terça-feira, 1 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Este Brasil!

Este é um país escroto vivendo sob o ignorantismo (vá ao dicionário e procure saber o que é ignorantismo, se já não sabe). É um filho das ditaduras, das burrices, da intolerância e do obscurantismo. Ou melhor, o ignorantismo é neto da burrice; filho é o obscurantismo. Já estamos na fase segunda geração, a ignorantista. 
João Antônio

Do sonho e da terra

Desde o Nordeste até o leste de Minas Gerais, onde fica o rio Doce e a reserva indígena das famílias Krenak, e também na Amazônia, na fronteira do Brasil com o Peru e a Bolívia, no Alto Rio Negro, em todos esses lugares as nossas famílias estão passando por um momento de tensão nas relações políticas entre o Estado brasileiro e as sociedades indígenas.

Essa tensão não é de agora, mas se agravou com as recentes mudanças políticas introduzidas na vida do povo brasileiro, que estão atingindo de forma intensa centenas de comunidades indígenas que nas últimas décadas vêm insistindo para que o governo cumpra seu dever constitucional de assegurar os direitos desses grupos nos seus locais de origem, identificados no arranjo jurídico do país como terras indígenas.

Não sei se todos conhecem as terminologias referentes à relação dos povos indígenas com os lugares onde vivem ou as atribuições que o Estado brasileiro tem dado a esses territórios ao longo da nossa história. Desde os tempos coloniais, a questão do que fazer com a parte da população que sobreviveu aos trágicos primeiros encontros entre os dominadores europeus e os povos que viviam onde hoje chamamos, de maneira muito reduzida, de terras indígenas, levou a uma relação muito equivocada entre o Estado e essas comunidades.


É claro que durante esses anos nós deixamos de ser colônia para constituir o Estado brasileiro e entramos no século XXI, quando a maior parte das previsões apostava que as populações indígenas não sobreviveriam ocupação do território, pelo menos não mantendo formas próprias de organização, capazes de gerir suas vidas. Isso porque a máquina estatal atua para desfazer as formas de organização das nossas sociedades, buscando uma integração entre essas populações e o conjunto da sociedade brasileira.

O dilema político que ficou para as nossas comunidades que sobreviveram ao século XX é ainda hoje precisar disputar os últimos redutos onde a natureza é próspera, onde podemos suprir as nossas necessidades alimentares e de moradia, e onde sobrevivem os modos que cada uma dessas pequenas sociedades tem de se manter no tempo, dando conta de si mesmas sem criar uma dependência excessiva do Estado.

O rio Doce, que nós, os Krenak, chamamos de Watu, nosso avô, é uma pessoa, não um recurso, como dizem os economistas. Ele não é algo de que alguém possa se apropriar; é uma parte da nossa construção como coletivo que habita um lugar específico, onde fomos gradualmente confinados pelo governo para podermos viver e reproduzir as nossas formas de organização (com toda essa pressão externa).

Falar sobre a relação entre o Estado brasileiro e as sociedades indígenas a partir do exemplo do povo Krenak surgiu como uma inspiração, para contar a quem não sabe o que acontece hoje no Brasil com essas comunidades — estimadas em cerca de 250 povos e aproximadamente 900 mil pessoas, população menor do que a de grandes cidades brasileiras.

O que está na base da história do nosso país, que continua a ser incapaz de acolher os seus habitantes originais — sempre recorrendo a práticas desumanas para promover mudanças em formas de vida que essas populações conseguiram manter por muito tempo, mesmo sob o ataque feroz das forças coloniais, que até hoje sobrevivem na mentalidade cotidiana de muitos brasileiros —, é a ideia de que os índios deveriam estar contribuindo para o sucesso de um projeto de exaustão da natureza. O Watu, esse rio que sustentou a nossa vida às margens do rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo, numa extensão de seiscentos quilômetros, está todo coberto por um material tóxico que desceu de uma barragem de contenção de resíduos, o que nos deixou órfãos e acompanhando o rio em coma. Faz um ano e meio que esse crime — que não pode ser chamado de acidente — atingiu as nossas vidas de maneira radical, nos colocando na real condição de um mundo que acabou.

Neste encontro, estamos tentando abordar o impacto que nós, humanos, causamos neste organismo vivo que é a Terra, que em algumas culturas continua sendo reconhecida como nossa mãe e provedora em amplos sentidos, não só na dimensão da subsistência e na manutenção das nossas vidas, mas também na dimensão transcendente que dá sentido à nossa existência. Em diferentes lugares do mundo, nos afastamos de uma maneira tão radical dos lugares de origem que o trânsito dos povos já nem é percebido. Atravessamos continentes como se estivéssemos indo ali ao lado. Se é certo que o desenvolvimento de tecnologias eficazes nos permite viajar de um lugar para outro, que as comodidades tornaram fácil a nossa movimentação pelo planeta, também é certo que essas facilidades são acompanhadas por uma perda de sentido dos nossos deslocamentos.

Sentimo-nos como se estivéssemos soltos num cosmos vazio de sentido e desresponsabilizados de uma ética que possa ser compartilhada, mas sentimos o peso dessa escolha sobre as nossas vidas. Somos alertados o tempo todo para as consequências dessas escolhas recentes que fizemos. E se pudermos dar atenção a alguma visão que escape a essa cegueira que estamos vivendo no mundo todo, talvez ela possa abrir a nossa mente para alguma cooperação entre os povos, não para salvar os outros, mas para salvar a nós mesmos. Há trinta anos, a ampla rede de relações em que me integrei para levar ao conhecimento de outros povos, de outros governos, as realidades que nós vivíamos no Brasil teve como objetivo ativar as redes de solidariedade com os povos nativos.

O que aprendi ao longo dessas décadas é que todos precisam despertar, porque, se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados de ruptura ou da extinção dos sentidos das nossas vidas, hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda. Como disse o pajé yanomami Davi Kopenawa, o mundo acredita que tudo é mercadoria, a ponto de projetar nela tudo o que somos capazes de experimentar. A experiência das pessoas em diferentes lugares do mundo se projeta na mercadoria, significando que ela é tudo o que está fora de nós. Essa tragédia que agora atinge a todos é adiada em alguns lugares, em algumas situações regionais nas quais a política — o poder político, a escolha política — compõe espaços de segurança temporária em que as comunidades, mesmo quando já esvaziadas do verdadeiro sentido do compartilhamento de espaços, ainda são, digamos, protegidas por um aparato que depende cada vez mais da exaustão das florestas, dos rios, das montanhas, nos colocando num dilema em que parece que a única possibilidade para que comunidades humanas continuem a existir é à custa da exaustão de todas as outras partes da vida.

A conclusão ou compreensão de que estamos vivendo uma era que pode ser identificada como Antropoceno deveria soar como um alarme nas nossas cabeças. Porque, se nós imprimimos no planeta Terra uma marca tão pesada que até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos exaurindo as fontes da vida que nos possibilitaram prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por estarmos mais uma vez diante do dilema a que já aludi: excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver — pelo menos as que fomos animados a pensar como possíveis, em que havia corresponsabilidade com os lugares onde vivemos e o respeito pelo direito à vida dos seres, e não só dessa abstração que nos permitimos constituir como uma humanidade, que exclui todas as outras e todos os outros seres. Essa humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô, que a montanha explorada em algum lugar da África ou da América do Sul e transformada em mercadoria em algum outro lugar é também o avô, a avó, a mãe, o irmão de alguma constelação de seres que querem continuar compartilhando a vida nesta casa comum que chamamos Terra.

O nome krenak é constituído por dois termos: um é a primeira partícula, kre, que significa cabeça, a outra, nak, significa terra. Krenak é a herança que recebemos dos nossos antepassados, das nossas memórias de origem, que nos identifica como “cabeça da terra”, como uma humanidade que não consegue se conceber sem essa conexão, sem essa profunda comunhão com a terra. Não a terra como um sítio, mas como esse lugar que todos compartilhamos, e do qual nós, os Krenak, nos sentimos cada vez mais desraigados — desse lugar que para nós sempre foi sagrado, mas que percebemos que nossos vizinhos têm quase vergonha de admitir que pode ser visto assim. Quando nós falamos que o nosso rio é sagrado, as pessoas dizem: “Isso é algum folclore deles”; quando dizemos que a montanha está mostrando que vai chover e que esse dia vai ser um dia próspero, um dia bom, eles dizem: “Não, uma montanha não fala nada”.

Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista.

Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos. Tomara que estes encontros criativos que ainda estamos tendo a oportunidade de manter animem a nossa prática, a nossa ação, e nos deem coragem para sair de uma atitude de negação da vida para um compromisso com a vida, em qualquer lugar, superando as nossas incapacidades de estender a visão a lugares para além daqueles a que estamos apegados e onde vivemos, assim como às formas de sociabilidade e de organização de que uma grande parte dessa comunidade humana está excluída, que em última instância gastam toda a força da Terra para suprir a sua demanda de mercadorias, segurança e consumo.

Como reconhecer um lugar de contato entre esses mundos, que têm tanta origem comum, mas que se descolaram a ponto de termos hoje, num extremo, gente que precisa viver de um rio e, no outro, gente que consome rios como um recurso? A respeito dessa ideia de recurso que se atribui a uma montanha, a um rio, a uma floresta, em que lugar podemos descobrir um contato entre as nossas visões que nos tire desse estado de não reconhecimento uns dos outros?

Quando eu sugeri que falaria do sonho e da terra, eu queria comunicar a vocês um lugar, uma prática que é percebida em diferentes culturas, em diferentes povos, de reconhecer essa instituição do sonho não como experiência cotidiana de dormir e sonhar, mas como exercício disciplinado de buscar no sonho as orientações para as nossas escolhas do dia a dia.

Para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade, é renunciar ao sentido prático da vida. Porém, também podemos encontrar quem não veria sentido na vida se não fosse informado por sonhos, nos quais pode buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho, mas que ali estão abertas como possibilidades. Fiquei muito apaziguado comigo mesmo hoje à tarde, quando mais de uma colega das que falaram aqui trouxeram a referência a essa instituição do sonho não como uma experiência onírica, mas como uma disciplina relacionada à formação, à cosmovisão, à tradição de diferentes povos que têm no sonho um caminho de aprendizado, de autoconhecimento sobre a vida, e a aplicação desse conhecimento na sua interação com o mundo e com as outras pessoas.
Ailton Krenak, "Ideias para adiar o fim do mundo"

Não existe justiça climática sem paz

Em janeiro de 2026, forças especiais dos Estados Unidos invadiram Caracas, capturaram Nicolás Maduro e o levaram para uma prisão em Nova York; sete meses depois, Washington ainda diz administrar a transição do país, e as exportações de petróleo venezuelano bateram o maior volume em sete anos, um detalhe que talvez explique o episódio melhor do que qualquer discurso sobre “defesa da democracia”. Há uma contradição particularmente incômoda em tempos de crise climática. O mundo precisa abandonar os combustíveis fósseis com uma urgência sem precedentes e, ao mesmo tempo, continua organizando parte de seu poder e de seus conflitos em torno deles.

Não é a primeira vez que o mundo troca de fonte de energia, nem a primeira em que essa troca redesenha, mais do que resolve, a geografia do poder. Ao longo da história moderna, a expansão territorial esteve intimamente ligada à conquista de áreas estratégicas para a produção de energia. Foi para garantir combustíveis à frota britânica que Winston Churchill, em 1911, trocou o carvão por petróleo e comprou secretamente o controle da futura BP, tornando o Golfo Pérsico uma questão de segurança nacional antes mesmo da Primeira Guerra Mundial. A primeira de várias transições energéticas que prometeram modernização e entregaram, também, uma nova cartografia de territórios “úteis” ao desenvolvimento.


Do carvão ao petróleo, da energia nuclear aos minerais críticos, a fórmula pouco mudou e a apropriação de territórios considerados “úteis” ao crescimento econômico foi reiteradamente justificada pelo progresso, quando, nas coxias, tratava-se de uma questão de segurança. A Venezuela, que hoje declara deter a maior reserva de petróleo do planeta – número contestado por especialistas, mas indiscutivelmente entre as maiores do mundo –, permanece inscrita nessa lógica histórica. Esse episódio na Venezuela não interessa por ser uma anomalia; interessa porque confirma essa regra centenária.

E a regra não é americana, nem latino-americana, é o que acontece quando a energia fica escassa ou insegura. Desde a invasão da Ucrânia em 2022, a Europa reduziu sua dependência do gás russo de 45% para cerca de 12% das importações. Não porque essa dependência tenha

causado a guerra, mas porque a guerra obrigou o continente a reconstruir, em tempo recorde, rotas, contratos e alianças inteiras de segurança energética, do gás natural liquefeito americano e catari a acordos com fornecedores africanos, com o compromisso de banir de vez o gás russo até 2027. O problema, nos dois casos, não é que a energia fóssil gere conflito, é que o mundo tenta construir a transição bem no meio da sua dependência mais profunda da matriz que a transição deveria substituir.

A saída parece óbvia: acelerar a transição. Só que sair do petróleo e do carvão não é um gesto trivial; é obra de engenharia e mineração em escala inédita. Turbinas eólicas, painéis solares, redes elétricas e baterias de carro precisam de cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras em volumes que a indústria de mineração nunca movimentou. O historiador Timothy Mitchell mostrou, em Carbon Democracy, como a própria forma da democracia de massas do século XX foi moldada pelo tipo de energia que a sustentava. Trocar essa base material, argumenta ele, também reconfigura quem tem poder de barganha sobre o sistema, o que quer dizer que a pergunta sobre justiça climática não pode se limitar a quem emite carbono e quem paga por seus efeitos. Ela também precisa perguntar quem controla os minerais da nova matriz, quem os processa, quem captura o valor gerado e quem arca com o custo de extraí-los.

As respostas a essa pergunta variam e nem sempre confirmam o pior cenário. A Indonésia proibiu a exportação de níquel bruto e forçou as mineradoras a instalar fundições em seu território; hoje refina mais níquel do que qualquer outro país do mundo e mantém superávit comercial há mais de cinco anos, uma rara história de um país do Sul Global capturando, e não apenas cedendo, valor da nova economia verde. O leste do Congo, que concentra parte relevante das reservas mundiais de cobalto e coltan, mostra o oposto.

Um relatório de especialistas da ONU descreveu o grupo armado M23, que controla parte desse território, como estando sob “direção de fato” de Ruanda, para onde os minerais são contrabandeados antes de reentrar nas cadeias de fornecimento globais como se fossem de outra origem – as mesmas cadeias que abastecem, como documentou o jornalista Siddharth Kara, em Cobalt Red, as baterias dos carros elétricos vendidos na Europa. A diferença entre os dois casos está menos na geologia e mais na capacidade de cada Estado de negociar os termos da própria exploração; é a mesma pergunta, com uma resposta bem diferente, que cabe em Minas Gerais, onde o Brasil detém quase toda a reserva mundial de nióbio, mas exporta 97% do seu lítio bruto para a China, sem capturar o valor de refiná-lo.

Há ainda um terceiro tipo de resposta que nem chega a ser sobre extração, é sobre soberania. A Groenlândia, território autônomo dinamarquês, concentra uma das maiores reservas de terras raras do mundo, além de lítio, níquel e cobalto – os mesmos minerais indispensáveis a baterias, painéis solares e turbinas eólicas, e por isso mesmo passou a ser cobiçada abertamente por Washington nos últimos dois anos. A China, que hoje refina cerca de metade do lítio, quase três quartos do cobalto e mais de dois terços do níquel do mundo, também não é espectadora nessa disputa. Não é preciso presumir uma finalidade bélica para entender o que está em jogo. Um território que ninguém disputava havia um século, hoje derretendo sob o efeito do próprio aquecimento global, tornou-se ativo geopolítico pela mesma razão que o Golfo Pérsico se tornou um século atrás.

Há, aliás, um nome para esse padrão, e ele já circula dentro das próprias negociações climáticas: colonialismo climático. A expressão descreve um mundo em que os custos ambientais – inclusive os da nova economia verde – recaem de forma desproporcional sobre populações racializadas e do Sul Global, e vem ganhando peso político nas conferências do clima da ONU, onde ativistas têm articulado, com força crescente, os debates sobre clima e paz. As manifestações contra a ofensiva militar em Gaza que marcaram as últimas COPs não pretendiam explicar a crise climática a partir de um conflito específico – o que seria simplista –, mas insistir que ambos os debates remetem a uma mesma questão: que tipo de transição e de segurança energética o mundo está disposto a construir?

Nenhum desses episódios é exceção isolada. Da Venezuela ao leste do Congo, passando pelo Ártico, cada vez que a energia velha ou nova vira motivo de disputa, parte da resposta vem em forma de armamento, não de investimento; e essa resposta tem um preço que raramente entra na conta da crise climática. Em 2025, o mundo gastou US$ 2,89 trilhões em forças armadas, o maior valor já registrado e o décimo primeiro ano seguido de alta, segundo o instituto sueco Sipri. No mesmo período, o financiamento climático global superou US$ 2 trilhões pela primeira vez, mas segue muito aquém dos US$ 6 a 7 trilhões anuais que analistas calculam ser necessários até 2030 para financiar mitigação, adaptação e proteção de ecossistemas. Um relatório do secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu o desequilíbrio em um número: os países mais ricos gastam cerca de 30 vezes mais com suas Forças Armadas do que investem em adaptação climática nos países mais vulneráveis, e algo como 15% do gasto militar global de um único ano bastaria para cobrir as necessidades de adaptação de todo o mundo em desenvolvimento.

Não se trata de sugerir que basta tirar dinheiro da defesa e jogar no clima (afinal, orçamentos de segurança não se realocam por decreto e nenhum país larga as armas porque um problema mais grave apareceu). Trata-se de reconhecer que o mundo vem adiando, ano após ano, a escolha entre dois tipos de segurança: a que se compra com armas e a que se compra impedindo que o clima destrua safras, cidades costeiras e cadeias de suprimento inteiras. E quando o clima finalmente entra na conversa sobre segurança – como já entra, desde o início dos anos 2000, em relatórios de defesa dos países ricos –, costuma entrar pela porta errada: mais vigilância de fronteira do que investimento em quem já vive a crise.

O Brasil oferece um exemplo concreto e doméstico do mesmo mecanismo. Desde 2024, tramita na Câmara um projeto de lei que inclui, na definição legal de terrorismo, crimes ambientais cometidos por motivação política ou ideológica, como resposta ao aumento de incêndios de origem criminosa na Amazônia. E a Lei Antifacção, sancionada em 2026, para endurecer o combate ao crime organizado, passou a tratar a extração ilegal de minérios como agravante equiparável à atuação de facções. Isso já rendeu alertas de que a nova arquitetura penal pode, paradoxalmente, enfraquecer a fiscalização ambiental de rotina, hoje conduzida fora do aparato de combate ao crime organizado. Não é que reprimir crime ambiental seja ilegítimo, pelo contrário, em geral, é necessário. É que, uma vez dentro do vocabulário da segurança e do terrorismo, o problema ambiental muda de dono. Quem ganha competência sobre o território deixa de ser quem fiscaliza, e passa a ser quem persegue.

Volte a Caracas. Sete meses depois da captura de Maduro, o petróleo volta a fluir, os contratos se refazem, e o mundo trata o episódio como uma anomalia superada. Não é. É o mesmo paradoxo da abundância de sempre, e ele não desaparece quando trocamos o petróleo por lítio, nem quando trocamos os generais por sensores de risco climático, ele só se veste de novo. Nada disso é argumento contra a transição energética. Ela é urgente demais, necessária demais, para que se aceite que reproduza as estruturas de extração, dependência e violência da economia que promete substituir.

Se a saída dos fósseis continuar acompanhada por episódios como o da Venezuela, se a nova economia verde repetir, do Congo à Groenlândia, as fronteiras extrativas e as disputas de soberania que a antecederam, e se a militarização seguir consumindo os recursos que a resposta ao clima exige, então paz não é uma agenda paralela à justiça climática, é uma de suas condições. Não existe justiça climática sem paz porque, sem ela, toda transição energética é apenas mais uma reorganização violenta do mesmo mundo em crise, agora movida a lítio.
Gabriel Mantelli e Yago Ferreira Freire

Kilimanjaro: A Comporta já não chega

Primeiro foram os fins-de-semana na Comporta, depois a semana branca na neve, a peregrinação a Santiago de Compostela com ténis de 280 euros e mochila ultraleve comprada para transportar uma escova de dentes. Agora chegou a fase superior da evolução do “betinho português”: subir o Kilimanjaro. Já não basta o almoço no Sublime, o chapéu de palha amarrotado e a fotografia descalço junto ao arrozal. Isso já qualquer administrador não-executivo consegue. O novo luxo é sofrer. Mas sofrer longe, de preferência a 5.895 metros, com um guia tanzaniano, seis camadas de roupa e bateria suficiente para provar no Instagram que esteve onde quase ninguém do grupo de WhatsApp esteve.

O Kilimanjaro tornou-se uma espécie de Comporta vertical. A praia foi substituída pela altitude, a caipirinha pelo chá quente, a espreguiçadeira pelos bastões de trekking e o sunset pelo nascer do sol em Uhuru Peak. Mantém-se o essencial: a fotografia. Antigamente, o betinho ia de férias para descansar. Hoje vai para poder contar que não descansou absolutamente nada. “Fui ao Kilimanjaro” significa qualquer coisa entre “venci os meus limites”, “reencontrei-me”, “saí da zona de conforto” e “por favor perguntem-me quanto custou”.

Não há nada de ridículo em subir uma montanha. Ridículo é transformar uma montanha numa pós-graduação em autoestima. O Kilimanjaro, património mundial da UNESCO e ponto mais alto de África, não exige técnicas de alpinismo comparáveis às do Evereste, mas continua a ser uma ascensão exigente, em altitude séria, com risco de mal de montanha e temperaturas muito abaixo de zero. É a combinação perfeita para a nossa época: parece perigosíssimo nas fotografias, mas pode ser organizado por uma agência com guia, cozinheiro, carregadores e itinerário. É O Lado Selvagem (2007), de Sean Penn, mas com assistência em terra.

A moda encaixa maravilhosamente na transformação contemporânea do luxo. O rico de antigamente mostrava o relógio. O de agora mostra a resistência cardiovascular. Antes comprava-se um Porsche; agora compra-se uma experiência “transformadora”. Maratona de Nova Iorque, retiro em Bali, Caminho de Santiago, banho gelado, triatlo, Kilimanjaro. A vida moderna inventou o paradoxo perfeito: pagar uma pequena fortuna para viver durante uma semana como alguém que perdeu a casa, o aquecimento e o oxigénio.

E depois há o vocabulário. Ninguém sobe simplesmente a montanha. “Faz uma jornada”. “Enfrenta os demónios”. “Reconecta-se com o essencial”. “Sai da sua zona de conforto”. Aos 4.600 metros, com falta de ar e um casaco que faz parecer toda a gente figurante de Evereste (2015), de Baltasar Kormákur, a descoberta acaba por ser bastante simples: somos mamíferos e precisamos de oxigénio. O conselho suaíli é pole pole, devagar, devagar. Filosofia admirável, sobretudo para gente que passou vinte anos da vida profissional a dizer “manda-me isso para ontem”.

O cinema percebeu há muito que as montanhas são óptimas para tornar os homens pequenos e os problemas grandes. Em As Neves do Kilimanjaro (1952), de Henry King, inspirado em Ernest Hemingway — que ao que se saiba nunca lá pôs os pés —, Gregory Peck tinha Ava Gardner, Susan Hayward, memórias, culpas e uma montanha. Hoje bastam um Garmin, uma GoPro, um casamento ligeiramente cansado ou uma solidão mal assumida. Em Evereste (2015), de Baltasar Kormákur, a natureza recorda brutalmente que não lê currículos, desconhece apelidos de família e não respeita cartões Platinum. E há sempre Assalto Infernal (1993), de Renny Harlin, para aqueles que, depois de duas aulas de crossfit, começam a olhar para Stallone como se fossem colegas de profissão. O Kilimanjaro oferece ainda uma enorme vantagem cinematográfica: o cenário é tão bom que dispensa argumento. A selfie faz o resto.

Convém, porém, dizer aquilo que quase nunca cabe no enquadramento. Ninguém chega lá sozinho. A epopeia individual é, na realidade, uma produção coletiva. Guias, cozinheiros e carregadores transportam tendas, comida e equipamento montanha acima enquanto o aventureiro ocidental transporta sobretudo a narrativa da sua própria superação. A fotografia final costuma ter uma pessoa ao centro, sorridente, braços no ar, como se tivesse descoberto a nascente do Nilo, mas a subida foi feita por uma pequena aldeia logística. É o velho truque do capitalismo aplicado ao montanhismo: privatizar o heroísmo e socializar o peso da mochila.

E entretanto Portugal tem ali o Pico, nos Açores, com 2.351 metros, suficientemente alto para descobrir se as pernas concordam com a biografia que estamos a escrever para o Instagram. Mas o Pico sofre de uma deficiência gravíssima: fica em Portugal. “Subi o Pico” merece um “que giro”. “Subi o Kilimanjaro” obriga a mesa inteira a pousar os talheres. Além disso, ir aos Açores descobrir que afinal odiamos montanhas é financeiramente sensato. E sensatez nunca foi o principal combustível das modas.

Esta febre diz, no fundo, menos sobre montanhismo do que sobre a necessidade contemporânea de transformar tudo em prova. Já não basta viajar: é preciso conquistar. Já não basta envelhecer: é preciso “desafiar os limites”. Já não basta estar bem: é preciso demonstrar que se está extraordinariamente bem a 5.895 metros. E se possível antes que o vizinho, o colega do escritório ou aquele casal insuportável que já fez Machu Picchu, num pacote turístico de agência de viagens, publique a fotografia primeiro.

Há evidentemente quem suba o Kilimanjaro por paixão genuína, treine durante meses, respeite a montanha, os guias e os carregadores e regresse realmente transformado. Não é desses que falo. Falo daquilo em que conseguimos transformar todas as coisas belas assim que descobrimos que conferem estatuto: uma moda, um uniforme, uma tribo e finalmente um pack premium. A aventura transformada em acessório de classe.

Ontem era a Comporta. Hoje é o Kilimanjaro. Amanhã talvez seja a Antártida, desde que haja Wi-Fi, catering sem glúten e alguém que leve as malas.

A humanidade, afinal, não mudou assim tanto. Continuamos a subir montanhas porque elas estão lá. Só acrescentámos uma razão muito século XXI: porque os outros também estão no Instagram.

Os milhões de argentinos endividados: 'Não tentamos mais refinanciar porque é impagável'

Eliana Yaynes e Iván Venencio se conheceram em uma manhã durante a transmissão de um programa de rádio.

"Você veio devido à questão da dívida?", perguntou ela, com naturalidade. "Sim", respondeu ele.

Ambos estavam ali para falar de um problema hoje bastante comum na Argentina.

Segundo os números do Banco Central do país e de consultorias locais, mais de 20 milhões de cidadãos estão endividados e cerca de 6 milhões estão em mora, ou seja, com seus pagamentos em atraso ou simplesmente inadimplentes.

Em um país com pouco mais de 46 milhões de habitantes, um a cada três argentinos enfrenta problemas para liquidar a dívida adquirida com bancos, carteiras digitais, lojas de eletrodomésticos ou agiotas, como aponta a consultoria Analytica.

No mesmo dia da entrevista de Yaynes e Venencio à emissora de rádio, em 20 de agosto, ocorreu na capital argentina, Buenos Aires, a primeira marcha de cidadãos endividados. Eles reivindicaram mecanismos para refinanciar suas dívidas e protestaram contra a decisão de não intervir na crise, que tem marcado o governo do presidente Javier Milei.


Funcionários do governo argentino definiram esta situação como "uma questão entre entes privados".

Milei atribuiu o aumento do número de endividados ao auge da compra de televisores para a Copa do Mundo de Futebol. Ele chegou até a perguntar, durante entrevista ao jornal argentino La Nación, se alguém havia colocado "uma pistola na cabeça" dos devedores para que eles se endividassem.

A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) entrou em contato com a Presidência argentina, pedindo comentários sobre a declaração do mandatário do país, mas não houve resposta até o momento da publicação desta reportagem.

Yaynes comemorou a vitória de Milei na última eleição presidencial argentina, quase três anos atrás. Agora, ela afirma que ouvir este tipo de raciocínio parece surreal.

"Eles não podem pensar que alguém tenha se endividado por capricho", declarou ela, de Buenos Aires. "Tipo 'eu estava entediada e achei que o melhor para a minha vida seria me endividar'. Este menosprezo é muito triste e degradante."

Yaynes e seu marido estão pagando quatro empréstimos.

"Não fiz os cálculos exatos, mas, antes do quarto empréstimo, eu calculava que devia cerca de 10 milhões de pesos (US$ 6.620, cerca de R$ 34,1 mil)".

"Se você não conseguir sanear as dívidas e quiser pagar, precisará contratar crédito", explica Venencio. Ele não votou em Milei, nem no seu adversário peronista, Sergio Massa, na última eleição presidencial.

"O governo faz isso quando vai ao FMI [Fundo Monetário Internacional]. Por que nós, da microeconomia, não vamos fazer?"

Ele e sua esposa devem hoje a bancos e a familiares.

"Entre os dois cartões do meu banco, devo 10 milhões de pesos [US$ 6.620, cerca de R$ 34,1 mil] em cada um", ele conta.

"Nos dois cartões da minha mulher no banco dela, devemos 8 milhões [US$ 5.295, cerca de R$ 27,3 mil] em um e 9 milhões [US$ 5.957, cerca de R$ 30,7 mil], no outro."

Venencio se lembra perfeitamente do dia em que tudo começou a sair de controle: 9 de fevereiro de 2025.

Até então, ele e sua esposa trabalhavam como assalariados e ele ainda tinha outra renda, como motorista de aplicativo. Com esta renda adicional, eles conseguiram, por exemplo, tirar as férias no Brasil que haviam planejado para fevereiro.

Mas, assim que chegaram ao território brasileiro, com sua "família misturada" (cada um com seu filho), ele ficou sabendo que seu sogro havia morrido.

"Tiramos, então, passagens para minha mulher e o filho dela poderem voltar", ele conta. "Foi um gasto que não havíamos planejado e, obviamente, saiu do cartão."

"Depois, minha esposa perdeu uma gravidez em março e isso, aliado à perda do seu pai, fez com que ela tirasse licença psiquiátrica no seu trabalho", conta Venencio, de Buenos Aires, para a BBC.

Em agosto de 2025, o carro que ele usava para obter renda adicional pegou fogo. O seguro pagou apenas a metade dos gastos e ele precisou se endividar mais para fazer o conserto. Paralelamente, a renda do aplicativo era cada vez menor.

"Muitas pessoas do país foram ficando sem trabalho e começaram a trabalhar com o carro", explica ele.

"Para dar uma ideia, quando comecei, em 2021, eu ganhava cerca de 1,8 milhão de pesos [US$ 1.191, cerca de R$ 6,1 mil] trabalhando meio período. Em alguns meses, já estava faturando menos de um milhão [US$ 660, cerca de R$ 3,4 mil]. E o aluguel do apartamento, a luz e o gás continuavam subindo."

Em novembro, Venencio entrou em depressão. Em seguida, ele e sua mulher ficaram sem trabalho.

A esposa conseguiu recentemente um novo emprego e ele, agora, dirige seu carro entre 10 e 12 horas por dia para poder pagar os gastos mínimos da família, mas não sobra dinheiro para a dívida.

"Quando você começa a olhar os juros, aquilo se tornou totalmente impagável. Não tentamos mais negociar refinanciamento porque não podemos pagar."

O diretor do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), Hernán Letcher, elaborou um relatório sobre o endividamento no país. Para ele, o número de 20 milhões de pessoas endividadas não é o dado mais preocupante.

"Veja bem, se vou comer hoje à noite e pago com cartão, entre o momento do jantar e o pagamento, estou endividado", explica ele.

"Para mim, o problema são os seis milhões de pessoas em mora, ou seja, que têm 90 dias de atraso no pagamento da sua dívida."

Para agravar a situação, segundo Letcher, 55% dos quase seis milhões (cerca de 3,5 milhões de pessoas) detêm dívidas que, tecnicamente, são consideradas irrecuperáveis, como as de Venencio, que as chama de impagáveis.

O outro fator que deve ser considerado é o motivo que leva as pessoas a se endividarem.

Letcher destaca que, se alguém pede crédito para comprar um telefone celular, isso é positivo para a economia. Mas, se o empréstimo for para pagar as refeições do dia ou os serviços básicos, a situação é oposta.

"Conversei com diversos presidentes de bancos que me confirmaram que cerca de 90% do atraso de pagamento de cartões de crédito são compras de supermercado — basicamente, alimentos", segundo ele.

Na sua opinião, o alto número de devedores em atraso é consequência da queda da renda dos lares argentinos, que foi compensada pelo endividamento.

"Veja, estou na cidade de Buenos Aires", explica Letcher. "Aqui, o metrô aumentou 2000%; o trem, 1800%; e os serviços, 850%. Mas os salários subiram 300%."

"E estou falando de gastos que as pessoas precisam pagar sem terem opção, pois elas não podem deixar de pegar o transporte."

"Então, quando faço uma dívida para pagar a luz, no mês seguinte preciso pagar a luz outra vez e ainda tenho a dívida", destaca ele.

Eliana Yaynes não se lembra de um dia específico em que tudo saiu de controle. Seu processo foi mais gradual.

No início de 2025, ela trabalhava como responsável por uma loja de decoração e revestimento. Mas, em busca de um salário melhor, ela conseguiu emprego no setor de vendas, em um atacadista.

"O problema é que, quando comecei no meu novo emprego, meu corpo não respondeu", explica ela.

"Trabalhei em vendas até completar 30 anos. Eu andava, saía, ia visitar clientes. Mas, agora, com 47, o corpo cobrou a conta. Todos os dias, eu saía, tentava e morria tentando, até que saí de lá."

Paralelamente, seu marido trabalhava há anos como motorista de aplicativos. Ele viu sua renda ser reduzida, devido à quantidade de pessoas que também começaram a trabalhar atrás do volante.

"Essa superpopulação fez com que, obviamente, nossa renda diminuísse muito", prossegue ela.

"E, comigo sem trabalho, começamos a fazer pagamentos com cartão que, antes, não fazíamos, como os gastos do carro: combustível, peças de reposição, trocas de óleo e filtros."

O cartão que eles usavam era o adicional do cartão do pai de Yaynes. E, com a falta de dinheiro, a única ferramenta que eles tinham para pagar era uma carteira digital.

"O que fazíamos era tentar financiar tudo em parcelas", ela conta.

"Mas, em algum ponto, era uma espécie de mentira imaginar que, parcelando, as parcelas são pequenas. Depois, por menores que sejam, se forem muitas, aquilo se torna uma bola de neve."

Em janeiro deste ano, Yaynes foi diagnosticada com câncer de mama, que ela atribui, em parte, à angústia pelas finanças familiares. E a doença a surpreendeu sem plano de saúde privado.

"Em outubro do ano passado, devido às complicações financeiras, deixamos de pagar a mensalidade do plano de saúde", explica ela. "Mas, agora, isso volta a ser prioridade e precisamos colocar estes pagamentos mais ou menos em dia."

"Por isso, todos os meses, pagamos a mensalidade mais antiga que devemos, pois não temos dinheiro para colocar toda a dívida em dia."

A Central Geral de Trabalhadores da Argentina (CGT) organizou a manifestação de 20 de agosto, em defesa dos trabalhadores endividados. Mas também participaram grupos como os Endividadxs Organizadxs, formados pela aproximação espontânea de pessoas com dívidas.

Fernando Moyano é um dos três porta-vozes deste grupo. Ele contou que tudo começou com uma dívida que ele não conseguia liquidar.

Moyano pensava que aquilo "era um fracasso pessoal meu, pura e simplesmente". Até que começou a entrar em contato com outras pessoas na mesma situação.

Nos seus contatos com pessoas endividadas, ele encontrou desde jovens que não conseguem um trabalho formal com salário decente até aposentados que perderam o acesso a certos remédios no serviço público de saúde e se endividaram para pagar pelos medicamentos.

Ele também conversou com pessoas que se endividaram com apostas esportivas, cassinos digitais e jogos no celular.

"A questão do instantâneo, que permite, por exemplo, sacar um crédito em minutos no seu telefone para uma carteira digital, traz problemas similares aos do jogo", explica Moyano.

"As pessoas tentam a sorte porque acham que isso não irá mudar muito sua situação financeira, até que chegam as dívidas de jogo e, com elas, a culpa e a vergonha."

A principal reivindicação do grupo Endividadxs Organizadxs é uma declaração nacional de emergência de crédito, que reconheça oficialmente a existência da crise e leve à tomada de medidas para combatê-la, como a regulamentação dos juros que podem ser cobrados dos devedores.

Moyano não espera uma reação positiva por parte do governo Milei, mas aposta nos projetos de lei apresentados por diversas bancadas no Congresso argentino.

Hernán Letcherz, do Cepa, explica que os bancos, depois de 180 dias de atraso, podem renegociar a dívida com o cliente, não emprestar mais dinheiro enquanto a dívida não for paga ou vender a carteira para uma agência de cobrança terceirizada.

Quando a pessoa não pode mais recorrer ao banco, sua outra alternativa, além dos familiares e amigos, é pedir emprestado a uma carteira digital ou fintech. Estas empresas fazem uso das inovações digitais para oferecer serviços financeiros rápidos, fáceis e acessíveis.

"É muito fácil obter crédito nestes aplicativos", explica Letcher.

"Abro o aplicativo, aperto um botão e tenho o dinheiro na minha conta. Depois, preciso pagar. Acredito que esta facilidade também ajudou a aumentar o nível de endividamento."

O diretor da consultoria Analytica, Claudio Caprarulo, destaca que a adoção das carteiras digitais se consolidou na Argentina durante a pandemia.

Estes fornecedores de serviços financeiros digitais se dedicaram, desde o princípio, ao setor informal em crescimento: trabalhadores sem contrato de trabalho seguro, direitos trabalhistas, previdência social e representação sindical.

"A Argentina tem um problema de informalidade muito grande e o que as fintechs fazem é se dirigir a este público", explica Caprarulo.

"Elas dizem aos bancos 'vou emprestar a alguém a quem você não empresta' e chamam isso de 'inclusão financeira'."

Os níveis de atraso de pagamento dos devedores das carteiras digitais costumam ser mais altos que os dos bancos. E, como as entidades bancárias, as fintechs podem vender estas carteiras de devedores a empresas que se dedicam exclusivamente à sua cobrança.

Estas empresas, segundo Letcher, podem telefonar para a pessoa endividada a qualquer momento e até divulgar sua condição de devedor.

"É muito traumático, conheço muitos casos em que telefonaram para a empresa da pessoa dizendo que ela estava endividada", ele conta.

O terceiro passo da precarização do endividamento, depois de não poder solicitar crédito ao banco, nem a uma carteira digital, é pedir dinheiro para agiotas, a taxas de juros totalmente desregulamentadas.

A forma de cobrança pode fazer com que alguém entre na casa da pessoa em atraso para levar os móveis da cozinha ou o televisor, explica Letcher.

O secretário de Segurança da província de Buenos Aires (governada pelo peronismo), Javier Alonso, declarou à imprensa local que este tipo de cobrança vem se tornando cada vez mais violento.

"Os crimes (homicídios, tentativas de homicídio, ameaças, tiros nas pernas) causados por dívidas com criminosos, com pequenos traficantes que emprestam dinheiro, dobraram", ele afirma.

"As famílias começam pedindo um milhão de pesos [US$ 660, cerca de R$ 3,4 mil] e, em cinco meses, devem 25 milhões" (US$ 16.545, cerca de R$ 85,3 mil).

A BBC News Mundo perguntou ao porta-voz do grupo Endividadxs Organizadxs quais são os obstáculos encontrados pelas pessoas que querem pagar suas dívidas, mas não conseguem. Fernando Moyano enumerou três deles:

"As taxas de juros abusivas praticadas pelas carteiras digitais e mesmo pelos bancos; os salários, que estão congelados e defasados em relação à inflação; e as tarifas dos serviços básicos, que estão acima da inflação."

Em relação às taxas de juros, Caprarulo destaca que, embora a política fiscal do governo Milei não tenha se alterado (ela continua apostando na sua "motosserra" e no corte de gastos), a política monetária e a gestão das taxas de juros foram mais erráticas.

"Isso gerou saltos muito grandes das taxas de juros e muita volatilidade", explica ele. "Quando os atrasos de pagamento começaram a aumentar, as taxas de juros para as famílias ficaram em níveis muito altos em relação à inflação."

O diretor da Analytica indica que a taxa nominal anual (TNA) está em 70% "nos bancos que emprestam mais barato", enquanto a inflação projetada para os próximos 12 meses é de cerca de 30%.

Esta informação relativa aos bancos é mais precisa que a existente sobre outras instituições, como as carteiras digitais, explica Caprarulo. O motivo é que estes serviços muitas vezes modificam suas taxas dependendo do cliente e do empréstimo a ser concedido.

"Você abre uma carteira digital no seu celular e ela dirá a você, por exemplo, que, devido ao seu registro de crédito e à sua renda, irá emprestar dinheiro a tal taxa, que pode ser melhor que a que ela irá oferecer para mim", segundo Caprarulo.

"Ao mesmo tempo, o setor das fintechs empresta por prazos muito menores. Você pode sacar um empréstimo por 10 dias e, neste caso, a taxa é diferente."

Para Lechter, "quando você passa de um banco para uma carteira, passa de um custo financeiro total [o valor total do crédito ou financiamento, incluindo as taxas de juros, os gastos de concessão, de liquidação, IVA e adicionais] de 180% para um custo financeiro total que pode chegar a 1500% e o nível de exigência na cobrança não é o mesmo."

As fintechs costumam se defender indicando que emprestam dinheiro para pessoas do setor informal, com risco maior de não conseguir pagar os empréstimos. Por isso, quanto maior o risco, maior a taxa.

A BBC entrou em contato com o Ministério da Economia da Argentina para conhecer a posição do ministro Luis Caputo sobre os níveis de endividamento do país, o papel do Estado e as taxas de juros cobradas pelas carteiras digitais.

A porta-voz do Ministério nos indicou uma entrevista coletiva do último dia 13 de agosto. Consultado sobre as taxas de juros dos serviços financeiros digitais, que oscilam entre 400% e 700%, Caputo respondeu na ocasião:

"Se estão cobrando taxas de 400% e 700%, elas obviamente são abusivas. Hoje, não há nada que os impeça de fazer isso. Esta é a realidade."

Questionado se o Estado iria intervir, o ministro reiterou que se trata de uma "questão entre entes privados".

"É preciso não confundir empatia com políticas públicas", concluiu Caputo.

A eleição do contra

Os brasileirinhos entraram, oficialmente, na campanha presidencial. Os candidatos já estão nas ruas, nas redes sociais e, desde sexta-feira, no horário eleitoral. Agora começará aquele período em que todo político aparece sorrindo, toda família parece feliz e toda cidade ganha hospital, escola, estrada, emprego e saneamento — pelo menos durante os trinta segundos do comercial. Tudo no espaço cibernético.

Mas a eleição de 2026 apresenta um problema mais sério. O brasileirinho poderá chegar à urna não para escolher o candidato em quem confia, mas para impedir a vitória daquele que não aguenta nem ouvir o nome.

É a eleição do contra.


A metade é contra o Lula. A outra metade é contra qualquer Bolsonaro. Contra o PT. Contra o PL. Contra a esquerda. Contra a direita. Contra o sistema. Contra tudo isso que está aí — embora quase ninguém explique, claramente, qual o tipo de gente pretende colocar no lugar. Isso não pode dar certo!

A pesquisa Quaest de agosto mostrou um retrato impressionante: Flávio Bolsonaro era rejeitado por 54% dos entrevistados; Lula, por 52%. Ou seja, os dois principais concorrentes despertavam mais resistência do que confiança em boa parte do eleitorado. É melhor votar no Drácula! Assim, elegeríamos um rejeitado por 101% dos eleitores. Ou não?

Outra pesquisa, do BTG/Nexus, divulgada em 24 de agosto, mostrou Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno. Num eventual segundo turno, surgiam praticamente amarrados: 46% a 45%. Eu quero acreditar, mas sou um brasileirinho moído pelas pesquisas.

A fotografia é curiosa. Dois candidatos fortíssimos para chegar ao segundo turno e, ao mesmo tempo, rejeitados por aproximadamente metade do país. Assim está o Brasil. A metade é muito ruim e a outra metade é péssima. Será Drácula x Hitler.

O trabalhador quer saber por que o salário acaba antes do fim mês. O comerciante quer crédito mais barato. O jovem quer o primeiro emprego ou a primeira bolsa-voto. A família quer segurança. O aposentado precisa de atendimento médico. O empresário quer estabilidade para investir. E a Amazônia deseja descobrir se continuará aparecendo apenas em discursos internacionais ou se finalmente será incluída num projeto nacional de desenvolvimento. E o risonho Paraguai…comemora.

Todavia, a campanha prefere o terreno das emoções. É mais fácil produzir indignação do que apresentar uma planilha. É mais rápido atacar o adversário do que explicar uma reforma. E rende muito mais curtidas anunciar que o outro destruirá o Brasil do que revelar como serão pagos os bilhões prometidos no palanque.

A pergunta que deveria perseguir todos os candidatos é pequena, simples e devastadora:

Como?

Vai reduzir os impostos? Como?

Vai aumentar os investimentos em saúde e educação? Como?

Vai baixar os juros, equilibrar as contas públicas e ainda ampliar os programas sociais? Como?

Vai combater o crime organizado, que movimenta fortunas e já ocupa territórios? Como?

Vai desenvolver a Amazônia sem transformá-la nem em santuário intocável nem em terra arrasada? Como?

O simpático “como” é o detector de mentiras da política. A promessa encanta; o “como” obriga o candidato a apresentar dinheiro, prazo, equipe, pesquisa, inteligência, honradez, prioridades e capacidade de negociação.

Presidente também não governa por decreto celestial. Precisa do Congresso, dos governadores, do orçamento e de uma equipe competente. Portanto, o eleitor deveria perguntar não somente quem vencerá a eleição, mas quem terá condições de governar um país, como o Brasil, no dia seguinte. O Brasil, de hoje, deseja mostrar ao mundo, a vitória do modelo cubano: 6.800.000 brasileiros trabalham para 10.236.932 viverem de bolsa família. Há mais brasileirinhos dizendo que a conta é muito maior. As Guianas também estão adorando as fábricas brasileiras chegando.

A democracia perde qualidade quando o voto deixa de ser uma esperança e se transforma apenas numa vingança. Quem vota exclusivamente para derrotar o inimigo entrega ao adversário o poder de decidir a sua escolha. O eleitor pensa que está mandando, mas está apenas reagindo.

O Brasil não precisa de uma campanha silenciosa, sem confronto dos principais candidatos ou diferenças. Democracia exige debate, comparação e até alguma acidez. Até 4 de outubro, os candidatos dirão muitas vezes quem ameaça o Brasil. Está na hora de cada um explicar qual Brasil pretende construir: o chinês, o cubano ou o americano.

Democracia não é escolher quem odiamos menos. É escolher quem sabe o que fazer, demonstra como fará e revela quanto custará.

Os brasileirinhos precisam sair dessa eleição do contra e voltar a votar a favor de alguma coisa que valha a pena.