terça-feira, 3 de novembro de 2026

O espelho da autocracia: o crepúsculo de Trump e o rastro dos Bolsonaro

As portas da Argentina governada por Javier Milei, “El Loco”, estão abertas para Donald Trump caso ele queira abandonar o cargo de presidente dos Estados Unidos e fugir para outro país. Mas fuga é coisa para os Bolsonaro, pai e filhos. Ou para líderes de regimes autoritários que temem ser justiçados pelo seu próprio povo depois de anos ou décadas de arbítrio e de má governança.

A confirmar-se, hoje ou nos próximos dias, o que os americanos chamam de “onda azul” — a recuperação pelo Partido Democrata da maioria da Câmara dos Deputados e do Senado —, o mais provável é que Trump não reconheça os resultados das eleições, alegando que elas foram fraudadas. Quando derrotado pelo democrata Joe Biden em 2020, foi o que ele fez.


Trump tem vocação de ditador, assim como Jair, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. A vocação de Flávio, o falso Bolsonaro “moderado e vacinado”, é a de acumulador de dinheiro e frequentador de festinhas íntimas patrocinadas por quem queira agradá-lo e, por tabela, à sua família.

Nos Estados Unidos, um candidato condenado pode concorrer à Presidência. Aqui, não. Flávio foi o primeiro candidato da história do Brasil, investigado por crimes, que disputou o mais alto cargo público deste país. Depois de ter vencido o primeiro turno, comportou-se como se tivesse sido eleito. Dedicou-se à montagem prévia do seu futuro governo, mas subestimou a formação da “onda vermelha”, imaginando que ela não seria tão gigantesca como parecia. Ao se dar conta, já era tarde.

Esse risco, Trump não corre. Ninguém melhor do que ele sabe o que se avizinha. É pouco provável que os resultados completos da votação nos 50 estados americanos sejam conhecidos até a virada de terça para quarta-feira. Especialistas afirmam que, por diferentes motivos, pode levar dias ou até semanas para que os resultados sejam definidos em estados como Maine, Alasca, Arizona e Califórnia.

Parte dos atrasos está relacionada ao enorme número de eleitores, enquanto outros decorrem de desafios geográficos ou de regras específicas de cada estado sobre quando as cédulas enviadas pelo correio podem ser recebidas e contabilizadas. Maine e Alasca, por exemplo, utilizam um sistema de votação por escolha ranqueada, com uma segunda rodada de apuração, e as urnas não são eletrônicas.

Enfim, Trump terá muito tempo pela frente para prestar contas aos que ainda o apoiam, distribuir acusações sem provas e prometer reagir à altura de sua infelicidade. De resto, e se os institutos de pesquisa falharem em suas previsões como os daqui falharam ao apostar na vitória de Flávio? E se, ao fim e ao cabo, a “onda azul” democrata não for tão azul como se anuncia?

Segue de pé a oferta feita por Trump de uma recompensa de US$ 1 milhão por informações que levem a uma condenação por fraude eleitoral. Em resposta às alegações infundadas dele sobre problemas na votação e à sua campanha para exercer maior controle federal sobre as eleições estaduais, as autoridades se prepararam para possíveis cenários catastróficos em que o governo federal tente intervir no processo eleitoral.

A Primavera brasileira

Em Brasília, a seca costuma terminar com os ipês. Depois de meses, árvores que pareciam mortas se cobrem de amarelo, roxo e rosa quase de uma hora para outra, como se a Primavera no cerrado não soubesse chegar devagar.

Algo parecido aconteceu em 25 de outubro. Lula havia terminado o primeiro turno atrás, com 45,16% dos votos válidos contra 47,03% de Flávio Bolsonaro, e três semanas depois saiu das urnas com 51,79%. Desde a criação do segundo turno, em 1989, nenhum candidato à Presidência tinha conseguido virar uma eleição. Enquanto o processo eleitoral avançava, um gesto simples, o polegar e o indicador formando um L, se espalhava pelas ruas, pelas janelas dos ônibus e pelas fotos de perfil.


A comparação com a Primavera Árabe aparece de forma espontânea, mas pede cuidado. Em 2011, tunisianos e egípcios ocuparam as ruas para derrubar ditaduras, enquanto no Brasil a sociedade recorreu às próprias regras da democracia para protegê-la, sem ruptura, nas ruas e pelo voto. 

A cientista política Marina Lacerda, uma das autoras de Cartografia da extrema direita, ajuda a entender o que estava em jogo. Ela mostra que a extrema direita brasileira cresceu ao combinar um conservadorismo moral, centrado na família e na religião, com o liberalismo econômico, e que esse projeto se alimenta das crises da democracia e do esgotamento das promessas neoliberais, amplificados pelas plataformas digitais. Enfrentá-lo exige compreendê-lo, sem atalhos nem simplificações. A Primavera brasileira nasceu desse enfrentamento, como uma primavera de defesa, a partir de uma necessidade real e legítima de uma população que viu a extrema direita avançar sobre direitos, sobre instituições e sobre a convivência entre brasileiros.

O nome, aliás, já tinha sido usado em junho de 2013. Aquela energia era genuína, mas difusa e sem canal, e acabou disputada por agendas que pouco tinham a ver com sua origem. Desta vez a mobilização encontrou um caminho.

Parte desse caminho explodiu pelo celular. Numa live com o deputado André Janones, Lula chamou seus apoiadores de exército, um exército que constrói e não destrói. O canal Exército do Lula, criado por Janones no WhatsApp, passou dos 10 milhões de participantes e se tornou o segundo maior do aplicativo no país. Era um exército sem farda e sem fuzil, cujos soldados trabalharam com hashtags e conversa de porta em porta, nas redes sociais e mensagens estratégicas no grupo da família.

A batalha também teve frentes fora do país. Houve quem acompanhasse de longe e apostasse alto no resultado, com apoio declarado, promessas, recursos e atenção voltada para as riquezas do país. Houve ainda os algoritmos, que nunca são neutros e decidem em silêncio quem será ouvido, num ambiente em que as grandes empresas de tecnologia lucram com o engajamento que o ódio produz. Mesmo assim, o resultado foi diverso.

O gesto ajudou. Movimentos deste tempo se espalham menos por estruturas formais e mais por símbolos simples, que cada pessoa reproduz a seu modo, e o L não custa nada, não pede filiação nem cartaz. Basta levantar a mão para fazer parte. A ideia já atravessa fronteiras e começa a ser levada a outros países onde o avanço da extrema direita é uma ameaça concreta.

Levantaram essa mão, sobretudo, aqueles que mais perdem quando a democracia se desgasta. Mulheres negras, que sustentam tantas famílias brasileiras, idosos que dependem da aposentadoria e do SUS, povos indígenas e comunidades tradicionais, que defendem seus territórios e sua sobrevivência, a população LGBTQIA+, que ainda luta pelo direito de existir em paz e a juventude que expõe sua energia e seus ideais. A primavera depende dessas pessoas e precisa falar com elas.

A Primavera Árabe deixou uma lição dura. Quase todas as revoluções de 2011 terminaram em inverno, e mesmo a Tunísia, que chegou a fazer a transição, não conseguiu sustentá-la. Primaveras se apagam quando a energia das ruas volta para casa e a política volta a ser assunto de poucos, e duram quando se convertem em participação social, com conselhos que funcionam, escuta da sociedade civil, direitos que saem do papel e um governo que presta contas e governa, inclusive para quem votou contra.