sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Manifesto: Contra a produtividade, pim! Pela felicidade, pum!

O dia começa a esvair-se. O céu derrete-se languidamente, em tons de laranja, que escorrem até se desfazerem numa mancha de um rosa arroxeado que desmaia sobre o azul frio. Em breve, vai voltar a aparecer uma lua redonda, cheia como uma laranja, boiando sobre as águas. Não consigo desviar os olhos. Penso em pegar no telefone para fotografar. Mas travo o gesto. Nenhuma fotografia conseguiria captar este momento. Inspiro o vento salgado do fim de tarde com a mesma ânsia com que mergulhei uma e outra vez no mar desde o princípio da manhã. Primeiro aproximando-me devagar, a pele arrepiada avançando sobre as águas. Depois atirando-me inteira sobre as ondas. O corpo deslizando, aquático, como se voltasse ao início de si, àquele momento em que flutuava ainda como embrião. Até me faltar o ar e vir à tona e o arrepio da pele me fazer voltar ao calor do areal. Uma e outra vez. Até o dia desaparecer.

Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento

Há um único dia de férias de verão. Não importa quantos anos se passem. Volto ao mesmo dia, cristalizado na infância, uma e outra vez. Não importam as variações. É pouco importante o pormenor do local ou do tempo. O que importa é regressar à praia e àquele dia que se refaz em todos os dias das férias de verão.

Sou muito feliz na rotina das férias. Gosto de voltar todos os anos ao mesmo lugar, ainda que ao longo de décadas de vida esse sítio já tenha mudado muitas vezes. Por muito que goste da viagem e da novidade, é neste regresso estival que viajo mais longe. É pela repetição que volto, uma e outra vez, àquele momento da infância e do espanto. Regresso agora com dois filhos pelas mãos. Mas sou outra vez a criança que brinca na espuma, que se enterra na areia, que corre até ao paredão, que mergulha uma e outra vez e se recusa a ir para a cama para sentir o ar da noite carregado de maresia e aloendros.


Todos os anos há novas sardas na minha pele. São constelações. São mapas de dias passados ao sol, que me ensinam o caminho até ao lugar desta felicidade inconsequente, feita de mar e calor. Corrijo. A felicidade nunca é inconsequente. A felicidade é urgente. Não sabemos bem o que é, porque ela é parecida com aquele arrepio que sentimos no primeiro mergulho. Está ali entre o desconforto do frio e o calor que vai subindo até nos obrigar a voltar para o mar. Ia escrever que é uma questão de dose, de equilíbrio. Mas a felicidade é desmesurada e tão mais feliz quanto mais desequilibrada for.

A felicidade é uma coisa revolucionária. E é por isso que ela assusta. Porque subverte as regras, desafia as convenções, pisa o medo e dá força aos fracos. Já pensaram bem no tempo e nos recursos que os poderosos de todas as épocas gastaram a tentar esmagar a felicidade? Tudo o que foi proibido e proscrito, tudo o que foi controlado e interdito? Todas as formas de opressão e controlo tentam apagar a felicidade. Fazem dela pecado ou crime, porque sabem como é poderosa e livre a gente feliz. E não há nada que meta mais medo aos que querem o poder só para eles do que pessoas cheias de felicidade.

Os senhores dos algoritmos tentam plastificar a felicidade, reduzi-la a fórmulas de perfeição instagramável, poses falsas, encenações infelizes. Mas a felicidade não está no Instagram. Ela não cabe numa fotografia, não entra num vídeo. Gente verdadeiramente feliz não produz conteúdos. Vive. E isso, claro, não é monetizável. E é também por isso que as redes instigam o ódio e a indignação. Uma e outra vez. Até nos sentirmos completamente infelizes e resignados à ideia de que o mundo é um lugar horrível e a felicidade, uma utopia impossível ou talvez uma anestesia que se pode comprar. Sim, porque a indústria da infelicidade é lucrativa, ela vive acenando-nos com uma felicidade de pacote, que podemos encomendar online, sem portes de envio, mas nos chega sempre estragada ou se desfaz rapidamente.

A rotina das férias é também uma vacina contra essa ideia da novidade de consumo. Uma forma de voltar uma e outra vez àquilo que conhecemos e encontrar o espanto das coisas que existem só porque sim. Deixarmo-nos mesmo regressar ao momento em que mal tínhamos consciência de nós e existíamos apenas, com os olhos abertos e levando o mundo à boca para ter a felicidade de o sentir. Só porque sim.

Um mergulho no mar não serve para nada. Uma tarde na areia não tem utilidade. O pôr do sol é uma coisa sem sentido. O luar das noites de verão não produz coisa nenhuma. Todas as coisas verdadeiramente importantes da vida escapam às métricas da produtividade e da utilidade. Como o amor, os beijos, os abraços, os sorrisos, a música, a pintura e a literatura não servem para coisa alguma. E a Humanidade também não. E ainda bem.

Recusemo-nos a ser instrumentais, úteis, produtivos. Recusemo-nos a refrear a felicidade, a dosear o amor, a ser frugais no prazer e austeros no viver. Não nos envergonhemos do riso nem da dança. Não nos controlemos na festa nem no sonho. Ousemos exigir impossibilidades. Admiremos a capacidade do ócio. Percebamos a importância de existir só porque sim, sem adiar beijos e abraços, sem contar horas como se elas fossem um castigo, mas entendendo-as como uma dádiva, fazendo de cada momento o melhor que ele pode ser. Com os dois pés no presente e a cabeça toda no futuro, sonhando que amanhã será melhor, mas fazendo tudo para que hoje já comece a sê-lo.

Nunca ninguém será feliz em folhas de Excel, relatórios de comissões técnicas, auditorias e procedimentos. A Inteligência Artificial pode ser moderna, produtiva e eficaz, mas nunca saberá o que é a felicidade. Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento.

A felicidade, meus amigos, é política. Quem a teme sabe-o bem. É preciso percebê-lo. É preciso ser feliz.

A sociedade da dúvida permanente

Repete-se sempre da mesma maneira, confirmou a Polícia Judiciária à Lusa. Uma fotografia banal, tirada do Instagram. Uma representação sexual fabricada por uma das várias aplicações de “nudificação” que podem ser encontradas com facilidade. A imagem, manipulada mas com o rosto verdadeiro, entra num grupo de WhatsApp da escola. Em poucas horas, transforma-se em meme, ganha novas versões, passa de telemóvel em telemóvel e já não pode ser apagada de todos os dispositivos onde chegou. Em mais de nove em cada dez casos, é uma rapariga.

Os primeiros casos remontam a 2024. Hoje já chegam aos tribunais. A maioria é comunicada pelas próprias escolas e envolve sobretudo jovens entre os 12 e os 16 anos. Portugal, sem grande alarido, deixou de tratar isto como hipótese. Tornou-se rotina. É este o ponto de partida — e não a tecnologia em abstracto: uma sociedade em que já não se sabe se aquilo que se vê aconteceu e em que essa incerteza, por si só, já é suficiente para causar dano.

Durante décadas, falsificar exigiu talento. Uma fotografia adulterada, uma gravação cortada, uma citação inventada — tudo isso precisava de passar pelo crivo de um olhar desconfiado. Havia uma linha, ainda que ténue, entre o acontecimento e a sua representação. Essa linha está agora a dissolver-se e, com ela, desaparece algo mais silencioso: a convicção de que uma imagem constitui evidência.


A União Europeia começou a responder com normas específicas. Desde 2 de Agosto de 2026, entram em aplicação as obrigações de transparência previstas no artigo 50.º do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, destinadas, entre outras coisas, a tornar identificáveis determinados conteúdos gerados ou manipulados artificialmente.

É uma medida necessária. Mas resolve apenas metade do problema, porque assinala o que foi produzido ou alterado por uma máquina sem devolver, por si só, credibilidade ao que é genuíno. É exactamente aí que a manipulação encontra o seu espaço mais fértil: já não precisa de convencer; basta lançar a dúvida sobre aquilo que aconteceu.

O Brasil oferece, neste preciso momento, um laboratório dessa mutação. O uso de um avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro, gerado por inteligência artificial numa convenção partidária, levou o Tribunal Superior Eleitoral a convocar uma reunião extraordinária para discutir o tema. O detalhe mais revelador não é o avatar em si — é a dificuldade crescente em separar, com nitidez, o que foi encenado do que foi fabricado.

Portugal partilha o mesmo ecossistema informativo, mas enfrenta o problema a partir de uma realidade própria. A Comissão Nacional de Eleições promoveu, no âmbito dos seus 50 anos, uma conferência dedicada exactamente a este cruzamento — inteligência artificial, democracia e eleições — reunindo juristas e membros do Tribunal Constitucional para discutir onde termina a inovação e começa a manipulação do processo eleitoral.

A questão portuguesa, portanto, não é saber se esta tecnologia chegará à política. Já chegou. É perceber se as instituições, os jornalistas e os cidadãos estarão preparados quando uma imagem inventada puder ser suficientemente convincente para produzir uma dúvida com consequências reais.

Porque é aqui que a lógica se torna verdadeiramente perigosa. Até agora, a manipulação procurava levar alguém a aceitar uma versão distorcida dos factos. Esta nova forma de interferência tem uma ambição mais modesta e mais devastadora: não precisa sequer de persuadir. Basta retirar às pessoas a certeza sobre aquilo que aconteceu.

Um documento incómodo pode ser desqualificado como manipulação sem que seja preciso demonstrá-lo. Uma gravação genuína pode ser posta em causa apenas porque, em teoria, também poderia ter sido criada por uma máquina. Nem sempre quem lança a suspeita terá razão. Mas deixou de precisar de a ter — basta-lhe semeá-la e esperar que faça o resto do trabalho.

É aqui que a transformação revela a sua verdadeira dimensão. O futuro da desinformação não passa necessariamente por fazer-nos aceitar o inventado como realidade. Pode ser muito mais simples — e muito mais eficaz: fazer-nos desistir de procurar a realidade.

Chegados aqui, torna-se claro que o verdadeiro alvo desta transformação não é a verdade. É a prova — e a diferença entre as duas coisas é politicamente decisiva. Uma sociedade sem factos partilhados pode conservar opiniões divergentes, debate e até democracia, embora sob condições mais difíceis e instáveis. Mas, quando a evidência deixa de ser credível, perde-se algo anterior a tudo isso: a capacidade de um jornalista confirmar um facto, de um tribunal fundamentar uma sentença, de um cidadão responsabilizar um poder. Não se trata apenas de fabricar melhor. Trata-se de retirar à sociedade o instrumento com que se protege de quem procura manipulá-la.

A Unesco tem alertado para os efeitos da inteligência artificial sobre a liberdade de expressão e os processos eleitorais, descrevendo os deepfakes como falsificações capazes de imitar de forma convincente a voz e o rosto de uma pessoa real. O risco maior, porém, talvez não seja sermos enganados por essas imitações. É deixarmos de acreditar que ainda vale a pena separar o original da cópia — entregando essa distinção a quem tiver mais poder para a impor.

Portugal tem discutido a inteligência artificial sobretudo pelo lado da produtividade, da inovação e da competitividade. São dimensões importantes, mas não esgotam o problema. Há uma pergunta mais incómoda: quem garante a autenticidade daquilo que os portugueses verão, ouvirão e lerão quando a manipulação digital se tornar indistinguível do que realmente aconteceu?

Essa pergunta não se resolve com tecnologia. Exige uma resposta institucional, jornalística e cultural — e começa por recusar duas tentações simétricas: a aceitação acrítica do que circula e a desconfiança sistemática perante aquilo que nos é apresentado. Ambas, por caminhos opostos, entregam o mesmo poder a quem manipula.

O perigo maior começa quando a dúvida deixa de ser uma etapa da procura pela verdade e passa a ser o destino. Porque, nesse momento, já não é preciso apagar os factos. Basta tornar impossível provar que aconteceram.

Quando já não é possível distinguir o que aconteceu daquilo que pode ser negado, a dúvida deixa de ser uma virtude democrática. Torna-se poder.

Haja canalhas


O aumento da canalhice é o resultado da má distribuição de renda
Millôr Fernandes

Antipetismo visceral alimenta o servilismo a Donald Trump

Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.


Parece prevalecer uma espécie de reacionarismo atávico, hoje atualizado por um tipo visceral de antipetismo, que se sobrepõe ao senso de nação — um adesismo equivocado, de viés ideológico, sem altivez.

Mais uma vez, para não deixar dúvidas sobre os propósitos de Trump, o Departamento de Estado dos EUA, comandado pelo diligente e vingativo Marco Rubio, postou vídeo no qual o embaixador no Panamá, Kevin Marino Cabrera, detalha o surgimento da doutrina Monroe, em 1823, quando Washington manifestou-se a favor da independência de países latino-americanos e do afastamento das metrópoles europeias.

O post veio com a frase "o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente" – proferida por Trump após a captura de Nicolás Maduro, o ex-ditador da Venezuela, ora substituído pela ditadora fantoche Delcy Rodríguez. O norte-americano, como se sabe, defende a doutrina Donroe, trocadilho infame que sintetiza seus interesses imperialistas em nosso continente, onde encontra o referido apoio entreguista.

Trump exerce o poder como um Átila pós-liberal. Onde pisa, a democracia, o multilateralismo e o bom senso morrem. Instituições que mediavam querelas internacionais perderam sentido, na prática não existem mais.

Em seu admirável mundo bárbaro, endossa a disputa entre potências de perfil autocrático —Rússia e China— com autonomia sobre suas áreas de influência. Apoia o projeto Grande Israel para regrar o Oriente Médio, de preferência em sintonia com ditaduras amigas, como a Arábia Saudita —enquanto a Europa é vista como mera frescura para os fracos.

A imposição de taxas no comércio exterior funciona como arma para impor a superpotência e também serve para ajudar no financiamento do Estado, substituindo os impostos não cobrados dos grandes empresários americanos.

Seria como se Lula, se pudesse, num argumento por absurdo, tentasse buscar recursos fiscais impondo barreiras externas para compensar seus gastos públicos e o custo tributário das isenções.

Em ano eleitoral, o Brasil torna-se uma vítima preferencial do republicano, que acredita estar punindo Lula e favorecendo seus aliados extremistas. Recente pesquisa Datafolha, aliás, mostrou que para 52% dos brasileiros Trump atua para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, cuja família e seguidores batem continência para a bandeira dos EUA.

O clássico livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Hollanda, já chega aos 90 anos, mas ainda vale em boa medida seu diagnóstico: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.

Entre deuses e dados: a natureza sagrada

Outro dia me peguei pensando em como nós, seres humanos, passamos milhares de anos tentando dar nomes à natureza.

Ao mar. Ao vento. À chuva. À fertilidade da terra.

Antes que existissem satélites capazes de acompanhar do espaço a formação de um furacão, modelos climáticos que projetam a temperatura do planeta até o fim do século ou relatórios que calculam, em toneladas, a quantidade de carbono lançada na atmosfera, havia histórias. Histórias fantásticas.

E havia deuses.


Na Grécia antiga, Poseidon governava os mares. Deméter estava ligada à agricultura e às colheitas. Ártemis habitava simbolicamente o mundo selvagem. E, antes deles, estava Gaia, a própria Terra transformada em divindade.

A milhares de quilômetros dali, tradições religiosas africanas construíram outras cosmologias, com histórias, significados e relações próprias com o mundo natural. No Candomblé, os orixás estão profundamente associados às forças da natureza.

Oxum está ligada às águas doces e aos rios. Iemanjá, ao mar. Iansã, aos ventos e às tempestades. Oxóssi, às matas. Xangô, ao fogo e ao trovão. Ossain, às folhas e ao conhecimento das plantas.

Não se trata, evidentemente, de dizer que essas tradições são equivalentes. Não são. Nasceram em sociedades diferentes, carregam histórias diferentes e ocupam lugares muito distintos no mundo contemporâneo — inclusive porque as religiões de matriz africana continuam sendo alvo de intolerância e racismo religioso no Brasil.

Mas há algo que me interessa nessa aproximação. Em cosmologias tão distantes entre si, a natureza nunca aparece apenas como paisagem. Ela tem força. Tem personalidade. E merece reverência.

Em algum momento, fomos nos afastando dessa ideia.

A modernidade nos ensinou, de muitas maneiras, a enxergar a natureza como recurso. A floresta virou madeira, minério e hectares produtivos. O rio virou potencial hidrelétrico ou canal de irrigação. O petróleo, aprisionado durante milhões de anos no subsolo, virou combustível.

Passamos a falar da natureza quase sempre em termos do que ela poderia nos oferecer e fomos esquecendo de perguntar o que deveríamos oferecer em troca – ou, ao menos, quais limites deveríamos respeitar.

Diante de tantas ondas de calor, secas, enchentes e vendavais, vemos de maneira cada vez menos sutil que a natureza não é passiva. E não é vingança, não. A ciência explica esses processos sem precisar recorrer à vontade dos deuses.

É física pura.

Na lição que essa física nos oferece, no entanto, há quase um toque de magia: existem forças maiores do que nós. Os antigos sabiam disso.

Quem imaginava um deus habitando o mar sabia que o mar merecia respeito. Quem reconhecia o sagrado nas águas, nas folhas, nas matas, nos ventos ou no trovão estabelecia com esses elementos uma relação que não era apenas econômica.

É claro que ninguém é santo – nem mesmo os antigos. Civilizações derrubaram florestas, modificaram paisagens, guerrearam por recursos e provocaram impactos ambientais muito antes de inventarmos a expressão “mudanças climáticas”.

Mas havia, em muitas dessas cosmologias, a ideia de que a natureza também pertencia ao território do sagrado. E há algo importante nisso. Porque é muito mais fácil destruir aquilo que enxergamos apenas como recurso do que aquilo diante do qual aprendemos a prestar reverência.

Curiosa a constatação de que nunca compreendemos tanto a natureza. Sabemos, hoje, muito mais sobre o funcionamento do planeta do que qualquer sociedade que veio antes de nós. Conseguimos medir a concentração de CO₂ na atmosfera, reconstruir temperaturas de milhares de anos atrás, observar o derretimento de geleiras por satélite e calcular quanto o nível do mar poderá subir.

Paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido tão convencidos de que estamos separados dela, a natureza.

Construímos cidades climatizadas, desviamos rios, perfuramos montanhas, atravessamos oceanos em poucas horas. Criamos uma civilização tão sofisticada que, às vezes, parece possível esquecer que continuamos dependendo de coisas elementares: água, solo, chuva, temperatura, ar.

Até que o rio transborda. A chuva não vem. O termômetro passa dos 40 graus. O vento derruba árvores, fecha aeroportos e interrompe cidades inteiras.

E então nos lembramos de algo que os antigos transformaram em deuses e que a ciência moderna transformou em dados: nunca estivemos fora da natureza.

Talvez tenhamos apenas passado alguns séculos acreditando que estávamos.

A crise climática pode ser a mais dura resposta a essa ilusão.

Israel conquista novos aliados na América Latina

A Venezuela e Israel romperam relações diplomáticas em 2009, quando o então presidente Hugo Chávez expulsou o embaixador israelense em protesto contra a ofensiva militar em Gaza. Dezessete anos depois, Caracas e Jerusalém concordaram em estabelecer um mecanismo para retomar a prestação de serviços consulares aos seus cidadãos. Ainda é um passo limitado, mas impensável até recentemente.

A Colômbia foi muito além . O governo do presidente Abelardo de la Espriella não só reverteu o rompimento das relações diplomáticas decidido por seu antecessor, Gustavo Petro, como também anunciou a transferência de sua embaixada para Jerusalém e reconheceu a soberania israelense sobre as Colinas de Golã, território sírio ocupado por Israel desde 1967 e cuja anexação não é reconhecida pela grande maioria da comunidade internacional.

A Colômbia e a Venezuela são casos isolados ou fazem parte de um realinhamento mais profundo na América Latina?

"Há uma tendência de reaproximação com Israel que responde à onda de sentimentos de extrema-direita que se instalou na região", afirma Isaac Caro, professor da Universidade Alberto Hurtado, no Chile. Em sua opinião, essa tendência está ligada "a um alinhamento ativo com a política externa dos EUA ".

Daniel Wajner, professor associado de Relações Internacionais da Universidade Hebraica de Jerusalém, também fala em uma "onda", com antecedentes em Jair Bolsonaro no Brasil e Nayib Bukele em El Salvador, e que posteriormente se manifestou com particular clareza com Javier Milei na Argentina e agora em outros países.


Wajner, coautor de uma obra acadêmica intitulada "Israel e América Latina", descreve uma oscilação pendular da esquerda para a direita, mas introduz outra variável: o populismo. Segundo sua análise, a direita latino-americana tende a ser mais favorável a Israel do que a esquerda. Quando o populismo de direita é adicionado a isso, argumenta ele, o resultado não é mais apenas uma reaproximação, mas sim um "abraço" de Israel.

Gilberto Aranda, acadêmico do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, também observa "uma tendência regional", cujo primeiro elemento seria um forte realinhamento com os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump e, por extensão ou por convicção própria, uma reaproximação com Israel.

A Argentina é provavelmente o exemplo mais visível. Javier Milei fez de seus laços estreitos com Israel uma parte proeminente de sua política externa e de sua própria identidade política. Caro acredita que a ligação com Israel se tornou "um elemento identificador da extrema direita na região", associada a um discurso de pertencimento a uma civilização ocidental judaico-cristã.

Mas as motivações não são idênticas em todos os países. Wajner destaca fatores ideológicos e religiosos, mas também estratégicos. O fortalecimento das relações com Israel pode sinalizar um alinhamento internacional específico para Washington. O fenômeno, portanto, faria parte de algo maior: governos buscando se identificar mais claramente com os Estados Unidos e o Ocidente.

A Colômbia exemplifica a magnitude da oscilação pendular. Sob o governo de Petro, Bogotá rompeu relações diplomáticas com Israel em 2024 devido à guerra em Gaza. Com De la Espriella, a situação se inverteu.

Caro fala de uma "mudança substancial" na política externa colombiana, especialmente em relação aos Estados Unidos. O reconhecimento da soberania israelense sobre as Colinas de Golã demonstra a extensão dessa mudança.

Para Aranda, na Colômbia, o realinhamento com Washington e as convicções pessoais do novo presidente, um convertido ao cristianismo protestante, convergem.

O governo do presidente colombiano Abelardo de la Espriella foi além de quase toda a comunidade internacional ao romper com o consenso global sobre as Colinas de Golã.

A Venezuela não se encaixa tão facilmente nesse quadro ideológico. Wajner alerta que o regime não mudou sua natureza política. O que mudou foi sua posição internacional após a intervenção dos EUA e sua subsequente reaproximação com Washington.

A restauração dos serviços consulares, no entanto, tem um forte valor simbólico. A Venezuela manteve boas relações com Israel durante décadas antes de Chávez as romper. Para Israel, restabelecer laços com um país que durante anos foi um de seus adversários mais determinados na região constitui um sucesso diplomático num momento em que continua a enfrentar fortes críticas internacionais.

Essa oscilação pendular também é observada em outros países. A Bolívia rompeu relações com Israel em 2023 devido à guerra em Gaza e as restabeleceu em dezembro de 2025, após a mudança de governo.

O Chile também mudou sua postura. Gabriel Boric manteve uma posição bastante crítica em relação ao governo de Benjamin Netanyahu, embora nunca tenha rompido relações. O novo governo de José Antonio Kast adotou uma posição muito mais favorável e busca restabelecer, entre outras coisas, a cooperação em defesa. Aranda ressalta, no entanto, que Santiago não foi tão longe quanto a Colômbia.

O mapa da América Latina está longe de ser uniforme. O Brasil constitui o principal contrapeso. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva mantém uma postura fortemente crítica em relação às ações israelenses em Gaza e na Cisjordânia.

"O país com maior influência na região que mantém uma postura crítica em relação a Israel é claramente o Brasil", destaca Aranda. Justamente por causa do peso demográfico, econômico e político do Brasil, a mudança regional em direção a Israel dificilmente pode ser considerada completa.

A isso se soma o México, o outro gigante latino-americano. Caro diferencia as posições de ambos: enquanto Lula tem sido especialmente crítico de Israel, "o México tem tentado manter maior neutralidade e equilíbrio diplomático".

A presidente Claudia Sheinbaum criticou as ações de Israel em Gaza, mas o México mantém relações diplomáticas com Israel. Sua posição ilustra uma diferença importante: criticar o governo Netanyahu não significa necessariamente romper ou reduzir os laços com o Estado israelense.

A antiga frente latino-americana crítica a Israel está, em todo caso, enfraquecida. Aranda acredita que o bloco agora está "indefinido" após as mudanças políticas em países como a Colômbia, embora o Brasil ainda tenha peso suficiente para sustentar uma posição alternativa.

O interesse de Israel não se limita a cultivar governos aliados. Caro destaca que as relações entre Israel e a América Latina remontam à fundação do Estado israelense em 1948 e abrangem migração, comércio e segurança. O apoio latino-americano em organizações multilaterais, especialmente nas Nações Unidas, também tem sido importante para contrabalançar o isolamento internacional de Israel.

Wajner resume os interesses atuais em três conceitos: "legitimidade, cooperação e influência". Israel busca apoio e reconhecimento internacional, mas também cooperação econômica, tecnológica, militar e de segurança. A América Latina, por sua vez, encontra em Israel um parceiro fundamental em áreas como cibersegurança, inteligência artificial, inteligência de inteligência e defesa.

A reaproximação é, portanto, uma relação de mão dupla e está sujeita aos ciclos políticos latino-americanos. A mesma dinâmica eleitoral que distanciou diversos países de Israel durante governos de esquerda contribuiu posteriormente para aproximá-los.