domingo, 6 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 




Relatos de puro espanto

Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.


Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor Tom Zé.

"Negar o que é" equivale a desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime", horror público.

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou, sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo, entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em que alunos agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em Copacabana.

O fato é condenável, não se discute, nem se justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de inaceitável violência por parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.

Quando se pensa em "jornalismo do futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em "O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que se ouve e publica.

Debatemos ideias, não abatemos pessoas

Passei a última semana no Rio de Janeiro por conta da estreia da minha aula-espetáculo no Teatro Axia Casa Grande. A oportunidade de voltar à cidade por um longo período me deu a chance de acompanhar de perto o cotidiano da Zona Sul. Algumas coisas seguem como sempre foram.

Em um café no Leblon, uma senhora insistia em me oferecer um santinho com os dados do seu candidato. Em cinco minutos, uma outra apareceu com a camisa tomada de broches e adesivos do adversário. Na mesa ao lado, pai e filha não discordavam sobre seus votos, mas se divertiam vendo memes de candidatos e riam dos jingles políticos do momento. É o tempo da política. E a política, aqui, se faz assim.

Moacir Palmeira e Beatriz de Heredia, antropólogos com larga experiência em disputas eleitorais, nos lembram que “o tempo da política” é mais do que uma expressão rotineira, comum na boca do povo. É quando se instala uma fratura temporária no tecido social e uma completa reorganização das relações, de maneira que os projetos políticos se materializem na paisagem, nos encontros e nas pessoas.

É nesse intervalo temporal que nos dividimos, nos aglutinamos em novos formatos, colocamos bandeiras ou toalhas temáticas nas janelas, vestimos as cores dos candidatos e assumimos identidades coletivas, misturadas a valores partidários. É quando não se fala de política como um domínio ou uma esfera, mas se faz política. Nessas horas, é comum que as preferências se imponham sobre as relações familiares ou que um abismo surja entre velhos amigos. Por semanas, nos afastamos da tradicional rotina de encontros em nome de outros vínculos que nos parecem ter mais sentido no hoje.

Esses são momentos contraditórios por si só. Afinal, se as eleições são um convite para que a nação (o todo) pense sobre quais rumos deseja seguir, para dar cabo desse objetivo somos obrigados a nos dividir, nos opor, rivalizar, disputar e romper com os nossos.


Para que a fratura não fuja do controle, é preciso estarmos atentos a dois elementos fundamentais: de um lado, a crença de que o “tempo da política” tem de ter fim e vamos ter a sociedade em debate em torno de um projeto vencedor; do outro, a percepção compartilhada de que, na política, debatemos ideias, não abatemos pessoas.

Desde os gregos, como nos lembrou Hannah Arendt, a política sempre foi o lugar no qual os indivíduos se reuniam, expunham suas visões de mundo distintas e se organizavam para decidir juntos, sem precisar lançar mão de socos e pontapés. É onde, apesar das divergências pessoais, nos damos conta de que há algo maior que nos une e nos impede de romper com os outros para todo o sempre.

Ou, como ouvi Ailton Krenak dizer em um podcast, a política é o ato entre um bofetão e um argumento. É aquele lugar no qual, diante de uma diferença abissal, percebemos que precisamos desses mesmos outros para viver. Com isso, em vez de lançarmos mão da violência que nos separaria definitivamente, somos obrigados a discutir, argumentar, refletir e construir algo juntos. Só é possível fazer política com projeto e ideias. Caso contrário, só restam as bofetadas.

Na saída do café, as duas senhoras já não estavam mais lá. Pai e filha continuavam na mesma mesa, ainda rindo, ainda discordando. Sigamos em paz.

A Cultura que não nos pertence

Há muitos anos, quando surgiu pela primeira vez a tecnologia dos e-readers e e-books, por volta de 2008-2011, trabalhava no meio editorial e recordo-me da pompa e circunstância com que foi então anunciada a morte do livro físico, como se fosse uma certeza que iria concretizar-se em poucos anos. Quem claramente se beneficiava com essa narrativa de disrupção total era a Amazon, que tinha acabado de lançar o Kindle, um dispositivo de leitura de e-books, e desejava entrar em força no mundo dos livros. Muitas previsões não se cumpriram, ainda assim os e-books fizeram o seu próprio caminho e passaram a coexistir com outros novos formatos que também ganharam adeptos, como os audiolivros, tendo todos eles impulsionado uma mudança muito positiva na área da acessibilidade.


O cansaço e a saturação da ligação permanente à internet dos tablets e telemóveis fez-me agora regressar ao universo dos e-readers e, por isso, adquiri um Kobo Libra, modelo recomendado por amigos. A facilidade de leitura, o conforto para os olhos, que ficam menos cansados, a possibilidade de ir variando de género sem ter de carregar todos os livros na mala, são fatores que contribuíram para integrar rapidamente o e-reader na minha rotina.

Tive a possibilidade de integrar no e-reader um vasto acervo de e-books que já tinha reunido ao longo dos anos, sendo possível adquirir novos livros na loja da Kobo. No entanto, estou consciente do facto de que esta aquisição não significa necessariamente que o livro passe a ser meu. Em termos puramente legais, limito-me a adquirir uma licença de acesso ao livro. É verdade que, se eu perder de súbito a biblioteca, posso restaurá-la em dispositivos compatíveis. No entanto, a longo prazo, desconheço se aqueles ficheiros serão mantidos porque muitos deles estão protegidos por DRM (Digital Rights Management), uma espécie de cadeado em que o conteúdo digital é encriptado e não pode ser lido sem uma licença válida. Mas o que acontece se um dia a Kobo entra em falência e decide encerrar os serviços? É possível continuar a preservar a biblioteca digital se a plataforma da Kobo desaparecer? Se a maioria dos e-books adquiridos estiverem protegidos por DRM, a probabilidade de preservação é muito menor.

Usei este caso dos e-readers e e-books como exemplo de uma questão que não é devidamente escrutinada. Atualmente, pagamos por conteúdos digitais, mas não nos tornamos os seus proprietários. Muitas vezes estamos a pagar apenas o direito de acesso, mas se alguma coisa acontecer à empresa que detém os licenciamentos, então o desfecho pode ser bastante negativo. Em matéria de conteúdos digitais, não podemos chamar aquilo que adquirimos como sendo verdadeiramente nosso, pelo menos não da mesma forma que compramos um livro físico ou um disco em vinil. O streaming só veio reforçar ainda mais esse panorama com avenças mensais às grandes plataformas que nos concedem licenças de acesso. Pior: corremos o risco de as plataformas alterarem as condições de acesso ou mesmo removerem unilateralmente o acesso, sem qualquer possibilidade de controlo por parte do consumidor. Não podemos oferecer ou revender aquilo que compramos, assim como também não podemos transmitir esses bens adquiridos para familiares. Onde está o nosso direito à preservação cultural?

Se é verdade que, por um lado, a facilidade de disseminação de conteúdos digitais pirateados torna inevitável que os conteúdos venham com encriptação, por outro lado, há que começar a criar soluções melhores para o futuro. Não por acaso, a nostalgia pela cópia física está a regressar em força com o ressurgimento dos DVDs e álbuns de vinil. Hoje em dia, muitas séries e filmes lutam pelo direito de verem os seus conteúdos preservados em cópia física, porque já nem sequer isso é garantido, ficando totalmente dependentes da boa vontade das plataformas que têm os seus próprios modelos de negócio.

Se esta crónica começou por abordar os direitos do consumidor e da propriedade, termina com a questão da memória cultural. Não podemos aceitar que o modelo de subscrições passe a ser a única forma de acesso à cultura, tornando-nos dependentes do streaming ou de lojas online para podermos ver os nossos filmes e séries favoritos, escutar música ou ler livros. E uma vez que a opção de comprar o objeto está cada vez menos disponível, quem garante que a cultura que hoje consumimos continua a estar disponível amanhã?

A palavra magnífica de George Clooney

George Clooney lançou a palavra para as luzes da ribalta na abertura da 83ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza, na quarta-feira: “Há uma palavra magnífica, caquistocracia, que designa um país governado pelas pessoas menos qualificadas. Acho que talvez tenhamos neste momento uma caquistocracia nos EUA. Contudo, haveremos de ultrapassar esta situação.”

Na língua inglesa a palavra não é nova. Parece ter surgido pela primeira vez num púlpito, em 1644, na boca de um pregador monárquico, Paul Gosnold, durante um furioso discurso no qual acusou os adversários do rei de pretenderem “incendiar o país para assar os próprios ovos”.

A palavra terá entrado na língua portuguesa através do inglês muitos anos mais tarde. Sérgio Rodrigues contou essa história, com o brilhantismo habitual, numa crônica publicada em 2018.


Mais do que a palavra interessa-me o processo que está envenenando as democracias. A grande questão é — por que motivo escolhemos como representantes aqueles que representam o pior de nós? E será que começamos agora?

As democracias erram muito. Os eleitores, independentemente do seu grau de literacia política, sempre escolheram demagogos, corruptos, incompetentes e até genocidas. Não vos maçarei com exemplos. São muitos. A novidade é que passamos a escolher políticos que exibem sem vergonha, em horário nobre, as respectivas deformidades morais. O vício passou a ser apresentado como uma virtude eleitoral.

A política se transformou pouco a pouco num grande circo de monstros. O que aconteceu?

Aconteceu a revolução das redes sociais. Antes das redes sociais, os políticos precisavam convencer os eleitores. Agora, o importante é atrair a atenção dos eleitores. Os políticos moderados, aqueles que tentam olhar para a complexidade do mundo e dos seus problemas, os que têm dúvidas, os que não gostam de gritar nem de se exaltar, os que não dizem palavrões, estão em clara desvantagem perante os pavões escandalosos.

Antes, os políticos com melhor retórica e melhores ideias tinham certa vantagem. Agora vencem os que tiverem o penteado mais extravagante, a maior motosserra, ou a mais extensa e colorida ficha criminal. Antes, o escândalo era o preço a pagar pela notoriedade; hoje, é uma forma de produzir notoriedade.

Esta dinâmica criou uma bizarra subversão de valores. A crueldade de Donald Trump é, para quem o apoia, um sinal de força; o seu machismo, racismo, ignorância e rudeza, uma prova de rebeldia contra a “elite dominante”. Os eleitores de Trump, de Bolsonaro ou de Milei não procuram alguém melhor do que eles. Querem, pelo contrário, alguém que represente os seus próprios vícios e transgressões. Enfim, buscam figuras que legitimem o pior que há neles.

“Haveremos de ultrapassar esta situação”, assegurou George Clooney. Não será fácil. Trump, Milei ou Bolsonaro chegaram ao poder porque se revelaram criaturas muito bem bem adaptadas ao atual ecossistema político. Para derrotar a caquistocracia será necessário, primeiro, derrotar o algoritmo.

O grave problema é que construímos um mundo no qual os piores são os mais aptos.

O riso de ministros do STF, Charlie Chaplin, polícia política e o AI-5

Comentei na noite de ontem, no meu programa na BandNews, a reação de um sujeito de quem nunca tinha ouvido falar que cismou que um texto meu contestava um troço que ele havia dito. Ocorre que fiquei sabendo que ele existia junto com a ofensa. Que coisa! Porque discorda ou não gosta de mim, acha que produzo para ele. Esses tipos podem ser perigosos. Mark Chapman, o assassino de John Lennon, afirmou em depoimento que seu ex-ídolo debochava dele…

Não sou Lennon nem o sujeito, cuja existência descobri com sua desafeição, é Chapman. Levo o par estrutural ao exagero para que se perceba a natureza desse tipo de pensamento. Vou escrever aqui sobre algumas reportagens — evitei todos os textos opinativos para me precaver de “afetos de tristeza” (Spinoza) — tendentes a pespegar em ministros do STF a pecha de insensíveis porque, afinal, fotografados rindo à larga.

As fotos, de Brenno Carvalho, de “O Globo”, foram tiradas na quarta passada. A personagem da qual partiram alguns chistes, o ministro Flávio Dino, nem aparece no enquadramento que viralizou. Veem-se claramente Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e, de costas, Edson Fachin. Outro fora desse corte era Luiz Fux. Nota: sim, fotos absolutamente jornalísticas. Motivo óbvio: um momento de descontração num dia especialmente tenso.

Há um clássico, quase um clichê para quem se interessa pela área, do momento em que uma imagem vira um símbolo. Em “Tempos Modernos”, Carlitos (Charlie Chaplin), que havia acabado de sair de um hospital, vê uma bandeira vermelha cair da traseira de um caminhão. Bom homem, pega o objeto e sai correndo atrás do veículo para devolvê-la. Ocorre que ele se mistura com uma passeata de trabalhadores socialistas que carregam seus cartazes de protesto. A Polícia chega distribuindo porrada e prende o coitado.

E assim se deu. O juízo policialesco está pronto para descer o porrete no tribunal. Carlitos não tinha direito à inocência. Nem os ministros — exceto, claro!, André Mendonça, aquele que grava vídeo a seus apoiadores em nome de Deus e não se encontrava por ali a ouvir gracejos impuros.

Como estaria em curso a crise mais grave desde que o Supremo existe, ministros não podem sorrir. Noto que continuo a pensar que o pior momento da história do tribunal se deu em janeiro de 1969, quanto o AI-5, a tal “ditadura escancarada”, cassou Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal, com a renúncia consequente, em sinal de protesto, de Antônio Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada. Minha tese: os males da ditadura, que o STF impediu e da qual já foi vítima, sempre serão maiores do que os da democracia.

É bom que saibam: havia ali ministros que são, como costumo brincar, de “enfermarias distintas”. Dino, que já praticou jiu-jitsu no passado, fez algumas brincadeiras com Fux, que é professor do esporte. São amigos pessoais e mantêm, não obstante, diferenças abissais de análise — o que, em princípio, vejo como positivo. Nesse caso, Moraes e Gilmar, sabemos, são mais próximos de um do que de outro nos juízos que emitem.

Fachin ora está mais para um lado, ora para outro. Os que riam ali já tiveram embates muito duros em momentos cruciais para a democracia brasileira. Deus do Céu! Nem se completaram oito meses do fim do julgamento dos golpistas — tentativa de golpe que, sabemos, André Mendonça, ausente, e Fux, presente, não viram. Nem sei se outro negacionista da intentona, Nunes Marques, encontrava-se por perto. Não aparece em nenhuma das imagens.

Assim, de saída, entendo que rir ou não e estar ou não presente, naquele momento, naquela foto, podem não ser o melhor critério para avaliar um ministro. Mas é claro que este meu juízo tem lado: alinho-me, como circula num viral bolsonarista contra a imprensa (ah, esses defensores da liberdade de expressão!!!), entre os profissionais que defendem que lugar de golpista é a cadeia. Mais: entendo que todos têm direito ao devido processo legal, incluindo ministros do Supremo.

Segundo apurei, o momento da gargalhada propriamente foi motivado por um ouitro chiste, em tom galhofeiramente autodepreciativo — os bem-humorados, quando se incluem numa piada, não devem fazê-lo para se jactar. Inexiste graça na arrogância.

Esse tribunal que ri ainda é vítima de uma escalada que começou no dia 9 de julho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro, o condenado por coação no curso do processo, disse numa palestra que, para fechar o Supremo, nem precisaria de um jipe: bastariam um soldado e um cabo. Sua pregação rende frutos: estão aí os editoriais a pedir a cabaça de Moraes, ecoando 1954, 1964, 1969, 2022… Os golpistas queriam matar Moraes. Por ora, nossos valentes pensadores se confortam com a renúncia.

“Mas, então, porque salvou a democracia, ele pode tudo?” Não. Mas não se lhe pode sonegar o devido processo legal nem deve ser ele alvo de procedimentos de exceção, como os praticados por Mendonça. Mas esse será outro texto. Volto ao riso.

Prefiro que ministros riam a que pranteiem a morte de um dos seus. Prefiro que riam a que levam também para os corredores os embates muito duros que ali se travam. Prefiro que riam, demonstrando que julgam teses, não ódios pessoais, a que seu fanatismo seja confundido com seriedade. Prefiro o bom humor mesmo tratando de questões que podem ser de enorme seriedade à circunspecção que, muitas vezes, é só falta do que dizer.

Fux, Mendonça e Nunes Marques não gargalham quando se alinham com os negacionistas do golpe — não creio que o façam nem “por dentro”. Dino não gargalha quando evidencia o modo como o “emendismo” ameaça a eficiência dos gastos públicos e, no limite, a democracia. Gilmar não gargalhava ao se confrontar com os desmandos da Lava Jato. Não gargalhava Moraes quando, por enfrentar os arruaceiros de sonhos sangrentos, acabou vítima da Lei Magnitsky.

Não acredito, voltando a ambos, que Mendonça e Moraes se comportavam como dois sátiros quando enviaram suas respectivas petições a Fachin, que não deve andar por aí com os dentes à mostra, feito o Gato de Alice. Vou sempre preferir o riso que desconstrói doxas ao ódio que embala ortodoxias homicidas e liberticidas.

Em 1974, a Divisão de Censura de Diversões Públicas censurou a música “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa assim: “A falta de gosto impede a liberação da música”. E vieram circuladas as palavras “erradas”, que incomodaram o pudoroso censor: “álvaro”, “tauba”, “revórver”, “automóver”. Sabem como é… Em tempos rigorosos, não se pode descuidar. Rir pode ser algo muito perigoso e até mesmo ofensivo.

De fato, raramente o tribunal experimentou momentos tão tensos. Há embates duríssimos por vencer. A depender dos desdobramentos, poderemos viver alguns dos piores anos de nossa história, e o riso, se assim for, vai se tornar bem escasso. E, ainda assim, defenderei o humor que não depende da humilhação dos fracos para ter graça.

O latinista francês Jean de Santeul (1630-1697) cravou no busto de Arlequim o lema: “Castigat ridendo mores”. Vale dizer: “Rindo, moraliza os costumes”. Numa tradução mais clara: “Por meio do riso, moralize os costumes”. Se rir é sempre sinal de frivolidade ou de deboche, é o caso de se proibir a comédia. E só a tragédia nos definirá, como se a dor fosse a única expressão da profundidade. A polícia política, mais uma vez, transformou uma simples imagem num símbolo e saiu distribuindo porradas.

Reinaldo Azevedo