segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


Mercado fez bet em Flávio, perdeu e vai cobrar a conta do governo

O governo que acorda nesta segunda-feira (26/10) não mudou desde sexta. Nenhuma medida foi anunciada, nenhum ministro deixou o cargo e nenhum indicador piorou no fim de semana. A diferença entre os dois dias está no resultado de uma bet que boa parte do mercado financeiro fez na eleição presidencial.

Durante semanas, grandes investidores se posicionaram para a vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Lula (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%, e a fatura apareceu antes mesmo da abertura da B3. Na noite de domingo, o EWZ, fundo de ações brasileiras negociado em Nova York, chegou a cair 18,29% no pregão noturno. Em Chicago, o real recuou mais de 11% no mercado futuro, com dólar implícito perto de R$ 5,50. Como o EWZ é cotado em dólar, a queda dele soma o tombo das ações e o da moeda.


O próprio mercado batizou o movimento de trade eleitoral, nome dado às estratégias de curto prazo montadas em cima do cenário político. Ele ganhou força em setembro, quando as pesquisas passaram a mostrar empate técnico, e deixou rastro nos números. Os contratos de opção que ganham com o Ibovespa a 200 mil pontos depois do segundo turno aumentaram em 4,5 milhões num único dia e chegaram a 5,6 milhões em aberto. Naquele momento, o índice ainda rondava os 175 mil. Segundo a B3, o volume médio diário das opções semanais mais que dobrou, de R$ 50 milhões em 2025 para R$ 106 milhões neste ano.

Quem operava não escondia a natureza do jogo. Ao comentar a entrada de estrangeiros de olho numa troca de governo, o chefe da corretora de um banco estrangeiro no Brasil admitiu publicamente que se tratava de uma aposta.

Flávio terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, à frente de Lula, com 47,03% contra 45,16%. No pregão seguinte, o Ibovespa disparou 7,70% e passou pela primeira vez dos 200 mil pontos, enquanto o dólar caiu 4,12%. Os estrangeiros colocaram R$ 10 bilhões na bolsa naquele dia, o maior aporte diário desde o início da série, em 2012. J.P. Morgan e Morgan Stanley elevaram a recomendação para o Brasil, o Citi aumentou sua exposição e o Morgan Stanley chegou a projetar o Ibovespa em 250 mil pontos. Ao mesmo tempo, investidores desmontaram as proteções em dólar e reforçaram as apostas na alta depois do segundo turno.

Entre os dois turnos, o Ibovespa subiu 6,9% e bateu recorde de 209 mil pontos, e o dólar caiu 4,4%, para R$ 4,98. Tudo isso com as pesquisas apontando uma disputa de cara ou coroa. O último Datafolha mostrava empate em 50% dos votos válidos. Mesmo assim, boa parte do dinheiro foi para um lado só.

A bet tinha como premissa que Flávio faria um ajuste fiscal. O candidato, porém, passou a reta final prometendo gastar. No debate da Globo, na sexta-feira (23), declarou apoio à tarifa zero nos ônibus aos fins de semana, bandeira lançada por Lula e que ele próprio havia ironizado oito dias antes. Não disse de onde sairia o dinheiro. A NTU, que reúne as empresas de ônibus, estima o custo de uma tarifa zero nacional aos sábados, domingos e feriados em R$ 20,8 bilhões por ano. Flávio também prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação, inclusive os benefícios rurais. Auxiliares da campanha, porém, tinham discutido limitar esses reajustes à inflação.

A lista seguia com outros compromissos. Flávio garantiu o piso de R$ 600 do Bolsa Família e uma transição para quem conseguisse emprego formal. Prometeu ainda um voucher para creches privadas, sem valor definido, e o Vira Pix, que devolveria a todos os brasileiros parte do que pagam via Pix em contas de luz, prestações e taxas. A campanha não informou percentual nem custo do Vira Pix, que nem constava do plano de governo registrado no TSE. Havia também a retomada do Perse, programa de socorro ao setor de eventos, a promessa de comprar dívidas de endividados e o pedágio zero para motociclistas nas rodovias concedidas.

Flávio falava em cortes amplos de gastos sem dizer onde, enquanto propunha pensões maiores, isenções tributárias e reembolsos ao consumidor. Na reta final, os dois candidatos defendiam as mesmas bandeiras caras, mas só um deles virou bet na bolsa.

Com a reeleição confirmada, a conta chegou. Operadores preveem circuit breaker logo na abertura, com queda acima de 10% do Ibovespa, e estouro dos limites de oscilação no dólar e nos juros futuros.

Ninguém foi pego de surpresa. Numa pesquisa do Citi, 79,5% dos investidores esperavam queda de mais de 5% do Ibovespa em caso de vitória de Lula. As casas de análise chamavam a segunda-feira de binária, com rali para um resultado e devolução para o outro. O mercado sabia que estava escolhendo um lado.

O que muda de sexta para segunda é o preço de posições que só faziam sentido com outro presidente. Operadores ligam o risco de circuit breaker à alavancagem montada na própria sexta, quando o dólar caiu e a bolsa subiu na véspera da votação. Quem estava comprado em Flávio precisa sair ao mesmo tempo e pela mesma porta, e é isso que amplia a queda.

Parte do movimento é apenas volta ao ponto de partida. Em 2 de outubro, antes do primeiro turno, o Ibovespa estava em 192 mil pontos e o dólar em R$ 5,22. Citi e Goldman Sachs já previam a reversão do rali se Lula fosse reeleito. Os preços no exterior vão além disso, como costuma acontecer quando apostas alavancadas são desfeitas às pressas. A perda existe, mas é de quem fez a bet.

Vinicius, o Brasil é raro demais para tanto ódio

Vinicius, nesta sexta-feira de outubro, voltei ao seu poema “Pátria minha”. Li devagar, como quem abre uma carta recebida há muito tempo e encontra nela alguma coisa que ainda precisa ser respondida. Você estava em Los Angeles, distante do Brasil, olhando o filho adormecido. Na respiração daquela criança, descobriu uma imagem da pátria. Imagino a solidão daquele quarto, a saudade do Rio de Janeiro e você, homem feito, chorando por um país.

Sempre me comoveu sua maneira de amar o Brasil. Enquanto outros o celebravam com palavras grandiosas, você desejava acariciar-lhe os cabelos, beijar-lhe os olhos, niná-lo como uma filha pequena. Sua pátria tinha corpo, sentimentos, necessidades. E aquela pobreza que nos acostumamos a traduzir em estatísticas aparecia em três versos de uma delicadeza quase insuportável:

“De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!”


Preciso lhe contar uma lembrança, poeta. Dessas que os anos preservam com tamanha nitidez que parecem ter acontecido ontem.

Era quarta-feira, 9 de julho de 1980. Eu dirigia um departamento do Banco do Nordeste, na Rua do Rosário, no centro do Rio de Janeiro. A Rádio JB anunciou sua morte. A notícia percorreu as mesas, interrompeu conversas, alcançou os corredores. Recordo a tristeza nos rostos, o silêncio inesperado, aquela sensação de perda que nos aproxima mesmo quando mal nos conhecemos.

Naquele dia, o banco pareceu fechar para balanço. Um balanço diferente de todos os outros. Contas, saldos, títulos, aplicações e relatórios perderam a importância habitual. Era um balanço emocional. Nenhum número conseguiria expressar o que sentíamos. Nenhuma rubrica permitiria registrar o tamanho daquela ausência. A morte de um poeta havia conseguido suspender, por algumas horas, a rigorosa disciplina de uma instituição financeira.

Na manhã seguinte, mais da metade dos meus colegas apareceu vestida de preto, num luto ostensivo. Outros prenderam à roupa, com pequenos alfinetes, pedaços de pano negro. Vivíamos ainda sob a ditadura militar. Aqueles sinais de pesar, discretos em alguns, eloquentes em tantos outros, constituíam uma homenagem que nenhum cerimonial poderia reproduzir. Ali estavam funcionários, chefes, auxiliares, pessoas habituadas a conversar sobre juros e negócios, reunidas pela tristeza de perder alguém que lhes ensinara a amar através das palavras.

Esqueci centenas de documentos que passaram por minhas mãos. Mas nunca esqueci aqueles retalhos pretos. Hoje compreendo melhor o que testemunhei. Havia entre nós uma espécie de fraternidade nascida da admiração, uma consciência compartilhada de que perder um poeta significava perder também uma maneira singular de compreender a vida.

Pois bem, Vinicius. Preciso atualizar suas notícias do Brasil.


A menina cresceu. Aprendeu a fabricar aviões, transplantar corações, produzir ciência respeitada internacionalmente e desenvolver tecnologias que você dificilmente conseguiria imaginar. Somos uma das dez maiores economias do planeta, com a oitava posição projetada para 2027. Entretanto, continuamos convivendo com crianças famintas, mulheres agredidas, trabalhadores humilhados e famílias que precisam escolher quais necessidades poderão atender com o dinheiro disponível.

Há uma perversidade nessa convivência entre abundância e privação. A riqueza nacional avança pelos gráficos enquanto milhões de brasileiros ainda aguardam sua parte nas promessas de prosperidade. Como jornalista, conheço a linguagem dos relatórios econômicos. Sei quanto uma porcentagem pode esclarecer. Sei também quanto sofrimento humano consegue esconder.

E há uma coisa que gostaria de lhe dizer com especial orgulho. O Brasil é cobiçado por ser raro, Vinicius, e não apenas por possuir terras raras. Há minerais estratégicos no subsolo, rios imensos, florestas preciosas e riquezas naturais disputadas por interesses poderosos. Mas nosso maior patrimônio inclui a diversidade dos povos, a sabedoria indígena, a herança africana, a música, a literatura e a criatividade de uma população que conseguiu construir uma cultura extraordinária.

Somos um país de singularidades que nenhum inventário mineral conseguiria descrever. Talvez por isso me cause tanta indignação perceber quantas vezes nossas riquezas despertam mais atenção que nossos habitantes. Disputam nossas reservas naturais, nossos mercados, nossa capacidade de produzir alimentos e energia. Entretanto, o valor de uma criança brasileira continua sendo frequentemente esquecido nos cálculos daqueles que decidem sobre o futuro.

Você também encontraria um mundo estranho, poeta.Agora temos redes sociais. Milhões de pessoas podem conversar simultaneamente, publicar opiniões, compartilhar conhecimentos, atravessar fronteiras sem sair de casa. Parecia uma oportunidade extraordinária de democratizar a palavra. Mas parte desse território foi sequestrada por uma epidemia de estupidez, intolerância e violência.

Ali prosperam manifestações de inspiração fascista, ataques misóginos, ameaças e humilhações públicas. A mentira circula com impressionante velocidade. A crueldade encontra seguidores. Há quem confunda agressividade com inteligência e preconceito com liberdade. Mulheres são perseguidas por manifestar opiniões, jornalistas recebem ameaças, pessoas comuns tornam-se alvos de campanhas de difamação.

Imagino você diante dessas telas, tentando compreender por que tantos seres humanos passaram a sentir prazer em ferir desconhecidos. Você, que conheceu as contradições do amor, as fragilidades humanas e a beleza das imperfeições, encontraria uma época em que a delicadeza frequentemente precisa defender-se da brutalidade.

Não quero, contudo, entregar-lhe apenas notícias tristes.

A alegria brasileira continua vivendo nas canções, nas festas populares, nos encontros familiares, nas crianças que inventam brincadeiras em qualquer pedaço de chão. Conheço professores que compram livros para seus alunos, vizinhos que dividem o almoço, mulheres que sustentam famílias inteiras trabalhando até a exaustão. Mas aprendi a desconfiar de quem transforma a resistência dos pobres numa virtude nacional. Ninguém deveria precisar demonstrar heroísmo diariamente para exercer direitos elementares.

Tenho netas, Vinicius: Cecília, Lua, Nina, Jade, Clarissa, Eva.

Conheço a emoção de sentir a mão pequena de uma criança procurando a minha. Aprendi que uma pergunta infantil pode ser mais exigente que muitos tratados de filosofia. Talvez por isso me doa tanto pensar nas meninas brasileiras que crescem aprendendo a distinguir o que lhes é permitido sonhar daquilo que suas condições de vida lhes oferecem.

E agora chegamos à notícia que mais gostaria de lhe contar. Aquela menina que você encontrou descalça tornou-se avó. Tem 77 anos.

Imagine-a, poeta. Os cabelos embranqueceram. O rosto conserva as marcas de alegrias e sofrimentos. Os pés guardam cicatrizes de uma caminhada difícil. Ela conheceu o medo da repressão, assistiu ao retorno da democracia, viu nascer novas gerações e descobriu que algumas conquistas exigem vigilância permanente. Carrega fotografias antigas, lembranças de pessoas queridas e a saudade particular de quem já viveu o bastante para compreender a fragilidade das coisas.

Pois neste domingo, 25 de outubro, imagino essa menina-avó caminhando em direção às urnas, trazendo pela mão seis netas, com idades entre 16 e 25 anos.

Gostaria que você pudesse vê-las.

São jovens que nasceram cercadas de tecnologias, cresceram ouvindo discussões sobre direitos humanos, mudanças climáticas, democracia e inteligência artificial. Possuem ideias próprias, fazem perguntas difíceis, discordam umas das outras. Conhecem um mundo que seria quase irreconhecível para sua geração. Mas continuam desejando aquilo que sempre moveu os seres humanos: liberdade, segurança, respeito, oportunidades e o direito de construir a própria felicidade.

A avó caminha devagar. Uma das moças lhe oferece o braço. Outra pergunta se trouxe o documento. A mais jovem se adianta para verificar onde fica a seção eleitoral. Gosto de imaginar esses pequenos gestos. Há neles uma ternura que dispensa discursos. E uma continuidade entre gerações que me comove particularmente.

Dentro da cabine, cada uma escreverá uma nova estrofe do seu belo poema. Serão versos diferentes, nascidos de consciências livres. Não precisam rimar entre si. A democracia permite que pessoas que se amam discordem profundamente sobre o futuro. E talvez uma de suas maiores exigências seja justamente aprender a preservar o afeto sem exigir a renúncia às convicções.

A velha menina conhece o preço dessa liberdade. Sabe o que significa viver numa sociedade em que o medo alcança as palavras, as reuniões, os livros e até as conversas familiares. Suas netas receberam uma herança que precisam compreender para poder preservar. Nenhuma delas deveria conhecer a experiência de ter os próprios pensamentos submetidos à autorização dos poderosos.

Queria conversar com você sobre isso, Vinicius. Sobre a responsabilidade de transmitir às novas gerações alguma coisa além de nossas decepções. Sobre a necessidade de ensinar-lhes que a dignidade humana vale mais que qualquer vitória circunstancial. E sobre o perigo de permitir que o ódio se torne uma linguagem habitual entre pessoas que continuarão vivendo no mesmo país depois das eleições.

Fico imaginando o instante em que a avó terminará de votar. Retirará os óculos, guardará o documento e procurará as netas. Por alguns segundos, talvez recorde outras eleições, antigas esperanças, rostos que desapareceram de sua vida. Depois seguirá em direção à porta, onde as moças estarão esperando.

Gostaria que você estivesse ali, sob a claridade de uma tarde brasileira, para reconhecer a criança dos seus versos naquela mulher envelhecida.

Eu me aproximaria discretamente. Contaria que estava no Banco do Nordeste no dia de sua morte, que nunca esqueci os colegas vestidos de preto, que sua poesia continuou me acompanhando durante décadas. Talvez conversássemos sobre nossas famílias, sobre o Rio de Janeiro, sobre essa estranha capacidade que temos de amar profundamente um país que tantas vezes nos entristece.

Então as sete mulheres seguiriam pela calçada. Uma delas contaria alguma coisa engraçada. A avó sorriria. Outra lhe seguraria a mão. Você observaria aquela pequena família afastar-se e compreenderia que sua menina havia atravessado o tempo conservando alguma coisa da infância.

Lembro que você desejava beijar os pés da pátria. Penso nos pés cansados daquela avó, nas longas distâncias que percorreu, nas feridas que ninguém tratou. E penso nas netas, que agora podem ajudá-la a caminhar.

Vinicius, naquele julho distante, nós vestimos preto porque havíamos perdido um poeta. Neste outubro, desejo que as novas gerações encontrem razões para vestir o Brasil com as cores da esperança, sem esquecer as injustiças que ainda precisam enfrentar.

E se você me perguntasse o que mais desejo para nossa menina, responderia sem hesitar: que um dia possa envelhecer sem assistir à fome de seus filhos, à humilhação de suas mulheres e ao desperdício do futuro de suas crianças.

Porque, poeta, a menina do seu poema já envelheceu. O que ainda nos falta é crescer à altura dela.

' Lulinha não vai querer outro mandato, mas vou terminar esse mandato inteiraço'

Feliz o presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade que eu tenho no [Geraldo] Alckmin [PSB]. A primeira coisa é que hoje a minha fala para a imprensa é agradecimento. Nós tivemos o menor número de abstenções da história desse país. Nós tivemos o menor número de votos nulos deste país.

E eu tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a nossa campanha, aos partidos que participaram junto conosco, mas eu queria agradecer ao povo brasileiro, a generosidade que eles têm comigo há muito tempo. E nesse segundo turno, agradecer a generosidade da juventude brasileira que foi para a rua, foi para rua para defender a democracia.

Quero agradecer às pessoas idosas. Eu vi cenas hoje de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para ir votar, pessoas impossibilitadas de se locomover, pessoas com câncer e com outros tipos de doença. E as pessoas foram votar porque nós conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar a democracia no país. Quero agradecer à sociedade como um todo.

Essa eleição foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência de que um crime no mundo digital tem que ser tratado igual a um crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas de grande, ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país.

Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, foi uma derrota da mentira. E eu confesso a vocês que cada vez que eu ia em um debate eu ficava constrangido, porque eu já debati com muita gente, já participei de muitas eleições, me reúno todo ano com G20, com os Brics, com G7, me reúno todo ano com os principais presidentes do mundo discutindo os principais assuntos do mundo, mas eu nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do milicianismo desse país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez. Como se não tivesse dentro dele uma célula de humanismo. Parece tudo falso.

Eu estou dizendo isso porque vocês sabem que o que eu vi nesse segundo turno dessas eleições, o que eu vi em todos os estados brasileiros, mas sobretudo o que eu vi na avenida Paulista ontem, é algo que eu não acredito –que o Alckmin, que foi governador, que participou da campanha das Diretas–, a gente nunca conseguiu ver, não só pela quantidade de gente, mas pelo entusiasmo.

E eu fiquei muito emocionado porque me deu vontade de pedir na frente do Masp (Museu de Arte de São Paulo), pra cantar o Hino da Independência. E eu fiquei boquiaberto de ver o entusiasmo das pessoas cantando o Hino da Independência, sobretudo quando falava “brava gente brasileira, ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”, numa demonstração de que esse país não aceita ser quintal de ninguém.

Como disse uma vez o meu cantor preferido, Chico Buarque de Hollanda, ele gostava do nosso governo porque o nosso governo não falava grosso com a Bolívia e não falava fino com os Estados Unidos. A gente falava igual com todo mundo.

Eu quero agradecer a esse companheiro aqui, o [André] Janones, [deputado federal por Minas Gerais], nosso general que teve um papel exponencial nessa campanha para levantar diariamente, de manhã, de tarde e de noite, a moral da nossa tropa. Não vou falar aqui para vocês, mas essas eleições me ensinou (sic) muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país. Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais nas nossas decisões.

E quero dizer para vocês que a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo. Eu inclusive já ganhei um celular do meu comandante Rafael [Fonteles], governador do Piauí. Já estou aprendendo a conversar com meu general e pode ficar certo que daqui pra frente eu vou conversar muito com o povo brasileiro, muitas vezes por dia, diretamente. Não vou ficar permitindo ser interpretado por jornalista com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço.

Nessas eleições, eu quero que vocês saibam que uma das coisas que mais me motivou é a gente não permitir que essa gente ganhasse para privatizar o nosso SUS [Sistema Único de Saúde].

Mais uma vez quero dizer para vocês que na medida que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões, tenho que governar para todas as idades. Mas no próximo mandato eu vou levar muito a sério a política de cuidado com os nossos velhinhos, que são responsáveis pela nossa existência. Quero dizer para vocês que as mulheres serão tratadas com muito mais respeito pelas políticas públicas brasileiras.

Quero dizer para vocês que as religiões serão todas respeitadas em igualdade de condição. Eu não tenho preferência por nenhuma religião. Eu tenho preferência pelo respeito à fé do povo brasileiro. E que eles exerçam a sua fé e a sua espiritualidade do jeito que eles quiserem. Ao Estado laico cabe garantir a liberdade religiosa plena para que as pessoas possam exercitar a sua fé com plenitude.

Quero dizer para vocês que eu vou continuar fazendo a revolução na educação brasileira. Nós iremos universalizar escola de tempo integral nesse país até o ensino médio. Nós vamos universalizar o Pé-de-Meia para o ensino médio e vamos criar o Pé-de-Meia universitário para que nenhum jovem, nenhuma menina desistam de estudar porque tem que trabalhar.

Iremos ensinar mais matemática, mais engenharia, porque eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, eu quero criar uma brasileira.

Nós temos que aproveitar o potencial energético de um país que talvez seja o que tenha mais capacidade de energia renovável para trazer para cá os data centers necessário para acumular também o nosso dado para o Brasil. E essa gente vai ter que deixar uma parte do data center para informações brasileiras.

Nós queremos fazer desse país um país que pare de ser um país em vias de desenvolvimento e se transforme num país desenvolvido. Como diria o Rafael [Fonteles], muito investimento na economia digital, na economia verde e na economia criativa.

Este país vai ser construído não por mim, porque muitas das coisas que eu estou falando aqui eu nem sei, é por vocês. Porque nós vamos exercitar o potencial criativo desse povo a deixar de ser um país periférico. Nós queremos ser um país central nas decisões políticas, econômicas e nas decisões pela paz.


E nós vamos ensinar ao mundo como é que se trata as políticas climáticas nesse país. E esse ano é a primeira vez que a gente consegue reduzir o desmatamento quatro anos consecutivos nesse país. Por isso eu quero agradecer a nossa companheira Marina [Silva, ex-ministra do Meio Ambiente], ao nosso companheiro João Paulo Capobianco [atual ministro do Meio Ambiente], que tiveram um trabalho extraordinário.

Mas sobretudo, gente, nós vamos continuar, companheiro [Alexandre Padilha], fazendo a revolução do SUS. Eu estou convencido de que logo o Brasil será o país do mundo com maior percentual de tratamento de câncer.

Nós temos a nossa querida companheira Ludhmila [Hajjar], cuidando do nosso hospital inteligente, financiado pela companheira Dilma Rousseff, presidente do [Banco dos] Brics, junto com a USP [Universidade de São Paulo]. E vamos ter 15 UTIs [unidades de terapia intensiva] inteligentes nesse país para a gente não permitir que as pessoas morram por falta de tratamento.

Este país está pronto para ser construído. Eu não vou falar a palavra unidade nacional porque essa palavra nem sempre cabe nesse país, mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado. Esse país tem uma Constituição.

Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito à Constituição. Na relação, na relação com o Congresso. Porque já tem gente falando: “o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador”. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas.

Eu quero dizer para vocês que eu tenho um orgulho muito grande. Primeiro porque eu sou o único presidente da República, um metalúrgico, sem diploma universitário, eleito quatro vezes democraticamente aqui no país. No mundo nós tivemos o [Franklin Delano] Roosevelt, [presidente dos Estados Unidos por quatro mandatos incompletos] que foi eleito quatro anos (sic), mas ele não conseguiu terminar o seu mandato porque ele tinha uma doença muito grave.

Agora, o Lulinha não vai querer outro mandato, mas vou terminar esse mandato inteiraço, correndo mais do que qualquer um de vocês, porque o respeito, o respeito que eu adquiri pelo esse povo e o carinho que esse povo tem dedicado a mim.

As manifestações de carinho que eu tenho recebido, sobretudo das mulheres brasileiras, é uma coisa que eu jamais imaginei, jamais imaginei que um político poderia receber a quantidade de carinho, de homenagem e de palavras carinhosas. Eu devo isso a vocês.

Eu sempre acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais preparada que eu, tanta gente com mais diploma que eu, tanta gente que já leu mais livros do que eu, tanta gente que já estudou mais do que eu. E por que eu fui escolhido por Deus? Eu fui escolhido por Deus porque eu sempre acho que tem o dedo de Deus na minha cabeça. Eu sempre acho. Então eu quero agradecer a Deus e agradecer a vocês, homens e mulheres desse país, pela força que vocês demonstraram.

Não fui eu e o Alckmin que ganhamos essas eleições. Essas eleições foi a honradez, o nacionalismo, a democracia e o futuro que vocês querem para os filhos de vocês que fez a gente virar. Diz que foi a primeira vez que a gente virou. É importante saber que é a primeira vez que virou, [mas eu] não sei o que virou, porque eu nunca ganhei eleição no meu 1º turno, mas nunca perdi nenhuma no 2º turno.

Eu tenho dois meses pela frente para discutir o governo. Quero me reunir com os empresários, quero me reunir com os educadores, quero me reunir com os cientistas, quero me reunir com as mulheres, vou me reunir com o Corinthians também. Porque porra, o Corinthians já perdeu outra, cara. Aonde que a gente vai? Tá parecendo o Bolsonaro, só perde, porra.

Então, gente, é o seguinte: pode ficar certo que eu quero que vocês anotem o que eu vou dizer aqui. Depois da amanhã, dia 27, eu completo 81 anos de idade, e eu quero assumir um compromisso na frente da imprensa e na frente de vocês: vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história desse país. Podem ficar certos. Vou dedicar 24 horas por dia para fazer desse país o país que todo mundo sonha, um país em que as pessoas saibam que vão dormir e vão acordar com muita tranquilidade.

O governo federal nunca teve responsabilidade com segurança pública porque a Constituição de 1988 transferiu toda a responsabilidade para os estados. Agora está provado que os estados não dão conta. Nós vamos entrar agora, vamos entrar para devolver, para devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores, a tranquilidade e a paz que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão. Um abraço, gente.

Eu vou para a [Avenida] Paulista só para agradecer. E eu quero aproveitar o meu general Janones aqui e dizer o seguinte: eu duvido que a Rússia, que a China e que os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia desse país. Um abraço aos soldados e às soldadas do nosso exército.
Discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na conquista do tetra presidencial

Lula não sabia ser impossível e fez; a hidra da extrema direita segue viva

Com 99,85% dos votos apurados, Lula, do PT, venceu a eleição presidencial com 51,76% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro, do PL, ficou com 48,24%. A catástrofe anunciada, “O Dia Depois de Amanhã”, não veio. Mas o filme não acabou. Vamos ver a sanha com que a extrema direita batida nas urnas tentará reescrever o resultado, deslegitimar o vencedor e manter viva a lógica que enxerga adversários como inimigos a destruir, com todos os riscos institucionais que isso acarreta. “Não sabendo ser impossível, Lula foi lá e fez.” Ou será que o deputado André Janones (Rede-MG) sabia ser possível? Ao quarto mandato, o presidente soma outro ineditismo: nunca ninguém havia vencido uma eleição chegando em segundo lugar no primeiro turno. Aconteceu.


Os sinais da campanha do herdeiro político de Jair Bolsonaro — condenado por tentativa de golpe e hoje em prisão domiciliar — foram péssimos, assim como a barbárie moral promovida por seus seguidores nas redes. A resistência democrática, que ganhou volume na corrida do segundo turno, mostrou que tem fôlego. Ainda assim, como dizem, “a luta continua”.

A democracia brasileira recuou, por ora, da linha de risco. Felizmente, não preciso de malabarismos retóricos para criticar a ideologia mixuruca hoje dominante na análise política, a do “nem-nem” entre a civilização e a fascistização. Se as duas opções se equivaliam, por que tanta gente viveu esta eleição como decisiva?

A pergunta que se coloca agora aos democratas é como lidar com uma mistura exótica que não desapareceu com a derrota: a soma da Internacional da Extrema Direita, que assola todas as democracias, com a vocação — como direi? — dinástica de uma família que fagocitou a direita e confunde o país com o quintal de casa. A derrota do dito “Zero Um” é mais do que um resultado eleitoral: é o freio ao triunfo do ressentimento e da vendeta de golpistas. Mas freio não é fim.

Alguém poderia indagar: “Ah, Reinaldo, isso significa que todos os que votaram em Flávio são tomados por esse ressentimento?” É certo que não. Quase metade dos que votaram o escolheu. Aqui se abre outra chave para entender estes tempos: por que tantos votam contra os próprios interesses?

A resposta está nos clássicos. “A Ideologia Alemã”, de Marx e Engels, ainda é a melhor obra sobre o modo como uma guerra de valores pode mascarar disputas objetivas e distorcer a percepção da realidade. O livro foi escrito entre 1845 e 1846, mas o texto completo só veio a público em 1932. Nele se lê:

“A produção das ideias, das representações e da consciência está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui como emanação direta de seu comportamento material. O mesmo vale para a produção espiritual, tal como esta se manifesta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um povo. OS HOMENS SÃO OS PRODUTORES DE SUAS REPRESENTAÇÕES, DE SUAS IDEIAS ETC., MAS [SÃO] OS HOMENS REAIS E ATIVOS, TAL COMO SÃO CONDICIONADOS POR UM DETERMINADO DESENVOLVIMENTO DE SUAS FORÇAS PRODUTIVAS E PELO INTERCÂMBIO QUE A ESTE CORRESPONDE, ATÉ SUAS FORMAÇÕES MAIS AMPLAS. A consciência não pode ser jamais outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real.

E se, em toda a ideologia, os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmara escura, tal fenômeno decorre de seu processo histórico de vida, do mesmo modo que a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico.”

Chamo a atenção para o trecho que decidi transcrever em letras maiúsculas. O pensamento progressista precisa aproximar-se desse homem real e, no governo, terá meios para isso, se quiser usá-los. Com ou sem algoritmos, os instrumentos de manipulação estão entre nós, como dado estrutural da vida social e política, desde as primeiras formas de dominação. Nunca foram, é verdade, tão eficientes.

Daí outro desafio da resistência democrática, que passa a ser também responsabilidade de governo: organizar-se no território sem lei dos algoritmos, colonizados de longa data pela direita radical, com o estímulo mais do que explícito das “big techs”. A um cenário que se afigura distópico será preciso responder com uma forma de organização ainda um tanto estranha ao próprio PT, que seguirá sendo o núcleo do enfrentamento a essa voragem e que, depois de ganhar, não pode confundir triunfo eleitoral com hegemonia.

Para os devotos do “Capitão”, a democracia e o Estado de Direito sempre foram estorvos, meras formalidades a serem superadas por atos de vontade. O projeto era de uma clareza solar e de uma vulgaridade espantosa: conquistar a maioria do Congresso para aparelhar os órgãos de controle democrático, muito especialmente o Judiciário. Lula terá grandes dificuldades, especialmente no Senado. Aqui, de novo, a vigilância cívica será indispensável.

Há em “O Leopardo”, de Lampedusa, a máxima célebre de Tancredi: “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Alguém poderia dizer: “Bem, os bolsonaristas estão nessa!” Não, queridos! O troço é bem mais complexo. Na reta final da campanha, Flávio e seus seguidores até falaram a linguagem comportada do respeito às regras. Era um “gattopardismo” pelo avesso: em vez de fingir mudança para preservar privilégios, o bolsonarismo fingiu normalidade para promover a ruptura, usando eleições, instituições e o vocabulário da legalidade para esvaziá-las por dentro. Fora do poder, será testado: a linguagem comportada sobrevive ao resultado ou era só figurino de campanha? Os ministros André Mendonça e Nunes Marques seguirão sendo os melhores exemplos desse método, com a conivência de amplos setores da imprensa.

O bolsonarismo continuará na oposição a partir de 5 de janeiro, e oposição é papel legítimo numa democracia. Ilegítimo é não reconhecer as regras do jogo. Os que se mobilizaram no segundo turno em favor de Lula demoraram um tanto para despertar, mas o fizeram a tempo de saber que a empreitada é possível. O resultado demonstrou que há energia para o embate, mas essa mobilização tem de se estruturar em vigilância jurídica e combate cotidiano. Quem ganhou não pode se desmobilizar.

Não há espaço para o otimismo ingênuo dos que acham que o triunfo de Lula vai moderar os reacionários. A hidra da extrema direita não se domestica nem morre numa eleição: corta-se uma cabeça, e outras nascem. É insaciável. Nós, os democratas, também temos de ser.