sábado, 24 de outubro de 2026

A virada, nas ruas e nas redes

A grande novidade no segundo turno desta eleição não foi a figura sinistra do advogado Willer Tomaz. Nem sua sala-cofre secreta atrás de parede falsa num hangar, nem a ilha que ele tomou do Richarlison, nem os R$ 5 bilhões que apostou em bets. Nem o fato de ser muy amigo de Flávio Bolsonaro.

A grande novidade no segundo turno desta eleição foi a virada nas ruas e nas redes sociais. Pode não render voto algum para Lula. Mas ninguém esperava. Nem a extrema direita nem mesmo o PT. Ninguém esperava que uma passeata estudantil da UFF de Niterói desaguasse nas maiores multidões já vistas desde as Diretas Já.

Ninguém esperava manifestações gigantescas sem shows de artistas consagrados. Ninguém esperava essa afluência de jovens engajados, pedindo à direita que se una à esquerda contra o bolsonarismo. Não é virada nas pesquisas. Mas virada na tomada.

Ninguém esperava a virada digital nas tropas de um partido analógico como o PT. Um “exército do Lula”. Do deputado federal André Janones. Que já passou de 8 milhões de inscritos. Soldados voluntários de todas as idades cumprindo missões na guerra eleitoral. Quem poderia imaginar? Ninguém.

Ninguém esperava que um jornal conservador tivesse 31 reportagens censuradas pela Meta. Ninguém esperava um desempenho tão descarado das big techs, com algoritmos manipulados a favor do candidato de Donald Trump.

Ninguém esperava, neste segundo turno – com Flávio Bolsonaro já atuando como presidente eleito, indicando ministros e adotando tardiamente bandeiras petistas –, tantas denúncias cabeludas contra o filho de Jair.

Ninguém esperava que surgissem, em tão pouco tempo, suspeitas de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro em parceria com Willer Tomaz, o mesmo dos desvios milionários de contas de aposentados. Ou revelações de festas do senador com prostitutas numa lancha em Brasília, durante a pandemia, patrocinadas por empresários da vacina Covaxin.

Ninguém esperava, sobretudo, o frenesi espontâneo e volumoso que assustou Flávio Bolsonaro e o PL. O país parecia estar represado. Por inércia. O pânico da volta do negacionismo, do golpismo e da vulgaridade, com investigações silenciadas e o apoio maciço de um Congresso e um STF de direita, acordou o eleitorado.

A gente vive dizendo que brasileiro é um povo alienado. Que só futebol, carnaval, Anitta e Madonna conseguem aglutinar tantas vozes em uníssono, tanta energia, tanta dopamina. Aparentemente, não é verdade. Ninguém nem dorme direito mais.

Li artigos dizendo que esta é a eleição da apatia, da depressão. A eleição dos indecisos, que aumentaram do primeiro turno para cá, desanimados com os ataques virulentos entre os candidatos e a falta de propostas claras de governo.

Seria a eleição da abstenção, dos que não votaram antes e não votarão agora. Esquecemos que, em todos os países, são altíssimos os índices de abstenção.

Na reeleição de Trump, contra Kamala, dos 244 milhões de eleitores, apenas 154 milhões votaram. Leia de novo: 90 milhões de eleitores não apareceram para votar nos EUA, em novembro de 2024. Uma abstenção de 33%.

Aqui no Brasil, no primeiro turno, a abstenção foi de 21%. Ou 33 milhões de eleitores. Uma pena. Mas não se trata de uma “malaise” tupiniquim.

É um absurdo desperdiçar a chance de votar? Sim. Já deu para perceber que a democracia é ameaçada por governos autoritários que mentem e rasgam a Constituição, até em nome de Deus. No mundo inteiro.

Ninguém esperava, nas ruas e nas redes, esse exército todo sem armas de fogo. Só com suor, lágrimas e palavras de ordem. Por isso, quando me dizem que esta é a eleição da apatia e da depressão, eu respondo que me parece ser a eleição da 
paixão. Pró e contra.

Ninguém esperava.

 Ruth de Aquino

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