segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Nós, as formigas da inteligência artificial

Jacob Coxon, um investigador que passou três anos construindo os sistemas por detrás de alguns dos modelos de IA mais poderosos do mundo, demitiu-se há poucos dias da Anthropic. O motivo? “As pessoas que constroem sistemas de IA acreditam sinceramente que estes podem matar-nos a todos até ao fim da década.”

Li estas terríveis declarações em diversos jornais. Depois fui passear de caiaque. Afastei-me um pouco da costa. Voltei-me de frente para o sol, pousei os remos e fechei os olhos. Quando os reabri, estava um corvo-marinho junto ao caiaque, o corpo quase submerso na água lisa, o pescoço erguido, a cabeça de lado. Pareceu-me que a ave me observava com aguda curiosidade.

Ficamos assim durante uma fugaz eternidade — eu e a ave —, habitantes de um mesmo planeta, mas olhando-nos como completos desconhecidos. Ele, o meu alienígena. Eu, o alienígena dele.




Não sei o que o corvo-marinho viu quando olhou para mim. Com certeza não pensou:

— Nossa, um escritor!

Provavelmente viu apenas um animal grande, feio e desajeitado, flutuando sobre o vasto mar. Não posso ter certeza de que havia curiosidade no modo como me encarava. Talvez estivesse apenas tentando decidir se eu era um peixe flutuante, e qual a melhor forma de me devorar.


Ali estava eu, portanto, sentado no meu caiaque, avaliando a inteligência de um corvo-marinho com os instrumentos do meu próprio discernimento. Regra geral, procuramos nos outros animais a nossa própria inteligência, em vez de procurar a deles. O corvo-marinho é altamente eficiente no seu meio. Conhece a arte da pesca com o bico, ou a arte de voar, de uma forma que eu apenas posso imaginar. O seu corpo contém uma maneira de conhecer o mundo que não cabe nos nossos testes de QI.

Jacob Coxon falando sobre os sistemas de IA incorre num erro semelhante ao meu com o corvo. Coxon tem noção de que não conseguimos sequer intuir como funcionarão os sistemas mais avançados de IA. Contudo, uma coisa ele já sabe — que nos irão devorar.

Não lhes parece um terror um pouco arrogante?

Talvez estejamos cometendo um erro semântico ao imaginar a superinteligência como uma espécie de inteligência humana aumentada — ainda nós, mas com esteroides.

Ocorre-me que uma inteligência superior há de estar atenta a tudo que brilhe. Eis uma boa medida da inteligência — a capacidade de compreender a existência de inteligências diversas da nossa.

Quando construímos uma via rápida não estamos preocupados com as formigas. Da mesma forma, argumentam pessoas como Jacob Coxon, uma superinteligência poderia ser tentada a exterminar a Humanidade, não por perfídia, mas porque nós seríamos para ela como formigas. Acontece que até nós já nos preocupamos com outras formas de vida — de inteligência — ao construir estradas. Não agimos assim por pura bondade. Agimos assim porque intuímos que essas outras formas de inteligência estão ligadas a nós. A nossa sobrevivência depende delas.

O corvo-marinho mergulhou. Creio que a inteligência começa quando deixamos de perguntar se os outros seres a possuem. A pergunta correta seria: que inteligência é a deles?

'Trump tenta interferir na eleição brasileira e o preocupante é que muitas vezes isso funciona'

O governo de Donald Trump está tentando interferir na eleição presidencial brasileira, e a história recente da América Latina mostra que esse tipo de pressão externa costuma dar certo. O diagnóstico é de Peter Birle, um dos principais especialistas europeus em assuntos brasileiros, em entrevista à BBC News Brasil.

Diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e avaliador do Brasil no BTI, o índice de democracia da Fundação Bertelsmann, Birle compara o momento atual a um episódio de 1946, quando os Estados Unidos tentaram barrar a ascensão de Juan Perón na Argentina e acabaram ajudando a elegê-lo.

Com Trump, diz Birle, o resultado tem sido o oposto: na Argentina de hoje, a interferência funcionou; no Brasil, ainda é cedo para saber.


Birle, que acompanha o Brasil desde o início dos anos 2000, e fala português com desenvoltura, aqui e ali salpicado de espanhol, fruto de décadas dedicadas a toda a região, conversou de Berlim, poucos dias antes de embarcar para São Paulo.

Para o cientista político alemão, a ofensiva de Washington, tarifas, sanções e revogação de vistos, "não é uma política muito inteligente", porque tende a gerar mais resistência do que resultado.

Mas vê uma América Latina que virou "um campo muito à direita", um Brasil que não conseguiu retomar a liderança regional dos anos 2000, e uma eleição em que a democracia, ao contrário de 2022, deixou de ser o tema central, substituída pela economia e pela segurança pública.

Sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), faz um alerta: a experiência internacional mostra que "é no segundo mandato que vêm as mudanças mais radicais".

Como a Alemanha e a Europa estão encarando esta eleição presidencial brasileira?

Peter Birle – Infelizmente, muito pouco do que se passa no Brasil é levado em consideração. O público em geral não sabe quase nada. No mundo político, depende da posição ideológica de cada um.

A Fundação Friedrich Ebert, mais à esquerda, organizou vários eventos e, claro, ali se quer a reeleição de Lula. Já a Fundação Adenauer, mais à direita, mas não uma direita nos moldes do bolsonarismo, gostaria de uma política mais conservadora, sobretudo na economia e na segurança. Mas conseguiria conviver muito bem com um novo governo Lula.

Há um temor maior em relação a um governo de Flávio Bolsonaro?

– Uns meses atrás, diria que sim. Agora, acho que eles se adaptariam. A situação é muito diferente da de quatro ou oito anos atrás, porque a forma de Flávio se apresentar é distinta da do pai. Ele se apresenta como conservador, mas não tão extremo, e não tem o carisma do pai.

No mundo conservador alemão, acho que conviveriam bem com ele, se eleito. Da extrema-direita, da AfD, não sei se têm posição pública sobre o Brasil. Mas, se tomarem posição, estarão claramente a favor de Bolsonaro.

As relações entre Brasília e Washington estão no pior momento em décadas: tarifas, sanções, vistos, ataques políticos. O que isso revela sobre a visão que o governo Trump tem do Brasil?

Acho que Trump está tentando influir na eleição, porque eles querem um governo Bolsonaro e fazem tudo para que isso aconteça. Talvez ainda não de forma tão aberta quanto na Argentina, mas é uma política muito agressiva contra o governo Lula. E não sabemos o que ainda pode acontecer nos próximos meses.

Há o receio de que essa interferência aumente?

Sim. Antes das eleições na Argentina, no ano passado [as legislativas de outubro de 2025, nas quais Trump condicionou abertamente uma ajuda financeira a uma vitória de Javier Milei], eles deixaram claro que, se os argentinos não votassem nos partidos próximos de Milei, não haveria ajuda. E funcionou.

Agora, a política em relação ao Brasil é muito agressiva. Felizmente, o governo brasileiro está tentando não aceitar tudo, mas também não pôr lenha na fogueira. É muito difícil. Com um governo Bolsonaro, isso mudaria completamente: eles desejam outra relação com Washington.

Esse tipo de interferência não se via de forma tão aberta desde os tempos do regime militar, do apoio aos golpes no Chile e no Brasil?

Sim, é muito preocupante. E mais ainda porque muitas vezes funciona. Conheço bem a história da Argentina. Na eleição de 1946, os Estados Unidos tentaram interferir por meio do embaixador americano, Spruille Braden, notório por sua atuação contra Perón. O lema do peronismo virou "Braden ou Perón", em defesa da soberania nacional, e Perón ganhou. Agora, com Milei e Trump, essa interferência não encontrou resistência. Os argentinos votaram como Trump queria.

E no caso brasileiro, essa pressão pode ter efeito reverso?

Sim. Não é uma política inteligente da parte de Trump, porque cria mais resistência do que uma postura construtiva geraria. O Brasil não é só o governo Lula. O país tem uma ideia do seu próprio lugar no mundo, do tratamento que merece. Mas muitas coisas que esse governo americano faz não são muito inteligentes.

Vocês avaliam a democracia no índice BTI. Como o Brasil aparece hoje, depois do 8 de Janeiro e às vésperas de uma eleição tão polarizada?

Posso falar da última avaliação publicada, do início do terceiro ano do governo Lula. Comparando os dois primeiros anos de Lula com os dois últimos de Bolsonaro, a situação melhorou muito: uma democracia mais estável, sem um governo atacando as instituições, e com desenvolvimento positivo também na área socioeconômica.

Agora se vê o clima de campanha. Ainda há forte polarização, mas a situação não é a de 2022. Naquele ano, tratava-se da continuidade do bolsonarismo, com um risco grande para a democracia. Lula se apresentou, digamos, não com a camiseta amarela, mas com a branca, para mostrar que não era o Lula da esquerda, e sim o que defendia a democracia.

Hoje, com Alckmin de novo como vice, as perguntas que dominam a campanha não são a democracia ou o risco de autoritarismo, mas a economia, a segurança pública, o crime organizado.

Há uma percepção de que houve avanço democrático nos últimos quatro anos, e a economia tem tido um desempenho razoável, mas boa parte do eleitorado não reconhece isso. É o fator mais preocupante para Lula?

Isso tem a ver com a figura de Lula e não é novo. Há muita gente que gosta dele, mas quase 45% dizem que nunca votariam nele. Nos últimos quatro anos, o desenvolvimento econômico foi positivo, ainda que com juros muito altos, a Selic em 14%, e com a vida de muita gente ainda difícil. Ao mesmo tempo, houve queda da pobreza e da pobreza extrema.

Os números macroeconômicos não são ruins, mas a percepção da população, sobretudo neste ano, é outra. Por isso, a pergunta é como será o desempenho nas próximas semanas. Lula tem certa vantagem sobre Flávio, mas não vai ganhar no primeiro turno. E há mais candidatos à direita do que à esquerda, o que pode ser um problema para ele.

O resultado está em aberto?

As pesquisas indicam um provável segundo turno entre Lula e Flávio, com certa vantagem de Lula, mas sem garantia. Fica muito em aberto.

Vários países da América do Sul foram para a direita: Chile, Argentina, Colômbia e Equador. Se houver uma interferência americana mais agressiva no Brasil, dado o seu peso no continente, a Europa pode reagir?

Acho que não. A Europa não vai intervir dessa maneira, porque, apesar de tudo, quer preservar uma boa relação com o governo americano. Mas a América Latina hoje é um campo muito à direita, e por isso é difícil para o governo Lula voltar a ter o papel que teve nos governos Lula 1 e 2. Lula restabeleceu o Brasil como ator internacional de perfil sólido, mas não conseguiu o que queria: recriar o regionalismo latino-americano da primeira década do século 21.

Trump não se interessa por relações estáveis com a América Latina. Ele quer acordos, quer gente que concorde com ele em tudo, como Milei. É uma política muito transacional, um ambiente muito difícil para um governo como o de Lula.

Muito se dizia que o Brasil era o país do futuro, mas que esse futuro nunca chegou. Você vê um caminho para o país superar, no médio e longo prazo, os problemas de renda, infraestrutura, investimento e educação?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Se compararmos o Brasil de hoje com o de trinta anos atrás, há muitas conquistas. Continua sendo um país com muitos problemas, mas isso é normal, porque o Brasil é um continente. Depende de para onde se olha: o Sul e o Sudeste, ou o Oeste e o Noroeste, são mundos distintos.

Um caminho seria mais cooperação latino-americana, não nos moldes da integração europeia, porque a história da região é outra, mas uma cooperação que hoje não existe. Não se deve superestimar nem subestimar o país. O Brasil tem muitas conquistas, e as instituições democráticas sobreviveram ao governo Bolsonaro.

O que não sabemos é o que aconteceria num segundo governo da ultradireita. A experiência mostra, com a Hungria, e muitas vezes com o próprio Trump, que é no segundo mandato que vêm as mudanças mais radicais.

Isso seria um risco caso Flávio Bolsonaro vença e retome a agenda do pai?

É um risco. Flávio pode fazer muitas coisas das quais agora não fala, porque tenta aparecer como mais moderado. Com ele na Presidência, haveria uma anistia, e não só para ele. Não sabemos o que pode acontecer depois.

A atuação do Supremo Tribunal Federal tem causado polêmica. Houve um momento em que foi importante na defesa da democracia, mas há quem ache que agora extrapola. Você vê isso com preocupação?

É verdade que o Supremo foi muito importante para defender a democracia durante o governo Bolsonaro. Não tenho a impressão de que tenha passado das suas competências, mas entendo a discussão de que uma politização forte do tribunal também traz riscos. Parte da crítica é pelo menos compreensível. Talvez fosse aconselhável uma postura menos política, mais moderação.

Você consegue imaginar Flávio Bolsonaro eleito presidente? Eu, não

Pergunta corrente nos Estados Unidos, à medida que Donald Trump decai física e mentalmente, sua popularidade desaba e seu período de governo se aproxima da metade: o trumpismo sobreviverá quando Trump for forçado a desocupar a Casa Branca, e desta vez para sempre? A lei proíbe que ele concorra a um terceiro mandato. De resto, ele não teria mais saúde para isso, e o mundo civilizado quer vê-lo pelas costas, tantos foram os males que ele comandou.

Se o Brasil, nesse caso, pode servir de espelho, a resposta à pergunta me parece fácil: o trumpismo sobreviverá à morte política do seu fundador, como aconteceu aqui com o bolsonarismo, apesar de Jair ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado e passado à História como o único presidente que não conseguiu se reeleger. A extrema-direita está em ascensão por toda parte. Se ela perder a eleição daqui a 20 dias, se reapresentará energizada em 2030.


Flávio Bolsonaro não está obrigado a derrotar Lula, nem no primeiro nem no segundo turno. É Lula que tem essa obrigação para fechar sua biografia na condição de o brasileiro que por mais tempo presidiu seu país. Getúlio Vargas governou durante 15 anos seguidos, mas como ditador. Uma vez derrubado pelos militares, retornou ao poder pelo voto popular, matando-se quatro anos depois com um tiro no peito para não ser novamente deposto.

Dá para imaginar Flávio eleito presidente dentro de poucas semanas? Neste momento, a maioria dos que dizem que votarão nele aposta que o eleito será Lula. A descrença tem a ver com o passado nebuloso de Flávio, amigo de milicianos assassinos, praticante de rachadinha, comprador de imóveis pagos com dinheiro vivo e senador apagado. Por sinal, tal pai, tal filho. Jair foi um deputado federal do baixo clero nos sete mandatos que exerceu ao longo de 30 anos.

Há muitas pedras no caminho de Flávio até que ele possa celebrar o triunfo de suceder ao pai na ocupação do mais alto cargo da República, mas uma, particularmente, é enorme. Trata-se do levantamento do sigilo em torno do inquérito sobre as falcatruas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Ontem, também foi levantado o sigilo em torno do financiamento do filme Dark Horse. Que novos segredos poderão ser revelados?

Somente na semana passada ficou-se sabendo que Flávio é investigado pelos crimes de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Seus eleitores radicalmente fiéis asseguram que não mudarão seus votos. Mas os menos fiéis? E os considerados independentes? E os indecisos? A eleição está aberta. E seu desfecho promete fortes emoções.

O ócio próprio e o trabalho alheio: 6/1

A descabida celeuma sobre as implicações da inteligência artificial expressa nosso atraso social em vários campos da realidade. Especialmente o atraso da vida em relação ao avanço rápido e multiplicativo do conhecimento, embora não seja esse o único nem o mais grave dos nossos descompassos.

O Brasil tem universidades de ponta, como a USP, que está entre as 100 melhores do mundo e é a melhor da América Latina. Uma universidade inventada na cadeia pelo jornalista Júlio de Mesquita Filho, um dos derrotados na Revolução Constitucionalista de 1932, como universidade pública, laica e gratuita. Ele inventou o regime de cotas: para todos os vocacionados.

Ao mesmo tempo, o Brasil está profunda e descabidamente atrasado em relação à modernização da concepção de jornada de trabalho e do que é o próprio trabalho.


A resistência à superação da jornada de 6 dias de trabalho para 1 de descanso é uma resistência sociologicamente reacionária e anticapitalista. Politicamente é oportunista apesar de antissocial. Coloca o trabalhador sob suspeita de vagabundagem e não os negociantes sob suspeita de lucro extraordinário com a superexploração do trabalho.

Há, no próprio Congresso Nacional, setores barulhentos na defesa de retrocessos sociais. Os que não trabalham mais representados do que os que trabalham. Os que entendem ser a motivação oculta do trabalhador que carece da redução da jornada de trabalho para viver a vida, a de cair na gandaia do não trabalho. Redução que compatibilize a jornada de trabalho com o ritmo de crescimento da riqueza. A chamada justiça social.

Os que não trabalham querem impor aos que trabalham a punição corretiva da ideologia do cativeiro educativo que herdamos da escravidão.

Independentemente da vinculação política e ideológica, os membros do Congresso Nacional e os políticos em geral não trabalham. O que fazem não é trabalho. Há uma distinção sociológica consolidada entre trabalho e ocupação. Trabalho é a atividade produtiva de riqueza, de conversão de capital variável em capital constante. Capitalismo é isso.

Há uma multidão crescente de pessoas ocupadas, até mesmo atarefadas, cuja atividade não é produtiva, não cria riqueza nem individual nem social.

É a categoria dos consumidores de riqueza social, os que vivem à custa da riqueza criada por quem trabalha, na roça e na fábrica. A categoria dos que ficam cansados de não trabalhar, o tipo de ocupação que pede o dedicar-se a atividades cansativas não laborais para consumir a gordura acumulada pelo não trabalhar.

A moderna economia teve que inventar sucedâneos de cansaço laboral para o não trabalho, os esportes, as academias, os exercícios programados, a indústria do cansaço provocado.

Os políticos que negam aos trabalhadores o direito social ao tempo livre deveriam dar o exemplo e aprovar em relação a eles próprios previamente uma lei que os libertasse do privilégio de viver à custa de quem trabalha, a imensa maioria do povo brasileiro.

A ideologia dos poderosos sobre a função educativa do castigo de trabalhar sem ganhar o que vale o trabalho na riqueza que cria se dissemina em vez de encolher.

Até hoje os indígenas são tratados por muitos como preguiçosos. As mulheres é que vão trabalhar na roça, enquanto os homens vão à caça, supostamente “se divertir”, que é o que fazem os brancos.

Coisas da minúscula mentalidade de classe média urbana, em que as mulheres vão à caça no supermercado e os homens é que vão penar no trabalho pesado do computador, do balcão de comércio ou outras atividades insalubres.

Nos países capitalistas desenvolvidos, a tendência é a jornada ser definida pelo tempo médio de trabalho de todos, o trabalho social. Em países civilizados a relação entre conhecimento e realidade social e política se processa com cauteloso respeito à tradição e às prioridades sociais da vida.

Além do que, os diferentes níveis da realidade e da desigualdade do desenvolvimento histórico são monitorados e regulados politicamente. Para isso serve a política e para isso deveriam servir os políticos. Aqui, os políticos não têm da função política uma compreensão política.

A estrutura política do país e as funções do Estado, definidas pela Constituição, com base na democrática possibilidade da alternância de poder, é que deve reinar nas normas e nas decisões políticas.

Aqui, nossa política é regulada pelo antidemocrático poder pessoal ou condominial. Aqui o político faz política como se fosse o feitor de seu latifúndio.

Temos a Constituição, mas temos também as maliciosas normas infralegais que permitem contorná-la e violá-la. Assim, nunca sairemos do labirinto do crescimento econômico sem desenvolvimento social.

E se a Terra fosse um ser vivo?

E se a Terra não fosse apenas uma rocha com vida sobre ela, mas um sistema que se comporta, em alguns aspectos, como um organismo? Parece algo vindo da mitologia, e de fato é parcialmente, mas essa pergunta tem intrigado cientistas por décadas, a ponto de a hipótese ter sido debatida em quatro conferências distintas.

Levar essa ideia a sério, mesmo que apenas como um exercício mental, obriga a olhar de outra forma para a relação entre a vida e o planeta que a abriga. Não seria a primeira vez que uma proposta difícil de aceitar leva à revisão da nossa visão da Terra. A ideia de que os continentes se deslocam lentamente sobre sua superfície, por exemplo, foi rejeitada durante décadas antes de ser incorporada à ciência moderna.

A vida poderia continuar sob outras condições, mas a continuidade da vida não implica necessariamente a continuidade da nossa espécie

Então, vamos tentar imaginá-la. Tomemos nosso corpo como referência. Quando ele acumula calor demais, começa a suar sem que precisemos decidir isso conscientemente. Guardadas as devidas proporções, algo semelhante poderia ocorrer em escala planetária, caso surgissem, da interação entre as diferentes partes da Terra, mecanismos capazes de compensar certas mudanças.

Foi mais ou menos isso que o químico britânico James Lovelock propôs há meio século com uma das ideias mais provocativas e controversas sobre a relação entre a vida e o planeta: uma hipótese que evocava mais a mitologia do que a ciência convencional e que recebeu o nome de Gaia.

Lovelock desenvolveu essa ideia durante a década de 1970 ao lado da bióloga americana Lynn Margulis e a batizou em homenagem à deusa grega da Terra.


Segundo sua proposta, a vida e o ambiente físico estariam ligados por uma rede de influências mútuas, na qual os organismos alteram seu entorno e essas transformações repercutem posteriormente sobre eles mesmos. Dessa interação poderia surgir algo semelhante à homeostase do nosso corpo, mas em escala planetária e sem a necessidade de uma mente que a conduzisse.

Na realidade, a proposta recuperava uma forma de enxergar a Terra que durante séculos não pareceu tão estranha. Lovelock defendia que essa visão teve espaço até mesmo no pensamento científico e que começou a perder força principalmente a partir do século 19.

Segundo relatou a revista Popular Mechanics, James Hutton, considerado o pai da geologia, procurou paralelos entre os processos dos organismos vivos e os ciclos terrestres: relacionou a circulação sanguínea ao movimento de nutrientes e viu no percurso da água dos oceanos para a superfície e de volta ao mar um processo capaz de resfriar o planeta.

Além dessas analogias, Lovelock encontrava razões concretas para se perguntar como a Terra havia conseguido manter por tanto tempo condições compatíveis com a vida.

De acordo com a Popular Mechanics, desde que a vida surgiu há cerca de 3,7 bilhões de anos, a produção de energia do Sol aumentou entre 25% e 30%, enquanto a temperatura da superfície terrestre permaneceu dentro de limites habitáveis.

A atmosfera também lhe parecia um indício marcante. Ela contém gases que, do ponto de vista químico, tendem a reagir entre si e que, ainda assim, continuam presentes de forma persistente. Para Lovelock, esse estado tão distante do equilíbrio indicava que processos associados à vida poderiam estar contribuindo para manter essa composição. Marte e Vênus, por outro lado, apresentam atmosferas muito mais próximas do que se esperaria após essas reações químicas seguirem seu curso naturalmente.

O problema era explicar como uma regulação desse tipo poderia surgir sem consciência nem planejamento. Para responder a essa dificuldade, Lovelock desenvolveu com Andrew Watson o modelo matemático conhecido como Daisyworld ("Mundo das Margaridas").

Nesse planeta imaginário existem apenas margaridas pretas e brancas. As pretas absorvem mais luz solar e fazem com que seu entorno aqueça. As brancas, por sua vez, refletem uma parcela maior dessa luz e ajudam a manter o ambiente mais fresco. Assim, quando as temperaturas caem, as pretas encontram melhores condições e começam a se espalhar. Quando o planeta aquece, as brancas passam a ter vantagem.

O interessante é que nenhuma margarida sabe que está influenciando o clima nem tenta fazer algo pelo planeta. Cada tipo simplesmente prospera quando as condições lhe são favoráveis. Mas, ao mudar qual delas ocupa mais superfície, muda também a proporção de luz solar absorvida ou refletida pelo planeta. Aos poucos, essa interação pode amortecer as variações de temperatura.

Como explica a publicação online Science Alert, o Daisyworld mostra justamente que, ao menos em um modelo simplificado, um efeito de regulação em escala planetária pode surgir sem uma inteligência que o dirija.

Esse detalhe era importante porque uma das principais críticas a Gaia apontava justamente para a ausência de um mecanismo evolutivo capaz de explicar tal comportamento. O biólogo Ford Doolittle foi um dos que questionaram a hipótese sob esse ponto de vista: a Terra, argumentava ele, não poderia ter desenvolvido uma capacidade de previsão por meio da seleção natural, já que esta atua sobre organismos e populações, e não sobre um planeta inteiro como se fosse um único indivíduo.

O Daisyworld respondia parcialmente a essa objeção ao eliminar a necessidade de qualquer intenção. Mesmo assim, não convenceu totalmente os críticos. Alguns consideravam que Gaia continuavadi sendo pouco mais que uma metáfora difícil de comprovar e que o modelo simplificava demais um mundo real repleto de fatores capazes de romper o equilíbrio. A revista científica Discover Magazine lembra, por exemplo, a possibilidade do surgimento de organismos "trapaceiros", que se beneficiam do sistema sem contribuir para sua estabilidade.

As objeções também não desapareceram com o passar do tempo. Em agosto de 2025, os filósofos Samir Okasha e Margarida Hermida publicaram na revista Philosophical Transactions of the Royal Society B uma análise sobre a possibilidade de "darwinizar" a hipótese de Gaia.

Sua conclusão, segundo relata a Popular Mechanics, é que aceitar que a vida tenha contribuído para manter o planeta habitável não implica que toda a biosfera tenha evoluído como um único organismo por meio da seleção natural, nem que a Terra tenha adquirido adaptações evolutivas destinadas a regular suas condições ambientais.

Mesmo sem resolver esse debate, Gaia levanta uma pergunta mais desconfortável. Se a vida transforma o planeta, será que nós, humanos, estamos modificando-o a ponto de torná-lo incompatível com nossa própria sobrevivência?

Um estudo publicado em 2022 na International Journal of Astrobiology descreve nossa fase atual como uma "tecnosfera imatura". Segundo essa abordagem, já possuímos capacidade tecnológica para alterar a Terra em escala planetária, mas ainda não desenvolvemos uma inteligência coletiva capaz de administrar plenamente as consequências. Uma possível etapa futura, a "tecnosfera madura", pressuporia aprender a fazer isso sem prejudicar o sistema do qual dependemos.

O problema é que chegar a esse estágio não está garantido. A autorregulação de alguns processos planetários não assegura que as condições continuarão adequadas para todas as espécies, e as mudanças no sistema terrestre podem ser favoráveis para algumas formas de vida e desastrosas para outras.

Talvez essa seja a advertência mais inquietante de Gaia. A hipótese não precisa atribuir consciência nem propósito ao planeta para causar desconforto. Basta admitir que nossas ações alteram um sistema muito maior do que nós e que as mudanças resultantes não precisam necessariamente nos favorecer. A vida poderia continuar sob outras condições, mas a continuidade da vida não implica necessariamente a continuidade da nossa espécie.
Felipe Espinosa Wang