sábado, 4 de julho de 2026

O apoio dos latinos aos republicanos está diminuindo nos EUA

Quando Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2024, ele o fez com o apoio de milhões de eleitores latinos. Na época, isso foi descrito como uma demonstração histórica de apoio dessa comunidade, que lhe concedeu cerca de 46% dos votos, tornando esses votos um fator decisivo para a vitória do atual presidente dos EUA.

Mas o entusiasmo inicial pela administração republicana diminuiu. Após quase um ano e meio no poder, os latinos parecem estar desiludidos. Muitos até se arrependeram de ter votado em Trump. Isso foi demonstrado por diversas pesquisas que tentam acompanhar possíveis mudanças no comportamento dos eleitores latinos, que somam mais de 36 milhões nos Estados Unidos.

A pesquisa apresentada pela organização latina UnidosUS, divulgada em maio e que coletou a opinião de três mil eleitores latinos, detalha que um em cada quatro desses eleitores que votaram em Trump não votaria nele novamente. Enquanto isso, 67% dos entrevistados desaprovam o desempenho do presidente americano.


Ao longo de suas três campanhas presidenciais, Donald Trump conseguiu aumentar sua porcentagem de votos entre os latinos, passando de 28% para 46% de apoio nesse grupo. Ele alcançou esse resultado reforçando sua promessa de campanha de melhorar a economia , uma questão que afeta diretamente os latinos, que são em grande parte uma população da classe trabalhadora. Portanto, se buscarmos razões para o declínio no apoio latino observado durante o governo Trump, um dos principais fatores é a inflação.

O cientista político e professor da Universidade de Houston, Jerónimo Cortina, explicou à DW que "na última eleição presidencial, em 2014, vimos um voto de protesto contra o contexto econômico e político que estávamos vivenciando. Em contraste, hoje observamos uma desilusão com as promessas feitas, que eram muito simples. Disseram aos eleitores: sua qualidade de vida vai melhorar, os empregos vão melhorar, os salários vão aumentar, os preços nos supermercados vão cair, os preços dos combustíveis vão diminuir, a economia vai crescer. No entanto, agora, no segundo ano do governo, vemos que isso não se concretizou totalmente. É verdade que a macroeconomia nos Estados Unidos está em expansão, mas o eleitor médio, incluindo os latinos, não viu esse ganho macroeconômico se traduzir em benefícios tangíveis para suas famílias."

Outro aspecto fundamental da insatisfação com Trump reside na política de imigração implementada por seu governo. "As operações de imigração realizadas pelo ICE marcaram profundamente os sentimentos dos eleitores, especialmente os latinos, que foram particularmente afetados. O tom usado contra eles, independentemente de serem cidadãos ou não, e as ações tomadas que separaram famílias, as mortes de imigrantes indocumentados e até mesmo de cidadãos americanos, têm um efeito direto nas intenções de voto desse grupo de eleitores", acrescenta o analista político Julio Sevilla.

O próximo grande teste para o governo Trump são as eleições de meio de mandato em 3 de novembro, que renovarão a Câmara dos Representantes e parte do Senado. Portanto, o declínio dos votos latinos e, de forma mais geral, entre os grupos minoritários no eleitorado americano, volta a ser de particular importância.

Embora ainda faltem vários meses para a votação, analistas acreditam que os votos extras que Trump obteve das minorias latina, asiática e afro-americana já estão perdidos.

Julio Sevilla, professor da Universidade da Geórgia, disse à DW que "o apoio dos latinos aos republicanos e a Trump vai se inverter; mesmo pesquisas como a do Pew Research Center mostram que o apoio dessa comunidade ao governo está atualmente abaixo de 30%, e embora o número de eleitores não seja tão grande nem sejam um grupo decisivo nas eleições de meio de mandato, acho que a queda nesses votos será sentida."

Ele acrescenta: "Na minha opinião, é tarde demais para reverter a tendência de queda no apoio dos latinos aos republicanos. Assim como aconteceu com Biden, a percepção de que este é um governo fracassado já está estabelecida, e mesmo que tentem mudar essa ideia, a eleição está logo ali."

Jerónimo Cortina compartilha da visão de um cenário difícil para os republicanos . "O resultado da próxima eleição dependerá, por um lado, da participação eleitoral, de qual partido conseguir levar o maior número de pessoas às urnas. É provável que os republicanos não se saiam muito bem, especialmente considerando a baixíssima popularidade do presidente Trump. Além disso, se analisarmos o que historicamente aconteceu nas eleições de meio de mandato, o partido na Casa Branca geralmente perde cadeiras tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes. Isso torna ainda mais provável que isso se repita."

Sem futuro?

No fim dos anos 1980, um chinês próximo dos 50 anos chamado Chen Yizi acompanhou uma delegação do seu país em visita oficial ao Brasil. Ele era uma pessoa influente e respeitada na China. Assessor especial do primeiro-ministro e do secretário-geral do Partido Comunista, foi protagonista nas reformas econômicas de Deng Xiaoping naquela década.

Em 2013, em exílio após demitir-se em protesto pelo Massacre da Praça da Paz Celestial, Yizi escreveu um livro de memórias, no qual contou detalhes daquela visita ao Brasil. Segundo ele, a delegação chinesa ficou fascinada com a capital modernista Brasília, as rodovias, os prédios estilosos, as fábricas, as moradias de vanguarda, os carros compactos para as massas. Especulou que o Brasil deveria ter, naquele momento, uma renda per capita dez vezes superior à da China. Não era para tanto, mas a reação é reveladora.


Em 2019, passados apenas cinco anos de sua morte, sua terra natal superou o país que o havia deixado fascinado três décadas atrás. Era questão de tempo. Desde 1990, a renda per capita brasileira cresceu 1,3% ao ano, em média, enquanto a da China, que aprendeu uma coisa ou outra com o Brasil, avançou 8,1%. Não só isso: o fosso brasileiro em relação ao mundo desenvolvido se alargou. As nações consideradas de alta renda cresceram 1,5% ao ano. Tínhamos 36% da renda deles. Agora, temos 34%.

Mantida a tendência, o “país do futuro” não apenas se tornará um sonho cada vez mais distante, como também perdemos a esperança nele. Mas em que magnitude deveríamos repensar a nossa estratégia nacional de desenvolvimento? Dados sugerem que a mudança terá de ser radical.

Se quisermos atingir a renda per capita média dos países ricos, precisamos crescer em patamares muito superiores aos atuais. Para atingi-la em uma geração (25 anos), teremos de acelerar o nosso crescimento de 1,3% para 5,9% ao ano. Para se ter uma ideia, somente uma vez desde 1990 crescemos acima disso – em 2010, após a chamada “Crise do Subprime”, cujos impactos se concentraram nos dois anos anteriores.

A tarefa não ficará fácil se reduzirmos a ansiedade. Caso aguardemos ­duas gerações (50 anos), nosso crescimento precisará ser de 3,7%. Nem mesmo na nossa melhor década recente, no auge do boom das commodities entre 2004 e 2013, chegamos nesse patamar (3,1% em média). Quatro gerações (um século) exigirão 2,6% ao ano, o dobro do nosso desempenho atual. Doze gerações (300 anos!) demandarão um crescimento de 1,9% ao ano, ainda assim com uma aceleração de 50% em relação ao ritmo atual.

A intenção não é desanimar quem acredita no Brasil, ainda mais em tempos de Copa do Mundo. Pelo contrário, como no caso da Seleção Brasileira de futebol, nossa própria história nos dá motivos para otimismo.

Recordemos que a alcunha de “País do Futuro” não surgiu do nada. Em 1941, em livro homólogo, o escritor austríaco Stefan­ Zweig, que chegou ao Brasil fugido do regime nazista na Europa, relatou com entusiasmo as características brasileiras que considerava promissoras. Além das nossas riquezas naturais, “de uma opulência perturbadora”, o autor não deixou de notar o “desenvolvimento nitidamente crescente da indústria, que produz, em proporções cada vez maiores, no próprio país e com material seu, grande parte do que anteriormente tinha de importar”.

Era o início do período conhecido como nacional-desenvolvimentista, tradicionalmente situado entre 1930 e 1980, quando o Brasil adotou sucessivos planos de desenvolvimento liderados pelo Estado, crescentemente capacitado para tal, e que tinha na industrialização o seu objetivo prioritário. Instituições-chave como o BNDES, a Petrobras, a Eletrobras e a Embraer foram criadas. Conhecido pelos ciclos de exploração de ­commodities, como pau-brasil, açúcar, ouro, borracha e café, o Brasil passou a produzir aço, petroquímicos, máquinas, automóveis e até aviões. Grandes obras de infraestrutura, como rodovias interestaduais, usinas nucleares e a maior hidrelétrica do mundo, foram realizadas.

Foram as entregas desse período que deixaram os chineses fascinados no início dos anos 1980. Durante aquelas cinco décadas, o Brasil foi o terceiro país que mais cresceu no mundo, a uma taxa per capita de 3,7% ao ano. Naquele ritmo, atingiríamos a renda média dos países ricos em 50 anos. Se fosse mantido aquele ritmo, hoje já teríamos a renda da Itália.

Aquela época não foi livre de contradições e erros. Além de suprimir as liberdades individuais e impedir o exercício da democracia, a ditadura impediu uma reforma agrária profunda, que esteve na base do “milagre econômico” do Leste Asiático, com relativa igualdade. Também em contraste com os casos de sucesso da Ásia, ficamos excessivamente dependentes de capitais estrangeiros, com aumento da vulnerabilidade externa (raiz da década perdida) e o comprometimento da construção de capacidades nacionais e de coalizões de apoio a projetos verdadeiramente nacionais.

O problema é que o período posterior, marcado pela hegemonia neoliberal, pautado pelos interesses de curto prazo do mercado financeiro e, como nos primórdios, refém dos ciclos de ­commodities, não solucionou essas questões. Pior ainda, alguns governos atuaram deliberadamente para aprofundar esses erros e destruir os legados positivos.

O resultado foi a mais grave desindustrialização precoce do mundo, grande dificuldade de gerar empregos estáveis, de qualidade e com bons salários, crescente dependência externa e a perda das características que um dia nutriram o sonho do “País do Futuro”: liderança, fortalecimento e planejamento estatal, desenvolvimento das capacidades produtivas, ambição e ousadia.

Convém relembrar as palavras de Zweig: “Já não se encontra um brasileiro que deseje voltar para o Velho Mundo… essa ambição de se desenvolver por si só… nada é demasiado ousado… este país aprendeu a pensar de acordo com as dimensões de sua própria vastidão e a contar com suas­ possibilidades ilimitadas como se fossem uma realidade em breve atingível”. Se provarmos, ainda que tardiamente, que o austríaco não estava errado, talvez a geração que viverá o sonho de um Brasil desenvolvido já esteja entre nós.
Felipe Augusto Machado