segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O futuro mora na porta ao lado

Podemos ter uma casa e não ter a quem bater à porta. Podemos conhecer as desgraças do mundo e ignorar o sofrimento do vizinho. Enquanto fazemos contas ao futuro, há uma pobreza que cresce sem entrar nas estatísticas: a de já não contarmos uns com os outros.

Há uma pergunta que devia acompanhar os anúncios das casas: se eu desaparecer durante três dias, alguém neste prédio dará pela minha falta? Entre os metros quadrados, a eficiência energética e a proximidade do metro, seria uma informação preciosa. Uma casa pode ter uma vista magnífica e ninguém que olhe por nós.

Perguntamos o que desejamos do futuro e respondemos com aquilo que nos falta: habitação, melhores salários, segurança, uma escola onde os filhos possam aprender sem sobressaltos. Queremos deixar de fazer contas no corredor do supermercado, de olhar para o preço dos combustíveis como quem consulta uma ameaça, de trabalhar um mês inteiro para descobrir que a vida ficou novamente por pagar. São desejos legítimos, urgentes. Porém, há uma falta que não aparece no recibo do vencimento: a de sentirmos que a nossa existência importa a alguém para lá da porta de casa.


Pascal Chabot oferece-nos uma imagem perturbadora para pensar esta condição. Em Nos Vies Encapsulées, interroga a vida nas “cápsulas”: espaços fechados, protegidos e conectados, onde a existência decorre numa relativa indiferença ao exterior. A proteção e a ligação ao mundo podem, afinal, coexistir com um profundo afastamento dele.

Basta seguir um dia possível. Saímos de casa, entramos no automóvel, chegamos ao trabalho, regressamos ao automóvel e voltamos a casa. Pelo caminho, um ecrã acompanha-nos, informa-nos, distrai-nos. Podemos atravessar a cidade inteira sem uma conversa que não tenha uma finalidade. No elevador, baixamos os olhos para o telemóvel. Temos acesso imediato a uma guerra distante e ignoramos que a vizinha do terceiro andar começou a jantar sozinha.

A cápsula é confortável. Permite escolher a temperatura, a música, as notícias, as pessoas a quem respondemos. Lá fora há o imprevisto: alguém demora, discorda, pede ajuda, traz uma tristeza para a qual não tínhamos reservado tempo. Aos poucos, podemos começar a tratar a presença dos outros como uma falha no funcionamento do nosso dia. A campainha toca e, antes da curiosidade, chega a irritação.

Não tenho saudades de uma aldeia imaginária onde toda a gente era boa. A proximidade também vigiava, sufocava, castigava a diferença. Houve vidas que precisaram de partir para poderem finalmente respirar. A privacidade foi uma conquista, mas essa conquista não nos obriga a escolher entre a intromissão e a indiferença. Podemos respeitar uma porta fechada e continuar disponíveis para quando ela se abrir.

É esse espírito de vizinhança que me inquieta ver enfraquecer. O bairro enquanto lugar onde alguém conhece o nosso nome, reconhece uma ausência, segura uma chave, acompanha uma criança. Uma convivência imperfeita, com discussões e embirrações, mas suficientemente humana para que o outro não se reduza ao barulho que faz através da parede.

Há uma diferença imensa entre morar ao lado de alguém e ser seu vizinho.

A crise da habitação também deve ser pensada a esta luz. Quando uma família é obrigada a abandonar o lugar onde construiu a vida, perde mais do que uma morada. Pode perder a pessoa que ia buscar o filho à escola numa emergência, o comerciante que estranhava a ausência, a amiga com quem repartia o peso dos dias. Essas relações não cabem nas caixas das mudanças. Uma cidade pode valorizar os seus imóveis enquanto empobrece a vida de quem a habita.

Também os salários baixos e o cansaço têm consequências na disponibilidade para os outros. Quem chega a casa exausto nem sempre consegue oferecer atenção. Quem receia não conseguir pagar o essencial pode começar a olhar para tudo o que é atribuído a alguém como se, a si, lhe tivesse sido retirado. Seria injusto chamar egoísmo a toda a forma de retraimento. Há pessoas que se fecham porque já não suportam mais uma solicitação. Precisam, elas próprias, de encontrar uma porta aberta.

É neste terreno que a política tem uma responsabilidade enorme. Pode ajudar-nos a compreender as causas de uma dificuldade ou entregar-nos um rosto sobre o qual descarregar a frustração. O imigrante, o professor, o funcionário público, o beneficiário de um apoio: alguém há de servir para tornar a nossa angústia mais simples. O vizinho converte-se em concorrente; o concorrente, em suspeito. Não nos tornámos todos inimigos, mas arriscamo-nos a aprender a viver como se o fôssemos.

E há uma estranha facilidade nessa aprendizagem. Para odiar uma categoria, basta uma frase. Para conhecer uma pessoa, é preciso tempo. É preciso descobrir que aquele homem de quem desconfiávamos também não dorme por causa de um filho, que aquela mulher tida por antipática cuida sozinha da mãe, que atrás de uma resposta brusca pode existir um dia que desconhecemos. Saber isto não resolve todos os conflitos. Impede, porém, que o julgamento ocupe sozinho o lugar do encontro.

Na escola, o futuro também se decide nessa disponibilidade. Queremos alunos capazes, autónomos, preparados. Convém perguntar se estamos a ajudá-los a reconhecer quando alguém precisa deles. Uma criança pode aprender a disputar cada décima e nunca descobrir a alegria de explicar uma matéria a um colega. Pode crescer rodeada de mensagens e não saber como se aproximar de quem passa o intervalo sozinho. A educação tem de deixar espaço para essa aprendizagem sem classificação: perceber que a presença de outra pessoa nos diz respeito.

Nada disto dispensa políticas públicas, casas acessíveis ou salários dignos. A solidariedade de uma escada não substitui um Estado responsável. Contudo, seria uma derrota conseguirmos melhores condições de vida e usá-las apenas para aperfeiçoar o nosso isolamento. Comprar uma cápsula maior, mais silenciosa, mais bem equipada, onde já não precisássemos de encontrar ninguém.

O que desejamos mesmo do futuro, afinal? Pela minha parte, desejo que ainda possa surpreender-nos uma visita. Que haja tempo para puxar uma cadeira sem consultar a agenda. Que possamos pedir ajuda antes de o desespero nos retirar a voz. E que a felicidade inclua esta confiança discreta: algures, perto de nós, existe alguém a quem podemos fazer falta.

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