segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Para a minha filha, deixarei a democracia!

Minha filha,

Na madrugada de 25 de outubro, a polícia avançou sobre as pessoas acampadas no Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, em protesto pelo direito à habitação. Houve bastonadas, cães, feridos e detenções. A PSP invocou a necessidade de repor a legalidade. Mas não podemos deixar de perguntar o que acontece a uma democracia quando quem reclama direitos acaba a enfrentar a força do Estado.

Foi a pensar em ti que vi estas imagens. No mundo em que vais nascer. Na facilidade com que nos habituamos a ver direitos postos em causa, governos a aprovarem medidas regressivas e pessoas tratadas como um problema quando tentam denunciar os problemas que não se conseguem resolver.

Porque a habitação também é uma questão de liberdade feminina. É difícil falar de igualdade quando uma mulher não tem condições económicas para sair de uma relação abusiva, quando a precariedade a obriga a adiar a maternidade ou quando a falta de uma casa lhe retira a possibilidade de construir uma vida autónoma. Sem independência económica e sem um lugar seguro a que possa chamar seu, a liberdade de uma mulher pode existir na lei e faltar-lhe na vida.

E este é um dos meus medos, minha filha. Porque serei mãe de uma menina. Porque tu és metade do mundo e não quero que passes a vida a lutar para conquistar aquilo que deveria ser teu: o direito a escolher, a dizer não, a ocupar o teu lugar e a decidir o teu próprio destino.

Assusta-me deixar-te um mundo onde ser mulher ainda signifique ter de provar mais, aceitar menos e resistir sempre. Onde os direitos conquistados pelas mulheres não sejam garantias, mas batalhas que cada geração tem de voltar a travar.

É também por isso que a democracia importa. Não se resume ao voto, nem se mede apenas pela legalidade das decisões de quem governa. Mede-se na capacidade de proteger a dignidade humana, de permitir o protesto e de garantir que ninguém tem de escolher entre a sua segurança, a sua liberdade e o direito a viver com dignidade.

Minha filha, não quero deixar-te um mundo perfeito. Quero deixar-te um mundo onde não precises de pedir licença para ser livre, nem de conquistar todos os dias o direito a ter direitos.

Que herdes a coragem das mulheres que vieram antes de ti, mas não a obrigação de travar eternamente as mesmas batalhas.

Que tenhas uma casa onde possas ser livre, uma voz que possas usar sem medo e uma democracia que não te peça silêncio em troca de segurança.

Talvez seja essa a responsabilidade maior de te amar: não aceitar como inevitável o mundo que te deixo.

Novo coquetel Molotov

O perigo da IA cruzado com a extrema-direita, que não tem limites morais, a ambição desmesurada dos financiadores, dos construtores de armas, que estão a fazer fortunas extraordinárias com o que se passa no mundo, está a criar um inimigo que não conseguimos combater
Alberto Manguel

Bolsonaristas enrolam jornais com roteiro típico de Steve Bannon

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça-feira, quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.

O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez

Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".


Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".

Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.

Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.

O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.

Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.

O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".

A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.

Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".

Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.

Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.

O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "
O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".

Edinho sobre Lula: 'Qualquer, off sobre a economia é falso'

Estimulado pelas notícias, sempre em “off”, claro!, de que Lula já teria tomado algumas decisões na área econômica, liguei para o presidente do PT, Edinho Silva. Quis saber o que havia de verdade e por que, depois de uma reação fabulosa nas urnas, o partido e o presidente estariam se atrapalhando com informações desencontradas. Bem, a resposta dele não me surpreende. Os mesmos especuladores que decretaram o fim de Lula e tentaram normalizar um eventual governo afascistado de Flávio Bolsonaro, o agora fugitivo — que queria a Presidência apenas como instrumento de impunidade —, continuam em ação. Até parece que o predente reeleito depende da chancela desses sujeitos para exercer o quarto mandato.

A questão também diz respeito ao jornalismo. Existe um personagem com a ambição de mandar no Brasil: a fonte ouvida em “off”, geralmente apresentada como “interlocutora” de alguém com poder de decisão. A falta de escrúpulo chega a tal ponto — e, infelizmente, falo de prática corrente em setores da imprensa — que se revelam “conversas” privadas entre duas pessoas, ainda que ambas neguem o conteúdo... Aí basta escrever algo assim: “Esta coluna (ou assemelhado) conversou com três fontes que asseguram, sob condição de anonimato, que tal coisa aconteceu…”


Bem, isso equivaleria à prova de que Deus existe, não é? Nem São Tomás de Aquino, o homem mais inteligente do mundo, conseguiu tal proeza… Se “A” conversa com “B”, sem terceira pessoa, e se ambos negam ter tratado de determinado assunto, como podem fontes anônimas que não estavam presentes atestar o contrário? Restaria, então, comprovar o fato, a verdadeira prova dos nove. Ela também não aparece.

Perguntei ao presidente do PT, para resposta em “on”, o que há de verdade na algaravia que anda por aí. Sua resposta:

“Absolutamente ninguém está autorizado a falar em nome do presidente Lula nesse processo de transição para seu próximo mandato. Qualquer ‘off’ tem de ser tratado como plantação de notícias falsas, prática inaceitável, principalmente quando se trata de política econômica. Isso interessa a quem aposta contra o governo e o futuro do Brasil.”

Antes, Edinho já havia publicado nas redes o seguinte texto:

“As especulações na área econômica não colaboram com o país e só fazem o jogo dos especuladores, dos oportunistas do mercado, aqueles que apostam contra o governo Lula, contra o futuro do país. O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan."
Edinho Silva, presidente do PT Nacional

Volto. As apostas estavam feitas. O povo deu uma grande rasteira em quem confundiu a própria torcida com os fatos. Os derrotados se organizam agora para impor ao presidente sua agenda, como se ele lhes devesse a eleição — desta feita, diga-se, foi mesmo o movimento progressista que acordou.

As redações deveriam respeitar um pouco mais leitores, telespectadores, ouvintes e internautas. O jornalismo de bastidor, os “offs”, as falas que precisam ser entendidas nas entrelinhas… Tudo isso continua essencial para que se chegue à verdade possível. Desde que nada disso esteja a serviço de quem tenta definir preços na economia e governar em lugar daquele que foi eleito.

É preciso cuidado para que tal prática, a pretexto de buscar a tal verdade, não sirva de mero instrumento da especulação e da mentira interessada.

Do outro lado do Atlântico, um cravo pela democracia brasileira

Um acontecimento histórico surpreendente marcou a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras: a vitória popular perante os grandes conglomerados de comunicação social, as big techs, a elite empresarial da Avenida Faria Lima, os setores evangélicos neopentecostais e a extrema-direita, representada pelo bolsonarismo. E importa acrescentar: foi também uma vitória contra a interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral, numa tentativa de pôr em causa a soberania nacional, e contra a parcialidade da Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em favor de um dos candidatos.

O dia das eleições ficou marcado pelo boicote aos transportes públicos em algumas cidades do país, numa clara tentativa de golpe contra a democracia, destinada a impedir os brasileiros de exercerem o seu direito de cidadania. Felizmente, os responsáveis por essa iniciativa não conseguiram travar a força da população. Assistiu-se, em vários pontos do país, a uma comovente união de gerações contra as forças obscurantistas da extrema-direita.


Os jovens e os estudantes mobilizaram-se nas ruas e nas redes sociais, enquanto os mais velhos se deslocaram às urnas, acompanhados pelos mais novos. Que imagens emocionantes as dos filhos e netos a levarem ao colo os pais e avós, muitos deles debilitados pela idade avançada ou por doenças crónicas.

Esta foi a resposta das urnas às provocações do então candidato Flávio Bolsonaro, que troçou da idade de Lula da Silva, pôs em causa a sua lucidez e fez comentários sobre a sua voz rouca, alterada pelo cancro da laringe que o tinha afetado. Quando, durante o debate eleitoral, fez uma observação infeliz sobre os nove dedos de Lula, atingiu também as pessoas com deficiência e os trabalhadores que sofreram amputações em acidentes de trabalho. A resposta ao preconceito chegou pelas urnas, com uma diferença superior a quatro milhões de votos a favor de Lula.

Foi uma vitória que ficará na memória! Uma verdadeira celebração da cidadania, expressa também na diminuição da abstenção e dos votos brancos e nulos. A maioria dos eleitores quis demonstrar, através do voto, a sua oposição a qualquer tentativa de golpe e a sua disposição para defender a Constituição e o Estado de Direito democrático.

É inegável que André Janones, deputado federal pelo estado de Minas Gerais, teve um papel determinante nas redes sociais e nas plataformas digitais, ao mobilizar uma comunidade virtual de mais de dez milhões de pessoas para contornar os mecanismos de distribuição de conteúdos da Meta. Mas esta vitória pertence a todos os que acreditam que ainda é possível construir um país mais justo e menos desigual. Foi uma vitória sem precedentes na história republicana do país.

O dia 25 de outubro de 2026 evoca a Revolução dos Cravos, ocorrida a 25 de abril de 1974, quando o povo português, em adesão ao Movimento das Forças Armadas (MFA), saiu à rua e contribuiu decisivamente para derrubar uma das mais longas ditaduras da história europeia.

Lembrei-me de Chico Buarque e da sua canção Tanto Mar, na qual celebra essa revolução em Portugal: “Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente, ainda guardo renitente, um cravo para mim…”. O cravo vermelho tornou-se, assim, o símbolo da vitória.

Viva a democracia e a soberania nacional! E, como historiador, termino este texto evocando a bela letra do Hino da Independência do Brasil (1824), que proclama: “Brava gente brasileira, longe vá temor servil, ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!”

O futuro mora na porta ao lado

Podemos ter uma casa e não ter a quem bater à porta. Podemos conhecer as desgraças do mundo e ignorar o sofrimento do vizinho. Enquanto fazemos contas ao futuro, há uma pobreza que cresce sem entrar nas estatísticas: a de já não contarmos uns com os outros.

Há uma pergunta que devia acompanhar os anúncios das casas: se eu desaparecer durante três dias, alguém neste prédio dará pela minha falta? Entre os metros quadrados, a eficiência energética e a proximidade do metro, seria uma informação preciosa. Uma casa pode ter uma vista magnífica e ninguém que olhe por nós.

Perguntamos o que desejamos do futuro e respondemos com aquilo que nos falta: habitação, melhores salários, segurança, uma escola onde os filhos possam aprender sem sobressaltos. Queremos deixar de fazer contas no corredor do supermercado, de olhar para o preço dos combustíveis como quem consulta uma ameaça, de trabalhar um mês inteiro para descobrir que a vida ficou novamente por pagar. São desejos legítimos, urgentes. Porém, há uma falta que não aparece no recibo do vencimento: a de sentirmos que a nossa existência importa a alguém para lá da porta de casa.


Pascal Chabot oferece-nos uma imagem perturbadora para pensar esta condição. Em Nos Vies Encapsulées, interroga a vida nas “cápsulas”: espaços fechados, protegidos e conectados, onde a existência decorre numa relativa indiferença ao exterior. A proteção e a ligação ao mundo podem, afinal, coexistir com um profundo afastamento dele.

Basta seguir um dia possível. Saímos de casa, entramos no automóvel, chegamos ao trabalho, regressamos ao automóvel e voltamos a casa. Pelo caminho, um ecrã acompanha-nos, informa-nos, distrai-nos. Podemos atravessar a cidade inteira sem uma conversa que não tenha uma finalidade. No elevador, baixamos os olhos para o telemóvel. Temos acesso imediato a uma guerra distante e ignoramos que a vizinha do terceiro andar começou a jantar sozinha.

A cápsula é confortável. Permite escolher a temperatura, a música, as notícias, as pessoas a quem respondemos. Lá fora há o imprevisto: alguém demora, discorda, pede ajuda, traz uma tristeza para a qual não tínhamos reservado tempo. Aos poucos, podemos começar a tratar a presença dos outros como uma falha no funcionamento do nosso dia. A campainha toca e, antes da curiosidade, chega a irritação.

Não tenho saudades de uma aldeia imaginária onde toda a gente era boa. A proximidade também vigiava, sufocava, castigava a diferença. Houve vidas que precisaram de partir para poderem finalmente respirar. A privacidade foi uma conquista, mas essa conquista não nos obriga a escolher entre a intromissão e a indiferença. Podemos respeitar uma porta fechada e continuar disponíveis para quando ela se abrir.

É esse espírito de vizinhança que me inquieta ver enfraquecer. O bairro enquanto lugar onde alguém conhece o nosso nome, reconhece uma ausência, segura uma chave, acompanha uma criança. Uma convivência imperfeita, com discussões e embirrações, mas suficientemente humana para que o outro não se reduza ao barulho que faz através da parede.

Há uma diferença imensa entre morar ao lado de alguém e ser seu vizinho.

A crise da habitação também deve ser pensada a esta luz. Quando uma família é obrigada a abandonar o lugar onde construiu a vida, perde mais do que uma morada. Pode perder a pessoa que ia buscar o filho à escola numa emergência, o comerciante que estranhava a ausência, a amiga com quem repartia o peso dos dias. Essas relações não cabem nas caixas das mudanças. Uma cidade pode valorizar os seus imóveis enquanto empobrece a vida de quem a habita.

Também os salários baixos e o cansaço têm consequências na disponibilidade para os outros. Quem chega a casa exausto nem sempre consegue oferecer atenção. Quem receia não conseguir pagar o essencial pode começar a olhar para tudo o que é atribuído a alguém como se, a si, lhe tivesse sido retirado. Seria injusto chamar egoísmo a toda a forma de retraimento. Há pessoas que se fecham porque já não suportam mais uma solicitação. Precisam, elas próprias, de encontrar uma porta aberta.

É neste terreno que a política tem uma responsabilidade enorme. Pode ajudar-nos a compreender as causas de uma dificuldade ou entregar-nos um rosto sobre o qual descarregar a frustração. O imigrante, o professor, o funcionário público, o beneficiário de um apoio: alguém há de servir para tornar a nossa angústia mais simples. O vizinho converte-se em concorrente; o concorrente, em suspeito. Não nos tornámos todos inimigos, mas arriscamo-nos a aprender a viver como se o fôssemos.

E há uma estranha facilidade nessa aprendizagem. Para odiar uma categoria, basta uma frase. Para conhecer uma pessoa, é preciso tempo. É preciso descobrir que aquele homem de quem desconfiávamos também não dorme por causa de um filho, que aquela mulher tida por antipática cuida sozinha da mãe, que atrás de uma resposta brusca pode existir um dia que desconhecemos. Saber isto não resolve todos os conflitos. Impede, porém, que o julgamento ocupe sozinho o lugar do encontro.

Na escola, o futuro também se decide nessa disponibilidade. Queremos alunos capazes, autónomos, preparados. Convém perguntar se estamos a ajudá-los a reconhecer quando alguém precisa deles. Uma criança pode aprender a disputar cada décima e nunca descobrir a alegria de explicar uma matéria a um colega. Pode crescer rodeada de mensagens e não saber como se aproximar de quem passa o intervalo sozinho. A educação tem de deixar espaço para essa aprendizagem sem classificação: perceber que a presença de outra pessoa nos diz respeito.

Nada disto dispensa políticas públicas, casas acessíveis ou salários dignos. A solidariedade de uma escada não substitui um Estado responsável. Contudo, seria uma derrota conseguirmos melhores condições de vida e usá-las apenas para aperfeiçoar o nosso isolamento. Comprar uma cápsula maior, mais silenciosa, mais bem equipada, onde já não precisássemos de encontrar ninguém.

O que desejamos mesmo do futuro, afinal? Pela minha parte, desejo que ainda possa surpreender-nos uma visita. Que haja tempo para puxar uma cadeira sem consultar a agenda. Que possamos pedir ajuda antes de o desespero nos retirar a voz. E que a felicidade inclua esta confiança discreta: algures, perto de nós, existe alguém a quem podemos fazer falta.

A farsa de Miami e o herói de papelão

A primeira semana pós-vitória de Lula, reeleito para seu quarto mandato presidencial, infelizmente foi sequestrada por Flávio Bolsonaro com a rocambolesca fuga que empreendeu na direção à América de Donald Trump, temeroso de ser preso aqui por tudo o que fez de indecente ao longo de sua vida desde que, pela primeira vez, se elegeu deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

Parecia impossível que o Bolsonaro moderado, vacinado, fosse capaz de dar “uma banana” para os quase 60 milhões de brasileiros que votaram nele no segundo turno. Goste-se ou não, ele era o escolhido para liderar a oposição ao governo Lula e, quem sabe, daqui a quatro anos, concorrer outra vez à Presidência da República. Não haveria outro nome da direita, até lá, a fazer-lhe sombra.


Em menos de sete dias, porém, Flávio jogou fora seu futuro por inépcia e covardia. Recusou-se a enfrentar as investigações da Justiça sobre os supostos crimes que cometeu, ao contrário de Lula quando condenado e preso pelo ex-juiz Sergio Moro. Lula julgou-se inocente, foi preso, amargou 580 dias em uma cela da Polícia Federal e acabou sendo solto pelo Supremo Tribunal Federal. Flávio escafedeu-se.

Não bastasse, ao desembarcar em Miami acompanhado da mulher e de suas filhas, protagonizou mais um episódio ridículo e vergonhoso ao lançar um manifesto em que, na primeira versão, se dizia “presidente do Brasil”, e na segunda, “líder”. Comparou-se ao general Charles de Gaulle, herói da resistência francesa à invasão de seu país pelos nazistas, e prometeu resgatar a democracia perdida pelo Brasil.

Embora negue, assim agiu aconselhado por seu pai, logo após ser intimado a entregar o passaporte. O documento era o que lhe garantia livre trânsito, e a iminência da retenção precipitou a debandada. Flávio era a esperança de Jair para recuperar sua liberdade por meio de um indulto presidencial. Essa foi a única razão plausível para que o pai o lançasse candidato. Os dois governariam juntos o país a partir de 5 de janeiro próximo. O sonho acabou.

O de Lula mal está começando, graças à determinação da maioria dos brasileiros de impor-lhe mais uma vitória. No primeiro turno, Lula perdeu para ele mesmo; ganhou o segundo de maneira inquestionável – e para sua própria surpresa. Agora, o presidente reeleito está em débito com todos os setores que o socorreram. Só não poderá decepcioná-los. Ai dele se, ao final, não for bem-sucedido. A porta da rua é a serventia da casa.

Virada histórica terá impacto nos próximos anos

Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.

Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.

Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.


No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital, que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços públicos.

A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones, cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.

No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.

O perigo ainda existe num Congresso dominado por negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias. Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá num novo contexto.

Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar o Orçamento de forma racional.

Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados Unidos.

Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos de novos temas.