Com o split payment, o banco separa o imposto na hora do Pix, do cartão ou do boleto e manda separadamente para o comerciante e para o governo o valor que é de direito de cada um. Assim, o dinheiro do imposto não passa mais pela mão da loja, e quem quiser sonegar fica sem ter como.
A Fazenda estima que a automação da cobrança pode reduzir em R$ 150 bilhões por ano a sonegação de impostos sobre o consumo.
Só no setor de combustíveis, estudo da FGV aponta mais de R$ 14 bilhões anuais em sonegação e inadimplência.
Até a CNI, que representa a indústria, apoia o mecanismo por proteger quem paga em dia da concorrência desleal. E quando menos gente sonega, a alíquota cai para todos.
A campanha de Flávio argumenta que o sistema tira dinheiro do caixa das empresas, sobretudo de varejo e postos, que usam o intervalo até o vencimento do imposto como capital de giro.
Integrantes do governo lembram, porém, que a retenção só ocorre sobre o imposto que ainda não foi pago. A campanha também não explicou o que poria no lugar para combater a sonegação.
O mecanismo foi aprovado pelo Congresso em dezembro de 2024, dentro da lei que regulamentou a reforma, por 324 votos a 123 na Câmara e 49 a 19 no Senado.
O PL orientou contra em todas as votações, tentou adiar a decisão na Câmara e, no Senado, teve o próprio Flávio entre os votos contrários. Se vitorioso nas eleições, agora quer refazer a votação e tentar inverter o placar. Para derrubá-lo, o próximo governo precisaria de 257 deputados e 41 senadores.
Nesta quinta-feira, Durigan defendeu o split payment ao lado do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da reforma na Câmara.
Segundo o ministro, o sistema combate notas frias e empresas de fachada, porque o crédito do imposto só existe quando o tributo foi pago.
Ele disse que a implantação será gradual, com cursos e linhas de crédito para as empresas. Pelo cronograma da Receita, o uso será voluntário em 2027 entre empresas e obrigatório a partir de 2028, sem diferença para o consumidor final.
Aguinaldo chamou a reforma de projeto de Estado e disse que o split payment amplia a base de quem paga e ajuda a baratear o imposto. Pediu que o debate não seja “contaminado” pela eleição.
A disputa da eleição presidencial ainda não está decidida, embora Flávio esteja em vantagem. E Aguinaldo, apesar de ter sido o relator da reforma no governo Lula, é um dos principais caciques do PP, partido que anunciou nesta quarta-feira apoio incondicional a Flávio Bolsonaro.
O anúncio foi feito por Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e porta-voz econômica do candidato, que também quer rever outros pontos da reforma depois da eleição – caso seja, de fato, eleito.
É uma promessa de quem já se vê no Planalto e com votos no Congresso para refazer o que o país levou décadas para aprovar.
O nome em inglês quer dizer pagamento dividido. Hoje, quando você compra algo, o imposto vem embutido no preço. A loja recebe do consumidor e repassa a parte do governo somente semanas depois, é aproveitando dessa brecha que parte das empresas cobra o imposto do cliente e não repassa.
Com o split payment, o banco separa o imposto na hora do Pix, do cartão ou do boleto e manda separadamente para o comerciante e para o governo o valor que é de direito de cada um. Assim, o dinheiro do imposto não passa mais pela mão da loja, e quem quiser sonegar fica sem ter como.
A Fazenda estima que a automação da cobrança pode reduzir em R$ 150 bilhões por ano a sonegação de impostos sobre o consumo.
Só no setor de combustíveis, estudo da FGV aponta mais de R$ 14 bilhões anuais em sonegação e inadimplência.
Até a CNI, que representa a indústria, apoia o mecanismo por proteger quem paga em dia da concorrência desleal. E quando menos gente sonega, a alíquota cai para todos.
A campanha de Flávio argumenta que o sistema tira dinheiro do caixa das empresas, sobretudo de varejo e postos, que usam o intervalo até o vencimento do imposto como capital de giro.
Integrantes do governo lembram, porém, que a retenção só ocorre sobre o imposto que ainda não foi pago. A campanha também não explicou o que poria no lugar para combater a sonegação.
O mecanismo foi aprovado pelo Congresso em dezembro de 2024, dentro da lei que regulamentou a reforma, por 324 votos a 123 na Câmara e 49 a 19 no Senado.
O PL orientou contra em todas as votações, tentou adiar a decisão na Câmara e, no Senado, teve o próprio Flávio entre os votos contrários. Se vitorioso nas eleições, agora quer refazer a votação e tentar inverter o placar. Para derrubá-lo, o próximo governo precisaria de 257 deputados e 41 senadores.
Nesta quinta-feira, Durigan defendeu o split payment ao lado do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da reforma na Câmara.
Segundo o ministro, o sistema combate notas frias e empresas de fachada, porque o crédito do imposto só existe quando o tributo foi pago.
Ele disse que a implantação será gradual, com cursos e linhas de crédito para as empresas. Pelo cronograma da Receita, o uso será voluntário em 2027 entre empresas e obrigatório a partir de 2028, sem diferença para o consumidor final.
Aguinaldo chamou a reforma de projeto de Estado e disse que o split payment amplia a base de quem paga e ajuda a baratear o imposto. Pediu que o debate não seja “contaminado” pela eleição.
A disputa da eleição presidencial ainda não está decidida, embora Flávio esteja em vantagem. E Aguinaldo, apesar de ter sido o relator da reforma no governo Lula, é um dos principais caciques do PP, partido que anunciou nesta quarta-feira apoio incondicional a Flávio Bolsonaro.
O génio individual e a força do coletivo
Gostamos de heróis. Ou antes, precisamos de heróis – para nos inspirar e empolgar, mas também para nos reconfortar por fazerem o trabalho que nós não seríamos capazes. Da mesma maneira que precisamos de líderes que se afirmam pelo exemplo, que obtêm reconhecimento por terem alcançado o que nunca foi feito antes e transmitirem um legado que acaba por se transformar numa espécie de narrativa oficial.
O fascínio pelo indivíduo excecional é uma das marcas mais antigas e persistentes da cultura humana. Todas as nações têm os seus heróis, cujos nomes ouvimos em histórias… que nem sempre precisam de ser fiéis à História. Os mitos dos heróis são absolutamente essenciais para a criação das narrativas que sustentam as crenças e os pensamentos coletivos. Eles são aglutinadores e permitem, ainda por cima, dar rosto humano a grandes movimentos de massas ou ímpetos coletivos que moldaram nações, ganharam batalhas ou, mais recentemente, criaram e desenvolveram empresas de alcance global. A nossa imaginação coletiva está moldada, desde sempre, pela figura do líder solitário, que conseguiu alcançar a glória, mesmo quando todos os prognósticos estavam contra ele.
No entanto, é preciso ter noção da realidade. E não podemos deixar-nos seduzir pela convicção de que o curso da História, a inovação disruptiva e a salvação das crises civilizacionais dependem exclusivamente do génio e da vontade de uma única mente brilhante. Embora alguns tenham procurado cultivar essa imagem, os heróis não são uns eremitas, isolados do resto do mundo. Sabemos hoje, por diversos relatos, que alguns dos maiores génios da Humanidade eram até, na verdade, uns tipos pessoal e socialmente detestáveis, capazes das maiores atrocidades na intimidade. E sabemos também que todos eles, em algum momento, só alcançaram esse estatuto porque puderam beneficiar de um ecossistema social, científico, técnico ou artístico que potenciou as suas qualidades. Mas também de mecanismos de autopromoção desenhados para os glorificar, apagando quase sempre todo o trabalho coletivo que os rodeou.
Há um exemplo bem ilustrativo dessa situação: embora tenha inventado a World Wide Web, com um extraordinário impacto para a Humanidade, Tim Berners-Lee continua a ser um nome completamente eclipsado face a figuras como Mark Zuckerberg ou Elon Musk, personalidades hiperbólicas e egocêntricas da tecnologia, com uma capacidade brutal de autopromoção. E, noutros campos, poderíamos juntar centenas de exemplos semelhantes.
Apesar de precisarmos de líderes e de heróis, já devíamos ter consciência de que ninguém faz nada sozinho. E isso é tanto verdade na política como no desporto, embora tantos procurem vender o contrário.
Vivemos, aliás, tempos em que, um pouco por todo o mundo, se procura glorificar o mito de heróis isolados, como se fossem detentores de uma clarividência infinita e de uma infalibilidade a roçar o divino. Tudo isto em conjunto com uma postura implacável, agressiva e intolerante à crítica. Não é por acaso que vivemos numa era que volta a ser dominada por “homens-fortes”, que procuram captar o fascínio dos heróis do passado – com os resultados trágicos que estão à vista.
A História já nos ensinou vezes suficientes que a idolatria cega corrói as bases da democracia. Devemos valorizar a excelência individual. Contudo, quando transformamos o indivíduo num messias solitário, caímos na caricatura e no culto de personalidade.
O desporto é atualmente o espaço onde melhor se pode aferir a importância do coletivo para o resultado final. Atualmente, mesmo o melhor atleta de uma disciplina individual não terá hipóteses de vencer se ficar a treinar sozinho, isolado do resto do mundo – como poderia acontecer há um século. E, em todos os desportos, é visível o batalhão de técnicos, fisioterapeutas, nutricionistas e os mais diversos especialistas que rodeiam cada equipa – a somar a tantos mais que estão longe dos holofotes. Num tempo em que a saída intempestiva de um herói da Seleção nacional de futebol cria e alimenta novos focos de polarização, convém saber realçar a força superior do coletivo – aquele que garante vitórias, sem ficarem completamente dependentes de golpes de génio de atletas superlativos. Há um facto eloquente: as duas formações dominantes do futebol atual – a seleção de Espanha e o Paris Saint-Germain – são também as duas equipas mais coletivas a pisar os relvados. Nelas, todos tentam, em simultâneo, ser heróis – e essa devia ser uma lição para o futebol e para a organização da sociedade.
O fascínio pelo indivíduo excecional é uma das marcas mais antigas e persistentes da cultura humana. Todas as nações têm os seus heróis, cujos nomes ouvimos em histórias… que nem sempre precisam de ser fiéis à História. Os mitos dos heróis são absolutamente essenciais para a criação das narrativas que sustentam as crenças e os pensamentos coletivos. Eles são aglutinadores e permitem, ainda por cima, dar rosto humano a grandes movimentos de massas ou ímpetos coletivos que moldaram nações, ganharam batalhas ou, mais recentemente, criaram e desenvolveram empresas de alcance global. A nossa imaginação coletiva está moldada, desde sempre, pela figura do líder solitário, que conseguiu alcançar a glória, mesmo quando todos os prognósticos estavam contra ele.
No entanto, é preciso ter noção da realidade. E não podemos deixar-nos seduzir pela convicção de que o curso da História, a inovação disruptiva e a salvação das crises civilizacionais dependem exclusivamente do génio e da vontade de uma única mente brilhante. Embora alguns tenham procurado cultivar essa imagem, os heróis não são uns eremitas, isolados do resto do mundo. Sabemos hoje, por diversos relatos, que alguns dos maiores génios da Humanidade eram até, na verdade, uns tipos pessoal e socialmente detestáveis, capazes das maiores atrocidades na intimidade. E sabemos também que todos eles, em algum momento, só alcançaram esse estatuto porque puderam beneficiar de um ecossistema social, científico, técnico ou artístico que potenciou as suas qualidades. Mas também de mecanismos de autopromoção desenhados para os glorificar, apagando quase sempre todo o trabalho coletivo que os rodeou.
Há um exemplo bem ilustrativo dessa situação: embora tenha inventado a World Wide Web, com um extraordinário impacto para a Humanidade, Tim Berners-Lee continua a ser um nome completamente eclipsado face a figuras como Mark Zuckerberg ou Elon Musk, personalidades hiperbólicas e egocêntricas da tecnologia, com uma capacidade brutal de autopromoção. E, noutros campos, poderíamos juntar centenas de exemplos semelhantes.
Apesar de precisarmos de líderes e de heróis, já devíamos ter consciência de que ninguém faz nada sozinho. E isso é tanto verdade na política como no desporto, embora tantos procurem vender o contrário.
Vivemos, aliás, tempos em que, um pouco por todo o mundo, se procura glorificar o mito de heróis isolados, como se fossem detentores de uma clarividência infinita e de uma infalibilidade a roçar o divino. Tudo isto em conjunto com uma postura implacável, agressiva e intolerante à crítica. Não é por acaso que vivemos numa era que volta a ser dominada por “homens-fortes”, que procuram captar o fascínio dos heróis do passado – com os resultados trágicos que estão à vista.
A História já nos ensinou vezes suficientes que a idolatria cega corrói as bases da democracia. Devemos valorizar a excelência individual. Contudo, quando transformamos o indivíduo num messias solitário, caímos na caricatura e no culto de personalidade.
O desporto é atualmente o espaço onde melhor se pode aferir a importância do coletivo para o resultado final. Atualmente, mesmo o melhor atleta de uma disciplina individual não terá hipóteses de vencer se ficar a treinar sozinho, isolado do resto do mundo – como poderia acontecer há um século. E, em todos os desportos, é visível o batalhão de técnicos, fisioterapeutas, nutricionistas e os mais diversos especialistas que rodeiam cada equipa – a somar a tantos mais que estão longe dos holofotes. Num tempo em que a saída intempestiva de um herói da Seleção nacional de futebol cria e alimenta novos focos de polarização, convém saber realçar a força superior do coletivo – aquele que garante vitórias, sem ficarem completamente dependentes de golpes de génio de atletas superlativos. Há um facto eloquente: as duas formações dominantes do futebol atual – a seleção de Espanha e o Paris Saint-Germain – são também as duas equipas mais coletivas a pisar os relvados. Nelas, todos tentam, em simultâneo, ser heróis – e essa devia ser uma lição para o futebol e para a organização da sociedade.
O exitoso diversionismo da reforma constitucional
O candidato do PL à Presidência, senador Flavio Bolsonaro, colocou na roda sua pretensão de fazer uma reforma constitucional para “redemocratizar” o país. Pautou a campanha. Numa hora encolhe o Supremo, noutra, o mandato presidencial para impedir reeleição. Colocou nesta reforma até a castração química e a redução da maioridade penal. Vai com tudo para “arregaçar com vagabundo”. Não se fala em outra coisa. Depois que a campanha adversária concluiu que o Master não rendeu voto e se mostra disposta a arrancar do senador seus planos econômicos, Flávio Bolsonaro decidiu colocar a carta da “redemocratização” na mesa.
Está claro que pretende mudar o foco. Seu limite, na economia, são mudanças na reforma tributária, sempre na linha de cortar impostos, sem mencionar como fará a reforma orçamentária de R$ 200 bilhões que o mercado espera. A estratégia tem método. Na tarde de segunda-feira, eleitores receberam em seu celular um vídeo de três minutos. O protagonista, sentado à mesa de um escritório, fez um apelo aos eleitores da terceira via.
“Você que votou pela mudança, termine o que começou”. Passava então a descrever o que aconteceu naquela manhã pós-primeiro turno. “O dólar é o trigo do pão, o diesel do caminhão, o adubo de sua lavoura, o remédio da sua mãe. Dólar barato segura a inflação e com a inflação contida o juro cai (...) O juro caindo, o pequeno contrata, a empresa investe, abre vaga e sua previdência rende”.
O protagonista é Tallis Gomes, CEO do G4, um grupo que ensina empresários a ganhar público e aumentar vendas no digital criando polêmicas. No seu caso, depois daquela que lhe deu fama (“Deus me livre de mulher CEO”), foi desligado do conselho da Hope, teve que pedir desculpas e colocar uma mulher à frente do G4. O vídeo pós-1º turno teve mais de 20 milhões de visualizações. Se impulsionou, driblou a lei eleitoral porque não citou o nome de Flávio Bolsonaro. Não é neófito. Está para o senador do PL como, em 2024, esteve para Pablo Marçal. Há um mês disse integrar o Rockbridge, grupo de JD Vance, vice-presidente dos EUA.
A polêmica criada por Flávio Bolsonaro em torno de uma nova reforma constitucional segue a cartilha que pauta o trumpismo. Coloca a democracia na roda para não falar dos programas sociais que estão em xeque. Vai levar jovens de classe média para as ruas em defesa da democracia? É possível, mas o país já viveu o efeito rebote de manifestações protagonizadas por estudantes a partir de junho de 2013. Deu em Jair Bolsonaro.
Na manhã desta quarta, outra distração entrou em pauta. A euforia resumida naquele vídeo de Tallis Gomes passou, mas o otimismo persiste, ainda que não sejam conhecidas as contas com as quais o candidato pretende fazer o ajuste. Começou, então, a circular o resumo de uma reunião entre a Eurasia e um ex-diretor do Itaú BBA, Luiz Felipe Trevisan, em que se detalhou que este ajuste viria de uma super PEC com reforma administrativa, digitalização, alienação patrimonial de imóveis da União, combate a fraudes e distorções na tributação de investimentos, além do corte de emendas parlamentares. Os gastos sociais e a Previdência seriam, inicialmente, evitados.
A Eurasia não se compromete com o relatório nem comenta a reunião, ocorrida em 9 de setembro. Nesta terça, porém, a consultoria publicou um relatório em que eleva a previsão de vitória de Flávio Bolsonaro para 70% e diz que a chance de uma reforma fiscal mais sólida aumenta. Sem citar Trevisan, argumenta que a meta de corte não é crível. Vai, porém, além do resumo apócrifo.
Ao mencionar as mudanças fiscais defendidas pelos assessores do candidato, avança na magnitude do corte: “As promessas de cortar gastos em até R$ 200 bilhões (2% do PIB), não parecem críveis, mas uma reforma constitucional que redefina as regras de crescimento dos gastos obrigatórios seria suficiente para gerar um superávit primário crescente ao longo dos próximos quatro anos”. O novo arcabouço fiscal a ser anunciado imporia um teto de gastos com corte automático de despesas. Quais? Ninguém sabe, ninguém viu.
Se Lula ganhar também terá que fazê-lo, mas a expectativa do mercado está no senador, não no presidente. Para manter a expectativa do mercado sem desiludir seu eleitor, Flávio tem manobrado com habilidade o diversionismo da pauta democrática. O ministro licenciado da Fazenda, Fernando Haddad, não vê como o candidato do PL possa atingir um corte de R$ 200 bilhões sem uma megaprivatização ou faca nas despesas sociais a partir da trinca desvinculação de gastos saúde/educação, reforma da Previdência e fim da política de valorização do salário mínimo.
O que o senador fala, porém, vai na mão inversa. Nesta quarta, disse que a Caixa Econômica Federal viraria o “banco da prosperidade”. Como? Com gastos. A Caixa compraria dívidas de pessoas físicas e jurídicas e as refinanciaria com prazos mais longos e juros menores.
Hoje teme afugentar o eleitor que sonha com serviços públicos sem fila. Se eleito, arrisca abespinhar a rede de governadores aliados. Ao lado do governador reeleito Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro desautorizou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que havia falado na volta de Jair em 2030. Só não disse como ficaria a rede hospitalar paulista se a União tiver que restringir os repasses do SUS, equivalentes a 62% do seu custeio se seu novo arcabouço reduzir as despesas obrigatórias.
Maria Cristina Fernandes
Está claro que pretende mudar o foco. Seu limite, na economia, são mudanças na reforma tributária, sempre na linha de cortar impostos, sem mencionar como fará a reforma orçamentária de R$ 200 bilhões que o mercado espera. A estratégia tem método. Na tarde de segunda-feira, eleitores receberam em seu celular um vídeo de três minutos. O protagonista, sentado à mesa de um escritório, fez um apelo aos eleitores da terceira via.
“Você que votou pela mudança, termine o que começou”. Passava então a descrever o que aconteceu naquela manhã pós-primeiro turno. “O dólar é o trigo do pão, o diesel do caminhão, o adubo de sua lavoura, o remédio da sua mãe. Dólar barato segura a inflação e com a inflação contida o juro cai (...) O juro caindo, o pequeno contrata, a empresa investe, abre vaga e sua previdência rende”.
O protagonista é Tallis Gomes, CEO do G4, um grupo que ensina empresários a ganhar público e aumentar vendas no digital criando polêmicas. No seu caso, depois daquela que lhe deu fama (“Deus me livre de mulher CEO”), foi desligado do conselho da Hope, teve que pedir desculpas e colocar uma mulher à frente do G4. O vídeo pós-1º turno teve mais de 20 milhões de visualizações. Se impulsionou, driblou a lei eleitoral porque não citou o nome de Flávio Bolsonaro. Não é neófito. Está para o senador do PL como, em 2024, esteve para Pablo Marçal. Há um mês disse integrar o Rockbridge, grupo de JD Vance, vice-presidente dos EUA.
A polêmica criada por Flávio Bolsonaro em torno de uma nova reforma constitucional segue a cartilha que pauta o trumpismo. Coloca a democracia na roda para não falar dos programas sociais que estão em xeque. Vai levar jovens de classe média para as ruas em defesa da democracia? É possível, mas o país já viveu o efeito rebote de manifestações protagonizadas por estudantes a partir de junho de 2013. Deu em Jair Bolsonaro.
Na manhã desta quarta, outra distração entrou em pauta. A euforia resumida naquele vídeo de Tallis Gomes passou, mas o otimismo persiste, ainda que não sejam conhecidas as contas com as quais o candidato pretende fazer o ajuste. Começou, então, a circular o resumo de uma reunião entre a Eurasia e um ex-diretor do Itaú BBA, Luiz Felipe Trevisan, em que se detalhou que este ajuste viria de uma super PEC com reforma administrativa, digitalização, alienação patrimonial de imóveis da União, combate a fraudes e distorções na tributação de investimentos, além do corte de emendas parlamentares. Os gastos sociais e a Previdência seriam, inicialmente, evitados.
A Eurasia não se compromete com o relatório nem comenta a reunião, ocorrida em 9 de setembro. Nesta terça, porém, a consultoria publicou um relatório em que eleva a previsão de vitória de Flávio Bolsonaro para 70% e diz que a chance de uma reforma fiscal mais sólida aumenta. Sem citar Trevisan, argumenta que a meta de corte não é crível. Vai, porém, além do resumo apócrifo.
Ao mencionar as mudanças fiscais defendidas pelos assessores do candidato, avança na magnitude do corte: “As promessas de cortar gastos em até R$ 200 bilhões (2% do PIB), não parecem críveis, mas uma reforma constitucional que redefina as regras de crescimento dos gastos obrigatórios seria suficiente para gerar um superávit primário crescente ao longo dos próximos quatro anos”. O novo arcabouço fiscal a ser anunciado imporia um teto de gastos com corte automático de despesas. Quais? Ninguém sabe, ninguém viu.
Se Lula ganhar também terá que fazê-lo, mas a expectativa do mercado está no senador, não no presidente. Para manter a expectativa do mercado sem desiludir seu eleitor, Flávio tem manobrado com habilidade o diversionismo da pauta democrática. O ministro licenciado da Fazenda, Fernando Haddad, não vê como o candidato do PL possa atingir um corte de R$ 200 bilhões sem uma megaprivatização ou faca nas despesas sociais a partir da trinca desvinculação de gastos saúde/educação, reforma da Previdência e fim da política de valorização do salário mínimo.
O que o senador fala, porém, vai na mão inversa. Nesta quarta, disse que a Caixa Econômica Federal viraria o “banco da prosperidade”. Como? Com gastos. A Caixa compraria dívidas de pessoas físicas e jurídicas e as refinanciaria com prazos mais longos e juros menores.
Hoje teme afugentar o eleitor que sonha com serviços públicos sem fila. Se eleito, arrisca abespinhar a rede de governadores aliados. Ao lado do governador reeleito Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro desautorizou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que havia falado na volta de Jair em 2030. Só não disse como ficaria a rede hospitalar paulista se a União tiver que restringir os repasses do SUS, equivalentes a 62% do seu custeio se seu novo arcabouço reduzir as despesas obrigatórias.
Maria Cristina Fernandes
Com Flávio, Brasil vai virar a Venezuela ou a Hungria?
Cientistas políticos como Steven Levitsky apontam que o segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso.
Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a Constituição.
Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o mandato do presidente, no caso, o dele.
Foi assim na Hungria com Viktor Orbán, antes um político mediano e depois um autocrata que se embrenhou em alterar a Constituição, em 2011, reinventando a nação, inebriado com a supermaioria que ganhou em seu segundo mandato, eleição essa em que o tema da reforma constitucional nem sequer esteve em pauta.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os laços entre Orbán, que ficou 16 anos no poder, e a família Bolsonaro são amplamente documentados; com visitas mútuas, hospedagem em embaixada e apelidos afetuosos.
Flávio conhece bem o playbook autocrático, à esquerda na Venezuela de Nicolás Maduro e à direita na Hungria de Orbán. O manual é o mesmo. Mudar a Constituição para reduzir freios e contrapesos é um deles.
Dizem que ninguém dá a mínima para a Constituição, exceto alguns democratas de plantão. Pois deveriam: Orbán fez uso da queda do Estado de Direito para distribuir contratos públicos a seus amigos corruptos, algo que deveria preocupar o empresariado; também fez seus amigos monopolizarem a imprensa, algo que deveria preocupar o povo do doisladismo na mídia.
Se Flávio decidir fazer o que quiser com a Constituição — de alterar regras eleitorais para favorecê-lo a acabar com casamento entre pessoas do mesmo sexo—, quem irá pará-lo? Ninguém.
Maduro e Orbán mostraram que, com Suprema Corte e Congresso governistas, não adianta chorar o leite derramado.
Cabe à imprensa cobrar de Flávio o que ele quer dizer com "alterar a Constituição para democratizá-la".
Normalizar esse discurso beira o proselitismo futebolístico de uma torcida organizada com a bola na cara do gol.
Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a Constituição.
Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o mandato do presidente, no caso, o dele.
Foi assim na Hungria com Viktor Orbán, antes um político mediano e depois um autocrata que se embrenhou em alterar a Constituição, em 2011, reinventando a nação, inebriado com a supermaioria que ganhou em seu segundo mandato, eleição essa em que o tema da reforma constitucional nem sequer esteve em pauta.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os laços entre Orbán, que ficou 16 anos no poder, e a família Bolsonaro são amplamente documentados; com visitas mútuas, hospedagem em embaixada e apelidos afetuosos.
Flávio conhece bem o playbook autocrático, à esquerda na Venezuela de Nicolás Maduro e à direita na Hungria de Orbán. O manual é o mesmo. Mudar a Constituição para reduzir freios e contrapesos é um deles.
Dizem que ninguém dá a mínima para a Constituição, exceto alguns democratas de plantão. Pois deveriam: Orbán fez uso da queda do Estado de Direito para distribuir contratos públicos a seus amigos corruptos, algo que deveria preocupar o empresariado; também fez seus amigos monopolizarem a imprensa, algo que deveria preocupar o povo do doisladismo na mídia.
Se Flávio decidir fazer o que quiser com a Constituição — de alterar regras eleitorais para favorecê-lo a acabar com casamento entre pessoas do mesmo sexo—, quem irá pará-lo? Ninguém.
Maduro e Orbán mostraram que, com Suprema Corte e Congresso governistas, não adianta chorar o leite derramado.
Cabe à imprensa cobrar de Flávio o que ele quer dizer com "alterar a Constituição para democratizá-la".
Normalizar esse discurso beira o proselitismo futebolístico de uma torcida organizada com a bola na cara do gol.
Patriotada cúmplice
Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há certa cumplicidade vergonhosa.
Victor Hugo
Victor Hugo
Fascismo liberal é igual a voo de galinha
Costuma-se dizer que “alegria de pobre dura pouco”. Contudo, é a alegria de rico que acaba mais rápido em governos autoritários fantasiados de ultraliberais. Eleger presidente com esse perfil é como abrir a galinha dos ovos de ouro e a caixa de Pandora ao mesmo tempo – pouco lucro e um show de horrores. As paredes têm ouvido que, mal espocaram os champanhes na Faria Lima após a virada eleitoral, os gerentes de cassinos financeiros já cobram do seu candidato garantias reais de políticas anarcocapitalistas em janeiro. Ledo engano (outra vez). Governos reacionários não honram promessas de livre mercado. Não são leais sequer às frivolidades econômicas que bancaram sua eleição, menos ainda ao bem-estar do eleitor enganado que saiu de casa para elegê-los. Não tem como dar certo. É como um líder Talibã prometer livre mercado.
O coach fascista Benito Mussolini já mostrava que o ilusionismo liberal serve apenas no começo, para acalmar a parcela do PIB mais afeita a facilidades de ocasião. Em questão de meses revela-se que a tal liberdade de empreender servirá para pouquíssimos, como se pode comprovar hoje nos EUA desde Wall Street até o Vale do Silício. Outro exemplo é a economia russa, derretendo de Moscou a Kiev. Empresário que tem compromisso real de longo prazo com seu negócio (e um pouco de juízo) não deveria acreditar no canto das sereias extremistas. Melhor buscar seu “Eu” no Caminho de Santiago.
É notório que o primeiro sinal de que a canoa liberal de um governo foi feita apenas para afundar é justamente o discurso reacionário de costumes. O papo religioso cafona, o falatório anticomunista fora de moda, as bravatas militaristas, a misoginia, a homofobia, a conversa fiada sobre segurança pública, o blá blá blá sobre apoio ianque, tudo isso serve apenas para amaciar o cidadão comum, para que continue confiando no governo autocrático quando a economia afundar. E, pode crer, ela vai afundar rapidinho, como na Argentina e nos EUA. Ajuste fiscal, se houver de fato, vai servir apenas para engordar o caixa da presidência e as Emendas Parlamentares. Privatizações podem até acontecer no começo do mandato, para animar os financiadores da campanha, como houve nos governos Bolsonaro 1, Tarcísio e nos seus ícones históricos da Itália e Alemanha em meados do século XX. Economia de mercado que é bom, nem pensar.
Enquanto defendem castração química e laqueadura compulsória (para pobres, é claro), prometem corte de impostos e redução de juros. Tudo emoldurado por uma devoção subjetiva à família, a Jesus e ao livre mercado. Ficam dois alertas importantes. Para o mercado: entendam que governantes antidemocráticos na verdade praticam o estatismo nacionalista para enriquecimento próprio e jamais realizarão reformas estruturantes neoliberais. Para o eleitor conservador: reconheçam que políticos que defendem tortura, milícias e se envolvem em tretas e orgias com bandidos do colarinho branco não estão nem aí para os bons costumes e o bem-estar social.
No fim das contas, o que acontece é privatização para amigos, cortes de impostos para ricos, liberou geral para devastação ambiental, estímulo à compra de armas, aumento da tensão social, desemprego, pobreza, taxas de risco nas alturas, gasto público duvidoso, falta de transparência, aumento da violência policial, isolamento internacional, perda de mercados exteriores, encolhimento da economia e fragilização da democracia. Não existe mercado próspero e sociedade civilizada em governos antidemocráticos.
O coach fascista Benito Mussolini já mostrava que o ilusionismo liberal serve apenas no começo, para acalmar a parcela do PIB mais afeita a facilidades de ocasião. Em questão de meses revela-se que a tal liberdade de empreender servirá para pouquíssimos, como se pode comprovar hoje nos EUA desde Wall Street até o Vale do Silício. Outro exemplo é a economia russa, derretendo de Moscou a Kiev. Empresário que tem compromisso real de longo prazo com seu negócio (e um pouco de juízo) não deveria acreditar no canto das sereias extremistas. Melhor buscar seu “Eu” no Caminho de Santiago.
É notório que o primeiro sinal de que a canoa liberal de um governo foi feita apenas para afundar é justamente o discurso reacionário de costumes. O papo religioso cafona, o falatório anticomunista fora de moda, as bravatas militaristas, a misoginia, a homofobia, a conversa fiada sobre segurança pública, o blá blá blá sobre apoio ianque, tudo isso serve apenas para amaciar o cidadão comum, para que continue confiando no governo autocrático quando a economia afundar. E, pode crer, ela vai afundar rapidinho, como na Argentina e nos EUA. Ajuste fiscal, se houver de fato, vai servir apenas para engordar o caixa da presidência e as Emendas Parlamentares. Privatizações podem até acontecer no começo do mandato, para animar os financiadores da campanha, como houve nos governos Bolsonaro 1, Tarcísio e nos seus ícones históricos da Itália e Alemanha em meados do século XX. Economia de mercado que é bom, nem pensar.
Enquanto defendem castração química e laqueadura compulsória (para pobres, é claro), prometem corte de impostos e redução de juros. Tudo emoldurado por uma devoção subjetiva à família, a Jesus e ao livre mercado. Ficam dois alertas importantes. Para o mercado: entendam que governantes antidemocráticos na verdade praticam o estatismo nacionalista para enriquecimento próprio e jamais realizarão reformas estruturantes neoliberais. Para o eleitor conservador: reconheçam que políticos que defendem tortura, milícias e se envolvem em tretas e orgias com bandidos do colarinho branco não estão nem aí para os bons costumes e o bem-estar social.
No fim das contas, o que acontece é privatização para amigos, cortes de impostos para ricos, liberou geral para devastação ambiental, estímulo à compra de armas, aumento da tensão social, desemprego, pobreza, taxas de risco nas alturas, gasto público duvidoso, falta de transparência, aumento da violência policial, isolamento internacional, perda de mercados exteriores, encolhimento da economia e fragilização da democracia. Não existe mercado próspero e sociedade civilizada em governos antidemocráticos.
O que vem por aí caso Flávio vença
A euforia nos mercados depois do primeiro turno em que Flávio Bolsonaro terminou na frente de Lula parte do princípio de que, se o senador do PL vencer a eleição no próximo dia 25, haverá reformas econômicas no período inicial do mandato, conhecido por representar uma lua de mel entre o presidente eleito e o Congresso. Todas as indicações do candidato e do comando de sua campanha, no entanto, deixam claro que essa está longe de ser a prioridade.
Um dos primeiros atos de Rogério Marinho, coordenador da campanha e visto como homem forte de um possível governo Flávio, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para deixar claro que o futuro governo não “se omitirá” em relação a ministros da Corte.
Não deveria ser surpresa para ninguém mais esse recado. Flávio foi explícito durante toda a campanha. Quem resgatar a live do dia em que não houve o debate da TV Globo, está tudo lá, na voz do candidato, de seu novo melhor amigo Pablo Marçal, dos irmãos que entraram remotamente, dos então candidatos a senador que se alternaram no microfone.
A promessa de enquadrar o STF, e não qualquer plano econômico, é a chave para entender a lavada da direita no primeiro turno, e não só no Senado, uma vez que esse argumento foi central também na propaganda dos candidatos a deputados e governadores.
A outra prioridade, casada, será o indulto a Jair Bolsonaro e aos demais condenados pela trama golpista, além da “repatriação” dos investigados que se evadiram para os Estados Unidos. De novo, não se trata de suposição. Flávio disse na mesma live, mais esclarecedora que qualquer debate, que fará de tudo para que “pais abracem seus filhos” se for eleito.
De onde vem, então, tanta fé por parte dos agentes econômicos? Difícil entender, uma vez que não existe esse programa escrito com começo, meio e fim. Mais: a prometida suspensão da imediata entrada em vigor da reforma tributária significará, isso sim, a frustração de concretização de uma das poucas reformas levadas a cabo pelo governo Lula.
Se o Senado estará ocupado com esses temas que podem provocar um impasse institucional, o que esperar da Câmara eleita? A consagração, como campeões de votos, justamente dos deputados com perfil de forte presença digital, à esquerda e à direita, já permite cravar que a Casa estará entregue a uma briga ideológica intestina e paralisante, com um grau de virulência ainda maior do que aquela que se desdobra desde 2019 e que, nesta legislatura, transformou comissões em picadeiros e o plenário em estúdio de gravações para o Instagram.
Projetos da pauta de costumes passarão na frente das discussões econômicas, porque são eles que atendem ao chamado com que a bancada da selfie conseguiu angariar seus milhões de votos.
A disputa pela presidência das duas Casas também promete canalizar as atenções na largada de 2027. A aproximação de Hugo Motta e Davi Alcolumbre com Lula, aliada à perda de musculatura do Centrão mais tradicional, dificulta os planos de ambos de continuar em suas cadeiras. Ainda que Rogério Marinho prefira virar ministro a comandar o Senado, há uma lista de outros nomes do PL mais bem postos que Alcolumbre na fila para pleitear o cargo, crucial diante da centralidade que a Casa ganhou e que terá no embate com o STF.
Essa é a crua realidade que espera o país em 2027. Em caso de uma inédita virada de Lula, o cenário de impasse não melhora, uma vez que, além do impeachment dos ministros do STF, o dele próprio será uma arma sacada das algibeiras do novo Parlamento, em que ele teria uma minoria ainda mais evidente que a atual.
Espanta que, com uma história recente tão didática em apontar exatamente como se comporta cada grupo político quando chega ao poder, a análise de quem comanda as decisões de investimentos e os indicadores de mercado seja tão rasa, quando não pautada por uma até pueril vontade de acreditar.
Um dos primeiros atos de Rogério Marinho, coordenador da campanha e visto como homem forte de um possível governo Flávio, foi visitar o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, para deixar claro que o futuro governo não “se omitirá” em relação a ministros da Corte.
Não deveria ser surpresa para ninguém mais esse recado. Flávio foi explícito durante toda a campanha. Quem resgatar a live do dia em que não houve o debate da TV Globo, está tudo lá, na voz do candidato, de seu novo melhor amigo Pablo Marçal, dos irmãos que entraram remotamente, dos então candidatos a senador que se alternaram no microfone.
A promessa de enquadrar o STF, e não qualquer plano econômico, é a chave para entender a lavada da direita no primeiro turno, e não só no Senado, uma vez que esse argumento foi central também na propaganda dos candidatos a deputados e governadores.
A outra prioridade, casada, será o indulto a Jair Bolsonaro e aos demais condenados pela trama golpista, além da “repatriação” dos investigados que se evadiram para os Estados Unidos. De novo, não se trata de suposição. Flávio disse na mesma live, mais esclarecedora que qualquer debate, que fará de tudo para que “pais abracem seus filhos” se for eleito.
De onde vem, então, tanta fé por parte dos agentes econômicos? Difícil entender, uma vez que não existe esse programa escrito com começo, meio e fim. Mais: a prometida suspensão da imediata entrada em vigor da reforma tributária significará, isso sim, a frustração de concretização de uma das poucas reformas levadas a cabo pelo governo Lula.
Se o Senado estará ocupado com esses temas que podem provocar um impasse institucional, o que esperar da Câmara eleita? A consagração, como campeões de votos, justamente dos deputados com perfil de forte presença digital, à esquerda e à direita, já permite cravar que a Casa estará entregue a uma briga ideológica intestina e paralisante, com um grau de virulência ainda maior do que aquela que se desdobra desde 2019 e que, nesta legislatura, transformou comissões em picadeiros e o plenário em estúdio de gravações para o Instagram.
Projetos da pauta de costumes passarão na frente das discussões econômicas, porque são eles que atendem ao chamado com que a bancada da selfie conseguiu angariar seus milhões de votos.
A disputa pela presidência das duas Casas também promete canalizar as atenções na largada de 2027. A aproximação de Hugo Motta e Davi Alcolumbre com Lula, aliada à perda de musculatura do Centrão mais tradicional, dificulta os planos de ambos de continuar em suas cadeiras. Ainda que Rogério Marinho prefira virar ministro a comandar o Senado, há uma lista de outros nomes do PL mais bem postos que Alcolumbre na fila para pleitear o cargo, crucial diante da centralidade que a Casa ganhou e que terá no embate com o STF.
Essa é a crua realidade que espera o país em 2027. Em caso de uma inédita virada de Lula, o cenário de impasse não melhora, uma vez que, além do impeachment dos ministros do STF, o dele próprio será uma arma sacada das algibeiras do novo Parlamento, em que ele teria uma minoria ainda mais evidente que a atual.
Espanta que, com uma história recente tão didática em apontar exatamente como se comporta cada grupo político quando chega ao poder, a análise de quem comanda as decisões de investimentos e os indicadores de mercado seja tão rasa, quando não pautada por uma até pueril vontade de acreditar.
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