segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Nós, as formigas da inteligência artificial

Jacob Coxon, um investigador que passou três anos construindo os sistemas por detrás de alguns dos modelos de IA mais poderosos do mundo, demitiu-se há poucos dias da Anthropic. O motivo? “As pessoas que constroem sistemas de IA acreditam sinceramente que estes podem matar-nos a todos até ao fim da década.”

Li estas terríveis declarações em diversos jornais. Depois fui passear de caiaque. Afastei-me um pouco da costa. Voltei-me de frente para o sol, pousei os remos e fechei os olhos. Quando os reabri, estava um corvo-marinho junto ao caiaque, o corpo quase submerso na água lisa, o pescoço erguido, a cabeça de lado. Pareceu-me que a ave me observava com aguda curiosidade.

Ficamos assim durante uma fugaz eternidade — eu e a ave —, habitantes de um mesmo planeta, mas olhando-nos como completos desconhecidos. Ele, o meu alienígena. Eu, o alienígena dele.




Não sei o que o corvo-marinho viu quando olhou para mim. Com certeza não pensou:

— Nossa, um escritor!

Provavelmente viu apenas um animal grande, feio e desajeitado, flutuando sobre o vasto mar. Não posso ter certeza de que havia curiosidade no modo como me encarava. Talvez estivesse apenas tentando decidir se eu era um peixe flutuante, e qual a melhor forma de me devorar.


Ali estava eu, portanto, sentado no meu caiaque, avaliando a inteligência de um corvo-marinho com os instrumentos do meu próprio discernimento. Regra geral, procuramos nos outros animais a nossa própria inteligência, em vez de procurar a deles. O corvo-marinho é altamente eficiente no seu meio. Conhece a arte da pesca com o bico, ou a arte de voar, de uma forma que eu apenas posso imaginar. O seu corpo contém uma maneira de conhecer o mundo que não cabe nos nossos testes de QI.

Jacob Coxon falando sobre os sistemas de IA incorre num erro semelhante ao meu com o corvo. Coxon tem noção de que não conseguimos sequer intuir como funcionarão os sistemas mais avançados de IA. Contudo, uma coisa ele já sabe — que nos irão devorar.

Não lhes parece um terror um pouco arrogante?

Talvez estejamos cometendo um erro semântico ao imaginar a superinteligência como uma espécie de inteligência humana aumentada — ainda nós, mas com esteroides.

Ocorre-me que uma inteligência superior há de estar atenta a tudo que brilhe. Eis uma boa medida da inteligência — a capacidade de compreender a existência de inteligências diversas da nossa.

Quando construímos uma via rápida não estamos preocupados com as formigas. Da mesma forma, argumentam pessoas como Jacob Coxon, uma superinteligência poderia ser tentada a exterminar a Humanidade, não por perfídia, mas porque nós seríamos para ela como formigas. Acontece que até nós já nos preocupamos com outras formas de vida — de inteligência — ao construir estradas. Não agimos assim por pura bondade. Agimos assim porque intuímos que essas outras formas de inteligência estão ligadas a nós. A nossa sobrevivência depende delas.

O corvo-marinho mergulhou. Creio que a inteligência começa quando deixamos de perguntar se os outros seres a possuem. A pergunta correta seria: que inteligência é a deles?

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