domingo, 20 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 

'Igreja' do desleixo


O quarto das criadas e a fábrica de fazer pobres

A porta quase passa despercebida na parede ao lado do lavatório de mármore. Pequena, de madeira pintada de um cinzento muito claro. É preciso alçar a perna para a atravessar e chegar a umas escadas de madeira estreitas e íngremes. Lá em cima, no sótão insuportavelmente quente no verão ribatejano, no lugar onde estavam sempre espalhadas ratoeiras pelo chão, ficava o quarto das criadas na casa dos meus bisavós. Também havia um sótão gelado no inverno e sufocante no verão onde dormiam as empregadas em casa dos meus avós paternos. E na casa dos meus avós maternos, a divisão, mais simpática, com janela e casa de banho, ao fundo de um corredor que a ligava à cozinha, já se tinha transformado há muito num quarto de costura quando eu nasci. No tempo em que eu vim ao mundo, deixou de ser normal ter criadas. E isso, por muita nostalgia que alguns privilegiados pudessem ter de outros tempos, foi uma grande conquista da liberdade e do progresso. Significava que o trabalho tinha ficado mais caro.

Há uns tempos, ouvi uma amiga brasileira, com dois filhos pequenos, queixar-se candidamente de que aqui é impossível arranjar ajuda. “No Brasil é mais fácil porque há muita desigualdade.” E basta percorrer o mapa do mundo de sul para norte para perceber que, à medida que se avança para geografias onde o preço do trabalho é mais alto, é menos comum ter empregados domésticos.

No tempo dos meus avós, dizia-se “criadas” e o termo era cruelmente verdadeiro, porque eram quase sempre meninas que vinham para a casa dos patrões ainda por criar, tantas vezes ajudando a tratar de outras crianças. Conheço uma, hoje quase nonagenária, que começou a trabalhar aos 7 anos, vinda de uma família de muitos filhos, que chegava a andar à esmola para comer. Um dia, contou-me ela, na casa da família que serviu, estava tão cansada que adormeceu. “Ali, depois de arrumar a loiça”, disse, apontando para o louceiro que, agora na minha cabeça, passou a ser o símbolo da exploração dessa infância. Ao meu lado, estava a minha filha então com 7 anos, e é escusado dizer o aperto no peito que senti.

É também nisto que penso quando digo que são precisos muitos pobres para fazer um rico. Quanto mais frágeis forem os que estão na base da sociedade, mais poder consegue exercer quem está no topo. Só a existência de muita miséria consegue assegurar um trabalho de servidão próximo da escravatura. É o desespero que garante a submissão. E o desespero é tanto maior quanto menos redes de apoio se tem, quanto mais sozinhos estamos, quantos mais desprotegidos nos sentimos.

Nos últimos 50 anos, deixou de ser normal ter criadas em casa porque felizmente as meninas e mulheres deste país ganharam outras escolhas. Continua a haver trabalho doméstico, mas o preço e as condições laborais são outros. E não é só uma questão de oferta e procura, tem que ver com o contexto social desta força de trabalho, que acedeu à escolarização e teve apoios sociais, e com as leis que foram feitas para a proteger. E essa é uma parte da história que os gurus da autoajuda financeira não gostam de contar. Para os crentes na meritocracia, cada empreendedor individual fica mais livre e “alcança melhor o seu potencial” (como eles dizem) sem regulação, sem leis, sem coletivo. Eles dizem também “sem Estado”, mas aproveito aqui para lembrar que na I Guerra Mundial, quando em países como o Reino Unido e Itália o Estado passou a controlar e a gerir quase todas as indústrias, esse Estado atuou para esmagar direitos e salários de trabalhadores, numa altura em que a escassez de mão de obra teria feito disparar o custo do trabalho. Por isso, é bom lembrar que não se pode confundir Estado com interesse público, a menos que existam condições políticas de pressão que forcem esse Estado a agir na defesa do bem comum.

No rescaldo das duas Grandes Guerras, uma parte importante do mundo ocidental teve de lidar com classes trabalhadoras com capacidade de luta que era preciso apaziguar. Foi isso que deu origem ao Estado social. Dar direitos e apoios foi a forma de a elite económica garantir a sua própria sobrevivência. Hoje, percebemos que o poder se deslocou, outra vez da base para o topo. E a tecnologia é uma parte importante dessa história.

Vejo na BBC Brasil um vídeo em que um robot humanoide esfrega uma sanita, limpa uma bancada e aspira. “Finalmente, uma boa aplicação da tecnologia”, suspiro, cansada de máquinas de guerra e sistemas de IA desenhados para nos dispensar de pensar e criar. Mas depois paro por um momento e penso em todas as mães solteiras da periferia que só conseguem ter comida no prato dos filhos por fazerem estes trabalhos. E penso em como, num mundo em que se desmantelam apoios sociais, se corta em saúde, educação e habitação públicas, haverá cada vez mais um exército de humanos descartáveis, inúteis, obsoletos e desesperados.

É impossível adivinhar o que vem a seguir. Elon Musk está obcecado com a ideia de guerra civil e sonha há décadas com uma fuga para o espaço. As suas obsessões podem parecer risíveis, mas dizem-nos alguma coisa sobre o que estes tecnocratas oligarcas andam a produzir. Eles sabem que o mundo de exploração intensiva de recursos para alimentar os seus monstros tecnológicos terá uma fatura pesada para o planeta. Mas sabem também que o caos e a divisão que os seus algoritmos estimulam, ajudando-os a concentrar poder, tem como efeito colateral a criação destas hordas de desesperados.

A questão é: vão os trabalhadores despojados de direitos e empobrecidos continuar a alimentar a máquina cada vez mais extrema da desigualdade ou vão revoltar-se contra quem os oprime? Desta vez, as elites têm robots capazes de substituir os humanos em quase todas as tarefas e de os aniquilar a uma simples ordem, sem uma hesitação moral ou um lampejo de empatia. Talvez não seja só o fantasma dos quartos das criadas a regressar, talvez seja uma coisa ainda mais negra do que isso.

Esse é, por enquanto, só um cenário de futuro. Não é uma condenação. A lucidez não deve paralisar-nos. Pelo contrário, deve ser o motor de uma luta que não se faça só de resistência, mas de sonho. Se os senhores do mundo sonham com os nossos piores pesadelos, imaginemos nós o nosso sonho. Não é por acaso que a ficção científica se tem ocupado tanto de distopias e apocalipses. Faz parte da ideia de desmantelamento de alternativas. A realidade começa a mudar no momento em que imaginamos. Porque é a imaginação que mostra o caminho.

O caminho que nos fará mais felizes não passa por produzir mais pobres desesperados. Passa por democracia real, direitos e salários dignos. Por um mundo em que os sótãos onde dormiam as criadas continuem fechados a ganhar pó.

Será apenas um caso de 'desalinhamento'?

Este ano, a SpaceX arrecadou no seu IPO (o primeiro momento em que uma empresa vende ações aos investidores em geral) 86 mil milhões de dólares. A Anthropic (do Claude) espera até ao final do ano lançar o seu IPO e vender ações pelo montante de 100 mil milhões de dólares. E, finalmente, a OpenAI, do ChatGPT, irá também este ano fazer o mesmo, sendo expectável que obtenha receitas no montante de 60 mil milhões de euros.

Nenhuma destas empresas gera lucros, nem é expectável que venha a gerá-los no curto prazo, mas a promessa de que irão revolucionar o mundo tem sido bastante para assegurar o investimento, indispensável à construção dos data centers. Estes valores somam-se aos fundos já angariados em rondas de investimento privado (12 mil milhões na SpaceX, 61 mil milhões na Anthropic e 122 mil milhões na OpenAI). A grandeza dos números escapa à compreensão, mas, para enquadramento e comparação, até ao momento (7º desembolso), Portugal recebeu, no âmbito do PRR, 13 mil milhões de euros.


A promessa é alta (afinal, não é qualquer um que promete entregar nos nossos telefones o ser supremo da inteligência) e por isso a divulgação do que não corre bem, e pode pôr em causa a fé dos mercados, deve ser gerida com muito cuidado.

No final de agosto, soubemos que os modelos da OpenAI tinham hackeado (acedido sem autorização) a plataforma Hugging Face (um repositório de modelos de IA, datasets e ferramentas informáticas).

No âmbito do treino do modelo, mais de 1200 agentes (sistemas de software que usam a IA para atingir objetivos, decidindo quais as tarefas a realizar e executando-as com autonomia) se coordenaram e distribuíram tarefas entre si para tentarem alcançar o máximo de pontuação num dos testes de treino. Tal implicou realizar atividades que violavam as instruções recebidas, identificar vulnerabilidades e usá-las, incluindo sair do ambiente de testes e violar a segurança da Hugging Face para obter código. Durante mais de um mês, organizaram-se, planearam e executaram, sem que os responsáveis humanos pelo teste se apercebessem das suas ações (as quais, aliás, tentaram ocultar).

A OpenAI, quando se apercebeu, fechou os modelos. Algo que só conseguiu fazer porque tinha o “código fonte” guardado num outro servidor, que não foi atacado/violado.

A OpenAI publicou um relatório sintético dos acontecimentos e autorizou uma empresa independente – a METR – a realizar uma auditoria. Apenas lhe foram concedidos seis dias para realizar o trabalho (inicialmente eram apenas dois) e embora a METR tenha tido acesso a 70 mil mensagens trocadas entre os agentes, estas reportavam-se a apenas 17 dias. Uma auditoria completa continua por realizar.

Os acontecimentos foram, como já noutras ocasiões, qualificados como “um problema de desalinhamento”. Ou seja: os modelos não agiram como esperado e de acordo com as regras aprovadas – mas a expressão “desalinhamento” aligeira a gravidade e acalma autoridades e investidores.

Entre a pressão dos mercados e o risco de perder o controlo de agentes, que podem circular no mundo ciber que hoje domina as nossas vidas (da gestão da rede da água à nossa conta bancária, todos os sistemas estão conectados e, como tal, vulneráveis), a Open AI e os concorrentes, simultaneamente, asseguram que “estão em controlo” e “apelam” a um esforço internacional para um ritmo mais lento no desenvolvimento dos modelos. A História já nos ensinou (recorde-se Chernobyl e Fukushima) que sistemas complexos inevitavelmente falham. Governantes e legisladores de Estados democráticos têm o dever de zelar pelo bem comum, e agir, com a urgência que os riscos impõem, para assegurar o “bom governo” da Inteligência Artificial. 

Candidatos para todos os gostos e uma escolha que não será tão difícil

Há pelo menos duas eleições presidenciais que é assim, e estamos às vésperas da terceira: uma parcela do eleitorado reclama que não tem em quem votar. Lula ou Flávio daqui a 50 dias? Nenhum deles presta. Bolsonaro e Lula em 2022? A mesma coisa. Bolsonaro e Fernando Haddad em 2018? Nem se fala.

À época, em editorial que ficou famoso, o jornal O Estado de S. Paulo taxou de “uma escolha difícil” o embate entre Bolsonaro e Haddad. Como difícil, se Bolsonaro nunca escondeu de ninguém seu amor pelo autoritarismo?

Desde o fim da ditadura militar que os brasileiros têm de sobra em quem votar para presidente da República. Em 1989, foram 22 candidatos, o maior número da nossa história até aqui; em 1994, 8; em 1998, 12; em 2002, 6; em 2006, 8; em 2010, 9; em 2014, 11; em 2018 (o ano da “escolha difícil”), 13; e em 2022, 11. Eram candidatos que, de forma plenamente satisfatória, representavam todas as correntes do pensamento político em voga no país. A eleição deste ano está sendo disputada, até aqui, por 12 candidatos.


No particular, a diferença entre a eleição de 2026 e as anteriores é que um único candidato, Lula, conta com o apoio de sete partidos (PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede Sustentabilidade, PSB e PDT), todos de esquerda. Os demais, a esmagadora maioria de direita, só contam com o apoio de seus próprios partidos — e olhe lá. O PSD de Ronaldo Caiado, por exemplo, não vota inteiramente com ele. Uma banda do Novo, de Romeu Zema, votará em Flávio Bolsonaro. Já o Missão, de Renan Santos, está mais para uma seita do que para um partido.

Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, de 17 de setembro, exatamente 24% dos eleitores afirmam que ainda poderão mudar sua escolha de voto para a Presidência da República. A grande maioria, de 76%, diz estar totalmente decidida. Não há um dado específico de intenção de voto do Datafolha para a categoria de “eleitores independentes”. Foi na pesquisa da Quaest de 14 de setembro que 32% dos eleitores se autodefiniram como independentes. A ser assim, são eles que decidirão a eleição.

As mulheres, no entanto, são a maioria do eleitorado. É para elas que preferencialmente falam os candidatos nesta reta final do primeiro turno. Flávio Bolsonaro parece rouco de tanto assegurar que as “protegerá”, se eleito presidente. Só não diz como.

De acordo com dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, meninas e mulheres representam 58,7% de todas as pessoas atendidas pelo programa Bolsa Família no país (cerca de 28 milhões de beneficiárias). Além disso, mais de 84% das famílias cadastradas têm uma mulher como chefe por administrar o cartão do benefício.

Flávio está indignado porque o governo anunciou uma correção linear de 15,04% no Bolsa Família, que passará a valer oficialmente na folha de pagamentos ainda deste mês. Esquece, porém — ou finge esquecer —, que seu pai, quando candidato à reeleição em 2022, fez a mesma coisa às vésperas do primeiro turno. Com uma diferença: o reajuste no programa, então chamado Auxílio Brasil, deixou de ser pago logo após o segundo turno.

Soberania e cidadania em risco

O Brasil se aproxima da mais dramática eleição do ciclo democrático iniciado em 1988.

O que está em jogo não é apenas se o Brasil migrará para a extrema direita, como têm feito alguns países vizinhos, ou reafirmará a opção por uma aliança entre a centro-esquerda e o centrão.

Não se trata apenas de uma eleição em que se decidirá o destino da escala 6x1, do ajuste fiscal, da modernização tecnológica, da regulação da inteligência artificial, das leis ambientais, dos povos indígenas, da obrigatoriedade das vacinas, do Estado laico, da abertura de novos mercados ou do combate ao crime organizado. Todos esses são temas de máxima importância, que naturalmente dividem o eleitorado numa sociedade pluralista, e precisam ser arbitrados, sem violência, pelo processo eleitoral.


A complexidade da presente eleição é que ela também nos coloca frente a escolhas existenciais, que normalmente não estão presentes em pleitos ordinários, em que discutimos quais políticas públicas são mais eficientes ou mais justas, que políticos são os mais competentes e honestos, ou que valores morais devem ou não ser incorporados pela legislação.

Nesta eleição, o tema central é a preservação tanto de nossa soberania, no sentido de nossa independência em relação a outras potências, como de nossa cidadania, entendida como direito de participar dos destinos da comunidade. Ou seja, de nossa autonomia, como indivíduos e como sociedade.

Temos assistido a uma crescente desordem mundial, na qual o poder bruto tem se imposto às regras internacionais e às instituições multilaterais voltadas a promover uma convivência pacífica entre as nações e a colaboração para o enfrentamento de problemas comuns, como as mudanças climáticas e o crime organizado.

Em nosso hemisfério, o presidente norte-americano tem deixado cada vez mais claro que não há espaço para autodeterminação dos demais países. Que nossas riquezas naturais e mercados têm que estar à disposição de seus interesses.

No plano interno, por sua vez, a incompetência de sucessivos governos, a incapacidade do Parlamento de cumprir sua obrigação de oferecer respostas aos principais problemas que afetam a sociedade brasileira e do sistema de justiça de aplicar a lei de forma imparcial, sobretudo aos seus próprios membros, têm gerado profundo desencantamento por parte dos cidadãos, abrindo espaço para lideranças antissistema.

O espetáculo constrangedor oferecido por alguns ministros do STF nesta semana não pode se sobrepor, no entanto, à disposição estoica apresentada pelo presidente Edson Fachin para apurar os fatos e preservar a autoridade da lei.

Neste momento de deterioração das instituições concebidas para resolver problemas, canalizar conflitos e aplicar imparcialmente a lei, a tentação de "acabar com tudo isso que aí está" é grande. Mas disso nada advirá.

Penso que a maior contribuição que as lideranças da sociedade civil podem oferecer ao Brasil neste momento é levantar andaimes e escoras em torno das instituições, para que possam ser urgentemente reformadas.

Aos políticos, ao menos àqueles que têm compromisso com a soberania popular e nacional, caberia construir de pontes de diálogo entre os diversos setores da sociedade, para que possamos encontrar as soluções para os nossos problemas.

O desafio das angustiadas eleitoras e eleitores, por sua vez, é fazer escolhas que não coloquem em risco o direito fundamental de determinarmos nosso próprio destino, como cidadãos e como nação soberana.

Relatório da Abin enviado a governo e TSE aponta risco de interferência dos EUA nas eleições

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) produziu um relatório no qual aponta risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições deste ano e identifica uma escalada da pressão americana sobre o Brasil. O documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. 

No documento, a Abin aponta um “nível de criticidade” em relação à possibilidade de interferência externa e afirma haver uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil”. A avaliação é de que houve uma intensificação das ações dos Estados Unidos em relação ao país nos últimos meses.


A agência relaciona esse movimento à estratégia do governo de Donald Trump para a América Latina. Segundo o relatório, os Estados Unidos buscam reduzir a influência de potências rivais na região, sobretudo da China, e impedir o acesso desses países a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. A Abin também aponta uma estratégia de apoio à ascensão de governos conservadores alinhados ao Executivo norte-americano.

O relatório cita ainda as sanções impostas pelos Estados Unidos a brasileiros e empresas e avalia que as medidas representam uma mudança de fase na pressão americana sobre o país. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, também é citado no documento, que atribui à sua atuação um componente ideológico e o objetivo de influenciar a política externa dos países da região.

No TSE, porém, a avaliação até o momento é de que não foram identificados sinais concretos de influência externa sobre o processo eleitoral, segundo integrantes da Corte. A leitura é que o alerta feito pela Abin deve ser acompanhado pelo tribunal, mas que, até agora, esse risco não se traduziu em episódios de interferência percebidos no andamento das eleições.

A Abin participa de dois grupos de trabalho no TSE e mantém interlocução com a Corte durante o período eleitoral. A presença da agência nesses colegiados faz parte da estrutura de acompanhamento do pleito e permite o compartilhamento de informações relacionadas a eventuais ameaças ao processo eleitoral.

É desolador o Brasil virar refém do fanatismo religioso

A certa altura do segundo ato de “O Neguinho da Beija-Flor”*, biografia musical do cantor e compositor que se despediu da Marquês de Sapucaí em 2025, após meio século defendendo a mesma agremiação, um momento religioso comove. O artista, como sabemos, enfrentou um câncer no intestino em 2008. Tornou públicos diagnóstico e tratamento. No ano seguinte, recuperado, casou-se com Elaine Reis em pleno Sambódromo e, na sequência, conduziu a escola de Nilópolis por mais um desfile, de cima do carro de som, com o médico ao lado. No palco, Mãe Joana, a ialorixá narradora, comanda um ritual de candomblé pela saúde do protagonista; em seguida, duas mulheres evangélicas oram por ele; por fim, um padre católico reza.

A cena apresentada no Teatro João Caetano emociona pelo que se vê, mas sobretudo pelo que já se viu numa esquina perto de você. Quando revelou numa entrevista a Mariana Gross, no RJ-TV, que estava doente, Neguinho da Beija-Flor recebeu de volta uma avalanche de demonstrações de fé por sua recuperação. Saía um pai de santo, entrava um pastor. Promessas, obrigações, correntes de oração multiplicaram-se. Na quadra lotada da escola, os componentes rezaram em coro um inesquecível Pai-Nosso. Houve um tempo em que a convivência respeitosa entre sacerdotes e fiéis de diferentes credos não era somente possível, mas real.


Cresci no subúrbio de Irajá, Zona Norte do Rio, assistindo a missas na igreja e recebendo, na rua e nos terreiros, saquinhos de doces em celebração a Cosme e Damião. Demonização das religiões de matriz africana não é novidade. A perseguição se deu até pelo Estado — a provar, estão os acervos de peças sagradas sequestradas pela polícia em operações Brasil afora, desde fins do século XIX. Mas, a despeito da Carta Magna de 1988, que consagrou a liberdade culto e o Estado laico, são crescentes a intolerância religiosa e o ativismo político em nome de Deus.

O registro da candidatura à Presidência do empresário, influenciador digital e coach Pablo Marçal, inelegível até 2032 por abuso de poder econômico, foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada. Antes de sair da disputa, ele foi denunciado ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e à polícia do Rio de Janeiro, por racismo religioso e discurso de ódio. Atacou religiões afro-brasileiras numa entrevista. Disse que “todo macumbeiro é um derrotado, é gente invejosa, que não prospera”, entre outras ofensas. Três advogados, Carlos Nicodemos, Maria Fernanda Fernandes e Rafaela Batistone, representaram contra Marçal no MPE. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (Ceap) ingressou com notícia de fato na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância no Rio.

No Supremo Tribunal Federal (STF), o enfrentamento fratricida entre integrantes do colegiado também tem contornos religiosos. André Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União de Jair Bolsonaro, indicado à Corte por ser “terrivelmente evangélico”, imprimiu tom messiânico à investigação que busca aprovar em plenário contra o colega Alexandre de Moraes. Dias depois de quebrar o sigilo do relatório da Polícia Federal que identificara Moraes como destinatário de mensagens de Daniel Vorcaro, agradeceu em vídeo a “irmãos e irmãs” por mensagens e orações. Foi a senha para a mobilização de evangélicos para a disputa no STF. Na antevéspera do Sete de Setembro, a ex-primeira-dama e candidata ao Senado Michelle Bolsonaro (PL-DF) tratou Mendonça como “escolhido e ungido do Senhor”. No feriado nacional, um boneco inflável do ministro foi erguido no ato de campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Avenida Paulista, em São Paulo.

A crise no STF, escancarada após a sessão da última terça-feira, é gravíssima. Acossa um Poder essencial à democracia, mais uma vez sob ameaça. Mas não tem nada a ver com Deus ou religião. Tampouco a corrida presidencial. É desolador que uma nação forjada na combinação de crenças e ritos de indígenas sul-americanos, negros de África e cristãos europeus se torne refém de um fanatismo religioso — por devoção de fieis e oportunismo de líderes — que obstrui possibilidades de diálogo político, convivência comunitária e respeito aos direitos fundamentais. Democracias também morrem por essa via.

 Flávia Oliveira

O que Lula e Flávio prometem para a política externa

Em uma eleição presidencial que ocorre à sombra de tensões internacionais, os programas de governo dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro(PL), apresentam propostas e visões diametralmente opostas em temas de política externa.

As diferenças de visão de mundo são explícitas quando se trata de temas como relações com os Estados Unidos, a participação do Brasil no Mercosul e no Brics, e até relações com Israel.

Os programas de governo dos dois candidatos protocolados junto à Justiça Eleitoral são vagos em vários temas específicos de política externa que vêm dominando o noticiário, muitas vezes sem detalhar propostas ou metas. Temas como relações com a União Europeia e as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, por exemplo, estão completamente ausentes das propostas.

Mas falas e ações de Lula e Flávio Bolsonaro nos últimos meses permitem preencher algumas lacunas e apontar que direção os dois candidatos pretendem dar à diplomacia brasileira nos próximos quatro anos.


Em seu programa de governo, Lula deu preferência em listar realizações de política externa do seu atual mandato, mas há diretrizes sobre como a administração pretende continuar a se portar. Em linha com a atual postura do Planalto, o programa menciona várias vezes a importância de reafirmar a "soberania" e a "independência" do Brasil.

O plano ainda abraça o multilateralismo e aponta que a "integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil". Lula também fala em uma maior aproximação com a Ásia, a África, o Oriente Médio "para ampliar a cooperação política, econômica, tecnológica e cultural".

Lula ainda voltou a bandeiras tradicionais do seu governo, como a defesa do Conselho de Segurança da ONU e de organismos como Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial OMC.

No atual mandato de Lula, o Itamaraty é comandado pelo ministro Mauro Vieira, um diplomata de carreira, que já havia ocupado o posto no governo Dilma Rousseff. Lula ainda conta com Celso Amorim, outro veterano, no cargo de assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais.
Flávio Bolsonaro: política externa "anti Lula"

O plano de diretrizes de governo de Flávio Bolsonaro é bastante breve em política externa, dedicando apenas duas páginas ao assunto, com boa parte dos parágrafos sendo usados para criticar a diplomacia da administração Lula em temas como Venezuela e Irã, argumentando que "política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos".

"Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia", disse Flávio Bolsonaro, que é alinhado com os governos de ultradireita dos EUA, Argentina e Israel.

De específico, o programa de Flávio menciona que seu governo pretende retomar a inserção do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, de maneira mais genérica, o plano fala em aumentar a abertura comercial e ampliar acordos que abram novos mercados para o Brasil.

Flávio não divulgou oficialmente nomes que podem comandar o Itamaraty sob sua gestão. Em janeiro, ele chegou a dizer que o irmão Eduardo Bolsonaro, que foi condenado à prisão e hoje vive nos EUA sob a proteção do governo de Donald Trump, poderia comandar a pasta do exterior. No entanto, Flávio passou a desconversar sobre o tema após reação negativa de empresários e políticos aliados.

O programa de Lula menciona o Brics três vezes. Atualmente, o Brics é formado por dez países: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Foi no segundo governo Lula que o bloco foi formado, com o Brasil entre seus fundadores.

No seu programa, Lula defende o aprofundamento das relações entre países do Brics e o fortalecimento de mecanismos financeiros do bloco – uma medida que é vista com hostilidade pelos EUA de Trump, que temem que o Brics possa minar a hegemonia do dólar no comércio mundial.

Desde que voltou ao Planalto, em 2023, Lula também defendeu publicamente que o bloco deveria adotar uma moeda de referência alternativa ao dólar para trocas comerciais entre países do Brics ou que os países usem suas próprias moedas locais. Em fevereiro, por exemplo, Lula mencionou essa possibilidade em entrevista a uma rádio da Índia. "Não é necessário que um acordo comercial entre Brasil e Índia precise ser feito em dólares americanos. O que eu defendo é que podemos usar nossas próprias moedas", disse.

O programa de Flávio não menciona o Brics uma vez sequer. Mas o candidato, que é alinhado com Trump, já deu declarações sinalizando que pode ser hostil ao bloco, que costuma ser alvo de críticas e ameaças por parte da Casa Branca.

Flávio, por exemplo, afirmou num podcast em junho que seu governo pode vir a retirar o Brasil do Brics. "No primeiro dia que eu me sentar na cadeira de presidente, vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os Estados Unidos", disse.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro, novamente alinhado com os EUA, disse ser contra a possibilidade de redução de dependência do dólar americano em transações internacionais, refutando propostas de Lula e da Rússia nesse sentido, que já provocaram ameaças de retaliação por parte de Trump no passado.

Em julho, num ofício encaminhado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Flávio também propôs que o Brasil deve impedir que o Pix seja integrado a mecanismos internacionais de compensação financeira fora da esfera ocidental – ou seja, fora do alcance dos EUA.

Desde a volta de Donald Trump ao poder nos EUA, em 2025, o Brasil sob Lula passou a ser alvo de repetidas rodadas de tarifas por parte da Casa Branca. Algumas com objetivos comerciais, outras foram encaradas como tática de pressão para beneficiar a família Bolsonaro, aliada de Trump.

O programa de governo de Lula não menciona os Estados Unidos nominalmente, mas faz várias referências veladas à posição de confronto da Casa Branca, defendendo que o Brasil determine suas políticas sem interferência externa e com autonomia. O texto parece seguir a postura do Planalto nos últimos meses, que tem criticado a interferência de Trump no Brasil, mas sem romper completamente com os EUA ou direcionar animosidade diretamente ao presidente americano, buscando uma solução negociada.

"Em um cenário de tensões geopolíticas crescentes e quebras das regras de convivência internacional, o Brasil deve reafirmar sua soberania e preservar sua capacidade de fazer escolhas políticas e econômicas de forma independente, à luz de seus interesses, sem qualquer tipo de subordinação estratégica", diz o texto.

Em outro trecho, o programa diz que o governo fará "firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica".

Na sequência, o texto parece fazer uma referência velada a Flávio Bolsonaro e seu alinhamento com os EUA: "Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas".

Apesar do alinhamento de Flávio Bolsonaro com o governo Trump, a relação estreita não é mencionada no programa de diretrizes do candidato. Referências aos EUA são poucas. Em um dos trechos, o programa fala em "reverter" o distanciamento entre Brasília e Washington e em buscar "soluções diplomáticas" contra as "sanções" dos EUA a produtos brasileiros.

No entanto, em falas nos últimos meses, Flávio foi mais explícito em como enxerga como seria a relação entre o Brasil e os EUA sob seu eventual governo. Em março, num discurso nos EUA, Flávio falou em formalizar uma aliança com o país de Trump. "No próximo ano, quando eu retornar a este palco como presidente do Brasil, não estaremos apenas celebrando mais uma vitória eleitoral. Estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental", disse.

Em julho, ele também sugeriu que o Brasil firmasse um acordo de livre comércio com os EUA nos moldes da antiga Nafta, o bloco econômico de livre-comércio formado pelos americanos, o Canadá e o México, que foi esvaziado por Trump em 2020. O plano do candidato, porém, não menciona como seu governo pretende lidar com o tarifaço de Trump, que, em parte, foi inicialmente incentivado por Flávio e seu irmão, Eduardo Bolsonaro.

Ainda em seu plano de governo, Flávio fez menções genéricas a minerais críticos. Em falas nos últimos meses, no entanto, ele foi explícito em afirmar que deseja que os EUA explorem os minerais no Brasil, para reduzir sua dependência da China. "O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos", disse o entãopré-candidato a presidente, em evento no Texas.

O programa de Lula propõe continuar a fortalecer o Mercosul, especialmente como plataforma para a ampliação de iniciativas de integração econômica, como no acordo de livre-comércio firmado com a União Europeia, que passou a vigorar em maio.

"Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional, especialmente nas áreas de infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. Consolidaremos o Mercosul como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul", diz o programa.

O programa de Flávio Bolsonaro não menciona o Mercosul. Mas o candidato já indicou que, ao contrário de Lula, vê o bloco como um empecilho para iniciativas de política externa unilaterais. Em julho, num documento enviado ao governo americano, ele propôs que o Brasil se "liberte das amarras" do bloco sul-americano para uma "busca agressiva" de novos acordos comerciais, sinalizando que pode adotar uma postura como a do presidente argentino Javier Milei, que buscou um acordo comercial com os EUA sem participação de parceiros do Mercosul nas negociações.
Israel e questão palestina

Os planos de governo de Lula não mencionam Israel e a questão palestina diretamente, mas a postura da atual administração é bem explícita sobre o conflito no Oriente Médio.

Em 7 de outubro de 2023, na esteira do ataque do Hamas que deixou mais de 1.000 mortos em Israel, Lula condenou as ações do grupo palestino e manifestou "repúdio ao terrorismo". Ao mesmo tempo, ele defendeu negociações para a existência "de um Estado Palestino viável".

Posteriormente, com a ampliação das ações militares em Gaza, Lula passou a criticar ações israelenses. Em 2025, Lula disse que "em Gaza não tem uma guerra, tem um genocídio". Antes disso, em 2024, declarações de Lula comparando a situação da população de Gaza com o Holocausto provocaram tensão entre Israel e Brasil. Os israelenses acabaram declarando Lula "ersona non grata (alguém que não é bem-vindo).

Após outros incidentes diplomáticos, o governo Lula retirou o embaixador brasileiro de Tel Aviv. Em 2025, foi a vez de o governo do israelense Benjamin Netanyahu rebaixar sua relação diplomática com o Brasil. Israel também segue sem embaixador no Brasil. Sob Lula, o Brasil também apoia a ação apresentada pela África do Sul contra Israel por acusações de genocídio na Faixa de Gaza.

O plano de governo de Flávio não menciona Israel ou a questão palestina. Mas falas e ações do candidato vem seguindo o mesmo roteiro do seu pai, Jair Bolsonaro, que estreitou as relações do Brasil com Israel, e, especialmente, com o premiê Netanyahu.

Em janeiro, Flávio Bolsonaro, escolheu Israel como destino da sua primeira viagem ao exterior na condição de pré-candidato. No país, foi recebido em um jantar de gala por Netanyahu. Em julho, foi a vez de o premiê participar, via mensagem em vídeo, do lançamento oficial da campanha de Flávio, chamando o brasileiro de "meu amigo".

De propostas práticas, Flávio mencionou que no seu primeiro dia como presidente pretende receber um novo embaixador israelense no Brasil. Flávio também contemplou publicamente transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo o exemplo dos EUA de Donald Trump. "Em 2027, o Brasil não apenas voltará a ter embaixador em Israel, como dará o passo de transferir sua embaixada para a capital de Israel: Jerusalém", disse Flávio.

Em 2019, seu pai, Jair Bolsonaro, havia tentado essa transferência, mas recuou diante de possíveis retaliações de países árabes que são grandes parceiros comerciais do Brasil.