sábado, 8 de agosto de 2026
A fome dos deuses dos mercados engole o país
Enquanto atravesso a fronteira do Brasil para o Paraguai, o guia fala-me dos índios guarani. Orgulhoso da cultura e da língua – que fala fluentemente e que é, a par do espanhol, a língua oficial paraguaia –, explica-me que o respeito dos guaranis pela natureza e a forma como garantiam a abundância ajudou a formar o mito do brasileiro preguiçoso. “Bastava ficar deitado e esticar o braço para apanhar fruta.” Na verdade, os índios percebiam que, sempre que se tirava alguma coisa à Mata Atlântica, era preciso dar outra de volta. São testemunhas disso as árvores de fruto plantadas pelos guaranis, que ainda hoje resistem como pequenos pomares de citrinos no meio do mato. Também era preciso reconhecer os limites da Natureza. Quando num ponto do rio o peixe começava a escassear, era altura de ir assentar o acampamento noutra zona, para que aquela tivesse tempo de se regenerar.
A sabedoria antiga dos povos da América do Sul contrasta com a nossa enorme ignorância. Não há outra forma de descrever a maneira como insistimos em fazer equivaler “crescimento” e “felicidade”. Na nossa ânsia de fábulas, criámos métricas que adoramos como a deuses. O PIB é o token sagrado, alfa e ómega da civilização. Cálice mágico e salvífico. Em seu nome, fazemos sacrifícios aos mercados, criaturas sedentas, insaciáveis, cegas e irracionais, cuja ira tentamos aplacar, oferecendo-lhes a nossa própria vida e a dos nossos filhos, se for necessário. Vejam como o PIB acaba de crescer 0,8% no segundo trimestre, exultam os jornais económicos. O seu movimento é um daqueles abalos sísmicos impercetíveis, incapaz de mudar a vida de quem continua a ter um mês maior do que o salário. Mas como a fé é o que nos salva, alegramo-nos.
Precisamos de sábios. E por isso chamamos quem vem de longe e nos acena com a nossa própria ignorância. Que alegria é saber que só não crescemos porque não queremos. Somos pobres por opção, dizem-nos os ricos. E trazem-nos a palavra da salvação: reformas. Ninguém sabe muito bem o que são. Mas sabemos que doem. Se não doerem, não servem para nada. Os deuses impõem-nos o sofrimento. Caminhamos de joelhos em sangue no chão. E isso é que vai salvar-nos. Dizem eles, enquanto distribuem mais uns milhões em dividendos e fazem contas à vida, num iate em Ibiza, engolindo ostras e champanhe. Acreditemos.
Atravesso Portugal pelo interior. O interior é o que chamamos a um sítio rico que fizemos pobre. Porque sentimos que precisávamos de umas traseiras para onde atirar o lixo e onde poderíamos cortar tudo o que havia para cortar. Cortámos hospitais, tribunais e escolas. E chamámos-lhe um deserto. Mas fizemos lindas estradas para que os locais pudessem fugir depressa, enquanto pagam portagens, e pudéssemos dar mais uns milhões em PPP.
O interior resistiu. É triste usar o verbo “resistir”, que soa a meia derrota, mas o ataque é tão grande que só podem ser resistentes os bravos que ficam e percebem a riqueza de um território onde a paisagem se come e bebe e nos enche a alma. Uns nunca de cá tinham saído, outros regressaram e outros ainda vieram, com ideias, força, braços e ânimo para dar à terra e receber dela os seus frutos. Convenceram-se de que os governantes, obcecados com os deuses do PIB e do crescimento e depois de terem cortado tudo o que havia para cortar, os deixariam em paz, gozando da felicidade suprema que se consegue atingir nos sítios onde não reinam o PIB e o crescimento e os mercados. Estavam enganados.
Das estradas, vejo umas crostas brilhantes que ao longe quase parecem lagos refletindo o céu. São painéis solares, senhores. Milhares e milhares de painéis solares, tapando o chão, encandeando-os os olhos, abafando toda a vida, crescendo como um derrame. Comeremos um dia estes painéis? Poderemos usá-los como sombra ou agasalho? Não, mas são uma renda certa para quem abandonou os campos e assim os ocupa com este entulho, que podia muito bem estar no topo de edifícios gerando uma energia limpa, mas ficou antes como latifúndio gerando um negócio sujo.
Ao lado do negrume dos painéis faiscando sob o sol implacável do verão, continuam os eucaliptos sorvendo a água desde que alguém os viu como dinheiro rápido nos anos de 1980 e aí ficaram crescendo e sobrevivendo aos incêndios que nos queimam. Mas também isso não chegava. E por isso aí estão as minas de lítio, prontas a escavar as entranhas do País, avançando montadas em ordens administrativas assinadas em Lisboa, escoltadas pela GNR, contra a vontade dos donos das terras – que a propriedade é sagrada, mas só quando não pertence aos pobres. E é uma nova invasão a que resistem os bravos, os que ficaram, os que voltaram e os que vieram. Os que têm como inimigos os que recebem rendas e dividendos à distância de quilómetros, sem nunca tocar a terra, sem nunca sentir como ela seca, sem nunca ver como ela arde.
Os deuses precisam de data centers. E os seus profetas apresentam esses centros de dados como mais um milagre da criação. Mas são só mais umas bocas esfaimadas de água e energia, que é preciso alimentar. Os novos eucaliptos da era da Inteligência Artificial. Estruturas que não dão quase nada e tiram tudo aos sítios onde se alojam.
As leis estão escritas. Ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) chamam Mapa Verde e, com isso, escondem a ideia negra de que até 7% do território nacional pode ficar coberto de painéis solares. Licenças simplificadas, via verde para avançar sobre a Natureza, destruindo-a. Há quem ache que o progresso é isto. Ou quem finja acreditar nisso por assim ver progredir a sua conta bancária. A fatura vamos pagá-la nós, os de sempre, e os nossos filhos e netos.
Vou mudar o verbo. Não “vamos”. Pode não ser assim. Até os monstros se vencem. Podemos arrancar os olhos a estes ciclopes. Podemos arrancar os falsos deuses dos seus altares. Podemos deixar de nos oferecer em sacrifício. Podemos erguer-nos e destruir os mitos. Podemos.
A sabedoria antiga dos povos da América do Sul contrasta com a nossa enorme ignorância. Não há outra forma de descrever a maneira como insistimos em fazer equivaler “crescimento” e “felicidade”. Na nossa ânsia de fábulas, criámos métricas que adoramos como a deuses. O PIB é o token sagrado, alfa e ómega da civilização. Cálice mágico e salvífico. Em seu nome, fazemos sacrifícios aos mercados, criaturas sedentas, insaciáveis, cegas e irracionais, cuja ira tentamos aplacar, oferecendo-lhes a nossa própria vida e a dos nossos filhos, se for necessário. Vejam como o PIB acaba de crescer 0,8% no segundo trimestre, exultam os jornais económicos. O seu movimento é um daqueles abalos sísmicos impercetíveis, incapaz de mudar a vida de quem continua a ter um mês maior do que o salário. Mas como a fé é o que nos salva, alegramo-nos.
Precisamos de sábios. E por isso chamamos quem vem de longe e nos acena com a nossa própria ignorância. Que alegria é saber que só não crescemos porque não queremos. Somos pobres por opção, dizem-nos os ricos. E trazem-nos a palavra da salvação: reformas. Ninguém sabe muito bem o que são. Mas sabemos que doem. Se não doerem, não servem para nada. Os deuses impõem-nos o sofrimento. Caminhamos de joelhos em sangue no chão. E isso é que vai salvar-nos. Dizem eles, enquanto distribuem mais uns milhões em dividendos e fazem contas à vida, num iate em Ibiza, engolindo ostras e champanhe. Acreditemos.
Atravesso Portugal pelo interior. O interior é o que chamamos a um sítio rico que fizemos pobre. Porque sentimos que precisávamos de umas traseiras para onde atirar o lixo e onde poderíamos cortar tudo o que havia para cortar. Cortámos hospitais, tribunais e escolas. E chamámos-lhe um deserto. Mas fizemos lindas estradas para que os locais pudessem fugir depressa, enquanto pagam portagens, e pudéssemos dar mais uns milhões em PPP.
O interior resistiu. É triste usar o verbo “resistir”, que soa a meia derrota, mas o ataque é tão grande que só podem ser resistentes os bravos que ficam e percebem a riqueza de um território onde a paisagem se come e bebe e nos enche a alma. Uns nunca de cá tinham saído, outros regressaram e outros ainda vieram, com ideias, força, braços e ânimo para dar à terra e receber dela os seus frutos. Convenceram-se de que os governantes, obcecados com os deuses do PIB e do crescimento e depois de terem cortado tudo o que havia para cortar, os deixariam em paz, gozando da felicidade suprema que se consegue atingir nos sítios onde não reinam o PIB e o crescimento e os mercados. Estavam enganados.
Das estradas, vejo umas crostas brilhantes que ao longe quase parecem lagos refletindo o céu. São painéis solares, senhores. Milhares e milhares de painéis solares, tapando o chão, encandeando-os os olhos, abafando toda a vida, crescendo como um derrame. Comeremos um dia estes painéis? Poderemos usá-los como sombra ou agasalho? Não, mas são uma renda certa para quem abandonou os campos e assim os ocupa com este entulho, que podia muito bem estar no topo de edifícios gerando uma energia limpa, mas ficou antes como latifúndio gerando um negócio sujo.
Ao lado do negrume dos painéis faiscando sob o sol implacável do verão, continuam os eucaliptos sorvendo a água desde que alguém os viu como dinheiro rápido nos anos de 1980 e aí ficaram crescendo e sobrevivendo aos incêndios que nos queimam. Mas também isso não chegava. E por isso aí estão as minas de lítio, prontas a escavar as entranhas do País, avançando montadas em ordens administrativas assinadas em Lisboa, escoltadas pela GNR, contra a vontade dos donos das terras – que a propriedade é sagrada, mas só quando não pertence aos pobres. E é uma nova invasão a que resistem os bravos, os que ficaram, os que voltaram e os que vieram. Os que têm como inimigos os que recebem rendas e dividendos à distância de quilómetros, sem nunca tocar a terra, sem nunca sentir como ela seca, sem nunca ver como ela arde.
Os deuses precisam de data centers. E os seus profetas apresentam esses centros de dados como mais um milagre da criação. Mas são só mais umas bocas esfaimadas de água e energia, que é preciso alimentar. Os novos eucaliptos da era da Inteligência Artificial. Estruturas que não dão quase nada e tiram tudo aos sítios onde se alojam.
As leis estão escritas. Ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) chamam Mapa Verde e, com isso, escondem a ideia negra de que até 7% do território nacional pode ficar coberto de painéis solares. Licenças simplificadas, via verde para avançar sobre a Natureza, destruindo-a. Há quem ache que o progresso é isto. Ou quem finja acreditar nisso por assim ver progredir a sua conta bancária. A fatura vamos pagá-la nós, os de sempre, e os nossos filhos e netos.
Vou mudar o verbo. Não “vamos”. Pode não ser assim. Até os monstros se vencem. Podemos arrancar os olhos a estes ciclopes. Podemos arrancar os falsos deuses dos seus altares. Podemos deixar de nos oferecer em sacrifício. Podemos erguer-nos e destruir os mitos. Podemos.
Preso e condenado, Jair Bolsonaro é solução e problema para a campanha do filho
Centralizador, Jair Bolsonaro anunciou ainda em 2025 que a formação dos principais palanques para a campanha dos candidatos de direita nas eleições deste ano passaria pelo crivo dele. Condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente deu instruções sobre a formação das alianças estaduais, escolheu a dedo candidatos do PL ao Senado e, à revelia de conselheiros e para surpresa geral de ninguém, ungiu o primogênito como nome a defender seu espólio como candidato ao Palácio do Planalto. Até poucas semanas atrás, não havia decisão estratégica na campanha presidencial do filho que não passasse por consultas prévias ao antigo mandatário, mesmo preso em regime domiciliar e proibido de ter contato com quem quer que seja do mundo político, a não ser com sua esposa, Michelle, agora candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro promoveu até algumas correções de rota para aproximar ainda mais sua imagem e seu discurso aos do capitão. A sombra do pai sempre foi — e ainda é — o principal ativo do senador.
Parece um paradoxo, mas Jair Bolsonaro também tem sido uma fonte de problemas para a campanha do filho. Impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de usar as redes sociais e de transmitir mensagens políticas por meio de terceiros, o ex-presidente escreveu em julho uma “Carta aos Brasileiros” na qual pedia aos aliados que deixassem de lado as diferenças e reforçava que o filho era a melhor opção para disputar a Presidência da República. Depois, na convenção nacional do partido, uma versão do ex-presidente criada por inteligência artificial fez um discurso político saudando a candidatura do filho. Em ambos os casos, o PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultado: o candidato do PL começará a corrida ao Planalto investigado por crime eleitoral. A Justiça proíbe na propaganda dos candidatos a utilização de imagens e conteúdos que tenham o objetivo de ludibriar os eleitores ou promover campanha negativa. A versão digital do ex-presidente, em tese, não ludibriou ninguém, já que, desde o início, foi informado tratar-se de uma montagem produzida por inteligência artificial (IA).
O caso acelerou o debate sobre o uso da IA nas campanhas políticas. O PT teme que o ex-presidente assuma à distância o papel de principal cabo eleitoral do filho. O partido mantém uma equipe jurídica de prontidão para ingressar, se necessário, com representações na Justiça para impedir a campanha adversária de veicular novas mensagens do capitão em sua versão digital. Sabe-se que uma expressiva parcela do eleitorado de direita vota em qualquer candidato indicado pelo ex-presidente, e sua “aparição” pode influir decisivamente nas disputas locais. A campanha do PL, por sua vez, não esperava que a peça publicitária tivesse repercussão tão grande. Os marqueteiros do senador afirmam que queriam apenas deixar claro que Flávio é o herdeiro da direita e o escolhido pelo pai para manter vivo seu projeto político.
A equipe jurídica do PL deu seu aval à ideia por entender que as regras valiam apenas para o período em que a campanha fosse oficialmente iniciada, no próximo dia 16. Para evitar problemas futuros, o Bolsonaro virtual ficará arquivado até que fique claro o que é e o que não é permitido nesse território. Discursos que exploraram menções ao ex-presidente motivaram o ministro do STF, Alexandre de Moraes, a encaminhar ao Ministério Público pedido para que os casos fossem investigados como possível campanha eleitoral antecipada. Responsável por acompanhar o cumprimento de pena do antigo mandatário pela condenação na trama golpista, o magistrado ainda cobrou que o político explicasse se havia ou não autorizado o uso de sua imagem em IA. Em caso de uma resposta positiva, o capitão reformado poderia perder o direito à prisão domiciliar e voltar para a cadeia.
O TSE pretende realizar uma reunião a portas fechadas, na quarta-feira 12, para decidir eventuais punições à campanha de Flávio pelo uso de IA. Uma resolução do tribunal proíbe qualquer tipo de mensagem de deepfake, mesmo as autorizadas pela pessoa cuja voz ou imagem foi fabricada artificialmente, mas a vedação só é válida para a propaganda eleitoral, que ainda não começou. Os ministros devem debater também se serão permitidos avatares, hologramas e discursos feitos em IA nas campanhas de 2026 e levar o tema à votação no dia 17. O diagnóstico é de todo desafiador. O Observatório IA nas Eleições, mantido pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, identificou 357 conteúdos políticos sintéticos publicados entre 1º de janeiro e 15 de julho de 2026. Prevalecem publicações com ataques (67%), em comparação a endossos a candidatos (32%). Entre os políticos, Flávio Bolsonaro e o deputado Mario Frias despontam como os principais adeptos da ferramenta, segundo o levantamento feito a pedido de VEJA. A maior parte das mensagens, no entanto, foi produzida por usuários anônimos. “O potencial desinformativo é muito maior”, alerta o pesquisador Matheus Soares, um dos coordenadores do Observatório IA nas Eleições.
Responsabilizar uma campanha por postagens publicadas por terceiros ou perfis apócrifos será outro desafio da eleição. Para se chegar aos responsáveis, é necessário iniciar uma investigação judicial e demonstrar que houve coordenação, financiamento ou algum outro vínculo entre os autores e a candidatura beneficiada. Quem for acusado de fabricar deepfakes indevidamente, terá de provar o contrário — uma inversão do ônus da prova promovida pela Justiça Eleitoral por considerar que quem publica o material tem melhores condições de apresentar o arquivo original. Na prática, tais inquéritos têm se revelado pouco eficazes. Por isso, diante de dúvida relevante sobre a autenticidade de um conteúdo potencialmente danoso, a tendência, segundo advogados especializados ouvidos por VEJA, deve ser a simples remoção das publicações. Posicionados entre o avatar e o eleitor, os togados terão de definir o limite entre a criatividade e a fraude.
Em meio à polêmica do uso da IA, com o empuxo do pai, mas ainda sim rejeitado por 54% dos eleitores, segundo levantamento da pesquisa Genial/Quaest, Flávio chega ao início da corrida presidencial com vinte palanques estaduais montados, depois de trombadas na formação de parcerias políticas como a do Ceará, que provocou uma briga pública entre ele e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Chega também sem alianças formais com partidos do Centrão e sem ter conseguido viabilizar uma mulher como candidata a vice, solução que buscava para conquistar a simpatia do eleitorado feminino. A solenidade que oficializou, na quarta-feira 5, o nome do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice revela algumas dificuldades da campanha bolsonarista. Apesar do simbolismo que marca cerimônias dessa natureza, nenhum dos irmãos Bolsonaro, nenhum cacique estadual do partido e nenhum dos mais importantes apoiadores do candidato do PL, como o governador Tarcísio de Freitas, foi a Brasília para o anúncio.
A despeito das polêmicas e do isolamento político, Flávio é o candidato da direita mais bem posicionado nas pesquisas. Segundo levantamento da Quaest divulgado na quarta-feira 5, o senador diminuiu de 8 para 5 pontos percentuais a vantagem do presidente Lula em um confronto direto e voltou a centralizar a preferência do eleitor antipetista. Em um eventual segundo turno, o senador teria 81% das intenções de voto da direita não bolsonarista e 95% dos votos daqueles que se declaram bolsonaristas. Manter esses índices inabaláveis é fundamental para as pretensões do senador. Assim como ocorreu no anúncio do nome de Gaspar para vice, em que mais uma vez Jair Bolsonaro foi descrito como um preso “em cativeiro”, não há fala política em que Flávio não mencione o pai ex-presidente. Na convenção que o oficializou como principal nome da direita na corrida pelo Palácio do Planalto, por exemplo, ele se referia a si mesmo como “o filho mais velho do capitão” e disse saber “o tamanho da responsabilidade que o meu nome carrega”. Faltando dois meses para o primeiro turno das eleições, Flávio trocou a equipe de comunicação, isolou alguns coordenadores, promoveu outros e passou a emular em atos públicos uma versão dele mais parecida com o ex-presidente. Atacou as urnas eletrônicas, incorporou críticas ao Supremo como matéria-prima de seus discursos e passou a fazer lives periódicas — virou um avatar do próprio pai.
Parece um paradoxo, mas Jair Bolsonaro também tem sido uma fonte de problemas para a campanha do filho. Impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de usar as redes sociais e de transmitir mensagens políticas por meio de terceiros, o ex-presidente escreveu em julho uma “Carta aos Brasileiros” na qual pedia aos aliados que deixassem de lado as diferenças e reforçava que o filho era a melhor opção para disputar a Presidência da República. Depois, na convenção nacional do partido, uma versão do ex-presidente criada por inteligência artificial fez um discurso político saudando a candidatura do filho. Em ambos os casos, o PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultado: o candidato do PL começará a corrida ao Planalto investigado por crime eleitoral. A Justiça proíbe na propaganda dos candidatos a utilização de imagens e conteúdos que tenham o objetivo de ludibriar os eleitores ou promover campanha negativa. A versão digital do ex-presidente, em tese, não ludibriou ninguém, já que, desde o início, foi informado tratar-se de uma montagem produzida por inteligência artificial (IA).
O caso acelerou o debate sobre o uso da IA nas campanhas políticas. O PT teme que o ex-presidente assuma à distância o papel de principal cabo eleitoral do filho. O partido mantém uma equipe jurídica de prontidão para ingressar, se necessário, com representações na Justiça para impedir a campanha adversária de veicular novas mensagens do capitão em sua versão digital. Sabe-se que uma expressiva parcela do eleitorado de direita vota em qualquer candidato indicado pelo ex-presidente, e sua “aparição” pode influir decisivamente nas disputas locais. A campanha do PL, por sua vez, não esperava que a peça publicitária tivesse repercussão tão grande. Os marqueteiros do senador afirmam que queriam apenas deixar claro que Flávio é o herdeiro da direita e o escolhido pelo pai para manter vivo seu projeto político.
A equipe jurídica do PL deu seu aval à ideia por entender que as regras valiam apenas para o período em que a campanha fosse oficialmente iniciada, no próximo dia 16. Para evitar problemas futuros, o Bolsonaro virtual ficará arquivado até que fique claro o que é e o que não é permitido nesse território. Discursos que exploraram menções ao ex-presidente motivaram o ministro do STF, Alexandre de Moraes, a encaminhar ao Ministério Público pedido para que os casos fossem investigados como possível campanha eleitoral antecipada. Responsável por acompanhar o cumprimento de pena do antigo mandatário pela condenação na trama golpista, o magistrado ainda cobrou que o político explicasse se havia ou não autorizado o uso de sua imagem em IA. Em caso de uma resposta positiva, o capitão reformado poderia perder o direito à prisão domiciliar e voltar para a cadeia.
O TSE pretende realizar uma reunião a portas fechadas, na quarta-feira 12, para decidir eventuais punições à campanha de Flávio pelo uso de IA. Uma resolução do tribunal proíbe qualquer tipo de mensagem de deepfake, mesmo as autorizadas pela pessoa cuja voz ou imagem foi fabricada artificialmente, mas a vedação só é válida para a propaganda eleitoral, que ainda não começou. Os ministros devem debater também se serão permitidos avatares, hologramas e discursos feitos em IA nas campanhas de 2026 e levar o tema à votação no dia 17. O diagnóstico é de todo desafiador. O Observatório IA nas Eleições, mantido pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, identificou 357 conteúdos políticos sintéticos publicados entre 1º de janeiro e 15 de julho de 2026. Prevalecem publicações com ataques (67%), em comparação a endossos a candidatos (32%). Entre os políticos, Flávio Bolsonaro e o deputado Mario Frias despontam como os principais adeptos da ferramenta, segundo o levantamento feito a pedido de VEJA. A maior parte das mensagens, no entanto, foi produzida por usuários anônimos. “O potencial desinformativo é muito maior”, alerta o pesquisador Matheus Soares, um dos coordenadores do Observatório IA nas Eleições.
Responsabilizar uma campanha por postagens publicadas por terceiros ou perfis apócrifos será outro desafio da eleição. Para se chegar aos responsáveis, é necessário iniciar uma investigação judicial e demonstrar que houve coordenação, financiamento ou algum outro vínculo entre os autores e a candidatura beneficiada. Quem for acusado de fabricar deepfakes indevidamente, terá de provar o contrário — uma inversão do ônus da prova promovida pela Justiça Eleitoral por considerar que quem publica o material tem melhores condições de apresentar o arquivo original. Na prática, tais inquéritos têm se revelado pouco eficazes. Por isso, diante de dúvida relevante sobre a autenticidade de um conteúdo potencialmente danoso, a tendência, segundo advogados especializados ouvidos por VEJA, deve ser a simples remoção das publicações. Posicionados entre o avatar e o eleitor, os togados terão de definir o limite entre a criatividade e a fraude.
Em meio à polêmica do uso da IA, com o empuxo do pai, mas ainda sim rejeitado por 54% dos eleitores, segundo levantamento da pesquisa Genial/Quaest, Flávio chega ao início da corrida presidencial com vinte palanques estaduais montados, depois de trombadas na formação de parcerias políticas como a do Ceará, que provocou uma briga pública entre ele e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Chega também sem alianças formais com partidos do Centrão e sem ter conseguido viabilizar uma mulher como candidata a vice, solução que buscava para conquistar a simpatia do eleitorado feminino. A solenidade que oficializou, na quarta-feira 5, o nome do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice revela algumas dificuldades da campanha bolsonarista. Apesar do simbolismo que marca cerimônias dessa natureza, nenhum dos irmãos Bolsonaro, nenhum cacique estadual do partido e nenhum dos mais importantes apoiadores do candidato do PL, como o governador Tarcísio de Freitas, foi a Brasília para o anúncio.
A despeito das polêmicas e do isolamento político, Flávio é o candidato da direita mais bem posicionado nas pesquisas. Segundo levantamento da Quaest divulgado na quarta-feira 5, o senador diminuiu de 8 para 5 pontos percentuais a vantagem do presidente Lula em um confronto direto e voltou a centralizar a preferência do eleitor antipetista. Em um eventual segundo turno, o senador teria 81% das intenções de voto da direita não bolsonarista e 95% dos votos daqueles que se declaram bolsonaristas. Manter esses índices inabaláveis é fundamental para as pretensões do senador. Assim como ocorreu no anúncio do nome de Gaspar para vice, em que mais uma vez Jair Bolsonaro foi descrito como um preso “em cativeiro”, não há fala política em que Flávio não mencione o pai ex-presidente. Na convenção que o oficializou como principal nome da direita na corrida pelo Palácio do Planalto, por exemplo, ele se referia a si mesmo como “o filho mais velho do capitão” e disse saber “o tamanho da responsabilidade que o meu nome carrega”. Faltando dois meses para o primeiro turno das eleições, Flávio trocou a equipe de comunicação, isolou alguns coordenadores, promoveu outros e passou a emular em atos públicos uma versão dele mais parecida com o ex-presidente. Atacou as urnas eletrônicas, incorporou críticas ao Supremo como matéria-prima de seus discursos e passou a fazer lives periódicas — virou um avatar do próprio pai.
Tensão nos casos Master e INSS
A tensão entre o relator dos processos do INSS e do Caso Master, ministro André Mendonça, e a Polícia Federal é maior do que a que houve entre a PF e o ministro Dias Toffoli. O ministro Mendonça está exigindo despachar diretamente com os delegados e agentes, sem passar pela direção da Polícia e, pior, requereu todo o material bruto e indexado. E esse indexado não é um detalhe. É o que permite fazer busca específica. Basta colocar um nome que será possível encontrar todas as citações àquela pessoa. É possível direcionar a investigação.
A Polícia Federal levou o caso à Advocacia-Geral da União no dia 23 de julho pedindo que o órgão recorra dessa decisão de André Mendonça, mas a AGU nada fez até agora. Da mesma forma que nada fez quando, em janeiro, a Polícia Federal pediu que recorresse de decisões de Dias Toffoli. A maneira como estão sendo conduzidos os vários inquéritos nas mãos de André Mendonça está provocando uma distorção institucional. O juiz não pode ser o policial, o investigador, o diretor da polícia, a instituição que faz o controle externo, e a autoridade que julga, tudo ao mesmo tempo.
O temor entre autoridades em Brasília é que tudo isso acabe levando à nulidade dos processos, porque está difícil hoje fazer a cadeia de custódia dos documentos e dados para garantir a qualidade do processo. Foi exatamente essa suspeita que pairou sobre a Operação Lava Jato. E foi também o acúmulo de papéis e a tentativa de assumir funções policiais que produziram a tensão na época em que o relator era Dias Toffoli. Com o agravante de que ele estava citado nas investigações, o que não é o caso agora.
O juiz tem que ser equidistante, tem que ouvir a polícia, o Ministério Público e a defesa para tomar suas decisões de magistrado. Se ele concentra tudo, até o material bruto sobre seus cuidados, que distanciamento terá para julgar?
A Polícia Federal fica na estranha situação de mobilizar todos os recursos para as equipes funcionarem, mas as informações são levadas para o gabinete do ministro relator, às vezes diretamente pelos agentes, sem sequer a supervisão do delegado que preside o inquérito. A preocupação do ministro Mendonça, segundo interlocutores, é que a investigação seja isenta. Mas quem faz esse tipo de controle é o Ministério Público e não é desta forma que se garante a isenção.
Esse acúmulo de papéis produz distorções como a de tratar investigados de maneira diferente. A decisão sobre o senador Jaques Wagner demorou nove dias, a do ex-governador Cláudio Castro, dois meses e meio. O ministro retirou o sigilo da sua decisão no caso de Wagner, o que fez bem, mas não retirou de Castro ou do senador Ciro Nogueira.
A Polícia Federal levou o caso à Advocacia-Geral da União no dia 23 de julho pedindo que o órgão recorra dessa decisão de André Mendonça, mas a AGU nada fez até agora. Da mesma forma que nada fez quando, em janeiro, a Polícia Federal pediu que recorresse de decisões de Dias Toffoli. A maneira como estão sendo conduzidos os vários inquéritos nas mãos de André Mendonça está provocando uma distorção institucional. O juiz não pode ser o policial, o investigador, o diretor da polícia, a instituição que faz o controle externo, e a autoridade que julga, tudo ao mesmo tempo.
O temor entre autoridades em Brasília é que tudo isso acabe levando à nulidade dos processos, porque está difícil hoje fazer a cadeia de custódia dos documentos e dados para garantir a qualidade do processo. Foi exatamente essa suspeita que pairou sobre a Operação Lava Jato. E foi também o acúmulo de papéis e a tentativa de assumir funções policiais que produziram a tensão na época em que o relator era Dias Toffoli. Com o agravante de que ele estava citado nas investigações, o que não é o caso agora.
O juiz tem que ser equidistante, tem que ouvir a polícia, o Ministério Público e a defesa para tomar suas decisões de magistrado. Se ele concentra tudo, até o material bruto sobre seus cuidados, que distanciamento terá para julgar?
A Polícia Federal fica na estranha situação de mobilizar todos os recursos para as equipes funcionarem, mas as informações são levadas para o gabinete do ministro relator, às vezes diretamente pelos agentes, sem sequer a supervisão do delegado que preside o inquérito. A preocupação do ministro Mendonça, segundo interlocutores, é que a investigação seja isenta. Mas quem faz esse tipo de controle é o Ministério Público e não é desta forma que se garante a isenção.
Esse acúmulo de papéis produz distorções como a de tratar investigados de maneira diferente. A decisão sobre o senador Jaques Wagner demorou nove dias, a do ex-governador Cláudio Castro, dois meses e meio. O ministro retirou o sigilo da sua decisão no caso de Wagner, o que fez bem, mas não retirou de Castro ou do senador Ciro Nogueira.
O que se ouve entre investigadores é que até agora ficou provado que a Polícia Federal não escolhe politicamente seus alvos, tanto que as investigações atingem o filho do presidente, o líder do governo no Senado, e agora o vice-líder do Senado. Portanto, a desconfiança sobre a PF não se justifica.
Os próximos dois meses serão intensos, há operações que podem acontecer, novos desdobramentos, requerimentos pendentes. O pior que poderia acontecer a essa altura é a paralisia da Polícia Federal por excessiva e arbitrária centralização de informações no STF e pela captura das funções da Polícia Federal.
Os casos Master e INSS são graves demais, se espalharam no meio político, e para chegarem a um bom resultado é preciso que cada instituição faça o seu papel com autonomia e sem invasão de prerrogativas. A confiança na higidez do processo virá da distribuição dos papéis entre as instituições e não do acúmulo de tudo nas mãos de um ministro do STF.
Os próximos dois meses serão intensos, há operações que podem acontecer, novos desdobramentos, requerimentos pendentes. O pior que poderia acontecer a essa altura é a paralisia da Polícia Federal por excessiva e arbitrária centralização de informações no STF e pela captura das funções da Polícia Federal.
Os casos Master e INSS são graves demais, se espalharam no meio político, e para chegarem a um bom resultado é preciso que cada instituição faça o seu papel com autonomia e sem invasão de prerrogativas. A confiança na higidez do processo virá da distribuição dos papéis entre as instituições e não do acúmulo de tudo nas mãos de um ministro do STF.
O cérebro autoritário
Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.
O raciocínio denota uma certa paranoia institucional. Em vez de ver o vice como alguém que agrega apoios e ideias à chapa, Eduardo e outros bolsonaristas preferem descrevê-lo como uma apólice de seguro contra tentativas de destituição. Esse tipo de paranoia projetiva, que pressupõe um mundo repleto de inimigos ocultos e conspirações, é uma das características marcantes de personalidades autoritárias. Outros traços incluem convencionalismo, submissão ao líder e agressividade.
O interesse por tentar entender a mente de pessoas que aderem a ideologias totalitárias ganhou impulso após a derrota do nazismo. É nesse contexto que foi publicado, em 1950, o livro "A Personalidade Autoritária". Theodor Adorno é nome famoso associado à obra, mas ela resultou de um esforço coletivo e é assinada por vários autores. Um dos mais importantes é Else Frenkel-Brunswik. Foi ela quem coordenou e analisou as mais de 2.000 entrevistas que deram base empírica ao livro. Também é dela a famosa escala F, que permite calcular numericamente quão fascista é uma pessoa.
Um dos muitos achados interessantes da obra é que o autoritarismo tem base familiar. Estaria vinculado a um poder patriarcal rígido que condiciona afeto a desempenho e obediência. Outra constatação fascinante é que a rigidez psicológica de perfis autoritários não fica limitada à política, mas vaza para todas as dimensões do pensamento, incluindo a matemática e a solução de problemas.
Autoritários resistem a mudanças e não aceitam bem respostas diferentes daquelas a que estão acostumados, mesmo que mais eficientes. O cérebro autoritário é autoritário por inteiro.
O raciocínio denota uma certa paranoia institucional. Em vez de ver o vice como alguém que agrega apoios e ideias à chapa, Eduardo e outros bolsonaristas preferem descrevê-lo como uma apólice de seguro contra tentativas de destituição. Esse tipo de paranoia projetiva, que pressupõe um mundo repleto de inimigos ocultos e conspirações, é uma das características marcantes de personalidades autoritárias. Outros traços incluem convencionalismo, submissão ao líder e agressividade.
O interesse por tentar entender a mente de pessoas que aderem a ideologias totalitárias ganhou impulso após a derrota do nazismo. É nesse contexto que foi publicado, em 1950, o livro "A Personalidade Autoritária". Theodor Adorno é nome famoso associado à obra, mas ela resultou de um esforço coletivo e é assinada por vários autores. Um dos mais importantes é Else Frenkel-Brunswik. Foi ela quem coordenou e analisou as mais de 2.000 entrevistas que deram base empírica ao livro. Também é dela a famosa escala F, que permite calcular numericamente quão fascista é uma pessoa.
Um dos muitos achados interessantes da obra é que o autoritarismo tem base familiar. Estaria vinculado a um poder patriarcal rígido que condiciona afeto a desempenho e obediência. Outra constatação fascinante é que a rigidez psicológica de perfis autoritários não fica limitada à política, mas vaza para todas as dimensões do pensamento, incluindo a matemática e a solução de problemas.
Autoritários resistem a mudanças e não aceitam bem respostas diferentes daquelas a que estão acostumados, mesmo que mais eficientes. O cérebro autoritário é autoritário por inteiro.
Nem dormindo a gente descansa
Foi meu relógio que primeiro me acusou. Numa manhã dessas, o smartwatch me informou, com a frieza de um perito criminal, que eu havia dormido “abaixo do ideal” pela quinta noite seguida. Sono profundo insuficiente. Sono REM fragmentado. Nota 61 de 100, seguida de uma sugestão gentil: que tal se deitar mais cedo hoje? Não basta mais dormir mal. Agora sou todas as manhãs reprovado pela traquitana, com argumentos, gráficos coloridos, métricas e boletins diários. Não estou sozinho nessa. Nem na insônia, muito menos na vigilância.
Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde mostra que 20% dos brasileiros das capitais dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia. A Associação Brasileira do Sono também tem seus dados e estima que 73 milhões de brasileiros convivam com o problema. É quase um terço do país rolando na cama, contando carneirinhos, olhando para o teto ou se valendo de qualquer fórmula para cair nos braços de Morfeu.
As razões passam longe da escolha individual. O sono, esse gesto aparentemente mais íntimo e biológico que existe, é profundamente social e impactado pelas transformações culturais. O sono passou a competir com outras atividades e vem perdendo de goleada para as jornadas extensas no trabalho, os deslocamentos longos e as múltiplas demandas do cotidiano que reduzem o tempo disponível para o descanso.
Não por acaso, a privação atinge mais as mulheres, os idosos e quem tem menor escolaridade. Como quase tudo no Brasil, o sono tem CEP e tem classe. Dormir bem virou privilégio de quem mora perto do trabalho, ganha mais e não precisa enfrentar transporte público na madrugada para bater ponto às sete da manhã.
Diante de um problema estrutural, todos os dias surgem novas soluções mágicas. Vivemos o boom das tecnologias do sono: aplicativos de meditação, colchões inteligentes, anéis que medem batimentos, relógios vigilantes dos ciclos de descanso. Boa parte desses aplicativos exige levar o celular ou alguma traquitana luminosa para a cama. Mas o aparelho que promete te fazer dormir é o mesmo que te mantém acordado, uma vez que a luz das telas suprime a melatonina, hormônio fundamental à regulação do sono. Quem consegue dormir, na manhã seguinte, checa desesperadamente os gráficos da performance da noite, já certo do fracasso de uma jornada que, até outro dia, se resumia a fechar e abrir os olhos.
Quando transformamos o sono em performance, levamos para o quarto a mesma lógica que nos exauriu o dia inteiro. Do outro lado da cama, entre você e a parede, deitam-se as grandes empresas de tecnologia, anotando a hora em que você apagou, quantas vezes se virou, o volume do ronco. O último território que escapava ao mercado (aquele terço da vida em que estávamos inconscientes e, portanto, livres) foi colonizado, mapeado e convertido em dados. Nem dormindo a gente descansa.
É preciso otimizar o descanso, bater metas de sono profundo, superar a nota da noite anterior. O sono deixou de ser refúgio e virou tarefa. Descansar, cobrança final do dia. Acabou o tempo em que se media a qualidade do sono pela disposição ao acordar. Solteiros ou não, dormimos sempre acompanhados.
Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde mostra que 20% dos brasileiros das capitais dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia. A Associação Brasileira do Sono também tem seus dados e estima que 73 milhões de brasileiros convivam com o problema. É quase um terço do país rolando na cama, contando carneirinhos, olhando para o teto ou se valendo de qualquer fórmula para cair nos braços de Morfeu.
As razões passam longe da escolha individual. O sono, esse gesto aparentemente mais íntimo e biológico que existe, é profundamente social e impactado pelas transformações culturais. O sono passou a competir com outras atividades e vem perdendo de goleada para as jornadas extensas no trabalho, os deslocamentos longos e as múltiplas demandas do cotidiano que reduzem o tempo disponível para o descanso.
Não por acaso, a privação atinge mais as mulheres, os idosos e quem tem menor escolaridade. Como quase tudo no Brasil, o sono tem CEP e tem classe. Dormir bem virou privilégio de quem mora perto do trabalho, ganha mais e não precisa enfrentar transporte público na madrugada para bater ponto às sete da manhã.
Diante de um problema estrutural, todos os dias surgem novas soluções mágicas. Vivemos o boom das tecnologias do sono: aplicativos de meditação, colchões inteligentes, anéis que medem batimentos, relógios vigilantes dos ciclos de descanso. Boa parte desses aplicativos exige levar o celular ou alguma traquitana luminosa para a cama. Mas o aparelho que promete te fazer dormir é o mesmo que te mantém acordado, uma vez que a luz das telas suprime a melatonina, hormônio fundamental à regulação do sono. Quem consegue dormir, na manhã seguinte, checa desesperadamente os gráficos da performance da noite, já certo do fracasso de uma jornada que, até outro dia, se resumia a fechar e abrir os olhos.
Quando transformamos o sono em performance, levamos para o quarto a mesma lógica que nos exauriu o dia inteiro. Do outro lado da cama, entre você e a parede, deitam-se as grandes empresas de tecnologia, anotando a hora em que você apagou, quantas vezes se virou, o volume do ronco. O último território que escapava ao mercado (aquele terço da vida em que estávamos inconscientes e, portanto, livres) foi colonizado, mapeado e convertido em dados. Nem dormindo a gente descansa.
É preciso otimizar o descanso, bater metas de sono profundo, superar a nota da noite anterior. O sono deixou de ser refúgio e virou tarefa. Descansar, cobrança final do dia. Acabou o tempo em que se media a qualidade do sono pela disposição ao acordar. Solteiros ou não, dormimos sempre acompanhados.
Solidão eleitoral
Flávio Bolsonaro tenta agrupar e liderar a direita que está fragmentada na disputa pela Presidência da República. Não conseguiu grande coisa, mas sobram oito semanas até a votação no domingo, 4 de outubro.
É caso curioso de político que não se emancipou, embora já tenha atravessado metade dos 45 anos de idade em mandatos no Legislativo. Ele segue dependente do sobrenome, seu principal ativo desde os 21 anos, quando o pai, na época deputado federal, conseguiu elegê-lo deputado estadual no Rio. Até hoje Flávio Bolsonaro evoca a figura do pai quando se apresenta aos eleitores, como se fosse um cartão de visita.
Repetiu a fórmula do “candidato do pai” ao confirmar a candidatura à Presidência pelo Partido Liberal. Em vinte minutos de discurso fez uma dúzia de citações a Jair Bolsonaro — uma a cada minuto e meio.
Um grupo de anônimos se reuniu no dia seguinte no Instituto Democracia em Xeque, em São Paulo, para nova sessão da pesquisa qualitativa sobre motivações, valores e atitudes do eleitorado autodeclarado de direita, que há meses é dirigida pelos sociólogos Esther Solano e Beto Vasques.
— Não conheço nenhum projeto nem ideia do Flávio, nem de quando ele era senador — provocou um eleitor.
— Atrapalha muito que ele só tenha o passado do pai dele… — atalhou outro.
— Concordo… São as coisas do pai, não tem uma visão própria dele… Me lembra quando a Dilma (Rousseff) entrou (na disputa presidencial de 2010). As pessoas votaram nela pelo Lula, né? As pessoas sabiam que o Lula estaria por trás dela. Então, é a mesma coisa com o pai do Flávio.
Os pesquisadores deixaram suas impressões na “ata” dessa roda de conversa: “Flávio segue vivo porque o desejo de mudança permanece (…). A candidatura se mostra isolada, sem coligações claras, sem propostas reconhecidas, sem autonomia diante do pai, e sem maturidade e previsibilidade suficientes para se impor como alternativa. A mudança continua desejada, mas (ele) não conseguiu demonstrar que seria uma mudança governável nem segura (…). Flávio precisa provar que a sua ‘novidade’ não é tutela paterna, improviso, fragilidade ou mergulho no escuro. A mudança segue aberta como desejo. Mas, para vencer, (a candidatura) terá que parecer adulta, autônoma, concreta, confiável e capaz de governar”.
Ele continua sendo o candidato da oposição mais destacado nas pesquisas de intenção de voto. No primeiro turno, está atrás de Lula (30% a 39%), segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta 5. Sua distância para o líder é de 9 pontos, o triplo do que era no trimestre passado, antes das revelações sobre suas transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por fraudes bilionárias.
O principal oposicionista, no entanto, agora está mais isolado do que no verão passado, quando se proclamou candidato designado pelo pai, inelegível e condenado à prisão até completar 97 anos de vida, no ano 2052, por crimes contra a Constituição, entre eles tentativa de golpe de Estado.
Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro foi protagonista de um espetáculo singular na política — o da rejeição pública, coletiva, sucessiva e terminante às propostas de aliança que fez aos partidos Progressistas, União Brasil, Republicanos, Podemos e PSDB, entre outros, que nos plenários do Congresso integram o bloco conhecido como Centrão.
Experimentou a solidão eleitoral no confuso e frustrado processo de escolha do seu candidato a vice-presidente. Começou procurando uma mulher para vice em diferentes partidos. Seria, em tese, uma forma de compensar a desconfiança do eleitorado feminino, expressa na vantagem (cerca de 12 pontos à frente) do adversário Lula nesse segmento.
Deu tudo errado, e acabou abraçado ao deputado Alfredo Gaspar, do Partido Liberal de Alagoas. Pode não ter resolvido o seu problema, mas ajudou Arthur Lira, principal líder do Progressistas. O ex-presidente da Câmara disputava com Gaspar por uma vaga ao Senado. O concorrente virou vice de Flávio Bolsonaro, que tem a eterna gratidão de Lira.
Até agora, ele fracassou naquilo que parecia essencial: agrupar e liderar a direita. É exatamente o contrário do que faz o adversário. Pela primeira vez em 37 anos de disputas presidenciais, Lula reúne sete partidos na sua chapa eleitoral (PT, PSB, Rede, PDT, PSOL, PCdoB e PV).
O isolamento do “candidato do pai” na campanha mostra o clã Bolsonaro em inédita vulnerabilidade à direita.
É caso curioso de político que não se emancipou, embora já tenha atravessado metade dos 45 anos de idade em mandatos no Legislativo. Ele segue dependente do sobrenome, seu principal ativo desde os 21 anos, quando o pai, na época deputado federal, conseguiu elegê-lo deputado estadual no Rio. Até hoje Flávio Bolsonaro evoca a figura do pai quando se apresenta aos eleitores, como se fosse um cartão de visita.
Repetiu a fórmula do “candidato do pai” ao confirmar a candidatura à Presidência pelo Partido Liberal. Em vinte minutos de discurso fez uma dúzia de citações a Jair Bolsonaro — uma a cada minuto e meio.
Um grupo de anônimos se reuniu no dia seguinte no Instituto Democracia em Xeque, em São Paulo, para nova sessão da pesquisa qualitativa sobre motivações, valores e atitudes do eleitorado autodeclarado de direita, que há meses é dirigida pelos sociólogos Esther Solano e Beto Vasques.
— Não conheço nenhum projeto nem ideia do Flávio, nem de quando ele era senador — provocou um eleitor.
— Atrapalha muito que ele só tenha o passado do pai dele… — atalhou outro.
— Concordo… São as coisas do pai, não tem uma visão própria dele… Me lembra quando a Dilma (Rousseff) entrou (na disputa presidencial de 2010). As pessoas votaram nela pelo Lula, né? As pessoas sabiam que o Lula estaria por trás dela. Então, é a mesma coisa com o pai do Flávio.
Os pesquisadores deixaram suas impressões na “ata” dessa roda de conversa: “Flávio segue vivo porque o desejo de mudança permanece (…). A candidatura se mostra isolada, sem coligações claras, sem propostas reconhecidas, sem autonomia diante do pai, e sem maturidade e previsibilidade suficientes para se impor como alternativa. A mudança continua desejada, mas (ele) não conseguiu demonstrar que seria uma mudança governável nem segura (…). Flávio precisa provar que a sua ‘novidade’ não é tutela paterna, improviso, fragilidade ou mergulho no escuro. A mudança segue aberta como desejo. Mas, para vencer, (a candidatura) terá que parecer adulta, autônoma, concreta, confiável e capaz de governar”.
Ele continua sendo o candidato da oposição mais destacado nas pesquisas de intenção de voto. No primeiro turno, está atrás de Lula (30% a 39%), segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta 5. Sua distância para o líder é de 9 pontos, o triplo do que era no trimestre passado, antes das revelações sobre suas transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por fraudes bilionárias.
O principal oposicionista, no entanto, agora está mais isolado do que no verão passado, quando se proclamou candidato designado pelo pai, inelegível e condenado à prisão até completar 97 anos de vida, no ano 2052, por crimes contra a Constituição, entre eles tentativa de golpe de Estado.
Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro foi protagonista de um espetáculo singular na política — o da rejeição pública, coletiva, sucessiva e terminante às propostas de aliança que fez aos partidos Progressistas, União Brasil, Republicanos, Podemos e PSDB, entre outros, que nos plenários do Congresso integram o bloco conhecido como Centrão.
Experimentou a solidão eleitoral no confuso e frustrado processo de escolha do seu candidato a vice-presidente. Começou procurando uma mulher para vice em diferentes partidos. Seria, em tese, uma forma de compensar a desconfiança do eleitorado feminino, expressa na vantagem (cerca de 12 pontos à frente) do adversário Lula nesse segmento.
Deu tudo errado, e acabou abraçado ao deputado Alfredo Gaspar, do Partido Liberal de Alagoas. Pode não ter resolvido o seu problema, mas ajudou Arthur Lira, principal líder do Progressistas. O ex-presidente da Câmara disputava com Gaspar por uma vaga ao Senado. O concorrente virou vice de Flávio Bolsonaro, que tem a eterna gratidão de Lira.
Até agora, ele fracassou naquilo que parecia essencial: agrupar e liderar a direita. É exatamente o contrário do que faz o adversário. Pela primeira vez em 37 anos de disputas presidenciais, Lula reúne sete partidos na sua chapa eleitoral (PT, PSB, Rede, PDT, PSOL, PCdoB e PV).
O isolamento do “candidato do pai” na campanha mostra o clã Bolsonaro em inédita vulnerabilidade à direita.
A tirania da mediocridade: quando nivelar por baixo adoece
A palavra mediocridade vem do latim mediocritas, medius, “meio”, e ocris, “elevação” ou “monte”: a imagem de quem está no meio da subida. Originalmente, designava uma posição entre dois extremos e podia indicar moderação, condição comum ou ausência de excessos, sem sentido depreciativo. Não há indignidade em estar no meio do caminho: ninguém é excepcional em todos os domínios.
A mediocridade se torna problema quando a metade do caminho se declara cume e transforma a própria insuficiência em medida para os demais. Vira tirania quando grupos, instituições ou culturas premiam a superficialidade, punem a complexidade e obrigam quem sabe mais, pergunta melhor ou trabalha com rigor a se reduzir para pertencer.
Na Grécia antiga, idiṓtēs, de ídios – “próprio, particular” –, designava o indivíduo privado, o leigo ou quem não dominava uma função na vida pública. Com o tempo, passou a indicar inexperiência, ignorância e falta de discernimento. A mesma raiz aparece em idiossincrasia, aquilo que é próprio de cada pessoa, e idiopatia, doença de causa desconhecida.
O problema não é não saber, mas negar os próprios limites e transformar a própria insuficiência em autoridade. Quando essa característica individual é normalizada, premiada e ampliada, surge uma espécie de “idiopatia social”: a mediocridade deixa de se reconhecer e passa a governar. A ignorância é humana; a tirania da mediocridade, uma forma de poder.
O problema não é todos terem voz – isso sustenta a democracia. Surge quando opinião vira evidência, repetição vira verdade, popularidade vira competência e lealdade vira obediência. O erro ganha proteção, deixa de ser corrigido e quem o aponta passa a ser visto como ameaça.
Nas organizações, esse mecanismo começa discretamente: um profissional aponta um risco, uma decisão mal fundamentada ou uma injustiça. É ignorado; se insiste, vira “difícil”, “arrogante” ou “pouco colaborativo” e aprende que alertar custa mais que calar. Pesquisas sobre silêncio organizacional sugerem que voz e silêncio dependem menos de canais formais do que da cultura, do poder e da resposta a quem fala. Quando a organização pede opiniões, mas pune quem contraria a liderança, não escuta – encena participação.
Esse custo não fica só no ambiente de trabalho, mas se inscreve no corpo de quem cala. O sofrimento moral ocorre quando barreiras hierárquicas, institucionais ou sistêmicas impedem a conduta considerada correta. Associa-se a estresse, exaustão, desmoralização e perda de profissionais qualificados. Estudo recente da Universidade da Califórnia mostra que estressores ocupacionais persistentes atuam por várias vias, gerando desgaste biológico, psíquico e com efeitos estruturais nas organizações.
Bruce McEwen chamou de carga alostática o desgaste acumulado pela ativação repetida dos sistemas de adaptação ao estresse. Protetora no curto prazo, essa resposta, quando contínua, pode comprometer a regulação cardiovascular, metabólica, neural e imunológica. Humilhação, imprevisibilidade, impotência e vigilância defensiva mantêm esses sistemas ativados. A tirania da mediocridade adoece ao obrigar pessoas competentes a perceber e fingir que não perceberam.
Quando falar não muda nada, pode surgir o desamparo aprendido: experiências repetidas de falta de controle reduzem a iniciativa e a expectativa de que agir produza efeitos. Nas empresas, isso aparece como desistência silenciosa, conformidade defensiva e perda da curiosidade. A pessoa permanece, mas entrega apenas o mínimo para evitar punição. A organização acredita ter alcançado harmonia quando, na verdade, perdeu inteligência.
A imunologia ajuda a compreender esse processo, sem equivalência literal. Um sistema imune saudável não ataca nem tolera tudo: reconhece infecção, dano e perigo e regula alvo, intensidade e duração da resposta. Na alergia, reage em excesso a estímulos geralmente inofensivos; na anergia ou exaustão, células deixam de responder adequadamente – como no câncer, que pode escapar da vigilância e induzir tolerância imunológica; na inflamação crônica, a resposta persistente lesa o organismo; e, na hiperinflamação, como na tempestade de citocinas da Covid-19 grave, pode destruir tecidos e órgãos sem controlar o perigo.
Organizações podem desenvolver alergia à diferença, anergia diante da incompetência e inflamação crônica por conflitos persistentes e não resolvidos; também podem tolerar práticas que corroem o coletivo ou reagir de forma tão excessiva que destroem pessoas, vínculos e competências que deveriam preservar. Como alerta o paradoxo da tolerância, de Karl Popper, sociedades e organizações se desorganizam quando não distinguem a diversidade que as fortalece das condutas que destroem suas regras: limites saudáveis não reprimem a diferença, mas protegem as condições que a tornam possível.
A saída não é trocar a tirania da maioria pela dos especialistas. Conhecimento sem revisão vira autoridade fechada; excelência sem responsabilidade, arrogância. O antídoto são critérios públicos, contestáveis, auditáveis e verificáveis, diante dos quais hierarquia, fama ou número de seguidores não dispensem ninguém de apresentar razões. Isso exige segurança psicológica para perguntar, discordar, admitir erros e comunicar riscos sem humilhação ou retaliação, além de lideranças capazes de distinguir dissensão de deslealdade e diversidade de desordem. Ambientes saudáveis não eliminam o conflito: metabolizam-no.
Quem são, então, “os melhores”? Não são uma casta, um diploma ou uma elite autoproclamada, mas aqueles que, em cada situação, reúnem mais conhecimento, experiência ou lucidez e continuam dispostos a rever o que sabem. O antigo idiṓtēs não era culpado por ser leigo. A mediocridade começa quando alguém nega seus limites, esconde a insuficiência atrás do poder e obriga os demais a se acomodarem a ela. Assim, uma idiossincrasia individual, normalizada e ampliada, torna-se coletiva e, ao adoecer o conjunto, uma idiopatia social, o que Nelson Rodrigues, em O Óbvio Ululante, já condensara: “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”
Em tempos de intolerância e polarização, reconhecer o que não sabemos é condição de lucidez. Usamos nossos limites para aprender ou para julgar? O que nos convence: impressões ou razões?
Rubens Harb Bollos
A mediocridade se torna problema quando a metade do caminho se declara cume e transforma a própria insuficiência em medida para os demais. Vira tirania quando grupos, instituições ou culturas premiam a superficialidade, punem a complexidade e obrigam quem sabe mais, pergunta melhor ou trabalha com rigor a se reduzir para pertencer.
Na Grécia antiga, idiṓtēs, de ídios – “próprio, particular” –, designava o indivíduo privado, o leigo ou quem não dominava uma função na vida pública. Com o tempo, passou a indicar inexperiência, ignorância e falta de discernimento. A mesma raiz aparece em idiossincrasia, aquilo que é próprio de cada pessoa, e idiopatia, doença de causa desconhecida.
O problema não é não saber, mas negar os próprios limites e transformar a própria insuficiência em autoridade. Quando essa característica individual é normalizada, premiada e ampliada, surge uma espécie de “idiopatia social”: a mediocridade deixa de se reconhecer e passa a governar. A ignorância é humana; a tirania da mediocridade, uma forma de poder.
O problema não é todos terem voz – isso sustenta a democracia. Surge quando opinião vira evidência, repetição vira verdade, popularidade vira competência e lealdade vira obediência. O erro ganha proteção, deixa de ser corrigido e quem o aponta passa a ser visto como ameaça.
“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”
Nas organizações, esse mecanismo começa discretamente: um profissional aponta um risco, uma decisão mal fundamentada ou uma injustiça. É ignorado; se insiste, vira “difícil”, “arrogante” ou “pouco colaborativo” e aprende que alertar custa mais que calar. Pesquisas sobre silêncio organizacional sugerem que voz e silêncio dependem menos de canais formais do que da cultura, do poder e da resposta a quem fala. Quando a organização pede opiniões, mas pune quem contraria a liderança, não escuta – encena participação.
Esse custo não fica só no ambiente de trabalho, mas se inscreve no corpo de quem cala. O sofrimento moral ocorre quando barreiras hierárquicas, institucionais ou sistêmicas impedem a conduta considerada correta. Associa-se a estresse, exaustão, desmoralização e perda de profissionais qualificados. Estudo recente da Universidade da Califórnia mostra que estressores ocupacionais persistentes atuam por várias vias, gerando desgaste biológico, psíquico e com efeitos estruturais nas organizações.
Bruce McEwen chamou de carga alostática o desgaste acumulado pela ativação repetida dos sistemas de adaptação ao estresse. Protetora no curto prazo, essa resposta, quando contínua, pode comprometer a regulação cardiovascular, metabólica, neural e imunológica. Humilhação, imprevisibilidade, impotência e vigilância defensiva mantêm esses sistemas ativados. A tirania da mediocridade adoece ao obrigar pessoas competentes a perceber e fingir que não perceberam.
Quando falar não muda nada, pode surgir o desamparo aprendido: experiências repetidas de falta de controle reduzem a iniciativa e a expectativa de que agir produza efeitos. Nas empresas, isso aparece como desistência silenciosa, conformidade defensiva e perda da curiosidade. A pessoa permanece, mas entrega apenas o mínimo para evitar punição. A organização acredita ter alcançado harmonia quando, na verdade, perdeu inteligência.
A imunologia ajuda a compreender esse processo, sem equivalência literal. Um sistema imune saudável não ataca nem tolera tudo: reconhece infecção, dano e perigo e regula alvo, intensidade e duração da resposta. Na alergia, reage em excesso a estímulos geralmente inofensivos; na anergia ou exaustão, células deixam de responder adequadamente – como no câncer, que pode escapar da vigilância e induzir tolerância imunológica; na inflamação crônica, a resposta persistente lesa o organismo; e, na hiperinflamação, como na tempestade de citocinas da Covid-19 grave, pode destruir tecidos e órgãos sem controlar o perigo.
Organizações podem desenvolver alergia à diferença, anergia diante da incompetência e inflamação crônica por conflitos persistentes e não resolvidos; também podem tolerar práticas que corroem o coletivo ou reagir de forma tão excessiva que destroem pessoas, vínculos e competências que deveriam preservar. Como alerta o paradoxo da tolerância, de Karl Popper, sociedades e organizações se desorganizam quando não distinguem a diversidade que as fortalece das condutas que destroem suas regras: limites saudáveis não reprimem a diferença, mas protegem as condições que a tornam possível.
A saída não é trocar a tirania da maioria pela dos especialistas. Conhecimento sem revisão vira autoridade fechada; excelência sem responsabilidade, arrogância. O antídoto são critérios públicos, contestáveis, auditáveis e verificáveis, diante dos quais hierarquia, fama ou número de seguidores não dispensem ninguém de apresentar razões. Isso exige segurança psicológica para perguntar, discordar, admitir erros e comunicar riscos sem humilhação ou retaliação, além de lideranças capazes de distinguir dissensão de deslealdade e diversidade de desordem. Ambientes saudáveis não eliminam o conflito: metabolizam-no.
Quem são, então, “os melhores”? Não são uma casta, um diploma ou uma elite autoproclamada, mas aqueles que, em cada situação, reúnem mais conhecimento, experiência ou lucidez e continuam dispostos a rever o que sabem. O antigo idiṓtēs não era culpado por ser leigo. A mediocridade começa quando alguém nega seus limites, esconde a insuficiência atrás do poder e obriga os demais a se acomodarem a ela. Assim, uma idiossincrasia individual, normalizada e ampliada, torna-se coletiva e, ao adoecer o conjunto, uma idiopatia social, o que Nelson Rodrigues, em O Óbvio Ululante, já condensara: “Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”
Em tempos de intolerância e polarização, reconhecer o que não sabemos é condição de lucidez. Usamos nossos limites para aprender ou para julgar? O que nos convence: impressões ou razões?
Rubens Harb Bollos
Assinar:
Postagens (Atom)