Um relatório novo da Exponential View, uma empresa de análise de informação britânica, ajuda a redesenhar por completo o jogo da inteligência artificial (IA). Põe luz sobre quem ganha, quem perde e como cada jogador nesse negócio organizou suas peças. Os números relevantes do relatório são quatro: o faturamento acumulado do negócio de IA nos 12 meses entre o segundo trimestre de 2025 e o primeiro deste ano foi de US$ 110 bilhões. Um número. Aí vêm os outros três — o percentual que cabe a cada parte da cadeia. Oitenta e dois por cento ficaram com as empresas de nuvem, os parques de servidores. Mais 7% pertencem às assinaturas de apps, como ChatGPT e Claude. Por fim, 11% são da compra direta dos modelos de IA. Os três percentuais sobre o faturamento total explicam até o jogo em que China e Estados Unidos mergulharam.
Existem duas maneiras de comprar acesso às IAs. Uma é a assinatura que a maior parte de nós faz. Vinte dólares por mês para poder contar com o ChatGPT. Faz a assinatura, baixa o app e pronto. Mas há outro jeito, preferido por empresas. Elas se conectam com os servidores da OpenAI, Anthropic, Google ou qual for sem passar pelos aplicativos. A versão pessoa física, app no computador ou celular com acesso a chat, representa 7% do faturamento. A conexão direta com o servidor é uma fatia de 11%.
Some 7 pontos percentuais com 11 e temos o pedaço do dinheiro que vai para os laboratórios de IA: 18%. Eles levam a fama, movem as manchetes, mas os donos dos servidores em que rodam as IAs é que ganham mais dinheiro. É verdade que, lentamente, a participação de modelos e apps tem aumentado dentro do todo. Mas é bem lentamente, ao ritmo de 1 ou 2 pontos percentuais por ano. Isso faz com que cada um dos jogadores tenha interesses bem distintos nesse jogo.
Anthropic e OpenAI disputam quem ganha mais dinheiro no corte que cabe aos laboratórios. Mas o Google, que ocupa a terceira posição no ranking das melhores IAs americanas, compete igualmente no ramo dos servidores. O Google Cloud também presta serviços às concorrentes. E, assim, a empresa ganha bem mais dinheiro que as líderes com tecnologias melhores. Quando o Brasil atrai parques de IA para seu território, ganha a oportunidade de cobrar imposto, localmente, justamente sobre o pedaço mais rentável desse negócio.
Nessa numeralha, um pedaço do grande jogo da IA obviamente está ausente. São os chineses. Os laboratórios de lá distribuem modelos de pesos abertos. Gratuitos. Qualquer um pode baixar, instalar no servidor que escolher e rodar. Paga pelo servidor, não pela IA. Neste último mês, apareceu no mapa pelo menos um modelo chinês que parece capaz de competir em nível de igualdade com os melhores americanos no campo da cibersegurança. E é aí que o corte proposto pela Exponential View pode iluminar a estratégia de Pequim.
Os modelos chineses não entram na conta do faturamento pelos laboratórios, aqueles 18%. Mas entram nos gastos com servidores. Ora, muitas dessas nuvens são chinesas. A que será montada no Ceará pela ByteDance, anunciada na semana passada, é um exemplo. É um pouco como o raciocínio da lâmina e do aparelho de barbear, do cartucho de tinta e da impressora. Vende barato a ferramenta, ganha dinheiro na lâmina e na tinta. Os chineses dão de graça a IA, cobram pela máquina que a roda. Simultaneamente, põem pressão nos concorrentes americanos.
Essa pressão é um truque importantíssimo: para continuar cobrando caro por suas IAs, as empresas americanas precisam estar consistentemente na ponta, uma geração à frente dos concorrentes. Isso exige que gastem muito dinheiro. Ao mesmo tempo, a existência de modelos apenas um pouco piores, vindos da China, impede OpenAI e Anthropic de aumentar demais o preço cobrado dos consumidores. Afinal, há concorrentes. Dumping bom e velho.
O que faz a elite do Vale do Silício seguir apostando no modelo pago? Eles acreditam que em algum ponto a IA ultrapassará a capacidade da inteligência humana. Nesse momento, quem tiver esse modelo nas mãos dará um imenso salto, tão além de todos os outros que a vantagem se tornará permanente. Pode ser. Os chineses não acreditam nisso. Acham que modelos serão commodities e que o negócio está no computador que roda a IA. Quem estiver certo ganhará.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Lição de História
A verdade, repito, é que este povo precisa de uma lição, e, se necessário, uma lição severa, para fazê-los respeitar os direitos e a liberdade pessoal dos estrangeiros residentes neste país.
(...) Numa palavra, deve-se fazer este povo respeitar-nos. Eles são ignorantes, insolentes e possuidores de um falso senso de dignidade.
Henry Wise, diplomata norte-americano que chegou em 1844 e foi mandado embora por D. Pedro I
(...) Numa palavra, deve-se fazer este povo respeitar-nos. Eles são ignorantes, insolentes e possuidores de um falso senso de dignidade.
Henry Wise, diplomata norte-americano que chegou em 1844 e foi mandado embora por D. Pedro I
Escombros
Na madrugada de 24 de junho, a terra tremeu no norte da Venezuela. Dois sismos seguidos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, uma brutalidade. Dezenas, talvez centenas de milhares de desaparecidos, ninguém sabe bem ao certo, o número de mortos não pára de subir a cada hora que passa.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: E Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
E o mundo… claro que se mexeu. Viu-se logo aquela mobilização que quase nos permite voltar a ter fé na humanidade: mais de 40 equipas internacionais de busca, dois mil especialistas a correr para os aeroportos, cães de resgate a farejar os destroços.
Quem ligou a televisão por estes dias ficou colado ao ecrã. É impossível não ficar. Vimos em direto aquele rapaz de 21 anos a ser puxado para fora dos escombros ao fim de 106 horas soterrado. E a mãe, com o bebé de 18 dias que resistiu 36 horas ali debaixo? Uma coisa inacreditável. Prendemos a respiração diante da televisão, choramos, celebramos o milagre.
É legítimo. É o mínimo que se espera.
Só que há um nó dentro de mim que não desaparece. E eu tenho mesmo de perguntar: E Gaza?
Desde outubro de 2023 que a contagem de mortos em Gaza deixou de fazer sentido. São milhares, a maioria mulheres e crianças, uma população inteira empurrada de um lado para o outro, com fome, com medo, a viver no meio de nada. Tendas e pedras. Sim, porque em Gaza também há escombros, quilómetros deles. Há corpos esquecidos nas ruínas daquilo que já foram casas, escolas, parque infantis, igrejas ou hospitais. Só que ali não há escavadoras a tirar toneladas de betão. Quando muito, tenta-se escavar com as mãos, sob o risco de as equipas de salvamento serem apanhadas pelo bombardeamento seguinte.
Para Gaza não voaram dezenas de aviões com especialistas. Não houve cães farejadores a caminho de Gaza. Para Gaza, o que continuou a chegar foram bombas. Dia após dia.
Custa engolir este contraste. Enquanto a malta chora na sala a ver o resgate milagroso de uma criança na Venezuela, há miúdos a morrer sufocados no entulho em Gaza, ou desfeitos pelo fogo nas tendas de al-Mawasi (ainda ontem), que supostamente eram “zonas seguras”, mas onde os drones atacam na mesma. Para esses não há transmissão em direto, não há equipas de resgate internacionais, não há comoção mundial. Gaza tornou-se aquele inferno que toda a gente sabe que existe, mas que dá mais jeito ignorar.
O sismo surge da Mãe Natureza, não vem assinado. Uma bomba vem. Tem um Estado, um governo, uma ordem militar por trás.
É aí que a porca torce o rabo. Quando há um autor, o sofrimento deixa de ser uma questão humanitária e passa a ser política. E a política traz aquela burocracia moral que divide, paralisa e, no fim de contas, mata por omissão.
Criou-se uma espécie de anestesia geral. Uma disputa de narrativas tão perversa que conseguiu fazer com que a morte de um palestiniano pareça normal e até inevitável. O bebé da Venezuela é um milagre da vida. O bebé de Gaza é “dano colateral”, uma estatística cinzenta num relatório qualquer.
Não adianta escudarmo-nos na ignorância porque isso é ser ingénuo. O mundo vê as mesmas imagens que eu vejo. Sabe perfeitamente o que se passa. É uma escolha de perspetiva e escolher fechar os olhos, não é neutralidade nenhuma.
A nossa capacidade de chorar parece que depende da geopolítica e na minha ideia de humanidade isso é muito podre. Escombros são escombros, em qualquer parte do mundo. O peso dos mortos é o mesmo. O grito desesperado das mães é o mesmo, seja em espanhol ou em árabe.
A diferença está no nosso olhar.
A democracia oligárquica
Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, livro de Joaquim Falcão expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam
Terminada a Copa, virá a campanha eleitoral, e o professor Joaquim Falcão mandou para as livrarias um grande livrinho (254 páginas). Chama-se “A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia”.
Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam. O Brasil teve 3.866 Propostas de Emendas à Constituição, 819 estão em tramitação e 136 foram aprovadas. Afinal, “o Brasil não gosta da sua Constituição”.
Falcão está de bem com a vida, pernambucano de velhas raízes, parece-se mesmo com os sábios viscondes do Império. Ele expõe as mazelas em parágrafos curtos, dissecando cada poder oligárquico, começando pelo Judiciário, com seus humores e parentelas.
Fala Falcão: “Existe um mal-estar social que varia em intensidade e qualidade. Às vezes se transforma em violência social, rural e urbana. Insoluções da política estatal produzem violência que o Estado Democrático de Direito não consegue conter. Nem justificar. Nem esclarecer. Abrem espaço, por exemplo, para 120 mortos de uma só vez no Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Tudo com aparência de que foi ato estatal legal e democrático”. É desse caldo que deriva a força do crime.
Desde 1950 foram apresentadas 129 denúncias contra ministros do Supremo Tribunal, todas arquivadas. Enquanto isso, vários ministros tinham e têm parentes advogando nos tribunais superiores. Do outro lado do balcão, mais de cem réus da Lava-Jato foram resgatados por decisões do ministro Dias Toffoli. Ele teria deixado voluntariamente a relatoria do Caso Master, você acredita nisso?
Diz Falcão:
“Estaríamos na pré-oligarquia, numa monarquia judicial, onde autoridades dos três Poderes vestem-se, precipitadamente, com a toga dos imperadores, a desfilar na avenida e pedir o aplauso popular das arquibancadas para suas fantasias”.
O problema começou a adquirir suas feições atuais em 1891, quando Rui Barbosa importou o modelo americano de democracia. Não funcionou, virou parolagem. Como ensinou Raymundo Faoro: “Aqui se constroem instituições e depois inventam o povo”.
Os vícios oligárquicos estão nos três Poderes, e Falcão os põem na mesa. O deputado Chiquinho Brazão foi preso por ter sido acusado de mandar matar a vereadora Marielle Franco, mas a Câmara cassou-o porque faltou, e faltou porque preso estava. É o truque da “harmonia da discordância”.
Depois do Festival de Besteiras que assolava o país, Joaquim Falcão ensaia um Festival de Absurdos que a oligarquia patrocina.
Terminada a Copa, virá a campanha eleitoral, e o professor Joaquim Falcão mandou para as livrarias um grande livrinho (254 páginas). Chama-se “A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia”.
Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam. O Brasil teve 3.866 Propostas de Emendas à Constituição, 819 estão em tramitação e 136 foram aprovadas. Afinal, “o Brasil não gosta da sua Constituição”.
Falcão está de bem com a vida, pernambucano de velhas raízes, parece-se mesmo com os sábios viscondes do Império. Ele expõe as mazelas em parágrafos curtos, dissecando cada poder oligárquico, começando pelo Judiciário, com seus humores e parentelas.
Fala Falcão: “Existe um mal-estar social que varia em intensidade e qualidade. Às vezes se transforma em violência social, rural e urbana. Insoluções da política estatal produzem violência que o Estado Democrático de Direito não consegue conter. Nem justificar. Nem esclarecer. Abrem espaço, por exemplo, para 120 mortos de uma só vez no Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Tudo com aparência de que foi ato estatal legal e democrático”. É desse caldo que deriva a força do crime.
Desde 1950 foram apresentadas 129 denúncias contra ministros do Supremo Tribunal, todas arquivadas. Enquanto isso, vários ministros tinham e têm parentes advogando nos tribunais superiores. Do outro lado do balcão, mais de cem réus da Lava-Jato foram resgatados por decisões do ministro Dias Toffoli. Ele teria deixado voluntariamente a relatoria do Caso Master, você acredita nisso?
Diz Falcão:
“Estaríamos na pré-oligarquia, numa monarquia judicial, onde autoridades dos três Poderes vestem-se, precipitadamente, com a toga dos imperadores, a desfilar na avenida e pedir o aplauso popular das arquibancadas para suas fantasias”.
O problema começou a adquirir suas feições atuais em 1891, quando Rui Barbosa importou o modelo americano de democracia. Não funcionou, virou parolagem. Como ensinou Raymundo Faoro: “Aqui se constroem instituições e depois inventam o povo”.
Os vícios oligárquicos estão nos três Poderes, e Falcão os põem na mesa. O deputado Chiquinho Brazão foi preso por ter sido acusado de mandar matar a vereadora Marielle Franco, mas a Câmara cassou-o porque faltou, e faltou porque preso estava. É o truque da “harmonia da discordância”.
Depois do Festival de Besteiras que assolava o país, Joaquim Falcão ensaia um Festival de Absurdos que a oligarquia patrocina.
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