“Pra ser petista, das duas uma, ou faltou proteína ou falta caráter”. A médica Claudia Leite estava entre amigas que aguardavam a abertura do salão para o encontro “Brasil de Ideias Mulher - Eleições”, o primeiro de uma série com os candidatos à Presidência, com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no hotel Tangará, zona sul de São Paulo.
A zanga se dirigia a duas pessoas que ocuparam uma mesa do restaurante Quattrino, nos Jardins, durante um show, no sábado, do comentarista de direita argentino Gustavo Segré, autor da canção “Janjo e Janja”. A dupla protestou, destoando da maior parte da audiência que os pôs para correr. “Foi um sinal de que ele [Segré] está incomodando”, comentou Vera Renzo, empresária de turismo, arriscando um palpite sobre o potencial destrutivo do comentarista argentino, titular de um quadro “Faroeste à Brasileira”, na Revista Oeste.
Quando o salão abriu, os scarpins se puseram em marcha, mas o senador chegaria quase uma hora depois do horário marcado, acompanhado da esposa, a dentista Fernanda Bolsonaro. Ele de terno azul, sem gravata, ela de tailleur areia com debrum preto.
Na mesa do pré-candidato, além de Karim Miskulin, do grupo Voto, promotor do evento, ficaram Raquel Reis, CEO da SulAmérica Seguros de Saúde, Loren Spíndola, executiva da Philip Morris, e Misa Antonini, CEO do grupo G4 Educação. Nas mesas do salão tomaram assento de dirigentes de empresas, como Claudia Cohn, CEO da Alta Diagnósticos, a diretoras de Assuntos Corporativos, como Juliana Marra, da Unilever, passando por donas de restaurantes, como Sophia Lins (La Cuisine), joalheiras, como Lydia Sayeg (Casa Leão), e integrantes de grupos como o “Clube da Lu”, fundado por Lu Chelegao, especialista em “psicologia positiva” e coordenadora do livro “Mulheres curadas que curam gerações”.
Anette Rivkind, diretora comercial da Breton, fábrica de móveis com 22 lojas por todo o país, oferece a cadeira ao seu lado. Mostra sua foto com Jair Bolsonaro, quatro anos atrás, quando o ex-presidente levou 135 mulheres ao evento que, nesta segunda, atrairia 184. Preferia o pai, mas Flávio é o que se tem à mão para enfrentar “o outro lado que rouba muito e não deixa a gente trabalhar”.
Três mulheres precederam a fala do senador. A primeira foi Misa Antonini, que chegou ao cargo de CEO da G4 Educação depois que Tallis Gomes, fundador e ex-CEO do grupo, declarou, na campanha de 2024, quando apoiou Pablo Marçal: “Deus me livre de CEO mulher”. A executiva disse que os empresários brasileiros são os “verdadeiros heróis” do país e se assemelham a baratas - “porque a gente nada, voa e passa por baixo da porta”. Tascou um “está struggling” (lutando, em inglês) para definir sua atuação.
Apelou, finalmente, ao presidente inaugural do neocon americano, para definir a opção que aquela plateia teria em outubro para reverter o que chamou de “situação impraticável”: “[Ronald] Reagan dizia que, para uma boa opção, basta concordar com 80% do que o candidato fala”.
A expositora que se seguiu, Claudia Scarpa, vice-presidente da Starr, multinacional de seguros para viagem, valeu-se do número anual de turistas na República Dominicana, 11 milhões, maior do que o do Brasil, para pedir segurança, infraestrutura e educação.
Karim Miskulin lembrou o evento de 2022, quando reuniu um grupo mais restrito de executivas com Jair Bolsonaro. Dois anos depois, seu grupo também promoveria o “1 Forum Jurídico: Brasil de Ideias”, no hotel “The Peninsula”, em Londres, com o patrocínio da Souza Cruz, hoje “ British American Tobacco Brasil ”, uma mesa apoiada pelo Master e a presença de três ministros do STF: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
Karim registrou a defasagem entre a condição majoritária das mulheres no eleitorado e seus cargos de poder antes de dirigir, ao senador, quase um apelo de reconhecimento àquela plateia: “Como um país como o Brasil que quer crescer consegue desperdiçar tanto talento”?
Flávio Bolsonaro decantou a presença de mulheres no seu gabinete e no seu programa de governo - Daniela Marques, secretária-executiva do ex-ministro da Economia Paulo Guedes, estava presente - antes de se dirigir à mulher: “E ali está minha gata, quem transformou o menino em homem foi ela”.
Ao longo de quase duas horas, não se ouviu falar de “Dark Horse” ou Daniel Vorcaro, mas o senador achou por bem se vacinar contra as “narrativas”. Foi aplaudido quatro vezes. Apresentou-se como “empreendedor”, a exemplo da maioria das mulheres presentes, reivindicou o maior investimento das empresas brasileiras em “compliance” como decorrência da denominação de “terroristas” para o PCC e o CV, relatou sua visita a El Salvador para conhecer sua política de segurança. Disse ainda que o roubo de celulares está tão desenfreado que as mulheres “não têm autonomia sobre sua bolsa” e prometeu suspender a reforma tributária. Foi a maior salva de palmas.
Karim lhe perguntou quem seria seu ministro da Economia. “Ou será ministra?”, retrucou. Daniela Marques sairia quase ministra do encontro. “Estou com um bebê de um ano”, despistou. A representante da associação das escolas abertas, Lana Romani, que defendeu a retomada das aulas durante a pandemia, relembrou uma ida ao Palácio do Alvorada às 6h para falar com Bolsonaro, e disse ao filho que o forte da direita não é se comunicar com as mulheres.
“Mulher é mais sensível e distribui mais amor”, disse Flávio antes de se dirigir para a mulher: “Sem você seria impossível”. Fernanda lhe devolveria o afago com os polegares e indicadores fechados em formato de coração.
Porque tens nos olhos
o sol
e o mar…
Porque tens nos olhos
o rio
e também:
o riso
e o fogo
Porque tens no ventre
a raiz de todas
as crianças…
que país constróis
diariamente?Maria Teresa Horta, "Mulheres de Abril"
Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.
Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.
É nesse contexto que temos de analisar alguns movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.
Embora seja um discurso muito eficaz de campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros, dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para dar verniz legal a sua determinação.
Há muita coisa injusta nas razões que punem o Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.
É evidente que tudo isso será processado pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente da China, os americanos podem passar por várias fases.
Nem a devoção da família Bolsonaro nem a química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades. Sempre ajudam.
Quando a Comissária Rita Salim, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, chega ao seu escritório pela manhã, sabe que duas ou três pessoas aparecerão ao longo do dia relatando terem sido vítimas de racismo . Algumas se atrevem a fazê-lo após uma vida inteira de discriminação por causa da cor da pele. “Muitas vítimas vêm quando não aguentam mais, quando o copo está vazio”, diz ela em entrevista em seu escritório. É uma cena triste e, ao mesmo tempo, esperançosa. O véu de silêncio e vergonha que historicamente encobriu esse tipo de discriminação está desaparecendo. O Brasil registrou mais de 7 mil denúncias de racismo em 2025, 67% a mais que no ano anterior.
Especialistas interpretam isso como o início do fim da subnotificação e atribuem o fato a uma combinação de fatores: leis robustas, uma força policial mais bem treinada e, sobretudo, maior conscientização social. O Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, possui hoje as leis antirracistas mais avançadas do continente.
Para alguns turistas, isso é uma surpresa. A argentina Agostina Páez foi presa por chamar um funcionário negro de “macaco” e imitar o animal para insultá-lo em um bar. “Há uma lei muito rigorosa no Brasil”, disse ela ao retornar para casa após dois meses em prisão preventiva em um apartamento e depois de pagar fiança de US$ 20.000 para poder voltar à Argentina. Ela agora aguarda julgamento.
Nos últimos meses, multiplicaram-se os casos de estrangeiros presos por racismo. O mais recente envolve mais um argentino que, em um trem turístico, fotografou uma criança e brincou dizendo que queria levá-la para casa como escrava . Ele está atrás das grades há quase duas semanas. Pela lei brasileira, tais palavras são puníveis com pena de dois a cinco anos de prisão. A pena pode ser dobrada se o crime for cometido em grupo ou se for divulgado nas redes sociais.
A delegacia chefiada por Salim é especializada em crimes de racismo e outras formas de discriminação (contra a comunidade LGBTQIA+, contra pessoas com deficiência ou por motivos religiosos). Ela foi inaugurada há oito anos e conta com cerca de vinte policiais. Esse tipo de delegacia, que está começando a ganhar força e já opera em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia, é um dos principais fatores que contribuem para o aumento dos casos registrados.
Os policiais recebem melhor treinamento, participando de seminários, cursos e conferências, e mantendo contato direto com ONGs e organizações antirracistas. Mesmo assim, qualquer pessoa pode denunciar um crime racista em qualquer delegacia local, onde são feitos esforços para garantir que haja sempre pelo menos um policial especializado nessa área. Salim reconhece que muitas pessoas têm medo de denunciar por receio de serem revitimizadas pelo policial de plantão. “Elas têm medo de ir à delegacia e serem discriminadas novamente. Aqui, trabalhamos para erradicar esse tipo de tratamento intimidatório”, afirma Salim.
As vítimas vêm de origens diversas, independentemente da idade ou classe social, assim como os agressores. No entanto, o comissário de polícia explica que as pessoas mais velhas muitas vezes não têm noção da gravidade da situação. “Às vezes, quando as questionamos, elas usam uma linguagem altamente discriminatória, confirmando o que realmente pensam sem se darem conta… Depois, tentam encobrir a situação alegando que seu melhor amigo é negro ou que têm um parente negro… mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.”
Algo semelhante acontece com estrangeiros que alegam desconhecer a realidade brasileira. Nesses casos, a probabilidade de serem detidos preventivamente é maior, por receio de que tentem fugir do país. Quando alguém é flagrado em delito (geralmente com o auxílio de testemunhas e gravações de celulares), é muito comum o juiz autorizar a prisão preventiva, pois já existem provas suficientes.
O Brasil é o país com a maior população negra fora da África . 56% de seus habitantes se identificam como negros ou mestiços, segundo o último censo. O número de brasileiros que se identificam com suas raízes africanas tem crescido ao longo dos anos, impulsionado pela conscientização antirracista e por políticas de ação afirmativa. Aos poucos, o Brasil está desmantelando o mito da “democracia racial” que se enraizou no inconsciente coletivo — o mito de um paraíso tropical onde a miscigenação de europeus, africanos e indígenas teria criado uma sociedade harmoniosa onde a segregação jamais existiu, ao contrário da África do Sul ou dos Estados Unidos.
Essa nova conscientização, o reconhecimento do próprio racismo estrutural no Brasil, vem modificando o marco legal. Um passo decisivo é a atualização da lei antirracismo, que teve origem na Constituição de 1988. Em 2023, o crime de injúria racial foi equiparado ao crime de racismo. O que antes era uma ofensa à honra de um indivíduo agora é um ataque a todo um grupo. Consequentemente, as penas também foram aumentadas: enquanto uma injúria racial era antes resolvida com prestação de serviços comunitários ou multa, agora é mais provável que resulte em prisão. Além disso, o crime de racismo não prescreve e não pode ser evitado mediante pagamento de fiança.
“Do ponto de vista legislativo, o Brasil está à frente de todos os outros países das Américas”, explica Adilson Moreira, advogado formado em Harvard e um dos maiores especialistas brasileiros em direito antidiscriminatório. Ele foi um dos pioneiros no combate à discriminação racial, quando o humor é usado como forma de discriminação racial. Esse cenário agora é especificamente abordado na legislação, assim como o racismo praticado em contextos esportivos.
Em teoria, o Brasil possui uma forte proteção antirracista, mas a realidade é bem diferente quando se observa o cotidiano. Denúncias, investigações e prisões aumentaram significativamente nos últimos anos, mas as condenações ainda são escassas. No final de março, mais de mil racistas cumpriam pena, sendo 309 deles presos.
O principal desafio, aponta Moreira, reside na mentalidade predominante entre promotores e juízes: “Eles tentam encontrar todo tipo de brecha para impedir que pessoas brancas sejam condenadas por crimes de ódio. Os promotores exigem um nível de comprovação de intenção discriminatória muito maior do que em outros crimes”, lamenta o especialista, que observa que a grande maioria dos juízes brasileiros é branca e tem pouca formação em questões raciais. O comissário Salim também acredita que haveria melhores resultados se o Ministério Público e a Justiça seguissem o exemplo da polícia e criassem unidades especializadas, como já acontece no combate ao crime organizado, por exemplo.
Apesar de tudo, o otimismo prevalece, porque a mudança social está em curso e não dá sinais de retrocesso. As políticas de cotas para estudantes negros, indígenas e de escolas públicas nas universidades vêm diversificando as faculdades de direito, historicamente brancas, há anos, e, há mais de uma década, o movimento antirracista, sempre presente, ocupa um lugar central na mídia, na academia, nas telenovelas e nos livros. O "Pequeno Manual Antirracista", de Djamila Ribeiro, por exemplo, está na lista dos mais vendidos do país há seis anos.
O governo de Lula também fez do combate à discriminação racial uma questão de Estado, especialmente em casos particularmente sensíveis, como os insultos e ameaças contra o jogador de futebol Vinícius Júnior , que quase desencadearam um grave conflito diplomático com a Espanha. “Tudo depende muito da consciência racial do comissário de polícia, do promotor e do juiz, mas as coisas estão progredindo bastante”, resume Moreira, que se despede antes de viajar para dar uma palestra a um grupo de juízes interessados no tema.
Se o futebol pode ser tratado como um microcosmo da sociedade, a Copa do Mundo talvez seja a melhor forma de se entender o contexto geopolítico de cada momento em que ela é disputada. Amanhã, no México, será dado o ponta pé para o maior Mundial de todos os tempos, que também será disputado nos Estados Unidos e no Canadá, e que contará com 48 seleções. Um número quase quatro vezes maior do que na primeira Copa, em 1930, no Uruguai, e 50% maior do que no Catar, em 2022.
Mas, para entender o crescimento da Copa do Mundo, é preciso voltar no tempo e ir além do futebol. Depois de um período inicial com números de participantes variados, o Mundial passou a ter 16 seleções em 1954, na Suíça. Isso perdurou até 1978, na Argentina. O aumento para 24 times em 1982, na Espanha, não veio por acaso. E tem uma assinatura conhecida no mundo do futebol e, especialmente, no Brasil: João Havelange.
Eleito presidente da Fifa em 1974, o histórico dirigente brasileiro, teve como uma de suas plataformas de campanha justamente o aumento de participantes na Copa do Mundo. Mas o que pode soar apenas como uma moeda de troca por votos também veio de um entendimento do cenário geopolítico do mundo naquele momento.
O pós-Segunda Guerra, com o enfraquecimento e a crise vivida pelas potências europeias, que dominavam a Fifa desde a sua fundação, e o processo de descolonização da Ásia e, principalmente, da África, acentuado entre os anos 1950 e 1970, ajudaram a pavimentar o caminho de Havelange para o topo da Fifa. A independência de territórios africanos e asiáticos aumentou consideravelmente o número de membros da entidade. A Fifa passou de 74 filiados em 1950 para 143 em 1974. Em poucos anos, a África passou a ser o continente com mais representantes.
Ainda assim, na 1966, na Inglaterra, por exemplo, a África tinham apenas 0,5 vaga na Copa do Mundo. Ou seja, o melhor colocado nas Eliminatórias deveria enfrentar o vencedor de um confronto entre a Ásia e a Oceania por um lugar no Mundial, o que gerou um boicote dos africanos e parte dos asiáticos — a Coreia do Norte ficou com a vaga ao bater a Austrália no play off. Em 1970, africanos e asiáticos já receberam uma vaga cada, mas a Copa ainda tinha apenas 16 seleções.
Para ser eleito, João Havelange, então presidente da CDB, conseguiu unir a Conmebol e obteve, através de muitas viagens e "agrados", como excursões da seleção e de clubes brasileiros, entre outras moedas de troca, praticamente um apoio maciço da África e de parte significativa da Ásia e do Oriente Médio, o chamado "Terceiro Mundo", contra hegemonia europeia, representada pelo então mandatário da Fifa, o inglês Santley Rous. Para Luiz Guilherme Burlamarqui, professor visitante da George Washington University e autor do livro "A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da Fifa (1950-1974)", a eleição do dirigente brasileiro representa bem a dinâmica internacional do momento.
— A primeira expansão foi principalmente por conta da descolonização. O ano-chave nessa história é 1964. É o ano da primeira leva da descolonização africana. Houve um congresso em Tóquio, que teve a filiação em massa dessas novas associações africanas, que passam a representar uma grande porcentagem dos países no congresso da Fifa. E começa a pressão pela expansão da Copa. E fazia sentindo expandir. Você teve um aumento grande no número de filiados. Não fazia sentido disputar um torneio com 16 seleções. O Havelange foi eleito como representante desse grupo e uma das promessas dele era aumentar o número de vagas na Copa — disse Luiz Guilherme Burlamarqui.
O processo de aumento de 24 seleções para 32, em 1998, tem a assinatura de duas mãos que eram praticamente uma. E vem com um novo contexto geopolítico, mas também comercial, financeiro e político da Fifa, que transformou o futebol e a Copa em um produto global, com contratos milionários de transmissão e patrocínio. Um dos principais projetos de Havelange na Fifa foi o Programa de Desenvolvimento Técnico, que ajudava a distribuir os recursos da entidade para os seus filiados, com o objetivo de desenvolver o futebol ao redor do mundo, principalmente em países periféricos. Quem comandava este programa era Joseph Blatter, que virou o braço direito do brasileiro na Fifa — não à toa, cresceu, virou secretário-geral, depois CEO e, em 1998, foi eleito presidente, se aproveitando do legado de Havelange. Também não à toa, posteriormente foi revelado uma série de escândalos envolvendo a dupla que gerou condenações na justiça da Suíça, dos Estados Unidos e processos internos na Fifa, que hoje tenta apagar este passado. O atual presidente Gianni Infantino, por exemplo, pouco ou quase nada fala sobre os ex-presidentes da entidade.
Mas, voltando ao número de participantes da Copa do Mundo, Havelange e Blatter, por vias controvérsias, foram responsáveis pelo boom comercial e financeiro da Fifa e da Copa do Mundo. Além disso, o fim da União Soviética e a fragmentação da Iugoslávia no começo dos anos 1990 levaram a um novo aumento considerável de países filiados a Fifa. Assim, em 1998, a Copa passou a ter 32 participantes.
— A segunda expansão vem com o fim da Guerra Fria. Ali você também teve um aumento significativo no número de países filiados. Até 1991, Croácia, Sérvia e outros países eram um só, a Iugoslávia. A mesma coisa com os países da União Soviética. Esse processo de expansão da Fifa também levou a Copa para a Ásia em 2002, a primeira fora do eixo Europa-América — disse o doutor em História.
Se nestes outros dois momentos o aumento no número de filiados da Fifa serviu como pano de fundo para o crescimento da Copa do Mundo, o mesmo não se observa na decisão de Infantino, eleito presidente da entidade em 2016. Neste século, o número de membros pouco cresceu. Os últimos associados, que fizeram a Fifa chegar a 211 filiados, foram Gilbraltar e Kosovo, justamente em 2016. Ainda assim, a ideia de um futebol cada vez mais globalizado segue viva e é importante para aumentar cada vez mais os recursos da Fifa e das próprias federações nacionais. Neste ciclo para a Copa do Mundo de 2026, a Fifa anunciou ter distribuído 1,05 bilhão de dólares (R$ 5,4 bilhões) para os seus filiados.
— Um dos programas do Havelange que continua até hoje é o Programa de Desenvolvimento da Fifa (hoje chamado de "Fifa Foward"). O Infantino, além de anunciar o aumento de vagas, também anunciou um aumento dos repasses da Fifa aos países associados. É também uma questão política de para onde vão os recursos. E com mais países na Copa, você tem mais dinheiro. E você tem mais dinheiro justamente para as federações nacionais. Cada federação recebe 5 milhões de dólares por ano. Para o Brasil, por exemplo, não é muita coisa. Mas pensa numa federação como Curaçao, como Haiti, Ilhas Fiji... Eles recebem a mesma quantidade de dinheiro. Para fazer a roda econômica girar, isso é muito importante — concluiu Luiz Guilherme Burlamaqui.