quarta-feira, 17 de junho de 2026

O regresso da vanguarda

Os programas de IA para detectar quais são os textos – e partes de texto – que são escritos com IA ainda são muito caros. Os que há por aí não são de fiar, já que se fartam de dar falsos positivos.

Estes falsos positivos, note-se, beneficiam a própria IA. Se consideram IA um texto original escrito por um só ser humano a partir do zero, quem é que fica bem vista? A IA, claro.


Quando eu peço à IA para me escrever uma crónica, uso o resultado para me precaver. Fujo a sete pés do que encontro. A IA é o meu passado a perseguir-me. E eu não posso deixar-me apanhar. Sou forçado a ser o fugitivo. A IA pode ser o futuro, mas é inteiramente constituída pelo passado. É uma regurgitação do que já foi dito. Mas é uma regurgitação cada vez mais bem feita.

O problema é que nós, os seres humanos, temos uma tendência 100% natural de nos regurgitarmos a nós próprios. Há milénios que já somos a nossa própria IA, repetindo e canibalizando as nossas gracinhas populares, para dar ao povo o que quer. E o povo, já se sabe, é como as criancinhas antes de adormecer: quer sempre ouvir as mesmas histórias.

Se os seres humanos fossem sempre originais – se pensassem coisas que não pensaram antes, e as escrevessem de uma maneira diferente –, a IA seria sempre muito pouco convincente. Seria um fracasso.

A IA triunfa onde aquilo que copia já era escrito por copiões: os textos burocráticos, sejam eles estritamente burocráticos ou de aplicação legal, académica, jornalística ou literária. O que pode ser escrito a metro por um ser humano, copiado de cópias anteriores que também a metro foram escritas, pode – nada sensacionalmente – ser escrito a metro pela IA.

A música grátis não matou os espectáculos e a escrita IA não matará a escrita original. Pelo contrário: a excelência do artificial ajudará a dar valor à falibilidade e à frescura do genuíno.

O que pode ser copiado pode ter muito valor, mas nada tem tanto valor como o que nunca existiu antes.
Miguel Esteves Cardoso

O primeiro trilionário e a pobreza fabricada

A humanidade acaba de cruzar um marco simbólico. Um único indivíduo acumula fortuna superior a US$ 1 trilhão. O posto de Elon Musk foi celebrado como a consagração da inovação, da tecnologia e da capacidade empreendedora do capitalismo contemporâneo.

Mas há uma segunda notícia, muito menos comentada, que merece atenção. Estudo recente liderado por Thomas Piketty e Joseph Stiglitz, sustenta que a pobreza não é uma fatalidade histórica nem resultado inevitável da escassez. Ela é produzida por escolhas econômicas, políticas e institucionais.

A tese desafia uma das crenças mais arraigadas do nosso tempo: a de que a riqueza extrema seria apenas fruto do mérito, enquanto a pobreza decorreria exclusivamente de falhas individuais. Para os autores, o problema central não está na capacidade do mundo de gerar riqueza, mas na forma como ela é distribuída.


A constatação é desconfortável. Nunca a humanidade produziu tanto. Nunca dispôs de tamanha capacidade tecnológica. Ainda assim, bilhões de pessoas continuam privadas do básico.

O debate ganha relevância porque ocorre em um contexto no qual os compromissos internacionais parecem cada vez mais distantes da realidade. Em 2015, os países-membros da ONU assumiram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O primeiro deles prevê a erradicação da pobreza; o segundo, da fome. Ambos partem de uma premissa simples: esses problemas podem ser resolvidos.

O obstáculo não é tecnológico. Não é produtivo. É político.

O Brasil oferece um exemplo eloquente dessa contradição. A Constituição de 1988 estabelece como objetivo fundamental da República erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais. Não se trata de uma recomendação moral, mas de um compromisso constitucional.

É verdade que houve avanços importantes. A pobreza e a extrema pobreza atingiram recentemente os menores níveis da série histórica. Ainda assim, cerca de um quarto da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza. Em uma das maiores economias do planeta, dezenas de milhões de pessoas seguem enfrentando dificuldades para acessar direitos elementares.

O mesmo sistema capaz de criar fortunas trilionárias pode acelerar mudanças para sistemas tributários mais progressivos, proteção social mais robusta e investimentos públicos mais amplos e eficazes. No Brasil, esse debate ganhou novo fôlego com a reforma tributária em curso. Embora seu objetivo principal seja simplificar o sistema e reduzir distorções econômicas, ela também incorpora mecanismos que caminham na direção da justiça fiscal.

Durante décadas, a tributação brasileira concentrou seu peso sobre o consumo, fazendo com que famílias de baixa renda destinassem proporcionalmente mais recursos ao pagamento de tributos do que os mais ricos. A reforma busca corrigir parte dessa distorção ao prever instrumentos como a devolução de tributos para famílias de menor renda e a tributação progressiva de doações e heranças. São medidas que reconhecem uma premissa elementar: tratar igualmente situações profundamente desiguais não produz justiça.

Naturalmente, a reforma tributária não resolverá sozinha o problema da desigualdade. A concentração de renda e patrimônio exige um conjunto mais amplo de políticas públicas. Ainda assim, ela representa um passo importante ao aproximar o sistema tributário brasileiro de um princípio amplamente adotado nas democracias contemporâneas: quem tem maior capacidade contributiva deve participar de forma proporcionalmente maior do financiamento das políticas públicas.

Num ambiente global onde se celebra o fato de uma pessoa acumular, sozinha, mais de US$ 1 trilhão, a questão mais urgente talvez seja outra. Não se a humanidade é capaz de produzir riqueza em escala inédita – ela já demonstrou que é. Mas se será capaz de reunir a mesma determinação para cumprir um objetivo muito mais antigo: reduzir a pobreza e a desigualdade.

A estupidez no comando

O 11 de setembro marca a história moderna: primeiro, na derrubada de Allende e as milhares de torturas e mortes que se seguiram; também com os 3.000 mortos em Nova Iorque em 2001. Como reação aos ataques o presidente dos EUA, menos de um mês após, invadiu o Afeganistão, numa guerra que durou vinte anos e matou 6.000 militares norte-americanos, além de dezenas de milhares de afegãos.

Na mesma “guerra ao terror” os EUA, em seguida, com base em mentiras, invadiram o Iraque. Foram mais de 8.000 concidadãos e dezenas de milhares de iraquianos mortos. Adotaram, então, a tortura como método de investigação e declararam a Convenção de Genebra inaplicável ao seu combate.


Noutra linha, logo após o 9/11, aprovaram a Lei Patriota, permitindo a vigilância generalizada dos cidadãos de todos os países pelo governo dos EUA, que, desde então, acusa seus adversários (China e Rússia) de vigiarem seus cidadãos!

A estupidez continuou com Obama, Biden e o Laranja, com o uso intenso de drones para matar pessoas sem qualquer processo judicial, e com as “provas” dessas vinculações ao “terrorismo” mantidas secretas. A estupidez se avoluma ao apoiarem o genocídio perpetrado por Israel em sua busca da “solução final” ao “problema” palestino, eco evidente do que se dizia na Alemanha nazista com relação aos judeus!

Aliaram-se esses genocidas para atacar o Irã, baseado em falsas expectativas, evidenciando estupidez acima do que se poderia esperar!

Segue a estultice no comando, afrontando, sem contestar, as evidências científicas sobre o mal que a queima de petróleo e outros combustíveis fósseis causam a todas as formas de vida. Continua a bestialidade ao desmontar instituições que fornecem dados sobre a saúde, ou falta de, do ambiente em que vivemos e do qual dependemos.

A estupidez no comando não é inevitável; após 1903, Theodoro Roosevelt baseou sua campanha e seu governo numa ideia que hoje nos faz falta: a busca do “acordo justo” (“a square deal”), cujas bases eram três “Cs”: proteção ao Consumidor, regulação das Corporações, e Conservação da natureza.

Por que e como permitimos tal degradação de nossos governantes? Qual “acordo justo” propor e como implantá-lo no atual século?