Foi meu relógio que primeiro me acusou. Numa manhã dessas, o smartwatch me informou, com a frieza de um perito criminal, que eu havia dormido “abaixo do ideal” pela quinta noite seguida. Sono profundo insuficiente. Sono REM fragmentado. Nota 61 de 100, seguida de uma sugestão gentil: que tal se deitar mais cedo hoje? Não basta mais dormir mal. Agora sou todas as manhãs reprovado pela traquitana, com argumentos, gráficos coloridos, métricas e boletins diários. Não estou sozinho nessa. Nem na insônia, muito menos na vigilância.
Uma pesquisa recente do Ministério da Saúde mostra que 20% dos brasileiros das capitais dormem menos de seis horas por noite e 31,7% relatam sintomas de insônia. A Associação Brasileira do Sono também tem seus dados e estima que 73 milhões de brasileiros convivam com o problema. É quase um terço do país rolando na cama, contando carneirinhos, olhando para o teto ou se valendo de qualquer fórmula para cair nos braços de Morfeu.
As razões passam longe da escolha individual. O sono, esse gesto aparentemente mais íntimo e biológico que existe, é profundamente social e impactado pelas transformações culturais. O sono passou a competir com outras atividades e vem perdendo de goleada para as jornadas extensas no trabalho, os deslocamentos longos e as múltiplas demandas do cotidiano que reduzem o tempo disponível para o descanso.
Não por acaso, a privação atinge mais as mulheres, os idosos e quem tem menor escolaridade. Como quase tudo no Brasil, o sono tem CEP e tem classe. Dormir bem virou privilégio de quem mora perto do trabalho, ganha mais e não precisa enfrentar transporte público na madrugada para bater ponto às sete da manhã.
Diante de um problema estrutural, todos os dias surgem novas soluções mágicas. Vivemos o boom das tecnologias do sono: aplicativos de meditação, colchões inteligentes, anéis que medem batimentos, relógios vigilantes dos ciclos de descanso. Boa parte desses aplicativos exige levar o celular ou alguma traquitana luminosa para a cama. Mas o aparelho que promete te fazer dormir é o mesmo que te mantém acordado, uma vez que a luz das telas suprime a melatonina, hormônio fundamental à regulação do sono. Quem consegue dormir, na manhã seguinte, checa desesperadamente os gráficos da performance da noite, já certo do fracasso de uma jornada que, até outro dia, se resumia a fechar e abrir os olhos.
Quando transformamos o sono em performance, levamos para o quarto a mesma lógica que nos exauriu o dia inteiro. Do outro lado da cama, entre você e a parede, deitam-se as grandes empresas de tecnologia, anotando a hora em que você apagou, quantas vezes se virou, o volume do ronco. O último território que escapava ao mercado (aquele terço da vida em que estávamos inconscientes e, portanto, livres) foi colonizado, mapeado e convertido em dados. Nem dormindo a gente descansa.
É preciso otimizar o descanso, bater metas de sono profundo, superar a nota da noite anterior. O sono deixou de ser refúgio e virou tarefa. Descansar, cobrança final do dia. Acabou o tempo em que se media a qualidade do sono pela disposição ao acordar. Solteiros ou não, dormimos sempre acompanhados.
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