Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento
Há um único dia de férias de verão. Não importa quantos anos se passem. Volto ao mesmo dia, cristalizado na infância, uma e outra vez. Não importam as variações. É pouco importante o pormenor do local ou do tempo. O que importa é regressar à praia e àquele dia que se refaz em todos os dias das férias de verão.
Sou muito feliz na rotina das férias. Gosto de voltar todos os anos ao mesmo lugar, ainda que ao longo de décadas de vida esse sítio já tenha mudado muitas vezes. Por muito que goste da viagem e da novidade, é neste regresso estival que viajo mais longe. É pela repetição que volto, uma e outra vez, àquele momento da infância e do espanto. Regresso agora com dois filhos pelas mãos. Mas sou outra vez a criança que brinca na espuma, que se enterra na areia, que corre até ao paredão, que mergulha uma e outra vez e se recusa a ir para a cama para sentir o ar da noite carregado de maresia e aloendros.
Todos os anos há novas sardas na minha pele. São constelações. São mapas de dias passados ao sol, que me ensinam o caminho até ao lugar desta felicidade inconsequente, feita de mar e calor. Corrijo. A felicidade nunca é inconsequente. A felicidade é urgente. Não sabemos bem o que é, porque ela é parecida com aquele arrepio que sentimos no primeiro mergulho. Está ali entre o desconforto do frio e o calor que vai subindo até nos obrigar a voltar para o mar. Ia escrever que é uma questão de dose, de equilíbrio. Mas a felicidade é desmesurada e tão mais feliz quanto mais desequilibrada for.
A felicidade é uma coisa revolucionária. E é por isso que ela assusta. Porque subverte as regras, desafia as convenções, pisa o medo e dá força aos fracos. Já pensaram bem no tempo e nos recursos que os poderosos de todas as épocas gastaram a tentar esmagar a felicidade? Tudo o que foi proibido e proscrito, tudo o que foi controlado e interdito? Todas as formas de opressão e controlo tentam apagar a felicidade. Fazem dela pecado ou crime, porque sabem como é poderosa e livre a gente feliz. E não há nada que meta mais medo aos que querem o poder só para eles do que pessoas cheias de felicidade.
Os senhores dos algoritmos tentam plastificar a felicidade, reduzi-la a fórmulas de perfeição instagramável, poses falsas, encenações infelizes. Mas a felicidade não está no Instagram. Ela não cabe numa fotografia, não entra num vídeo. Gente verdadeiramente feliz não produz conteúdos. Vive. E isso, claro, não é monetizável. E é também por isso que as redes instigam o ódio e a indignação. Uma e outra vez. Até nos sentirmos completamente infelizes e resignados à ideia de que o mundo é um lugar horrível e a felicidade, uma utopia impossível ou talvez uma anestesia que se pode comprar. Sim, porque a indústria da infelicidade é lucrativa, ela vive acenando-nos com uma felicidade de pacote, que podemos encomendar online, sem portes de envio, mas nos chega sempre estragada ou se desfaz rapidamente.
A rotina das férias é também uma vacina contra essa ideia da novidade de consumo. Uma forma de voltar uma e outra vez àquilo que conhecemos e encontrar o espanto das coisas que existem só porque sim. Deixarmo-nos mesmo regressar ao momento em que mal tínhamos consciência de nós e existíamos apenas, com os olhos abertos e levando o mundo à boca para ter a felicidade de o sentir. Só porque sim.
Um mergulho no mar não serve para nada. Uma tarde na areia não tem utilidade. O pôr do sol é uma coisa sem sentido. O luar das noites de verão não produz coisa nenhuma. Todas as coisas verdadeiramente importantes da vida escapam às métricas da produtividade e da utilidade. Como o amor, os beijos, os abraços, os sorrisos, a música, a pintura e a literatura não servem para coisa alguma. E a Humanidade também não. E ainda bem.
Recusemo-nos a ser instrumentais, úteis, produtivos. Recusemo-nos a refrear a felicidade, a dosear o amor, a ser frugais no prazer e austeros no viver. Não nos envergonhemos do riso nem da dança. Não nos controlemos na festa nem no sonho. Ousemos exigir impossibilidades. Admiremos a capacidade do ócio. Percebamos a importância de existir só porque sim, sem adiar beijos e abraços, sem contar horas como se elas fossem um castigo, mas entendendo-as como uma dádiva, fazendo de cada momento o melhor que ele pode ser. Com os dois pés no presente e a cabeça toda no futuro, sonhando que amanhã será melhor, mas fazendo tudo para que hoje já comece a sê-lo.
Nunca ninguém será feliz em folhas de Excel, relatórios de comissões técnicas, auditorias e procedimentos. A Inteligência Artificial pode ser moderna, produtiva e eficaz, mas nunca saberá o que é a felicidade. Os autómatos não são felizes, porque as coisas têm uma utilidade e a felicidade é completamente inútil e escapa à lógica e ao planeamento.
A felicidade, meus amigos, é política. Quem a teme sabe-o bem. É preciso percebê-lo. É preciso ser feliz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário