sábado, 24 de outubro de 2026

O futuro climático do planeta está em jogo nas eleições brasileiras

Poucas eleições são tão importantes para o meio ambiente quanto as eleições presidenciais no Brasil. Como o país abriga a maior parte da floresta amazônica , um importante sumidouro de carbono global, as políticas de conservação do Brasil têm impacto mundial.

Ambientalistas já manifestaram preocupação com o fato de o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ter obtido uma vantagem de 2% sobre o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no primeiro turno das eleições.

"Sem querer soar alarmista, eu diria que a reeleição de Lula é a única barreira entre nós e o fim da Amazônia ", afirma Claudio Angelo, coordenador de políticas internacionais do Observatório do Clima, uma rede de ONGs brasileiras.
Uma das defesas mais poderosas da natureza

Durante décadas, a floresta amazônica atuou como uma das defesas naturais mais poderosas contra as mudanças climáticas. No entanto, esse bioma também sofreu desmatamento em larga escala.

Durante a presidência de Jair Bolsonaro, pai de Flávio , de 2019 a 2022, os órgãos ambientais foram enfraquecidos e as medidas de fiscalização reduzidas. Como resultado, o desmatamento da floresta tropical atingiu níveis sem precedentes.

"A agenda ambiental foi negligenciada e o controle que o governo exercia sobre a poluição em geral — e, especificamente, sobre o desmatamento — foi revertido", explica Claudio Forner, chefe de política climática da Climate Analytics, um think tank com sede em Berlim .

Durante os quatro anos de mandato de Bolsonaro, estima-se que 45.586 quilômetros quadrados da floresta amazônica foram destruídos — uma área maior que a Dinamarca. A floresta, entretanto, já não é tão resiliente quanto antes. Cientistas alertam que algumas partes do bioma agora emitem mais carbono do que absorvem.

Lula assumiu o cargo com a mensagem de proteger a Amazônia. Ele prometeu acabar com o desmatamento até 2030, ampliou o monitoramento da floresta tropical e fortaleceu o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(Ibama), órgão responsável pela fiscalização ambiental. Durante seu governo, o desmatamento foi significativamente reduzido e a projeção é de que atinja seu menor nível em uma década até 2026. Isso representa uma queda total de 41% em comparação com o período em que Jair Bolsonaro era presidente.


Especialistas já criticaram o histórico de Flávio Bolsonaro na proteção florestal. Como senador, ele apresentou um projeto de lei em 2019 que poderia ter sérias repercussões para a Amazônia. Atualmente, os proprietários rurais são obrigados a preservar 80% de suas terras com vegetação nativa. O projeto de lei permitiria que eles utilizassem suas propriedades como bem entendessem.

"O sinal que o presidente der pode ser 'agora vocês podem desmatar' ou 'agora será mais difícil desmatar'", disse Ana Yang, diretora do Centro de Meio Ambiente e Sociedade do think tank Chatham House, com sede em Londres , à DW.

"Quando a capacidade de fiscalização é reduzida, o desmatamento aumenta", alerta ele.

Flávio também prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2029, um ano antes da meta de Lula. No entanto, Claudio Angelo encara essa promessa com ceticismo. "Ele vai acabar com o desmatamento ilegal não aplicando a lei, mas legalizando-o", afirma.

"Infelizmente, as mudanças climáticas se tornaram uma questão partidária. Em vez de oferecer uma solução a partir de sua própria perspectiva, os setores de direita apresentam as mudanças climáticas como um problema fabricado (...) argumentando que a regulamentação vai contra o crescimento econômico ou a competitividade, e que o objetivo da esquerda seria controlar os meios de produção", explica Forner.

Uma vitória de Bolsonaro provavelmente afastaria o Brasil de sua posição de liderança na agenda climática — posição consolidada no ano passado, quando o país sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em Belém.

No entanto, especialistas apontam que uma vitória de Lula por si só não garantiria uma vitória para a agenda climática. Embora o governo atual tenha promovido reduções significativas no desmatamento, também apoiou planos para expandir a produção de petróleo.

Angelo afirma que a decisão de permitir perfurações exploratórias, como na foz do rio Amazonas, foi uma "traição" à presidência de Lula, mas acrescentou que o histórico climático geral do presidente tem sido "bastante impressionante". "Lula é o pior líder climático do mundo — com exceção de todos os outros", diz ele.

O segundo turno das eleições será realizado amanhã. Apesar da importância global da floresta amazônica, a mudança climática não é uma prioridade para muitos brasileiros.

“Em última análise, o que importa para as pessoas é o acesso à educação, saneamento e saúde”, afirma Yang. Ela destaca que a construção de uma rodovia através da Amazônia para facilitar o acesso a esses serviços, embora criticada fora do Brasil por destruir partes da floresta tropical, é vista como desejável pelos eleitores.

"Eles não têm tempo para se preocupar com isso. Não porque não queiram, mas porque estão preocupados com a própria sobrevivência.".
Louise Osborne

A virada, nas ruas e nas redes

A grande novidade no segundo turno desta eleição não foi a figura sinistra do advogado Willer Tomaz. Nem sua sala-cofre secreta atrás de parede falsa num hangar, nem a ilha que ele tomou do Richarlison, nem os R$ 5 bilhões que apostou em bets. Nem o fato de ser muy amigo de Flávio Bolsonaro.

A grande novidade no segundo turno desta eleição foi a virada nas ruas e nas redes sociais. Pode não render voto algum para Lula. Mas ninguém esperava. Nem a extrema direita nem mesmo o PT. Ninguém esperava que uma passeata estudantil da UFF de Niterói desaguasse nas maiores multidões já vistas desde as Diretas Já.

Ninguém esperava manifestações gigantescas sem shows de artistas consagrados. Ninguém esperava essa afluência de jovens engajados, pedindo à direita que se una à esquerda contra o bolsonarismo. Não é virada nas pesquisas. Mas virada na tomada.

Ninguém esperava a virada digital nas tropas de um partido analógico como o PT. Um “exército do Lula”. Do deputado federal André Janones. Que já passou de 8 milhões de inscritos. Soldados voluntários de todas as idades cumprindo missões na guerra eleitoral. Quem poderia imaginar? Ninguém.

Ninguém esperava que um jornal conservador tivesse 31 reportagens censuradas pela Meta. Ninguém esperava um desempenho tão descarado das big techs, com algoritmos manipulados a favor do candidato de Donald Trump.

Ninguém esperava, neste segundo turno – com Flávio Bolsonaro já atuando como presidente eleito, indicando ministros e adotando tardiamente bandeiras petistas –, tantas denúncias cabeludas contra o filho de Jair.

Ninguém esperava que surgissem, em tão pouco tempo, suspeitas de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro em parceria com Willer Tomaz, o mesmo dos desvios milionários de contas de aposentados. Ou revelações de festas do senador com prostitutas numa lancha em Brasília, durante a pandemia, patrocinadas por empresários da vacina Covaxin.

Ninguém esperava, sobretudo, o frenesi espontâneo e volumoso que assustou Flávio Bolsonaro e o PL. O país parecia estar represado. Por inércia. O pânico da volta do negacionismo, do golpismo e da vulgaridade, com investigações silenciadas e o apoio maciço de um Congresso e um STF de direita, acordou o eleitorado.

A gente vive dizendo que brasileiro é um povo alienado. Que só futebol, carnaval, Anitta e Madonna conseguem aglutinar tantas vozes em uníssono, tanta energia, tanta dopamina. Aparentemente, não é verdade. Ninguém nem dorme direito mais.

Li artigos dizendo que esta é a eleição da apatia, da depressão. A eleição dos indecisos, que aumentaram do primeiro turno para cá, desanimados com os ataques virulentos entre os candidatos e a falta de propostas claras de governo.

Seria a eleição da abstenção, dos que não votaram antes e não votarão agora. Esquecemos que, em todos os países, são altíssimos os índices de abstenção.

Na reeleição de Trump, contra Kamala, dos 244 milhões de eleitores, apenas 154 milhões votaram. Leia de novo: 90 milhões de eleitores não apareceram para votar nos EUA, em novembro de 2024. Uma abstenção de 33%.

Aqui no Brasil, no primeiro turno, a abstenção foi de 21%. Ou 33 milhões de eleitores. Uma pena. Mas não se trata de uma “malaise” tupiniquim.

É um absurdo desperdiçar a chance de votar? Sim. Já deu para perceber que a democracia é ameaçada por governos autoritários que mentem e rasgam a Constituição, até em nome de Deus. No mundo inteiro.

Ninguém esperava, nas ruas e nas redes, esse exército todo sem armas de fogo. Só com suor, lágrimas e palavras de ordem. Por isso, quando me dizem que esta é a eleição da apatia e da depressão, eu respondo que me parece ser a eleição da 
paixão. Pró e contra.

Ninguém esperava.

 Ruth de Aquino

Você precisa entender isso

Com sua permissão, esta coluna será muito pessoal desta vez. É uma decisão motivada pela gravidade do momento. Suspeito que a maior parte da população mundial desconheça o que está acontecendo no Brasil, ou como isso afeta a vida no planeta. No próximo domingo, 25 de outubro, ocorrerá o segundo turno das eleições brasileiras. Os eleitores decidirão se Luiz Inácio Lula da Silva será reeleito ou se o Bolsonarismo, um projeto de extrema direita personificado pela família Bolsonaro, retornará ao poder. Desta vez, o projeto fascista é representado por Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso por tentativa de golpe de Estado. Estas não são eleições normais, e qualquer pessoa que as trate como se as duas opções em disputa fossem compatíveis com a democracia está desinformando os leitores. A neutralidade é impossível quando o que está em jogo é a própria democracia, a sobrevivência da Amazônia e a vida de muitos.


O que temos nestas eleições brasileiras não é, de forma alguma, uma disputa entre esquerda e direita. No Brasil, a alternância de visões políticas, pendendo mais para a esquerda ou para a direita, sempre existiu desde a redemocratização do país em 1985. Mas ninguém tinha motivos para temer pela própria vida se a oposição vencesse as eleições. Era parte da democracia, e isso se repetiu em eleições subsequentes. Desde a ascensão do Bolsonarismo, esse não é mais o caso. A história da família Bolsonaro e as evidências demonstram que o Bolsonarismo é um projeto para se perpetuar no poder. Talvez não por meio de um golpe de Estado clássico, como Jair Bolsonaro tentou, mas destruindo a democracia por dentro, corrompendo a Constituição e controlando as instituições.

O campo progressista insiste que a direita deve apoiar Lula se quiser continuar defendendo sua visão para o país, já que existe uma grande possibilidade de não haver mais eleições caso Flávio Bolsonaro seja eleito no próximo domingo. Buscando os votos daqueles que se abstiveram, votaram em cédulas inválidas ou depositaram cédulas em branco — um grupo de quase 39,5 milhões de pessoas que podem decidir a eleição —, as contas do campo progressista nas redes sociais repetem o slogan: “Esquerda e direita contra o Bolsonarismo”. Esta é uma lição que o segmento da direita global que acredita poder apoiar a extrema-direita para ganhar terreno precisa aprender. A extrema-direita não divide o poder.

Na campanha eleitoral brasileira, sinais de fascismo estão por toda parte. Neste momento, muitas áreas da floresta amazônica estão em chamas . É muito difícil determinar quem iniciou um incêndio florestal, mas há uma coisa que podemos afirmar com certeza, graças às imagens de satélite: os incêndios estão concentrados em áreas onde os apoiadores de Flávio Bolsonaro têm interesses. Os incêndios queimam com mais intensidade onde eles querem converter a floresta tropical em pastagens, monoculturas de soja ou terrenos para especulação imobiliária. Segundo alguns relatos, grupos armados de invasores estão posicionados nas fronteiras de terras indígenas, esperando que Flávio Bolsonaro vença as eleições para poderem entrar, arrasar e se apropriar das terras. Em cidades onde a mineração ilegal é uma força política, equipamentos e maquinário pesado estão sendo preparados para serem mobilizados assim que um governo de Flávio Bolsonaro lhes garantir apoio e impunidade. Na Universidade Federal de Pernambuco, alguns estudantes receberam mensagens ameaçadoras de apoiadores de Bolsonaro. Em seguida, três incêndios ocorreram no prédio em um período de oito dias. A Polícia Federal ainda está investigando se os eventos estão relacionados, mas a coincidência é suspeita.

Quando Jair Bolsonaro foi eleito , alguns brasileiros tiveram que deixar o país, e outros foram obrigados a buscar proteção no âmbito do programa para defensores de direitos humanos, jornalistas e ambientalistas para evitar serem assassinados. Agora, em 2026, a situação é muito mais grave, e as condições para a destruição da Constituição são muito mais favoráveis. Se a família Bolsonaro vencer, controlará o Congresso, terá o Supremo Tribunal Federal sob seu controle e toda a máquina do Estado à sua disposição. Com a oposição já reforçando a segurança interna e elaborando planos de fuga caso o fascismo prevaleça, ninguém em sã consciência pode afirmar que estas eleições são normais.

Sim, muitos brasileiros estão com medo. Medo de vivenciar os horrores do fascismo, medo de serem forçados ao exílio, medo de serem mortos. Mas os países democráticos também têm muito a aprender com as eleições brasileiras e muito a temer: por toda parte há sinais de que o Brasil pode ser o próximo país.

Cuidado com o futuro

Tão insensato é confiarmos demasiado no volúvel futuro como desesperarmos dele. Que importa aquilo que os homens vierem a pensar dos atos que praticamos? Só nós próprios podemos ser as testemunhas e os juízes da nossa maneira de proceder.
Anatole France, "O procurador de Judéia"

Cada dia é uma vida

Por que o tempo parece passar cada vez mais rápido à medida que vamos envelhecendo? Lembra de quando você era criança e uma tarde parecia levar vários dias para passar, as férias pareciam durar uma eternidade, o Natal demorava para chegar e um ano era quase uma vida inteira? Depois de adultos, parece que piscamos e já estamos em outubro de novo. Para a criança, tudo é novidade — aos 5 anos, um ano representa 20% de toda a vida que ela já viveu. Para alguém de 50 anos, representa apenas 2%. Na vida adulta e nas rotinas diárias, como percebemos menos novidades, os dias parecem que passaram num instante. E assim por diante. O tempo adiante era infinito. E vai ficando cada vez mais curto. O cérebro está ocupado por registros de memórias e experiências, com cada vez menos espaço para novidades. Por isso cada ano novo traz a sensação de ter passado mais rápido que o anterior.

Passeata dos Cem Mil (1968)

Penso muito nisso e, quando fiz 80 anos, tatuei no braço “Cada dia é uma vida”, um mantra que sigo há bastante tempo, sintetizando minha experiência de todas essas vivências da passagem do tempo e como uma metáfora de viver intensamente cada dia, não como uma história em progresso, mas uma com começo, meio e fim. Até começar a próxima. Como dizem nos Alcoólicos Anônimos, é um dia de cada vez.

E para quem tem vivido cada dia como uma vida, a última semana pareceu levar uma década de tão exaustiva, memorável e privilegiada, por testemunhar e viver tantas emoções e sentimentos conflitantes, de tantos interesses individuais e coletivos em jogo, da importância do Brasil para o mundo.

Várias vezes contei para minhas filhas o que foi participar da Passeata dos Cem Mil, em 1968, que elas viam como gesto romântico da série “Anos rebeldes”, mas acabou tendo consequências desastrosas com aumento da repressão, prisões e tortura, desembocando no AI-5. Agora tenho a felicidade de vê-las participando das marchas históricas pela democracia em Copacabana, com muitas vezes cem mil, milhões de pessoas tomando as ruas do país como nunca se viu. E, assim como em 1968, comandadas pelos estudantes, a juventude rebelde e justiceira, e não por partidos, sindicatos e campanhas. Ouvi de várias pessoas que participaram em Porto Alegre, Salvador e São Paulo a mesma coisa, que foi uma emoção tão grande para contar aos seus netos, como um momento decisivo na História do Brasil.

Tudo pode mudar, tudo está mudando a cada momento, as emoções estão à flor da pele, com paralelo só nos comícios das Diretas Já, com todas as forças democráticas unidas contra a ditadura. Hoje cada voto vale, e vale tudo para conquistá-lo. Seja pelo terror, seja pelo humor. A quantidade e a qualidade dos memes e dos deboches não têm paralelo na nossa história e certamente têm um papel decisivo na campanha. Assim como os gritos e missões do Janones comandando seus milhões de “soldados do Lula”. Tudo isso parece ficção, supera as ficções mais delirantes, ora em ritmo de drama, ora de comédia ou de farsa, ora de tragédia iminente.

17 de julho de 2020: uma data para jamais ser esquecida

Nesse dia, o Brasil vivia um dos momentos mais críticos da pandemia de Covid-19, registrando 1.163 novas mortes em 24 horas, segundo o balanço final do consórcio de veículos de imprensa. Elevava-se, assim, para 77.932 o total acumulado de vítimas fatais desde a primeira — a de uma mulher de 57 anos de idade, ocorrida em 12 de março. O número de pessoas infectadas já havia ultrapassado a marca histórica de 2 milhões.

Com a escalada da doença, o país consolidava-se como o segundo do mundo em número de infectados e de óbitos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Na mesma data, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontou que os números indicavam uma “estabilização” no país, embora em patamares alarmantemente altos.


Paralelamente à crise sanitária, os impactos socioeconômicos se agravavam. Dados divulgados pelo IBGE apontavam o fechamento de mais de 700 mil empresas em decorrência das medidas de restrição e do isolamento social. Além disso, uma nota da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia alertava que a baixa mobilidade dos trabalhadores e a lentidão nos processos de falência empresarial poderiam prolongar a recessão econômica no país.

No campo político e médico, o Ministério da Saúde pediu à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que divulgasse a cloroquina como tratamento da Covid-19 logo nos primeiros dias de sintomas. O ofício, enviado em junho, foi classificado como “pouco profissional” por um dos coordenadores da fundação. Na época, a OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) já não recomendavam o uso da droga contra o coronavírus.

Justo nesse dia, o senador Flávio Bolsonaro participou de um alegre passeio de lancha no Lago Paranoá, em Brasília, a convite de Danilo Trento e Francisco Maximiano, executivos da Precisa Medicamentos, empresa que intermediava a venda da vacina indiana Covaxin junto ao Ministério da Saúde.

A bordo, estavam belas garotas de programa trazidas de São Paulo pelos dois empresários. Comeu-se e bebeu-se de tudo. E, ao fim do passeio, de acordo com a revista Piauí, Flávio recebeu de Trento um relógio Rolex de presente. Foi embora satisfeito. Afinal, passara um dia relaxante, sem maiores preocupações e sem o uso obrigatório de máscara — acessório que seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, preferia dispensar.

O que a comunicação tem a ver com a defesa da democracia?

No primeiro debate direto e presencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, televisionado pela Band, no último domingo, que antecede a eleição, vimos um show de horrores. Conversando com colegas, lendo e assistindo aos comentários de especialistas, a conclusão parece quase unânime: nem Lula nem Flávio ganharam; nós perdemos. Sim, nós. Todos nós, ou quase todos, iremos às urnas no dia 25 de outubro decidir quem será o nosso presidente pelos próximos quatro anos sem que o debate tenha nos oferecido elementos suficientes para compreender as propostas em disputa e suas implicações para o país.

Mas não é só isso. Estamos diante de formas distintas de encarar a política, isto é, da capacidade de negociar com diferentes atores, de interpretar os conflitos e as contradições da nossa sociedade e, principalmente, do valor atribuído à democracia. Afinal, a democracia não se resume à realização periódica de eleições ou ao que fica decidido no âmbito dos três poderes. Ela também depende das condições em que os cidadãos formam suas opiniões, confrontam perspectivas e decidem os rumos da vida coletiva.

Ao analisar a conjuntura política da Alemanha no entre guerras e a ascensão do fascismo histórico, Walter Benjamin percebeu que os meios de comunicação estavam degradando a democracia. Na visão dele, o parlamento havia se tornado um espetáculo e os políticos, atores. Com as redes sociais, a realidade vista pelo autor parece cada vez mais óbvia. No fim de seu texto, Benjamin apresenta dois conceitos para se analisar os fins políticos da comunicação: a “estetização da política” e a “politização da arte”.


O primeiro refere-se ao uso das técnicas de reprodução próprias dos meios de comunicação para mobilizar as massas por meio do espetáculo, da performance, das imagens sem que haja qualquer tipo de transformação material ou de condição de existência. Dessa forma, nem as lutas por direitos nem qualquer nuance de uma transformação social são levadas em consideração. A política, portanto, passa a ser vivida como experiência estética, cujo ponto extremo é o confronto – a guerra. A política se converte em espetáculo, e a performance passa a ocupar o espaço que deveria ser destinado à discussão dos conflitos e à construção de alternativas coletivas.

Em contraposição à estetização da política, Benjamin aponta para a politização da arte. Não se trata simplesmente de atribuir conteúdo político às produções culturais e comunicacionais, mas de explorar as possibilidades abertas pelas técnicas de reprodução para transformar as condições de produção, circulação e recepção. Essa perspectiva permite pensar a comunicação não apenas como instrumento de mobilização das massas, mas também como espaço de disputa política e de formação crítica.

O que vimos no debate pode ser compreendido como uma manifestação contemporânea de uma cultura política marcada pela espetacularização, cujas raízes são anteriores às plataformas digitais, mas que encontra nelas novas condições de produção e circulação. Por incrível que pareça, nos acostumamos com figuras políticas que gravam vídeos em assembleias tumultuando votações, entram em universidades públicas para denunciar as “ideologias de esquerda” e fazem dancinhas ironizando eleitores e candidatos da oposição. Em contrapartida, a performance nas redes nem sempre corresponde a uma atuação parlamentar efetiva, voltada à elaboração de políticas públicas e à representação de povos e grupos sociais. Ainda assim, reelegem-se indivíduos que propuseram um ou dois projetos de lei durante uma carreira inteira e está tudo bem.

Estudos da Comunicação e das tecnologias digitais têm demonstrado que as plataformas não são canais neutros de circulação da informação, mas exercem mediação sobre os conteúdos por meio de sistemas de recomendação e critérios de distribuição que podem privilegiar o engajamento. Essa dinâmica, associada à exploração econômica dos dados e à segmentação da exposição informacional, suscita debates sobre as bolhas digitais, o capitalismo de vigilância e a pós-verdade. A esse cenário soma-se a atuação política dos proprietários das principais big techs, cujos posicionamentos tornam ainda mais relevante compreender as relações entre interesses econômicos, poder comunicacional e formação da opinião pública. Temos, portanto, uma performance pública que se desenvolve em ambientes privados.

Em levantamento da empresa de marketing e análise de dados Zeeng, o qual mediu o engajamento de políticos no Instagram, Nikolas Ferreira (PL-MG), eleito deputado federal mais votado da história com 3,1 milhões de votos, lidera a lista com um número médio de engajamento de 1,47 milhões por postagem. Esse número é quase três vezes maior que o da segunda colocada, Michelle Bolsonaro, e mais de dez vezes maior que o de Lula, o 11º da lista. O terceiro com maior engajamento é Lucas Pavanato (PL-SP), eleito deputado federal com cerca de três milhões de votos.

Em entrevista à Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, ele fez questão de tornar explícita sua tática nas redes: “eu não tenho como forçar uma entrega de emenda viralizar tanto quanto eu debatendo com uma figura de esquerda”. Tanto ele quanto Nikolas Ferreira estiveram presentes junto a Flávio Bolsonaro no debate da Band, fazendo vídeos e inflamando o público presente – chegaram a gravar Fernando Haddad (PT-SP) e Simone Tebet (PSB-SP) e chamá-los de “desempregados” por não terem sido eleitos. Além dos dois, Pablo Marçal tem atuado como um guru eleitoral de Flávio.

O discurso da extrema direita, como afirmou Pavanato, se baseia no puro e simples enfrentamento à esquerda. Em diversos momentos do debate, Flávio acusou Lula de ter “abandonado os pobres” e que os índices econômicos pioraram nos governos petistas. Seu argumento é de que o custo de vida se elevou e que, internacionalmente, o país se tornou isolado. Na mesma linha, houve bastante engajamento sobre um vídeo de Nikolas Ferreira sobre o Pix e MEIs no Brasil. Ambas as situações expõem a disposição desses indivíduos de construir os embates com base na desinformação e na criação de um pânico generalizado.

A extrema-direita se elegeu grandemente nas disputas para a Câmara e o Senado e Flávio terminou o primeiro turno à frente. O que esperar de Flávio Bolsonaro e sua turma caso ele seja eleito? O que eles propõem? Como isso impacta nossa vida, nossos conflitos e as contradições do capitalismo?

Na dimensão econômica, a partir de seu plano de governo, entrevistas e o que apresentou no debate revelam que Flávio pretende fazer um “tesouraço” nos gastos públicos, inspirado em Milei, propor novas medidas ao Bolsa Família – que anteriormente chamou de “bolsa farelo” – e incentivar privatizações. Ainda que sua campanha tenha sido turbinada por empresários ligados ao agro e a setores da indústria, suas propostas mostram contradições fiscais. Economistas têm questionado de que maneira o “tesouraço” de R$ 200 bilhões será possível sem mexer nas regras de programas sociais, salário mínimo e previdência.

Em análise publicada na Folha de S. Paulo, os renomados cientistas econômicos Laura Carvalho, Martin Guzman e Joseph E. Stiglitz – este vencedor do Nobel em 2001 – entendem que experiência argentina mostra quem paga a conta: aposentados e servidores públicos veem seu poder de compra se desfazer, o desemprego sobe, os trabalhadores são empurrados para a informalidade e para ocupações de baixa remuneração, e as famílias, com a renda encolhida, entram em um ciclo de endividamento e inadimplência que já alcança milhões de pessoas.

Cortes em ciência, universidades e infraestrutura comprometem ainda o futuro, penalizando justamente quem depende do Estado para estudar, se tratar e ascender socialmente, enquanto os mais ricos são poupados com redução de impostos. No Brasil, onde o problema fiscal não nasce do gasto primário, esse sacrifício seria ainda mais injusto, pois imporia ao povo um custo social elevado sem atacar a raiz do desequilíbrio. O resultado seria um país mais desigual e pobre, com uma classe trabalhadora insegura e um Estado enfraquecido, além de dependente de apoio externo e menos livre para decidir seu próprio rumo.

Embora não seja simples como imagina, Flávio sinalizou a empresários que pretende rever a PEC da escala 6×1, caso eleito. Sua resposta para tudo isso tem sido bater na tecla que irá criar o Ministério da Prosperidade, com o intuito de reunir políticas de assistência social, qualificação profissional e crédito sob uma mesma pasta. Seu princípio está embasado em uma linguagem religiosa e coaching, que servem de base para o discurso do “empresário de si mesmo”.

Na dimensão política, para quem se apresenta como defensor da ordem, Flávio Bolsonaro trata com notável leveza o maior ataque às instituições da história recente. A prisão do pai ocorreu depois do trânsito em julgado do processo sobre o núcleo da tentativa de golpe de Estado, e ainda assim o candidato faz da anistia sua bandeira. Em sabatina, chamou o episódio de farsa armada contra centenas ou milhares de inocentes e prometeu anistiá-los em seu governo. Na sabatina da TV Globo, afirmou que trabalharia pela anistia ainda na transição e, se ela não passar, concederia indulto aos condenados, argumentando que ninguém se conhecia e que não houve arma. Chegou a prometer que Bolsonaro e “todas as pessoas perseguidas” subiriam a rampa do Planalto com ele. Quem trata como perseguição a punição dos ataques no 8 de janeiro não considera a democracia um valor inegociável.

Essa postura não nasce do nada. É herdeira de um discurso que sempre tratou direitos como concessão da maioria. Em 2017, na Paraíba, Jair Bolsonaro disse que as minorias têm que se curvar para as maiorias, e a lógica de que a lei existe para proteger quem é maioria atravessa o bolsonarismo até hoje. Flávio diz ser um “Bolsonaro vacinado”, mas o que oferece é a continuidade política do pai, com a mesma base, o mesmo projeto de anistia e a mesma hostilidade às cortes que o julgaram. Uma democracia que depende de a minoria se adequar à vontade majoritária deixa de proteger direitos e passa a administrar submissões.

Há ainda a relação do candidato com as instituições que, na prática, o afetam. Flávio foi denunciado em 2020, por organização criminosa, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e peculato no caso das “rachadinhas”. O caso foi arquivado depois que o STJ e o STF aceitaram a tese de sua defesa sobre foro privilegiado, com anulação de provas, ou seja, por questão processual e sem julgamento do mérito; o Ministério Público ainda poderia apresentar nova denúncia. Agora, candidato, promete usar a Presidência para anistiar o pai condenado e anuncia mudanças na relação com o STF. Quando o poder passa a servir à família e as cortes são tratadas como obstáculo, as instituições deixam de ser limite e viram instrumento.

É justamente por isso que a comunicação é inseparável da democracia. Sem informação confiável, o voto vira aposta e o debate público vira ruído. O primeiro debate do segundo turno ilustra o problema: foi marcado por provocações e acusações dentro de um grande espetáculo. O próximo encontro será nesta sexta-feira (23), às 21h20, na TV Globo, após o Jornal Nacional, dois dias antes da votação. Por isso, é preciso cobrar a emissora e as campanhas para que haja checagem de fatos em tempo real, para que acusações e números sejam verificados enquanto são ditos, e não corrigidos depois que já circularam. Isso não é censura: é o mínimo para que o eleitor decida com base no que é verdadeiro.

A comunicação e a democracia são, como ensina Marilena Chauí, exercícios emancipatórios. A democracia, nessa leitura, é o regime que reconhece o conflito como legítimo e que se renova criando direitos. A comunicação, quando livre e plural, é o que permite que os sujeitos conheçam as contradições em que estão inseridos e seus direitos, os reivindiquem e participem da esfera pública como cidadãos, e não como audiência do espetáculo. Quando a comunicação vira propaganda, desinformação ou espetáculo, ela produz o contrário: dependência, medo e obediência. Defender a checagem de fatos, o debate qualificado e o respeito à Constituição é, portanto, defender a emancipação. É nessa defesa que se decide o que o segundo turno coloca em jogo: não apenas quem governa, mas que tipo de democracia queremos exercer.