quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Alguma coisa acontece nas avenidas do mundo
Alguma coisa acontece nas praças e avenidas do mundo. Em um tempo marcado por arrogância e cinismo de líderes autoritários como Donald Trump, que hoje enfrenta o teste das eleições no meio do mandato, jovens tomam as ruas para barrar o avanço da extrema direita e pedir melhores condições de vida.
A começar pelos Estados Unidos, onde uma multidão de estudantes da Carolina do Norte marchou unida até as urnas, depois de Trump proibir a instalação de postos de votação dentro de seus campi universitários.
Poucos dias antes, as ruas de Nova York foram tomadas por manifestantes contrários ao presidente americano. As imagens inundaram as redes sociais. O que cantavam? O velho slogan: “o povo unido jamais será vencido”.
Na Europa, os protestos se multiplicam. Com raras exceções, como as da cidade alemã de Frankfurt, onde se registraram cenas de violência, são manifestações pacíficas, que muitas vezes esbarram na truculência das polícias.
Os jovens ocupam as ruas da França há várias semanas. Tudo começou com manifestações de estudantes em busca de melhores condições de ensino. Depois acolheu outros jovens que se queixavam das difíceis condições de vida.
Na Itália, as avenidas têm sido ocupadas por manifestantes que cantam “somos todos antifascistas!”. E que protestam contra o governo de extrema direita de Giorgia Meloni, o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial.
E o Brasil tem uma grande contribuição a todo esse movimento. Por aqui, tudo começou na noite de segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense tomaram as ruas de Niterói em apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de Niterói, as manifestações tomaram conta das principais cidades do país. E tiveram, juntamente com a movimentação nas redes sociais, papel fundamental na virada do segundo turno e na vitória de Lula.
A conquista do quarto mandato do velho líder de 81 anos ajudou a espalhar pelo mundo o sentimento de que, sim, é possível vencer o avanço da extrema direita, com seus traços autoritários de inspiração fascista.
O exemplo chegou até a eventos esportivos. Logo após a bandeirada final do Grande Prêmio do México de Fórmula Um, a Federação Internacional de Automobilismo autorizou a entrada dos torcedores na pista. E o que eles cantaram? “Olê, olê olê olá, Lula, Lula”.
Aonde chegará tudo isso? Com as exceções de sempre, não vemos pelo mundo barricadas e trocas de agressões, como em 1968. Mas pode-se facilmente constatar o grau de insatisfação, principalmente entre os jovens.
Em visita ao Brasil, para promover um festival de cinema francês, a atriz Alexandra Lamy disse – em entrevista ao Correio Braziliense – compreender a frustração dos jovens em seu país.
“Nós apoiamos muito os estudantes de ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem”, afirmou Alexandra. “Embora estejamos na França, onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores”.
Nos outros países da Europa onde se multiplicam as manifestações, as queixas se repetem: alto custo de vida, alto custo dos aluguéis, falta de oportunidades.
Nos Estados Unidos, a principal queixa está no custo de vida. E isso está diretamente relacionado à guerra que Trump resolveu promover contra o Irã, algo que encareceu os custos de combustíveis em todo o mundo.
Como tudo isso se refletirá nas urnas das maiores democracias ocidentais? A partir dessa terça-feira será possível ter uma ideia da nova composição do Congresso dos Estados Unidos.
A contagem dos votos é manual – como defendem os bolsonaristas – e pode levar semanas. Existe uma grande chance de vitória dos democratas. Mas resta saber se eles conseguirão o controle de uma ou das duas Casas do Congresso.
Se isso acontecer, o Partido Democrata passa a ter chances reais de vitória nas eleições presidenciais de 2028. E os sonhos de grandeza de Donald Trump ficarão registrados apenas no grande salão de baile que ele constrói na Casa Branca.
Muita gente teme que as manifestações na França acabem por estimular o medo junto a eleitores conservadores, abrindo caminho para uma possível vitória na Frente Nacional das eleições do ano que vem.
É cedo ainda para dizer. Até porque já existe uma multidão de pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron. O mesmo risco existe na Alemanha, onde tem crescido o apoio à AfD, partido de extrema direita de inspiração nazista.
As ruas e as urnas podem até seguir caminhos diferentes. Mas, como o Brasil mostrou ao resto do mundo, a presença de multidões nas grandes cidades pode ajudar a construir vitórias antes tidas como impossíveis.
A começar pelos Estados Unidos, onde uma multidão de estudantes da Carolina do Norte marchou unida até as urnas, depois de Trump proibir a instalação de postos de votação dentro de seus campi universitários.
Poucos dias antes, as ruas de Nova York foram tomadas por manifestantes contrários ao presidente americano. As imagens inundaram as redes sociais. O que cantavam? O velho slogan: “o povo unido jamais será vencido”.
Na Europa, os protestos se multiplicam. Com raras exceções, como as da cidade alemã de Frankfurt, onde se registraram cenas de violência, são manifestações pacíficas, que muitas vezes esbarram na truculência das polícias.
Os jovens ocupam as ruas da França há várias semanas. Tudo começou com manifestações de estudantes em busca de melhores condições de ensino. Depois acolheu outros jovens que se queixavam das difíceis condições de vida.
Na Itália, as avenidas têm sido ocupadas por manifestantes que cantam “somos todos antifascistas!”. E que protestam contra o governo de extrema direita de Giorgia Meloni, o mais longevo do país desde a Segunda Guerra Mundial.
E o Brasil tem uma grande contribuição a todo esse movimento. Por aqui, tudo começou na noite de segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, quando estudantes da Universidade Federal Fluminense tomaram as ruas de Niterói em apoio ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Depois de Niterói, as manifestações tomaram conta das principais cidades do país. E tiveram, juntamente com a movimentação nas redes sociais, papel fundamental na virada do segundo turno e na vitória de Lula.
A conquista do quarto mandato do velho líder de 81 anos ajudou a espalhar pelo mundo o sentimento de que, sim, é possível vencer o avanço da extrema direita, com seus traços autoritários de inspiração fascista.
O exemplo chegou até a eventos esportivos. Logo após a bandeirada final do Grande Prêmio do México de Fórmula Um, a Federação Internacional de Automobilismo autorizou a entrada dos torcedores na pista. E o que eles cantaram? “Olê, olê olê olá, Lula, Lula”.
Aonde chegará tudo isso? Com as exceções de sempre, não vemos pelo mundo barricadas e trocas de agressões, como em 1968. Mas pode-se facilmente constatar o grau de insatisfação, principalmente entre os jovens.
Em visita ao Brasil, para promover um festival de cinema francês, a atriz Alexandra Lamy disse – em entrevista ao Correio Braziliense – compreender a frustração dos jovens em seu país.
“Nós apoiamos muito os estudantes de ensino médio e a juventude em geral, porque isso nos faz lembrar da violência em que eles vivem”, afirmou Alexandra. “Embora estejamos na França, onde se tem a impressão de que as escolas são excelentes, a realidade é que os alunos passam frio, e faltam professores”.
Nos outros países da Europa onde se multiplicam as manifestações, as queixas se repetem: alto custo de vida, alto custo dos aluguéis, falta de oportunidades.
Nos Estados Unidos, a principal queixa está no custo de vida. E isso está diretamente relacionado à guerra que Trump resolveu promover contra o Irã, algo que encareceu os custos de combustíveis em todo o mundo.
Como tudo isso se refletirá nas urnas das maiores democracias ocidentais? A partir dessa terça-feira será possível ter uma ideia da nova composição do Congresso dos Estados Unidos.
A contagem dos votos é manual – como defendem os bolsonaristas – e pode levar semanas. Existe uma grande chance de vitória dos democratas. Mas resta saber se eles conseguirão o controle de uma ou das duas Casas do Congresso.
Se isso acontecer, o Partido Democrata passa a ter chances reais de vitória nas eleições presidenciais de 2028. E os sonhos de grandeza de Donald Trump ficarão registrados apenas no grande salão de baile que ele constrói na Casa Branca.
Muita gente teme que as manifestações na França acabem por estimular o medo junto a eleitores conservadores, abrindo caminho para uma possível vitória na Frente Nacional das eleições do ano que vem.
É cedo ainda para dizer. Até porque já existe uma multidão de pré-candidatos à sucessão de Emmanuel Macron. O mesmo risco existe na Alemanha, onde tem crescido o apoio à AfD, partido de extrema direita de inspiração nazista.
As ruas e as urnas podem até seguir caminhos diferentes. Mas, como o Brasil mostrou ao resto do mundo, a presença de multidões nas grandes cidades pode ajudar a construir vitórias antes tidas como impossíveis.
A terra treme nas vozes destes povos
Enquanto esperávamos pela Assembleia Popular, no Rossio, perguntei a uma amiga como iria ser chamado este período histórico. “A crise das acampadas”? Desde a crónica da semana passada, ainda em torno da primeira carga policial na Praça D. João I, Portugal já tremeu imenso. A polícia e o Governo assumiram plenamente táticas de violência e repressão inéditas em Portugal contra manifestações pacíficas. Os relatos de manifestantes no Rossio falavam de bastonadas, cães, cercos e perseguições de moto por longa distância. Ações deliberadas que apanharam os “acampados” de surpresa, numa noite que terminou com muitos entre o hospital e a esquadra.
Se sábado foi um dia negro, seguido de mais um dia de protestos no domingo, a segunda-feira amanheceu com notícias globais de esperança. Numa vitória absolutamente histórica, Lula conseguiu deixar para trás o desaire do primeiro turno e, em duas semanas, impôs uma “virada” fenomenal, contra as elites, contra as táticas de supressão de votos, contra influências da Meta e contra todo um movimento tecnofascista global desejoso de o derrubar e colocar no poder a dinastia Bolsonaro. A equipa de Lula provou que é possível derrotar as forças antidemocráticas com organização, união, empenho e convicção.
Mas ocorreu um outro terramoto eleitoral no domingo à noite que apanhou todos de surpresa. Num curto espaço de tempo, a Sérvia tornou-se um caso de estudo mundial. As ruas de Belgrado irromperam no domingo em celebrações com a vitória do movimento estudantil nas eleições legislativas antecipadas, que derrotou o candidato populista pró-russo Aleksandar Vucic. Anos de governação corrupta, repressão brutal e falta de liberdade de expressão levaram a uma mobilização nacional constante e que nunca cedeu terreno. Em 2024, a contestação na Sérvia intensificou-se com um projeto de exploração de lítio da Rio Tinto, mas o momento decisivo foi o desabamento da cobertura da Estação de Novi Sad, em novembro desse ano, que causou 16 mortos. Um dos rostos que emergiram dessa tragédia foi a mãe de uma das vítimas, Dijana Hrka, que nunca deixou de lutar pela responsabilização judicial dos responsáveis pelo desabamento e se juntou, solidária, à causa dos estudantes em protesto. A sua história deu um rosto humano à dimensão da tragédia e às denúncias.
Na sequência das agressões e da repressão brutal, as manifestações começaram a tomar uma forma organizada e alastraram-se por todo o país. Em resumo, e porque deixo de lado muitos detalhes relevantes, a Sérvia convocou eleições antecipadas e o movimento estudantil concorreu com o cardiologista Ilija Srdanovic como cabeça de lista. Num inacreditável volte-face, a lista de estudantes (mas também de académicos e especialistas) acabou por ganhar a maioria absoluta. A Sérvia tem muitas razões para celebrar, mas o verdadeiro desafio político será provar que uma organização colaborativa e horizontal consegue assumir o poder e construir uma nova estrutura democrática, livre da influência russa e dos oligarcas. Não vai faltar interesse em acompanhar o caso da Sérvia nos próximos tempos. É a demonstração de que movimentos populares bem organizados podem fazer a diferença.
E não é só a Sérvia. Na altura em que escrevo esta crónica, ainda não sei qual será o resultado das eleições em Israel, a 27 de outubro, onde também ocorrem enormes manifestações contra o governo de Netanyahu. Chegará finalmente ao fim o seu poder? Terá Israel condições para eleger e formar um governo não extremista e que não apele aos piores fundamentalismos, pondo fim aos crimes contra o povo palestiniano, mas também aos bombardeamentos no Líbano e na região? E já a 3 de novembro saberemos se as eleições intercalares americanas serão dominadas pelos democratas ou se Trump irá pôr em causa a legitimidade do processo democrático. Entre os novos protestos e movimentos que nascem por toda a parte e a resistência das velhas elites, importa não deixar o vazio tomar lugar.
Quanto a nós, talvez ainda não seja possível saber como vamos chamar a este período histórico em Portugal, mas o seu nome também depende de quem se recusar a ser apenas testemunha. Vem-me à cabeça a estrofe de José Mário Branco: “Sobre as águas calmas um vulcão de fogo / Toda a terra treme nas vozes deste povo / Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular.”
Se sábado foi um dia negro, seguido de mais um dia de protestos no domingo, a segunda-feira amanheceu com notícias globais de esperança. Numa vitória absolutamente histórica, Lula conseguiu deixar para trás o desaire do primeiro turno e, em duas semanas, impôs uma “virada” fenomenal, contra as elites, contra as táticas de supressão de votos, contra influências da Meta e contra todo um movimento tecnofascista global desejoso de o derrubar e colocar no poder a dinastia Bolsonaro. A equipa de Lula provou que é possível derrotar as forças antidemocráticas com organização, união, empenho e convicção.
Mas ocorreu um outro terramoto eleitoral no domingo à noite que apanhou todos de surpresa. Num curto espaço de tempo, a Sérvia tornou-se um caso de estudo mundial. As ruas de Belgrado irromperam no domingo em celebrações com a vitória do movimento estudantil nas eleições legislativas antecipadas, que derrotou o candidato populista pró-russo Aleksandar Vucic. Anos de governação corrupta, repressão brutal e falta de liberdade de expressão levaram a uma mobilização nacional constante e que nunca cedeu terreno. Em 2024, a contestação na Sérvia intensificou-se com um projeto de exploração de lítio da Rio Tinto, mas o momento decisivo foi o desabamento da cobertura da Estação de Novi Sad, em novembro desse ano, que causou 16 mortos. Um dos rostos que emergiram dessa tragédia foi a mãe de uma das vítimas, Dijana Hrka, que nunca deixou de lutar pela responsabilização judicial dos responsáveis pelo desabamento e se juntou, solidária, à causa dos estudantes em protesto. A sua história deu um rosto humano à dimensão da tragédia e às denúncias.
Na sequência das agressões e da repressão brutal, as manifestações começaram a tomar uma forma organizada e alastraram-se por todo o país. Em resumo, e porque deixo de lado muitos detalhes relevantes, a Sérvia convocou eleições antecipadas e o movimento estudantil concorreu com o cardiologista Ilija Srdanovic como cabeça de lista. Num inacreditável volte-face, a lista de estudantes (mas também de académicos e especialistas) acabou por ganhar a maioria absoluta. A Sérvia tem muitas razões para celebrar, mas o verdadeiro desafio político será provar que uma organização colaborativa e horizontal consegue assumir o poder e construir uma nova estrutura democrática, livre da influência russa e dos oligarcas. Não vai faltar interesse em acompanhar o caso da Sérvia nos próximos tempos. É a demonstração de que movimentos populares bem organizados podem fazer a diferença.
E não é só a Sérvia. Na altura em que escrevo esta crónica, ainda não sei qual será o resultado das eleições em Israel, a 27 de outubro, onde também ocorrem enormes manifestações contra o governo de Netanyahu. Chegará finalmente ao fim o seu poder? Terá Israel condições para eleger e formar um governo não extremista e que não apele aos piores fundamentalismos, pondo fim aos crimes contra o povo palestiniano, mas também aos bombardeamentos no Líbano e na região? E já a 3 de novembro saberemos se as eleições intercalares americanas serão dominadas pelos democratas ou se Trump irá pôr em causa a legitimidade do processo democrático. Entre os novos protestos e movimentos que nascem por toda a parte e a resistência das velhas elites, importa não deixar o vazio tomar lugar.
Quanto a nós, talvez ainda não seja possível saber como vamos chamar a este período histórico em Portugal, mas o seu nome também depende de quem se recusar a ser apenas testemunha. Vem-me à cabeça a estrofe de José Mário Branco: “Sobre as águas calmas um vulcão de fogo / Toda a terra treme nas vozes deste povo / Mesmo no silêncio sabemos cantar / Povo por extenso é unidade popular.”
Os inocentes do Leblon não sabem de você
Foi no auge da década de 1980 que Marina Lima, ao lado de seu irmão, o letrista, poeta e filósofo, Antônio Cícero, deu voz à canção Virgem. Entre seus versos, uma referência direta a Carlos Drummond de Andrade: “os inocentes do Leblon”.
Anos depois, Cícero contaria que a expressão fazia parte de suas lembranças de infância, quando seu pai costumava chamar assim os filhos que saíam do mar, nas praias cariocas. Uma memória afetiva que, curiosamente, evocava outra vivência, anterior àquela família e à própria canção.
Aqui, recorremos brevemente a Michel Foucault, que, na abertura do seu livro, A ordem do discurso, manifesta o desejo de encontrar uma voz que já o precedesse. De acordo com ele, não inauguramos os discursos que pronunciamos, mas ocupamos lugares em uma trama de sentidos, histórias e relações de poder que existiam muito antes de nós.
Foi o que Antônio Cícero fez convocando Drummond para sua própria lírica? Ao recuperar “os inocentes do Leblon”, a expressão foi realocada para o território da experiência amorosa, onde o mundo continua existindo, indiferente às nossas perdas. Entretanto, o verso original traz consigo uma história menos romântica.
Publicado em 1940, em Sentimento do mundo, o poema de Drummond surge em meio ao avanço do fascismo e à Segunda Guerra Mundial. Nele, os inocentes não percebem a chegada de um navio, não sabem o que transporta, quem chega ou o que acontece para além da praia. Estão ocupados com o calor da areia, o óleo sobre as costas e a tranquilidade de quem pode se dar ao luxo de não olhar para o horizonte. Lá, na cadência proposta pelo poeta, o mundo parece estar em convulsão. O bronzeado, todavia, não pode esperar.
Eis, então, que surge a primeira de muitas perguntas que aqui nos interessa: quem são e será que os inocentes do Leblon são mesmo tão inocentes assim?
Há algo na classe média brasileira que remete continuamente a esses personagens, não exatamente pela localização geográfica, embora o Leblon seja uma metáfora bastante conveniente para pensar os privilégios no Brasil, mas pela relação que determinados segmentos estabelecem com a própria condição de classe.
Isso porque a classe média brasileira parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de se reconhecer em tudo aquilo que não é. Não é pobre, porque comprou um apartamento financiado. Não é trabalhadora, porque ocupa um cargo de gestão. Não é proletária, porque tem diploma universitário, carro, plano de saúde e, eventualmente, alguém que trabalha em sua casa. Ela também não é burguesa, embora faça um esforço admirável para pensar como se fosse.
A grande ironia é que basta perder o emprego para descobrir que o banco, o condomínio e a operadora do plano de saúde não reconhecem distinções tão sofisticadas – e é justamente nessa contradição que a leitura marxista se torna incontornável.
Para Marx, a alienação está inscrita das e nas próprias relações de trabalho, quando aquele que produz a riqueza não controla plenamente as condições de sua produção. Mas há outra dimensão dessa discussão que nos interessa particularmente, a saber, a maneira como determinadas relações sociais e ideológicas contribuem para que trabalhadores se identifiquem com posições de classe que não ocupam.
É o caso de parcelas da classe média que dependem do próprio salário, mas encontram no diploma, no cargo e no padrão de consumo motivos suficientes para se imaginar mais próximas da burguesia do que dos demais trabalhadores.
Diante disso, podemos inferir que o problema não está em a classe média reconhecer seus privilégios, mas em confundi-los com uma mudança de classe e, nessa confusão, terminar por defender os interesses de quem controla o capital, enquanto se empenha em manter distância daqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Esta maneira de compreender a própria posição social possui uma história, e ela não vem de agora…
A classe média urbana brasileira já existia antes de 1930, mas sua expansão acompanhou as transformações econômicas desencadeadas pela industrialização e pelo crescimento do Estado. A partir da Era Vargas, a reorganização das relações de trabalho, a ampliação do funcionalismo público e o desenvolvimento de ocupações técnicas e administrativas contribuíram para a formação de novos segmentos assalariados. A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um marco dessa reorganização, embora suas garantias não tenham alcançado todos os trabalhadores da mesma maneira.
Nos anos seguintes, a industrialização, a urbanização e a expansão dos serviços ampliaram essas ocupações. O crescimento econômico durante a ditadura militar também favoreceu determinados segmentos médios, ao mesmo tempo que aprofundou desigualdades e concentrou renda. Bem mais adiante, após o período ditatorial, a redemocratização, a estabilização monetária com o Plano Real e, posteriormente, a ampliação do emprego formal, do crédito e do acesso à educação contribuíram, em momentos distintos, para modificar as condições de vida e as possibilidades de ascensão social.
Embora essa trajetória não tenha sido linear, tampouco universal, ela auxilia na compreensão de como o emprego estável, a formação profissional e o acesso ao consumo se tornaram referências importantes para a identidade de parcelas da classe média brasileira.
Entretanto, o que aqui importa não é reconstituir toda essa história, mas observar o que acontece quando as condições de trabalho que ajudaram a sustentar determinadas expectativas de estabilidade começam a se transformar.
Durante boa parte do século XX, a expansão do trabalho assalariado formal esteve associada, para determinados grupos, à possibilidade de construir uma carreira, acumular patrimônio e projetar alguma segurança para o futuro. A empresa, a instituição pública ou a profissão ofereciam uma referência relativamente estável de pertencimento.
Todavia, é importante registrar que essa estabilidade nunca foi uma experiência generalizada no Brasil. O trabalho doméstico, a informalidade, a desigualdade racial e a precariedade das ocupações rurais permaneceram como características estruturais do mercado de trabalho. Ainda assim, a promessa de uma carreira protegida e de ascensão pela escolarização exerceu enorme influência sobre o imaginário das classes médias urbanas.
Nas últimas décadas, essa promessa passou a conviver com transformações profundas na organização do trabalho.
A flexibilização das relações contratuais, a terceirização, a expansão do trabalho por demanda, a contratação por pessoa jurídica e o crescimento das plataformas digitais modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam. A especialização profissional, antes frequentemente associada à estabilidade, passou a coexistir com vínculos mais instáveis, competição permanente e exigências contínuas de atualização.
O neoliberalismo não inventou a precariedade do trabalho brasileiro – ela é muito anterior a ele, isso é fato –, mas a reorganização econômica e institucional das últimas décadas contribuiu para produzir novas formas de insegurança, inclusive entre profissionais que, historicamente, se percebiam relativamente protegidos.
A Reforma Trabalhista de 2017, durante o governo Temer, é um marco importante desse processo. Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas digitais tornou mais visíveis formas de organização do trabalho nas quais a promessa de autonomia convive com mecanismos intensos de controle, dependência econômica e transferência de riscos.
O trabalhador passa a ser estimulado a se perceber como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar a própria carreira, investir continuamente em qualificações, construir uma marca pessoal e assumir os riscos de sua inserção profissional. A ausência de estabilidade ganha o nome de liberdade, a perda de garantias vira flexibilidade, e trabalhar cada vez mais passa a ser celebrado como espírito empreendedor. Eis uma das grandes ironias do capitalismo contemporâneo, a de que o trabalhador perde direitos, mas ganha um título de empresário para chamar de seu.
É nesse cenário que a meritocracia cumpre uma função bastante conveniente. O sucesso passa a ser apresentado como resultado exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à incapacidade de acompanhar as exigências do mercado. Pouco importa que as oportunidades continuem profundamente condicionadas pela origem social, escolaridade e relações de poder. A responsabilidade é sempre do indivíduo, nunca das estruturas que organizam sua existência.
A contradição se torna ainda mais evidente quando observamos a classe média brasileira. Acostumada a encontrar no diploma, na profissão e no consumo elementos de distinção social, ela passa a enfrentar um mercado de trabalho que já não oferece as mesmas garantias de estabilidade e ascensão. O diploma permanece na parede, o cargo profissional é estampado no LinkedIn, mas a segurança econômica que deveria acompanhar essas conquistas se torna cada vez mais incerta.
E, em vez de reconhecer nessa precarização uma condição que a aproxima dos demais trabalhadores, parte da classe média insiste em preservar a distância simbólica que acredita separá-la deles. A ampliação do acesso à universidade, a conquista de direitos ou a ascensão dos mais pobres, costumeiramente, são percebidas como ameaças ao próprio prestígio. Afinal, de que vale ocupar uma posição privilegiada se aqueles que antes estavam excluídos começam a frequentar os mesmos espaços?
O resultado disso soa como uma inversão bastante reveladora. O trabalhador que perde garantias encontra no trabalhador que conquista direitos um adversário, enquanto continua a reconhecer naquele que controla o capital um modelo de sucesso. A disputa se desloca das relações entre capital e trabalho para uma competição entre pessoas que, apesar das diferenças reais de renda e prestígio, compartilham a dependência do próprio trabalho. E, assim, a classe média consegue a proeza de se afastar simbolicamente de sua condição de classe sem jamais conseguir escapar materialmente dela.
A história eleitoral brasileira oferece exemplos bastante reveladores dessa contradição. Desde a redemocratização, a classe média esteve longe de constituir um bloco político homogêneo. Mas, especialmente a partir das eleições de 2006, quando Lula consolidou seu apoio eleitoral entre os segmentos de menor renda, parcelas da classe média e dos estratos superiores passaram a se identificar mais fortemente com candidaturas de oposição ao PT. Esse movimento assumiu novas configurações nas eleições seguintes e encontrou, na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão particularmente significativa da combinação entre conservadorismo moral, antipetismo e liberalismo econômico.
Evidentemente, ninguém vota apenas de acordo com sua posição nas relações de produção. Religião, segurança pública, valores morais e experiências individuais também orientam escolhas políticas. Mas há uma ironia difícil de ignorar quando trabalhadores assalariados defendem a flexibilização de direitos, profissionais precarizados celebram a ausência de vínculo empregatício como liberdade e pequenos empresários se identificam com os interesses de grandes grupos econômicos que, não raramente, também os pressionam na estrutura social.
É justamente aí que a ideologia encontra terreno fértil. A liberdade de quem controla o capital passa a ser confundida com a liberdade de quem precisa vender sua força de trabalho. Parte da classe média, ao incorporar como seus os interesses daqueles que ocupam posições superiores na estrutura econômica, acaba por defender relações que também sustentam sua própria subordinação. Em outras palavras, ela trabalha como assalariada, consome como classe média e, em determinadas circunstâncias, imagina o mundo como burguesa.
Eis então a grande contradição! Parte da classe média teme perder o lugar que ocupa, mas dirige sua hostilidade a quem tenta alcançá-lo, não a quem controla as condições de acesso a ele. O trabalhador mais pobre se transforma em concorrente, enquanto o grande empresário, em referência de sucesso. E o conflito que poderia revelar interesses compartilhados entre trabalhadores acaba reorganizado como uma disputa por quem merece permanecer alguns degraus acima dos demais.
É nessa antítese que podemos tentar entender a classe média através de uma posição particularmente perversa: a de vítima e algoz. Vítima porque se ilude com a ideia de pertencer à burguesia, confundindo determinados privilégios e sinais de prestígio com a posse efetiva do capital. Afinal, integrar uma elite econômica ou intelectual não significa, necessariamente, pertencer à classe que controla os meios de produção. E a própria burguesia se encarrega de estabelecer os limites dessa identificação, sobretudo quando o emprego desaparece e a renda deixa de sustentar a aparência de pertencimento.
Algoz porque, mesmo submetida a essa relação de dependência, parte da classe média reproduz as hierarquias que a subordinam, oprime os trabalhadores que ocupam posições inferiores e transforma a própria insegurança em instrumento de exclusão. Ela não consegue ser reconhecida por aqueles a quem deseja se igualar, mas insiste em negar o reconhecimento àqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Por essa via de análise, é possível concluir também que a inocência deixa de ser uma questão de desconhecimento. Afinal, reconhecer a própria condição de classe não significa, necessariamente, desejar transformar as relações que a sustentam, sobretudo quando determinados privilégios dependem da permanência de outros trabalhadores em posições inferiores.
Talvez, por isso, o poema de Drummond permaneça tão atual. O navio chegou, o mundo mudou, as relações de trabalho se transformaram, mas os inocentes continuam ocupados demais para perceber o que acontece além da praia. Afinal, reconhecer a própria vulnerabilidade exige um esforço consideravelmente maior do que preservar a confortável ilusão de pertencimento à classe dominante.
Ainda assim, parte dessa classe prefere responsabilizar aqueles que estão abaixo na hierarquia social por uma insegurança que não foi produzida por eles. O problema nunca parece estar nas relações econômicas que a subordinam, mas no trabalhador que conquistou direitos, no pobre que ingressou na universidade ou naquele que passou a frequentar espaços antes reservados a poucos. A classe média teme perder seus privilégios, mas, frequentemente, se incomoda mais com quem começa a conquistá-los do que com quem efetivamente controla sua distribuição.
Retomemos então a alienação nas relações de trabalho, tal como discutida por Marx. Se as condições materiais de existência contribuem para moldar a maneira como os sujeitos compreendem a si mesmos e o mundo, isso não os isenta de participar da reprodução das relações que os subordinam. A classe média pode ser alienada em sua condição de trabalhadora e, ao mesmo tempo, encontrar na preservação das desigualdades uma forma de sustentar seus próprios privilégios. Sua inocência, portanto, carrega também uma parcela de responsabilidade.
Em Virgem, de Cícero e Marina, o mundo segue indiferente às nossas expectativas. As coisas não necessitam de nós. Mas, diante dos inocentes de Drummond, a pergunta é outra: por que determinados grupos insistem em agir como se não precisassem compreender o mundo que os cerca?
Há uma diferença considerável entre não perceber a chegada de um navio e construir toda uma visão de mundo para continuar ignorando sua presença. A primeira situação pode ser distração, a segunda já se aproxima bastante de uma conveniência política.
Talvez os inocentes do Leblon não sejam tão inocentes assim. Sua “ingenuidade” também pode ser uma posição social, uma maneira de interpretar a realidade e, sobretudo, de escolher a quem atribuir a responsabilidade pelas próprias contradições.
Afinal, o navio continua chegando. E a areia, para alguns, permanece suficientemente quente para que não seja necessário olhar para o mar.
Anos depois, Cícero contaria que a expressão fazia parte de suas lembranças de infância, quando seu pai costumava chamar assim os filhos que saíam do mar, nas praias cariocas. Uma memória afetiva que, curiosamente, evocava outra vivência, anterior àquela família e à própria canção.
Aqui, recorremos brevemente a Michel Foucault, que, na abertura do seu livro, A ordem do discurso, manifesta o desejo de encontrar uma voz que já o precedesse. De acordo com ele, não inauguramos os discursos que pronunciamos, mas ocupamos lugares em uma trama de sentidos, histórias e relações de poder que existiam muito antes de nós.
Foi o que Antônio Cícero fez convocando Drummond para sua própria lírica? Ao recuperar “os inocentes do Leblon”, a expressão foi realocada para o território da experiência amorosa, onde o mundo continua existindo, indiferente às nossas perdas. Entretanto, o verso original traz consigo uma história menos romântica.
Publicado em 1940, em Sentimento do mundo, o poema de Drummond surge em meio ao avanço do fascismo e à Segunda Guerra Mundial. Nele, os inocentes não percebem a chegada de um navio, não sabem o que transporta, quem chega ou o que acontece para além da praia. Estão ocupados com o calor da areia, o óleo sobre as costas e a tranquilidade de quem pode se dar ao luxo de não olhar para o horizonte. Lá, na cadência proposta pelo poeta, o mundo parece estar em convulsão. O bronzeado, todavia, não pode esperar.
Eis, então, que surge a primeira de muitas perguntas que aqui nos interessa: quem são e será que os inocentes do Leblon são mesmo tão inocentes assim?
Há algo na classe média brasileira que remete continuamente a esses personagens, não exatamente pela localização geográfica, embora o Leblon seja uma metáfora bastante conveniente para pensar os privilégios no Brasil, mas pela relação que determinados segmentos estabelecem com a própria condição de classe.
Isso porque a classe média brasileira parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de se reconhecer em tudo aquilo que não é. Não é pobre, porque comprou um apartamento financiado. Não é trabalhadora, porque ocupa um cargo de gestão. Não é proletária, porque tem diploma universitário, carro, plano de saúde e, eventualmente, alguém que trabalha em sua casa. Ela também não é burguesa, embora faça um esforço admirável para pensar como se fosse.
A grande ironia é que basta perder o emprego para descobrir que o banco, o condomínio e a operadora do plano de saúde não reconhecem distinções tão sofisticadas – e é justamente nessa contradição que a leitura marxista se torna incontornável.
Para Marx, a alienação está inscrita das e nas próprias relações de trabalho, quando aquele que produz a riqueza não controla plenamente as condições de sua produção. Mas há outra dimensão dessa discussão que nos interessa particularmente, a saber, a maneira como determinadas relações sociais e ideológicas contribuem para que trabalhadores se identifiquem com posições de classe que não ocupam.
É o caso de parcelas da classe média que dependem do próprio salário, mas encontram no diploma, no cargo e no padrão de consumo motivos suficientes para se imaginar mais próximas da burguesia do que dos demais trabalhadores.
Diante disso, podemos inferir que o problema não está em a classe média reconhecer seus privilégios, mas em confundi-los com uma mudança de classe e, nessa confusão, terminar por defender os interesses de quem controla o capital, enquanto se empenha em manter distância daqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Esta maneira de compreender a própria posição social possui uma história, e ela não vem de agora…
A classe média urbana brasileira já existia antes de 1930, mas sua expansão acompanhou as transformações econômicas desencadeadas pela industrialização e pelo crescimento do Estado. A partir da Era Vargas, a reorganização das relações de trabalho, a ampliação do funcionalismo público e o desenvolvimento de ocupações técnicas e administrativas contribuíram para a formação de novos segmentos assalariados. A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943, tornou-se um marco dessa reorganização, embora suas garantias não tenham alcançado todos os trabalhadores da mesma maneira.
Nos anos seguintes, a industrialização, a urbanização e a expansão dos serviços ampliaram essas ocupações. O crescimento econômico durante a ditadura militar também favoreceu determinados segmentos médios, ao mesmo tempo que aprofundou desigualdades e concentrou renda. Bem mais adiante, após o período ditatorial, a redemocratização, a estabilização monetária com o Plano Real e, posteriormente, a ampliação do emprego formal, do crédito e do acesso à educação contribuíram, em momentos distintos, para modificar as condições de vida e as possibilidades de ascensão social.
Embora essa trajetória não tenha sido linear, tampouco universal, ela auxilia na compreensão de como o emprego estável, a formação profissional e o acesso ao consumo se tornaram referências importantes para a identidade de parcelas da classe média brasileira.
Entretanto, o que aqui importa não é reconstituir toda essa história, mas observar o que acontece quando as condições de trabalho que ajudaram a sustentar determinadas expectativas de estabilidade começam a se transformar.
Durante boa parte do século XX, a expansão do trabalho assalariado formal esteve associada, para determinados grupos, à possibilidade de construir uma carreira, acumular patrimônio e projetar alguma segurança para o futuro. A empresa, a instituição pública ou a profissão ofereciam uma referência relativamente estável de pertencimento.
Todavia, é importante registrar que essa estabilidade nunca foi uma experiência generalizada no Brasil. O trabalho doméstico, a informalidade, a desigualdade racial e a precariedade das ocupações rurais permaneceram como características estruturais do mercado de trabalho. Ainda assim, a promessa de uma carreira protegida e de ascensão pela escolarização exerceu enorme influência sobre o imaginário das classes médias urbanas.
Nas últimas décadas, essa promessa passou a conviver com transformações profundas na organização do trabalho.
A flexibilização das relações contratuais, a terceirização, a expansão do trabalho por demanda, a contratação por pessoa jurídica e o crescimento das plataformas digitais modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam. A especialização profissional, antes frequentemente associada à estabilidade, passou a coexistir com vínculos mais instáveis, competição permanente e exigências contínuas de atualização.
O neoliberalismo não inventou a precariedade do trabalho brasileiro – ela é muito anterior a ele, isso é fato –, mas a reorganização econômica e institucional das últimas décadas contribuiu para produzir novas formas de insegurança, inclusive entre profissionais que, historicamente, se percebiam relativamente protegidos.
A Reforma Trabalhista de 2017, durante o governo Temer, é um marco importante desse processo. Ao mesmo tempo, a expansão das plataformas digitais tornou mais visíveis formas de organização do trabalho nas quais a promessa de autonomia convive com mecanismos intensos de controle, dependência econômica e transferência de riscos.
O trabalhador passa a ser estimulado a se perceber como uma empresa de si mesmo. Precisa administrar a própria carreira, investir continuamente em qualificações, construir uma marca pessoal e assumir os riscos de sua inserção profissional. A ausência de estabilidade ganha o nome de liberdade, a perda de garantias vira flexibilidade, e trabalhar cada vez mais passa a ser celebrado como espírito empreendedor. Eis uma das grandes ironias do capitalismo contemporâneo, a de que o trabalhador perde direitos, mas ganha um título de empresário para chamar de seu.
É nesse cenário que a meritocracia cumpre uma função bastante conveniente. O sucesso passa a ser apresentado como resultado exclusivo do esforço individual, enquanto o fracasso é atribuído à incapacidade de acompanhar as exigências do mercado. Pouco importa que as oportunidades continuem profundamente condicionadas pela origem social, escolaridade e relações de poder. A responsabilidade é sempre do indivíduo, nunca das estruturas que organizam sua existência.
A contradição se torna ainda mais evidente quando observamos a classe média brasileira. Acostumada a encontrar no diploma, na profissão e no consumo elementos de distinção social, ela passa a enfrentar um mercado de trabalho que já não oferece as mesmas garantias de estabilidade e ascensão. O diploma permanece na parede, o cargo profissional é estampado no LinkedIn, mas a segurança econômica que deveria acompanhar essas conquistas se torna cada vez mais incerta.
E, em vez de reconhecer nessa precarização uma condição que a aproxima dos demais trabalhadores, parte da classe média insiste em preservar a distância simbólica que acredita separá-la deles. A ampliação do acesso à universidade, a conquista de direitos ou a ascensão dos mais pobres, costumeiramente, são percebidas como ameaças ao próprio prestígio. Afinal, de que vale ocupar uma posição privilegiada se aqueles que antes estavam excluídos começam a frequentar os mesmos espaços?
O resultado disso soa como uma inversão bastante reveladora. O trabalhador que perde garantias encontra no trabalhador que conquista direitos um adversário, enquanto continua a reconhecer naquele que controla o capital um modelo de sucesso. A disputa se desloca das relações entre capital e trabalho para uma competição entre pessoas que, apesar das diferenças reais de renda e prestígio, compartilham a dependência do próprio trabalho. E, assim, a classe média consegue a proeza de se afastar simbolicamente de sua condição de classe sem jamais conseguir escapar materialmente dela.
A história eleitoral brasileira oferece exemplos bastante reveladores dessa contradição. Desde a redemocratização, a classe média esteve longe de constituir um bloco político homogêneo. Mas, especialmente a partir das eleições de 2006, quando Lula consolidou seu apoio eleitoral entre os segmentos de menor renda, parcelas da classe média e dos estratos superiores passaram a se identificar mais fortemente com candidaturas de oposição ao PT. Esse movimento assumiu novas configurações nas eleições seguintes e encontrou, na ascensão de Jair Bolsonaro em 2018, uma expressão particularmente significativa da combinação entre conservadorismo moral, antipetismo e liberalismo econômico.
Evidentemente, ninguém vota apenas de acordo com sua posição nas relações de produção. Religião, segurança pública, valores morais e experiências individuais também orientam escolhas políticas. Mas há uma ironia difícil de ignorar quando trabalhadores assalariados defendem a flexibilização de direitos, profissionais precarizados celebram a ausência de vínculo empregatício como liberdade e pequenos empresários se identificam com os interesses de grandes grupos econômicos que, não raramente, também os pressionam na estrutura social.
É justamente aí que a ideologia encontra terreno fértil. A liberdade de quem controla o capital passa a ser confundida com a liberdade de quem precisa vender sua força de trabalho. Parte da classe média, ao incorporar como seus os interesses daqueles que ocupam posições superiores na estrutura econômica, acaba por defender relações que também sustentam sua própria subordinação. Em outras palavras, ela trabalha como assalariada, consome como classe média e, em determinadas circunstâncias, imagina o mundo como burguesa.
Eis então a grande contradição! Parte da classe média teme perder o lugar que ocupa, mas dirige sua hostilidade a quem tenta alcançá-lo, não a quem controla as condições de acesso a ele. O trabalhador mais pobre se transforma em concorrente, enquanto o grande empresário, em referência de sucesso. E o conflito que poderia revelar interesses compartilhados entre trabalhadores acaba reorganizado como uma disputa por quem merece permanecer alguns degraus acima dos demais.
É nessa antítese que podemos tentar entender a classe média através de uma posição particularmente perversa: a de vítima e algoz. Vítima porque se ilude com a ideia de pertencer à burguesia, confundindo determinados privilégios e sinais de prestígio com a posse efetiva do capital. Afinal, integrar uma elite econômica ou intelectual não significa, necessariamente, pertencer à classe que controla os meios de produção. E a própria burguesia se encarrega de estabelecer os limites dessa identificação, sobretudo quando o emprego desaparece e a renda deixa de sustentar a aparência de pertencimento.
Algoz porque, mesmo submetida a essa relação de dependência, parte da classe média reproduz as hierarquias que a subordinam, oprime os trabalhadores que ocupam posições inferiores e transforma a própria insegurança em instrumento de exclusão. Ela não consegue ser reconhecida por aqueles a quem deseja se igualar, mas insiste em negar o reconhecimento àqueles com quem compartilha a dependência do trabalho.
Por essa via de análise, é possível concluir também que a inocência deixa de ser uma questão de desconhecimento. Afinal, reconhecer a própria condição de classe não significa, necessariamente, desejar transformar as relações que a sustentam, sobretudo quando determinados privilégios dependem da permanência de outros trabalhadores em posições inferiores.
Talvez, por isso, o poema de Drummond permaneça tão atual. O navio chegou, o mundo mudou, as relações de trabalho se transformaram, mas os inocentes continuam ocupados demais para perceber o que acontece além da praia. Afinal, reconhecer a própria vulnerabilidade exige um esforço consideravelmente maior do que preservar a confortável ilusão de pertencimento à classe dominante.
Ainda assim, parte dessa classe prefere responsabilizar aqueles que estão abaixo na hierarquia social por uma insegurança que não foi produzida por eles. O problema nunca parece estar nas relações econômicas que a subordinam, mas no trabalhador que conquistou direitos, no pobre que ingressou na universidade ou naquele que passou a frequentar espaços antes reservados a poucos. A classe média teme perder seus privilégios, mas, frequentemente, se incomoda mais com quem começa a conquistá-los do que com quem efetivamente controla sua distribuição.
Retomemos então a alienação nas relações de trabalho, tal como discutida por Marx. Se as condições materiais de existência contribuem para moldar a maneira como os sujeitos compreendem a si mesmos e o mundo, isso não os isenta de participar da reprodução das relações que os subordinam. A classe média pode ser alienada em sua condição de trabalhadora e, ao mesmo tempo, encontrar na preservação das desigualdades uma forma de sustentar seus próprios privilégios. Sua inocência, portanto, carrega também uma parcela de responsabilidade.
Em Virgem, de Cícero e Marina, o mundo segue indiferente às nossas expectativas. As coisas não necessitam de nós. Mas, diante dos inocentes de Drummond, a pergunta é outra: por que determinados grupos insistem em agir como se não precisassem compreender o mundo que os cerca?
Há uma diferença considerável entre não perceber a chegada de um navio e construir toda uma visão de mundo para continuar ignorando sua presença. A primeira situação pode ser distração, a segunda já se aproxima bastante de uma conveniência política.
Talvez os inocentes do Leblon não sejam tão inocentes assim. Sua “ingenuidade” também pode ser uma posição social, uma maneira de interpretar a realidade e, sobretudo, de escolher a quem atribuir a responsabilidade pelas próprias contradições.
Afinal, o navio continua chegando. E a areia, para alguns, permanece suficientemente quente para que não seja necessário olhar para o mar.
IAs enfeiam a matemática
A matemática está se tornando fascista? Admito que a piada não é das melhores, mas não resisto. A publicação de 370 soluções de problemas matemáticos pela OpenAI, no início de outubro, prenuncia uma era em que o método Monte Carlo, uma espécie de força bruta estatística, prevalecerá sobre as abordagens inspiradas em beleza e elegância que vêm dando o tom das demonstrações desde que a humanidade inventou/descobriu a matemática (cabe ao leitor escolher aqui a palavra que mais lhe agrada) alguns milênios atrás.
Que me perdoem os céticos da IA, mas a essa altura não dá mais para negar que os programas sejam capazes de criar soluções originais para problemas complexos e que o fazem através da força bruta probabilística e estatística, em princípio sem nenhuma consideração para com a dimensão estética.
A pergunta que proponho é se um dia fez sentido associar matemática a beleza. Não me entendam mal, também prefiro a elegantérrima prova de Euclides sobre a infinidade dos números primos a qualquer método fascista, mas será que matemáticos mais idealistas não avançaram o sinal quando começaram a propor que a beleza de uma demonstração fosse também um critério de verdade? O fato de termos nos acostumado a associar os dois elementos provavelmente não passa de um viés de sobrevivência. Como até aqui os matemáticos privilegiaram a produção de provas que julgavam belas, ficamos com a sensação de que as duas coisas andam juntas, mas é perfeitamente possível que haja por aí um número muito maior de verdades matemáticas assustadoramente feias. Há alguns teoremas matemáticos e mesmo modelos da física fortemente sugestivos disso. A elegante supersimetria não desbancou o desengonçado modelo-padrão da física de partículas.
Não penso que o fascismo algorítmico das IAs nos fará aposentar o gosto por demonstrações esteticamente inspiradas, mas saberemos que isso não passa de uma preferência humana, e a matemática ficará mais parecida com a literatura.
Que me perdoem os céticos da IA, mas a essa altura não dá mais para negar que os programas sejam capazes de criar soluções originais para problemas complexos e que o fazem através da força bruta probabilística e estatística, em princípio sem nenhuma consideração para com a dimensão estética.
A pergunta que proponho é se um dia fez sentido associar matemática a beleza. Não me entendam mal, também prefiro a elegantérrima prova de Euclides sobre a infinidade dos números primos a qualquer método fascista, mas será que matemáticos mais idealistas não avançaram o sinal quando começaram a propor que a beleza de uma demonstração fosse também um critério de verdade? O fato de termos nos acostumado a associar os dois elementos provavelmente não passa de um viés de sobrevivência. Como até aqui os matemáticos privilegiaram a produção de provas que julgavam belas, ficamos com a sensação de que as duas coisas andam juntas, mas é perfeitamente possível que haja por aí um número muito maior de verdades matemáticas assustadoramente feias. Há alguns teoremas matemáticos e mesmo modelos da física fortemente sugestivos disso. A elegante supersimetria não desbancou o desengonçado modelo-padrão da física de partículas.
Não penso que o fascismo algorítmico das IAs nos fará aposentar o gosto por demonstrações esteticamente inspiradas, mas saberemos que isso não passa de uma preferência humana, e a matemática ficará mais parecida com a literatura.
Economia, calcanhar de Lula, vira força anti-Flávio. Machado e bolacha Oreo
Em 2022, Lula resgatou a democracia ao derrotar Jair Bolsonaro, que a tratava como estorvo. Em 25 de outubro, preservou-a de novo ao vencer Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21%. E, de quebra, realizou um feito raro entre os regimes democráticos: obteve a reeleição justamente quando insatisfações as mais diversas têm conduzido a oposição ao poder. Resta a pergunta: como foi possível? Há algo que setores reacionários da imprensa não admitem nem com os números na mão: se o petista quase perdeu porque há descontentamento com a economia, também foi ela a lhe dar a vitória.E concluirei este texto apelando a Machado de Assis e ao modo como se come o biscoito Oreo.
Nos últimos anos, a oposição derrotou o governismo nos EUA (novembro de 2024), na Alemanha (fevereiro de 2025), na Polônia (junho de 2025), na Coreia do Sul (junho de 2025), na Tchéquia (outubro de 2025), na Bolívia (outubro de 2025), nos Países Baixos (outubro de 2025), em Honduras (novembro de 2025), no Chile (dezembro de 2025), na Hungria (abril de 2026), na Colômbia (junho de 2026)… E vai por aí. Houve algumas exceções, às quais se junta o Brasil, mas elas apenas confirmam a tendência.
Thomas Piketty descreveu o fenômeno logo depois da eleição americana. Em 12 de novembro de 2024, no “Le Monde”, sob o título “Partout dans le monde, les gouvernements sortants sont balayés” (“Em todo o mundo, os governos em exercício estão sendo varridos”), ele analisou a vitória de Donald Trump sobre os democratas como parte de uma onda global.
Sustentou que a insatisfação com a inflação, com a estagnação do poder de compra e com o aumento das desigualdades no pós-pandemia produziu uma reação punitiva contra qualquer governante de turno, fosse de esquerda, de centro ou de direita. Os eleitores, afirmou, derrubam sistematicamente quem está no poder porque faltam respostas estruturais e ousadas à crise socioeconômica. Ora, se a onda levou de roldão os democratas, tinha tudo para atingir também um presidente progressista em busca do quarto mandato.
Os analistas apontaram vários fatores para a vitória de Lula: a mobilização da sociedade, a presença forte nas redes, o repúdio à volta de Bolsonaro, a relação multimilionária de Flávio com Daniel Vorcaro, a recusa à tutela de Trump, o engajamento dos estudantes em defesa da Educação e da Saúde, o comparecimento de quem se abstivera no primeiro turno…
Tudo isso é verdade. Mas notem: Lula largou na frente, foi alcançado por Flávio e jamais deixou de estar empatado com o filhote do tiranete, ora evadido. De onde vinha a resiliência do presidente? Não se explica por mágica nem por marketing.
Vejam as conquistas, com números. O rendimento médio do trabalho superou R$ 3,7 mil mensais, recorde do levantamento do IBGE. O desemprego caiu a 5,2% no trimestre até setembro, e o mínimo absoluto, 5,1%, veio no fim de 2025. A pobreza recuou de 27,3% para 23,1% da população entre 2023 e 2024, e a extrema pobreza, de 4,4% para 3,5%: os menores índices já medidos.
Em julho, a FAO confirmou que o país segue fora do Mapa da Fome; pela segunda vez, Lula pôs fim a esse mal. Os programas sociais foram retomados. Só que o brasileiro, endividado por múltiplos fatores, inclusive as bets, esperava mais. Segundo o Banco Central, as dívidas consomem 29% da renda das famílias, o endividamento chegou a 50,1% do rendimento anual, e a inadimplência atingiu a marca mais alta da série, com 6%. Quem está de bolso apertado não vota com uma planilha de indicadores na mão.
Parecia que aqui também se cumpriria o que se vê mundo afora, aquele fenômeno apontado por Piketty: o descontentamento com o custo de vida empurrando o eleitor para o outro lado. Mas a mobilização garantiu que a ficha caísse para a maioria, incluindo os que resolveram votar apenas na etapa decisiva: o que se ganhara até ali corria risco.
Nos últimos anos, a oposição derrotou o governismo nos EUA (novembro de 2024), na Alemanha (fevereiro de 2025), na Polônia (junho de 2025), na Coreia do Sul (junho de 2025), na Tchéquia (outubro de 2025), na Bolívia (outubro de 2025), nos Países Baixos (outubro de 2025), em Honduras (novembro de 2025), no Chile (dezembro de 2025), na Hungria (abril de 2026), na Colômbia (junho de 2026)… E vai por aí. Houve algumas exceções, às quais se junta o Brasil, mas elas apenas confirmam a tendência.
Thomas Piketty descreveu o fenômeno logo depois da eleição americana. Em 12 de novembro de 2024, no “Le Monde”, sob o título “Partout dans le monde, les gouvernements sortants sont balayés” (“Em todo o mundo, os governos em exercício estão sendo varridos”), ele analisou a vitória de Donald Trump sobre os democratas como parte de uma onda global.
Sustentou que a insatisfação com a inflação, com a estagnação do poder de compra e com o aumento das desigualdades no pós-pandemia produziu uma reação punitiva contra qualquer governante de turno, fosse de esquerda, de centro ou de direita. Os eleitores, afirmou, derrubam sistematicamente quem está no poder porque faltam respostas estruturais e ousadas à crise socioeconômica. Ora, se a onda levou de roldão os democratas, tinha tudo para atingir também um presidente progressista em busca do quarto mandato.
Os analistas apontaram vários fatores para a vitória de Lula: a mobilização da sociedade, a presença forte nas redes, o repúdio à volta de Bolsonaro, a relação multimilionária de Flávio com Daniel Vorcaro, a recusa à tutela de Trump, o engajamento dos estudantes em defesa da Educação e da Saúde, o comparecimento de quem se abstivera no primeiro turno…
Tudo isso é verdade. Mas notem: Lula largou na frente, foi alcançado por Flávio e jamais deixou de estar empatado com o filhote do tiranete, ora evadido. De onde vinha a resiliência do presidente? Não se explica por mágica nem por marketing.
Vejam as conquistas, com números. O rendimento médio do trabalho superou R$ 3,7 mil mensais, recorde do levantamento do IBGE. O desemprego caiu a 5,2% no trimestre até setembro, e o mínimo absoluto, 5,1%, veio no fim de 2025. A pobreza recuou de 27,3% para 23,1% da população entre 2023 e 2024, e a extrema pobreza, de 4,4% para 3,5%: os menores índices já medidos.
Em julho, a FAO confirmou que o país segue fora do Mapa da Fome; pela segunda vez, Lula pôs fim a esse mal. Os programas sociais foram retomados. Só que o brasileiro, endividado por múltiplos fatores, inclusive as bets, esperava mais. Segundo o Banco Central, as dívidas consomem 29% da renda das famílias, o endividamento chegou a 50,1% do rendimento anual, e a inadimplência atingiu a marca mais alta da série, com 6%. Quem está de bolso apertado não vota com uma planilha de indicadores na mão.
Parecia que aqui também se cumpriria o que se vê mundo afora, aquele fenômeno apontado por Piketty: o descontentamento com o custo de vida empurrando o eleitor para o outro lado. Mas a mobilização garantiu que a ficha caísse para a maioria, incluindo os que resolveram votar apenas na etapa decisiva: o que se ganhara até ali corria risco.
O pesquisismo infernizou a vida de Lula com a história de que o desagrado com o governo superava a satisfação, quase decretando a derrota. Em 15 de outubro, 10 dias antes do Segundo Turno, o Datafolha registrava 41% de avaliação negativa da gestão contra 35% de positiva, e 50% de rejeição ao trabalho do presidente contra 48% de aprovação.
Esqueceram-se de pôr algo na conta: muitos desaprovavam a administração federal porque queriam mais, não o menos com que Flávio acenava. Ainda que o agora fujão jurasse que nada mudaria no essencial, ficou claro que seu compromisso não era com os mais pobres. Desaprovar a gestão por querer mais é uma coisa; recusá-la para ter menos é outra, e a pesquisa de avaliação não distingue as duas.
Por que esse debate não ocorreu antes, no primeiro turno? Porque a ultradireita e a imprensa deram a impressão de que a eleição se resumia à degola de ministros do Supremo; em 3 de outubro, o bolsonarista concluiu sua pregação eleitoral pedindo um Senado afinado com ele e o impeachment de integrantes da Corte. A campanha só começou no segundo turno. Mas nunca se esqueçam: Lula sempre tangenciou os 50% dos votos, ou pouco mais. Sua reeleição, na contramão do cenário internacional, era uma possibilidade real. E sim: também por causa da economia e dos programas de governo.
Quando avanços importantes ficam sob ameaça, é necessário ajustar o discurso para que se perceba o que se pode perder. E, por óbvio, cabia conectar o adversário com sua biografia. Quem se apresenta como a mudança precisa explicar a quem deve favores e a quem pretende servir.
Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, resumiu a disputa assim: “é a economia, estúpido”. Segue sendo. E a economia caminhou muito melhor sob Lula para todos os setores, e os ricos até ganharam mais: em 2025, segundo o IBGE, a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, a do 1% do topo, 9,9%, e a dos 10% mais pobres, 3,1%. Ficou, porém, uma certeza: os pobres compreenderam que o candidato do PL faria o que queriam os bacanas do mercado, e que o corte seria feito na carne deles.
No dia seguinte à vitória de Lula, o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,403, e a Bolsa despencou 13,88%. Os derrotados do dia 25 — e “Uzmercáduz” estão entre eles — exigem que Lula anuncie que vai passar o facão nos gastos sociais, algo que até Flávio negava que faria. Eis o busílis: eles sabiam que o candidato da extrema direita estava mentindo quando assegurava que manteria intocados os programas sociais e sabem agora que Lula fala a verdade quando diz que vai mantê-los.
Quanta ousadia! Essa parte dos derrotados exige que Lula aplique, contrariando as promessas que fez aos pobres, aquilo que Flávio faria, em atendimento às juras que fez aos ricos. Ocorre que o filho de Bolsonaro perdeu. E fugiu.
A terra não é plana. Nem a realidade. A economia, fator que quase tirou de Lula a reeleição, foi também o que o salvou. Esperem aí: O QUE NOS SALVOU.
Se depender do “consenso dos economistas” cujas opiniões são publicadas, Lula porá em prática o programa secreto de Flávio, sangrará os pobres e depois passará a faixa para Tarcísio de Freitas, que já foi eleito pela segunda vez o “pré-presidente” do Brasil. Que gente aborrecida!
Pois é… É mais difícil resistir a uma obsessão do que à tentação o elevador de nov quando os que esperam há mais tempo do que você já o fizeram. Machadão, aquele, vocês sabem, foi ao ponto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Capítulo IV): “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.
Esqueceram-se de pôr algo na conta: muitos desaprovavam a administração federal porque queriam mais, não o menos com que Flávio acenava. Ainda que o agora fujão jurasse que nada mudaria no essencial, ficou claro que seu compromisso não era com os mais pobres. Desaprovar a gestão por querer mais é uma coisa; recusá-la para ter menos é outra, e a pesquisa de avaliação não distingue as duas.
Por que esse debate não ocorreu antes, no primeiro turno? Porque a ultradireita e a imprensa deram a impressão de que a eleição se resumia à degola de ministros do Supremo; em 3 de outubro, o bolsonarista concluiu sua pregação eleitoral pedindo um Senado afinado com ele e o impeachment de integrantes da Corte. A campanha só começou no segundo turno. Mas nunca se esqueçam: Lula sempre tangenciou os 50% dos votos, ou pouco mais. Sua reeleição, na contramão do cenário internacional, era uma possibilidade real. E sim: também por causa da economia e dos programas de governo.
Quando avanços importantes ficam sob ameaça, é necessário ajustar o discurso para que se perceba o que se pode perder. E, por óbvio, cabia conectar o adversário com sua biografia. Quem se apresenta como a mudança precisa explicar a quem deve favores e a quem pretende servir.
Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, resumiu a disputa assim: “é a economia, estúpido”. Segue sendo. E a economia caminhou muito melhor sob Lula para todos os setores, e os ricos até ganharam mais: em 2025, segundo o IBGE, a renda dos 10% mais ricos cresceu 8,7%, a do 1% do topo, 9,9%, e a dos 10% mais pobres, 3,1%. Ficou, porém, uma certeza: os pobres compreenderam que o candidato do PL faria o que queriam os bacanas do mercado, e que o corte seria feito na carne deles.
No dia seguinte à vitória de Lula, o dólar disparou 8,21%, a R$ 5,403, e a Bolsa despencou 13,88%. Os derrotados do dia 25 — e “Uzmercáduz” estão entre eles — exigem que Lula anuncie que vai passar o facão nos gastos sociais, algo que até Flávio negava que faria. Eis o busílis: eles sabiam que o candidato da extrema direita estava mentindo quando assegurava que manteria intocados os programas sociais e sabem agora que Lula fala a verdade quando diz que vai mantê-los.
Quanta ousadia! Essa parte dos derrotados exige que Lula aplique, contrariando as promessas que fez aos pobres, aquilo que Flávio faria, em atendimento às juras que fez aos ricos. Ocorre que o filho de Bolsonaro perdeu. E fugiu.
A terra não é plana. Nem a realidade. A economia, fator que quase tirou de Lula a reeleição, foi também o que o salvou. Esperem aí: O QUE NOS SALVOU.
Se depender do “consenso dos economistas” cujas opiniões são publicadas, Lula porá em prática o programa secreto de Flávio, sangrará os pobres e depois passará a faixa para Tarcísio de Freitas, que já foi eleito pela segunda vez o “pré-presidente” do Brasil. Que gente aborrecida!
Pois é… É mais difícil resistir a uma obsessão do que à tentação o elevador de nov quando os que esperam há mais tempo do que você já o fizeram. Machadão, aquele, vocês sabem, foi ao ponto em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Capítulo IV): “Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”.
Reinaldo Azevedo
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Quanta gente escrevendo e falando nestes dias tinha e ainda tem um argueiro no olho e uma trave nas mãos! Aos obsedados — trata-se quase de uma possessão do espírito — pela “terceira via” e pela destruição do PT, uma sugestão de terapia: resistir à tentação de estourar as bolotas do plástico-bolha, de lamber o alumínio da embalagem de iogurte quando ninguém está olhando e de separar as duas partes do biscoito Oreo para desfrutar de modo quase lúbrico do recheio. Vai que funcione…
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Quanta gente escrevendo e falando nestes dias tinha e ainda tem um argueiro no olho e uma trave nas mãos! Aos obsedados — trata-se quase de uma possessão do espírito — pela “terceira via” e pela destruição do PT, uma sugestão de terapia: resistir à tentação de estourar as bolotas do plástico-bolha, de lamber o alumínio da embalagem de iogurte quando ninguém está olhando e de separar as duas partes do biscoito Oreo para desfrutar de modo quase lúbrico do recheio. Vai que funcione…
Comandante Janones
A receita do mágico André Janones para vencer as eleições brasileiras é uma massa de “soldados digitais” prontos para executar, de forma imediata e coordenada, as ordens recebidas via Telegram e WhatsApp. Seus dois mandamentos são: amplificar as postagens do seu próprio lado e jamais interagir com as do adversário, nem mesmo para corrigir a desinformação. “Repreenda severamente os soldados que se comportarem dessa maneira”, diz seu Mini-Manual de Insurgência Informacional, disponível online em diversos idiomas. “As missões devem ser claras para que a militância seja gamificada e fácil de executar.”
Janones pede aos participantes, “especialmente se forem de esquerda ou progressistas”, que suspendam momentaneamente sua “consciência crítica”, mesmo que discordem de seus critérios estéticos ou intelectuais, porque eles não são mais “o sujeito autônomo do Iluminismo, mas um nó de amplificação em uma rede de comunicação coordenada que busca hegemonia online”. Todas as hashtags , memes e vídeos gerados por IA são coordenados pelo comando central e distribuídos de forma sincronizada para criar um efeito de amplificação. “É necessário inundar as redes com materiais políticos em imagens ou vídeos com toda a estética possível”, incluindo a da IA. Steve Bannon chama isso de inundar a zona.
Janones colocou as táticas de mobilização digital da extrema-direita a serviço da esquerda. “Ele é o nosso Luthen Rael”, disse um usuário do Reddit, referindo-se ao revolucionário que usa os métodos obscuros do inimigo em Andor , a mais recente série de Star Wars . Os métodos funcionam. O janonismo conseguiu angariar 11 milhões de novos votos em três semanas, apesar dos “erros técnicos” da Meta que sempre favoreceram a oposição . Sua estratégia salvou a pele política de Lula e o Brasil de um destino pior, mas ele não conseguirá se integrar ao governo sem transformá-lo. “Vou falar com vocês através do Exército Janones”, disse Lula na euforia da vitória. “Agora o velho estará aqui com o celular na mão, dando ordens diretas.” Esperemos que seja uma piada. As armas do império nunca servirão para desmantelar o Império. Elas sempre acabam destruindo o que queremos proteger.
Existe outro caminho para a vitória: o que o movimento estudantil sérvio trilhou durante dois anos, formando seu próprio partido e vencendo as eleições com maioria absoluta no mesmo dia que o Brasil. Foi uma longa jornada de marchas e conversas com pessoas fora das cidades, incluindo comunidades rurais onde nem o algoritmo nem os partidos jamais haviam chegado. Envolveu aprender a bloquear infraestruturas de forma organizada, com guardas, comida, assistência médica e cozinhas em suas próprias universidades, antes de intensificar os protestos nas principais vias de Belgrado . Envolveu também aprender a se proteger da intimidação, das agressões e dos maus-tratos por parte de policiais fardados e à paisana, documentados pela Anistia Internacional e pela Human Rights Watch.
Eles escolheram um caminho fora dos partidos tradicionais, sem ajuda ou aconselhamento de instituições dentro e fora da Sérvia, incluindo a Europa, a China, a Rússia e os EUA. Criaram seu partido por meio de uma votação na assembleia, uma lista de 111 mulheres e 139 homens, acadêmicos e profissionais dos três setores mais negligenciados na Sérvia: informática, saúde e educação. Não teriam conseguido 11 milhões de votos em três semanas, mas foram capazes de derrubar o regime sem depender das redes sociais, mesmo quando nenhum outro veículo de comunicação lhes dava atenção.
Janones pede aos participantes, “especialmente se forem de esquerda ou progressistas”, que suspendam momentaneamente sua “consciência crítica”, mesmo que discordem de seus critérios estéticos ou intelectuais, porque eles não são mais “o sujeito autônomo do Iluminismo, mas um nó de amplificação em uma rede de comunicação coordenada que busca hegemonia online”. Todas as hashtags , memes e vídeos gerados por IA são coordenados pelo comando central e distribuídos de forma sincronizada para criar um efeito de amplificação. “É necessário inundar as redes com materiais políticos em imagens ou vídeos com toda a estética possível”, incluindo a da IA. Steve Bannon chama isso de inundar a zona.
Janones colocou as táticas de mobilização digital da extrema-direita a serviço da esquerda. “Ele é o nosso Luthen Rael”, disse um usuário do Reddit, referindo-se ao revolucionário que usa os métodos obscuros do inimigo em Andor , a mais recente série de Star Wars . Os métodos funcionam. O janonismo conseguiu angariar 11 milhões de novos votos em três semanas, apesar dos “erros técnicos” da Meta que sempre favoreceram a oposição . Sua estratégia salvou a pele política de Lula e o Brasil de um destino pior, mas ele não conseguirá se integrar ao governo sem transformá-lo. “Vou falar com vocês através do Exército Janones”, disse Lula na euforia da vitória. “Agora o velho estará aqui com o celular na mão, dando ordens diretas.” Esperemos que seja uma piada. As armas do império nunca servirão para desmantelar o Império. Elas sempre acabam destruindo o que queremos proteger.
Existe outro caminho para a vitória: o que o movimento estudantil sérvio trilhou durante dois anos, formando seu próprio partido e vencendo as eleições com maioria absoluta no mesmo dia que o Brasil. Foi uma longa jornada de marchas e conversas com pessoas fora das cidades, incluindo comunidades rurais onde nem o algoritmo nem os partidos jamais haviam chegado. Envolveu aprender a bloquear infraestruturas de forma organizada, com guardas, comida, assistência médica e cozinhas em suas próprias universidades, antes de intensificar os protestos nas principais vias de Belgrado . Envolveu também aprender a se proteger da intimidação, das agressões e dos maus-tratos por parte de policiais fardados e à paisana, documentados pela Anistia Internacional e pela Human Rights Watch.
Eles escolheram um caminho fora dos partidos tradicionais, sem ajuda ou aconselhamento de instituições dentro e fora da Sérvia, incluindo a Europa, a China, a Rússia e os EUA. Criaram seu partido por meio de uma votação na assembleia, uma lista de 111 mulheres e 139 homens, acadêmicos e profissionais dos três setores mais negligenciados na Sérvia: informática, saúde e educação. Não teriam conseguido 11 milhões de votos em três semanas, mas foram capazes de derrubar o regime sem depender das redes sociais, mesmo quando nenhum outro veículo de comunicação lhes dava atenção.
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