Enquanto atravesso a fronteira do Brasil para o Paraguai, o guia fala-me dos índios guarani. Orgulhoso da cultura e da língua – que fala fluentemente e que é, a par do espanhol, a língua oficial paraguaia –, explica-me que o respeito dos guaranis pela natureza e a forma como garantiam a abundância ajudou a formar o mito do brasileiro preguiçoso. “Bastava ficar deitado e esticar o braço para apanhar fruta.” Na verdade, os índios percebiam que, sempre que se tirava alguma coisa à Mata Atlântica, era preciso dar outra de volta. São testemunhas disso as árvores de fruto plantadas pelos guaranis, que ainda hoje resistem como pequenos pomares de citrinos no meio do mato. Também era preciso reconhecer os limites da Natureza. Quando num ponto do rio o peixe começava a escassear, era altura de ir assentar o acampamento noutra zona, para que aquela tivesse tempo de se regenerar.
A sabedoria antiga dos povos da América do Sul contrasta com a nossa enorme ignorância. Não há outra forma de descrever a maneira como insistimos em fazer equivaler “crescimento” e “felicidade”. Na nossa ânsia de fábulas, criámos métricas que adoramos como a deuses. O PIB é o token sagrado, alfa e ómega da civilização. Cálice mágico e salvífico. Em seu nome, fazemos sacrifícios aos mercados, criaturas sedentas, insaciáveis, cegas e irracionais, cuja ira tentamos aplacar, oferecendo-lhes a nossa própria vida e a dos nossos filhos, se for necessário. Vejam como o PIB acaba de crescer 0,8% no segundo trimestre, exultam os jornais económicos. O seu movimento é um daqueles abalos sísmicos impercetíveis, incapaz de mudar a vida de quem continua a ter um mês maior do que o salário. Mas como a fé é o que nos salva, alegramo-nos.
Precisamos de sábios. E por isso chamamos quem vem de longe e nos acena com a nossa própria ignorância. Que alegria é saber que só não crescemos porque não queremos. Somos pobres por opção, dizem-nos os ricos. E trazem-nos a palavra da salvação: reformas. Ninguém sabe muito bem o que são. Mas sabemos que doem. Se não doerem, não servem para nada. Os deuses impõem-nos o sofrimento. Caminhamos de joelhos em sangue no chão. E isso é que vai salvar-nos. Dizem eles, enquanto distribuem mais uns milhões em dividendos e fazem contas à vida, num iate em Ibiza, engolindo ostras e champanhe. Acreditemos.
Atravesso Portugal pelo interior. O interior é o que chamamos a um sítio rico que fizemos pobre. Porque sentimos que precisávamos de umas traseiras para onde atirar o lixo e onde poderíamos cortar tudo o que havia para cortar. Cortámos hospitais, tribunais e escolas. E chamámos-lhe um deserto. Mas fizemos lindas estradas para que os locais pudessem fugir depressa, enquanto pagam portagens, e pudéssemos dar mais uns milhões em PPP.
O interior resistiu. É triste usar o verbo “resistir”, que soa a meia derrota, mas o ataque é tão grande que só podem ser resistentes os bravos que ficam e percebem a riqueza de um território onde a paisagem se come e bebe e nos enche a alma. Uns nunca de cá tinham saído, outros regressaram e outros ainda vieram, com ideias, força, braços e ânimo para dar à terra e receber dela os seus frutos. Convenceram-se de que os governantes, obcecados com os deuses do PIB e do crescimento e depois de terem cortado tudo o que havia para cortar, os deixariam em paz, gozando da felicidade suprema que se consegue atingir nos sítios onde não reinam o PIB e o crescimento e os mercados. Estavam enganados.
Das estradas, vejo umas crostas brilhantes que ao longe quase parecem lagos refletindo o céu. São painéis solares, senhores. Milhares e milhares de painéis solares, tapando o chão, encandeando-os os olhos, abafando toda a vida, crescendo como um derrame. Comeremos um dia estes painéis? Poderemos usá-los como sombra ou agasalho? Não, mas são uma renda certa para quem abandonou os campos e assim os ocupa com este entulho, que podia muito bem estar no topo de edifícios gerando uma energia limpa, mas ficou antes como latifúndio gerando um negócio sujo.
Ao lado do negrume dos painéis faiscando sob o sol implacável do verão, continuam os eucaliptos sorvendo a água desde que alguém os viu como dinheiro rápido nos anos de 1980 e aí ficaram crescendo e sobrevivendo aos incêndios que nos queimam. Mas também isso não chegava. E por isso aí estão as minas de lítio, prontas a escavar as entranhas do País, avançando montadas em ordens administrativas assinadas em Lisboa, escoltadas pela GNR, contra a vontade dos donos das terras – que a propriedade é sagrada, mas só quando não pertence aos pobres. E é uma nova invasão a que resistem os bravos, os que ficaram, os que voltaram e os que vieram. Os que têm como inimigos os que recebem rendas e dividendos à distância de quilómetros, sem nunca tocar a terra, sem nunca sentir como ela seca, sem nunca ver como ela arde.
Os deuses precisam de data centers. E os seus profetas apresentam esses centros de dados como mais um milagre da criação. Mas são só mais umas bocas esfaimadas de água e energia, que é preciso alimentar. Os novos eucaliptos da era da Inteligência Artificial. Estruturas que não dão quase nada e tiram tudo aos sítios onde se alojam.
As leis estão escritas. Ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) chamam Mapa Verde e, com isso, escondem a ideia negra de que até 7% do território nacional pode ficar coberto de painéis solares. Licenças simplificadas, via verde para avançar sobre a Natureza, destruindo-a. Há quem ache que o progresso é isto. Ou quem finja acreditar nisso por assim ver progredir a sua conta bancária. A fatura vamos pagá-la nós, os de sempre, e os nossos filhos e netos.
Vou mudar o verbo. Não “vamos”. Pode não ser assim. Até os monstros se vencem. Podemos arrancar os olhos a estes ciclopes. Podemos arrancar os falsos deuses dos seus altares. Podemos deixar de nos oferecer em sacrifício. Podemos erguer-nos e destruir os mitos. Podemos.
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