George Clooney lançou a palavra para as luzes da ribalta na abertura da 83ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza, na quarta-feira: “Há uma palavra magnífica, caquistocracia, que designa um país governado pelas pessoas menos qualificadas. Acho que talvez tenhamos neste momento uma caquistocracia nos EUA. Contudo, haveremos de ultrapassar esta situação.”
Na língua inglesa a palavra não é nova. Parece ter surgido pela primeira vez num púlpito, em 1644, na boca de um pregador monárquico, Paul Gosnold, durante um furioso discurso no qual acusou os adversários do rei de pretenderem “incendiar o país para assar os próprios ovos”.
A palavra terá entrado na língua portuguesa através do inglês muitos anos mais tarde. Sérgio Rodrigues contou essa história, com o brilhantismo habitual, numa crônica publicada em 2018.
Mais do que a palavra interessa-me o processo que está envenenando as democracias. A grande questão é — por que motivo escolhemos como representantes aqueles que representam o pior de nós? E será que começamos agora?
As democracias erram muito. Os eleitores, independentemente do seu grau de literacia política, sempre escolheram demagogos, corruptos, incompetentes e até genocidas. Não vos maçarei com exemplos. São muitos. A novidade é que passamos a escolher políticos que exibem sem vergonha, em horário nobre, as respectivas deformidades morais. O vício passou a ser apresentado como uma virtude eleitoral.
A política se transformou pouco a pouco num grande circo de monstros. O que aconteceu?
Aconteceu a revolução das redes sociais. Antes das redes sociais, os políticos precisavam convencer os eleitores. Agora, o importante é atrair a atenção dos eleitores. Os políticos moderados, aqueles que tentam olhar para a complexidade do mundo e dos seus problemas, os que têm dúvidas, os que não gostam de gritar nem de se exaltar, os que não dizem palavrões, estão em clara desvantagem perante os pavões escandalosos.
Antes, os políticos com melhor retórica e melhores ideias tinham certa vantagem. Agora vencem os que tiverem o penteado mais extravagante, a maior motosserra, ou a mais extensa e colorida ficha criminal. Antes, o escândalo era o preço a pagar pela notoriedade; hoje, é uma forma de produzir notoriedade.
Esta dinâmica criou uma bizarra subversão de valores. A crueldade de Donald Trump é, para quem o apoia, um sinal de força; o seu machismo, racismo, ignorância e rudeza, uma prova de rebeldia contra a “elite dominante”. Os eleitores de Trump, de Bolsonaro ou de Milei não procuram alguém melhor do que eles. Querem, pelo contrário, alguém que represente os seus próprios vícios e transgressões. Enfim, buscam figuras que legitimem o pior que há neles.
“Haveremos de ultrapassar esta situação”, assegurou George Clooney. Não será fácil. Trump, Milei ou Bolsonaro chegaram ao poder porque se revelaram criaturas muito bem bem adaptadas ao atual ecossistema político. Para derrotar a caquistocracia será necessário, primeiro, derrotar o algoritmo.
O grave problema é que construímos um mundo no qual os piores são os mais aptos.
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