segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Pensamento do Dia (ou a Assunção de Abelardo)

 


O ‘comunista’ de Trump

Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:

— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.

Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.

O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:

— Nós sacudimos o mundo.

O mundo, ele e seus eleitores não sacudiram, mas o neurastênico cenário político-partidário americano, certamente. El-Sayed saiu-se vencedor nas primárias da terça-feira passada montado num programa arriscado, por progressista e populista:

1) A favor da abolição do ICE (o Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro que, sob o governo de Donald Trump, atua como caçador de imigrantes sem documentação regularizada);

2) A favor da ampliação do esquálido seguro hospitalar e médico, o Medicare, que nos Estados Unidos contempla apenas contribuintes com mais de 65 anos e portadores de deficiências;

3) Radicalmente oposto a qualquer ajuda dos Estados Unidos ao governo de Israel;

4) A favor de mais impostos para os mais ricos e contra o predomínio do dinheiro sobre o exercício da política.

El-Sayed teve por adversária Haley Stevens, uma experiente congressista moderada de quatro mandatos no Capitólio. Ela contou com o apoio ostensivo do establishment democrata — a mesma liderança partidária que, há anos encastelada, acumula erros e foi perdendo o pulso da nação. Não fosse o incontornável senador Bernie Sanders, que aos 84 anos continua sendo o grande ícone mobilizador do eleitorado jovem e progressista, El-Sayed talvez não tivesse alcançado o 1% de votos que faltou a Stevens.

Contudo coube ao poderoso lobby pró-Israel agrupado sob a sigla Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel) o inglório papel de goleador contra a candidatura que apoiava. A derrama de mais de US$ 30 milhões na campanha da congressista que se orgulha de ser sionista bateu de frente com os itens 3 e 4 do programa de El-Sayed. Afugentou um eleitorado democrata cada vez menos disposto a defender Israel acima de tudo, como se a desumanização de Gaza e a metódica erradicação da vida palestina na Cisjordânia não existissem. A sigla Aipac começou a tornar-se tóxica quando acoplada a candidaturas democratas — segundo divulgou o New York Times na semana passada, a palavra “Israel” praticamente sumiu da maioria das peças de propaganda eleitoral financiadas pela entidade. A causa agora atende pelo nome de United Democracy Project.

Por ora, a maioria dos analistas dá como pouco provável a eleição do epidemiologista e Rhodes Scholar El-Sayed em novembro — ele seria o primeiro muçulmano a ocupar assento no Senado dos Estados Unidos. Até porque o estado de Michigan, como um todo, é um dos campos eleitorais mais imprevisíveis e cambiantes do país (Trump saiu-se vencedor em 2016, perdeu em 2020 e venceu em 2024, sempre com margens apertadíssimas).

Para o ocupante da Casa Branca, El-Sayed é “esse comunista que odeia os judeus e Israel”, fácil de ser derrotado pelos republicanos. O epíteto “comunista” tem sido usado por Trump a torto e a direito em suas postagens e discursos. Não raro, atropela e embaralha cruamente o que, exatamente, entende por “comunista”, “marxista” ou “leninista”. Compreende-se: quando até a centenária The Economist, que Lênin descreveu como publicação para milionários britânicos, admitiu em edição recente que empresas capitalistas têm poucas chances de competir com a China “ecoautoritária e leninista, governada por Xi Jinping, um pioneiro do capitalismo de risco”, o xingamento pode parecer elogio.

Pelo receituário de Trump, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário, e pobreza é defeito do indivíduo. Privatizada a sobrevivência, dá-se ao que sobra da vida o nome de liberdade. Faltam três meses para o eleitor americano dizer do que tem mais medo.

Contra o Godzilla digital

Nos EUA, é assim. Quando um caso judicial é encerrado mediante "acordo", significa que a parte acusada, sabendo que vai perder, interrompe o processo e consegue abafar a história por um bom dinheiro em sigilo para o acusador. Que vantagem ela leva nisso? Impede que uma derrota pública deságue numa hemorragia de outros processos do gênero. O TikTok, por exemplo, acaba de fazer um "acordo" com um jovem de 15 anos, residente na Flórida, que acusou a rede social de danos à sua saúde mental causados pela dependência aos seus recursos.


É o segundo "acordo" que o garoto aceitou —o anterior, há alguns meses, foi com o Google, e pelos mesmos motivos. Mas ele ainda tem mais dois em andamento, contra o Meta e o Snapchat, e não importa que, em vez de vencê-los, ele aceite mais "acordos". Ficará caracterizado que as redes sociais podem ser desafiadas por quem sinta sua saúde lesada por elas. O julgamento já está em curso em Los Angeles e, de seu resultado, devem pipocar inúmeras ações acusando as redes de provocar dependência psíquica.

Alguém dirá que o garoto é um esperto aproveitador e que, se não quisesse que as redes sociais lhe provocassem dependência, era só "saber usá-las". Assim como acontece com o álcool e as drogas, os leigos acreditam que seja uma questão de moderação, "força de vontade". Não aceitam que, uma vez instaurada a dependência, não se trata mais de saber ou não usá-los, e muito menos com moderação. O dependente não tem escolha —por isso é dependente— e ninguém está a salvo de se tornar um.

Os fabricantes de bebidas e cigarros e os traficantes de drogas sabem do que seus produtos são feitos e os efeitos que provocam a médio prazo. Tanto quanto eles, as redes sociais também sabem do estresse, depressão, ansiedade, insatisfação com o próprio corpo, ideias suicidas, submissão à luz da tela, pavor de se ver sem o celular e outras consequências de seu uso, mesmo "moderado". É o que as torna trilionárias.

Um jovem luta contra o Godzilla digital. Eu torço por ele.

O limite desigual das doações eleitorais

Passadas as convenções e definidas as candidaturas, as atenções se voltam para o financiamento das campanhas eleitorais. Os fundos públicos respondem hoje pela maior parte do financiamento eleitoral —67,7% dos recursos em 2018 e 81,4% em 2022—, mas ainda há espaço para doações privadas.

Rodrigo Tamussino Roll defendeu recentemente dissertação de mestrado dedicada à análise das estratégias dos doadores de campanhas eleitorais no Brasil, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.


A pesquisa identifica quatro tipologias de doadores, a partir da dispersão das doações entre cargos e estados e entre campos ideológicos. Nos extremos estão os pragmático-dispersos, que financiam candidaturas de diferentes ideologias, cargos e estados, e os ideológico-concentrados, que restringem as contribuições a um mesmo campo ideológico e a poucos alvos eleitorais.

Até a proibição das doações empresariais, em 2015, as empresas respondiam por quase 91% dos recursos do grupo pragmático-disperso. Já os ideológico-concentrados são majoritariamente pessoas físicas.

Os dois perfis são muito diferentes também financeiramente. Embora os pragmáticos representem cerca de 1% dos doadores, respondem por aproximadamente 34% do valor privado doado.

O grupo ideológico, por sua vez, representa cerca de 96% dos doadores e suas doações concentram-se em valores baixos. Esses doadores têm maior preferência por candidaturas de direita e a cargos do Legislativo. Dados do TSE consultados mostram que a doação mediana desse grupo foi de R$ 1.394 em 2018 e caiu para praticamente R$ 2,21 em 2022. Mas essa é apenas uma face da moeda.

Entre as pessoas físicas, porém, há superdoadores capazes de movimentar milhões de reais e distribuir recursos entre diferentes candidaturas ao Executivo e ao Legislativo.

Por exemplo, Rubens Ometto (Cosan) doou R$ 8 milhões em 2018; os irmãos Pedro e Alexandre Grendene destinaram, juntos, mais de R$ 11,5 milhões a candidatos em 2022; Salim Mattar (Localiza) doou R$ 4,1 milhões em 2018. São exemplos da escala que doações individuais podem alcançar.

Há um abismo entre as doações dos "cidadãos-comuns" e dos "superdoadores". Enquanto os primeiros contribuem majoritariamente com valores simbólicos, a elite usa a doação pessoal como ferramenta de acesso e influência, ocupando o papel que as empresas exerciam até serem proibidas de doar em 2015.

A proibição das doações empresariais, em 2015, retirou as empresas da disputa, mas não eliminou a possibilidade de grandes concentrações privadas. Pessoas físicas continuam podendo doar até 10% dos rendimentos brutos declarados no ano anterior à eleição.

Na prática, esse limite autoriza tetos muito diferentes. Para quem recebeu R$ 100 mil em 2025, o máximo é R$ 10 mil; para quem recebeu R$ 100 milhões, são R$ 10 milhões. Na prática, esse teto apenas acentua as desigualdades de uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.

Apenas um teto nominal, fixo e igual para todos, preservaria a doação cidadã e reduziria a capacidade de uma pequena elite de exercer influência financeira desproporcional sobre as campanhas. Essa mudança poderia até reabrir a discussão sobre doações de empresas, mas esse já é assunto para outra coluna.

Eleição nova e a velha sombra

Na eleição de 2022, o principal ponto era enfrentar o golpismo de Jair Bolsonaro. Depois de tudo o que ficou comprovado no julgamento da ação penal, o natural seria que agora o país estivesse discutindo um projeto para o futuro. Contudo, a sombra do autoritarismo continua presente. Um candidato é filho do ex-presidente que liderou a tentativa de golpe. Entre os outros candidatos com menor expressão nas pesquisas, Renan Santos e Romeu Zema querem intervir no STF e defendem o modelo Nayib Bukele; Ronaldo Caiado promete anistiar golpistas e fugiu da pergunta sobre se houve ou não tentativa de golpe.

Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.


O autoritarismo está presente não apenas nas ideias políticas ou nas propostas de segurança. O candidato Renan Santos, o mais jovem deles, foi confrontado com um vídeo do ano passado, em que ele, dentro de um carro em movimento, dizia que é preciso restabelecer a autoridade masculina. “O que a gente tem que fazer, é o que eu acho, é restabelecimento, enquanto poder, de características profundamente masculinas na nossa sociedade”. O interlocutor o interrompe e lembra que dirão que ele é machista. E ele responde “sou, sou, sou, porque certas coisas tem que dar nomes aos bois”. Tudo o que ele pôde dizer, na entrevista, a seu favor, foi que discordava de algumas teses da pessoa com quem falava, “um influenciador masculinista”. E tentou brincar. “O carro é alfa, não de macho alfa, mas Alfa Romeo”. Outro vídeo, não mostrado, de 2017, traz Renan dizendo que estupraria uma mulher se não entrasse em um bar. Ele tentou dar o contexto, disse que era uma brincadeira, como se houvesse contexto que justifique falar em estupro e como se fosse possível fazer piada sobre tal violência.

Ronaldo Caiado disse que retomará todo o território ocupado por facções criminosas usando as Forças Armadas como polícia. Afirmou que criará uma nova polícia com dez países que fazem divisa com o Brasil, financiada por todos esses governos. Os policiais dessa força transnacional poderiam transitar livremente pelas fronteiras. Mais do que ideias controversas na área que ele diz entender bem, a da segurança, o que espanta é a insistência em fugir da pergunta sobre se houve tentativa de golpe em 8 de janeiro.

Flávio Bolsonaro segue os mesmos passos do pai, parece que o golpismo é hereditário. Fez reunião com embaixadores levantando dúvidas sobre a urna eletrônica e o processo eleitoral. Falou na sexta-feira, em São Caetano do Sul, que há “roubalheira na alta cúpula do Judiciário” e que por isso estariam sendo feitas coisas “além da maldade” para impedir sua eleição. Justifica eventual derrota, já inventando uma conspiração contra ele. Os mesmos métodos do pai.

O autoritarismo permanece presente nesta campanha como esteve em 2022. Um atentado aos Três Poderes por milhares de seguidores de Jair Bolsonaro, uma investigação detalhada que mostrou provas da trama golpista que envolveu integrantes das Forças Armadas, o julgamento e a prisão dos golpistas nada ensinaram a certos políticos. Lideranças da direita que se apresentam como não bolsonarista entregam candidatos ao país que repetem o mesmo discurso diversionista, a mesma atitude tóxica que nos levou a quase perder a democracia. Alguns ainda exibem outro lado do autoritarismo, o que quer se impor sobre as mulheres.

Era para o país estar discutindo o futuro, a superação de impasses e obstáculos, os dilemas do ajuste fiscal, a proteção contra a mudança climática, a aceleração da aprendizagem, as receitas para melhorar o SUS, a redução das desigualdades, fórmulas para enfrentar os desafios tecnológicos, mas os homens que se oferecem como alternativa ao presidente Lula alimentam a sombra autoritária que sempre ameaçou a República brasileira. O futuro fica adiado.

O refúgio do canalha

“O patriotismo é o último refúgio do canalha.” A frase, pronunciada pelo escritor inglês Samuel Johnson em 7 de abril de 1775, atravessou dois séculos e meio sem perder a atualidade. Ao contrário do que uma leitura apressada poderia sugerir, Johnson não condenava o amor verdadeiro à pátria. Seu alvo era o falso patriotismo, transformado em disfarce por pessoas que invocam o interesse nacional para esconder ambições particulares, escapar de críticas ou conquistar a confiança da sociedade.

O autêntico patriotismo não precisa de trombetas. Manifesta-se no respeito às instituições, na defesa da democracia, no cuidado com o patrimônio público e na disposição de servir à coletividade. O falso patriota, ao contrário, cobre-se com a bandeira, proclama-se intérprete exclusivo da vontade nacional e apresenta os adversários como inimigos do país. Confunde a pátria com seu partido, seu grupo ou sua própria pessoa.

Samuel Johnson percebeu que a causa nacional poderia funcionar como esconderijo moral. Quando faltam argumentos, sobram símbolos. Quando a biografia provoca dúvidas, exibe-se a bandeira. Quando os resultados do governo são insuficientes, recorre-se à grandiloquência. O patriotismo de fachada transforma-se, assim, em instrumento de absolvição: quem se apresenta como salvador da pátria espera que seus erros sejam esquecidos em nome de uma missão superior.

Pois bem, a advertência de 1775 cai como uma luva no ambiente político brasileiro. À medida que avança a campanha presidencial, os principais candidatos procuram vestir mantos simbólicos capazes de emocionar e mobilizar o eleitorado. Cada qual apresenta sua própria versão do país e tenta convencer a população de que somente seu projeto poderá salvá-lo.

Lula recorre à memória de seus governos e proclama ter realizado a melhor administração da história brasileira. Procura ocupar um lugar no panteão dos grandes presidentes, aproximando sua imagem da herança trabalhista de Getúlio Vargas e do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek. O passado é restaurado, polido e exibido como certificado de competência. As realizações são ampliadas; os fracassos, minimizados; as contradições, empurradas para os bastidores.

O presidente tenta encarnar a imagem de pai dos pobres, defensor da soberania e protetor dos que vivem nos andares inferiores da pirâmide social. Seu patriotismo apoia-se na ideia de inclusão: amar o Brasil seria cuidar dos pobres, aumentar a renda, gerar empregos e defender as riquezas nacionais. Trata-se de uma narrativa poderosa, porque combina lembrança, gratidão e esperança. Mas o discurso torna-se oportunista quando transforma políticas de Estado em favores pessoais e apresenta o governante como proprietário das conquistas sociais.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, procura ocupar o território da moral, dos bons costumes e da família. Apresenta-se como herdeiro de uma corrente conservadora e guerreiro contra tudo aquilo que descreve como ameaça aos valores nacionais. Em sua retórica, a pátria aparece associada à religião, à autoridade, à ordem, à segurança e à preservação da família. O candidato tenta converter o sobrenome em patrimônio eleitoral e transformar a lealdade ao pai em compromisso com o Brasil.

Também aí existe uma operação de apropriação simbólica. Ninguém possui o monopólio da família, da fé ou da moralidade. São valores pertencentes à sociedade, não a um partido ou clã político. Quando utilizados como armas de campanha, deixam de unir e passam a separar. O adversário já não é apenas alguém com ideias diferentes: torna-se inimigo da família, da religião e da pátria. A política abandona o terreno do debate e invade o espaço da condenação moral.

De um lado, portanto, o patriotismo social de Lula; de outro, o patriotismo moral de Flávio Bolsonaro. Um promete proteger os pobres; o outro, defender as famílias. Um convoca a memória dos programas sociais; o outro mobiliza a tradição conservadora. Ambos procuram pescar votos nos mares da emoção coletiva. As iscas mudam, mas a técnica é semelhante: envolver interesses eleitorais em causas que ninguém ousaria rejeitar.

O problema não está nas causas, todas legítimas. Combater a pobreza é dever do Estado. Defender a família, em suas diversas configurações, também constitui compromisso social. Preservar a soberania, assegurar a ordem pública e promover o desenvolvimento são responsabilidades de qualquer governo. A deformação começa quando essas bandeiras são sequestradas por candidatos que se apresentam como seus únicos representantes.

O falso patriotismo alimenta-se da polarização. Precisa dividir a sociedade entre patriotas e traidores, pessoas de bem e agentes do mal, defensores do povo e inimigos dos pobres. Essa linguagem simplifica a realidade, elimina as nuances e dispensa a prestação de contas. Se o líder representa a pátria, criticá-lo passa a ser interpretado como agressão ao próprio país. Se encarna o povo, investigar seus atos torna-se perseguição. Está formado o refúgio descrito por Samuel Johnson.

A campanha de 2026 começa a ser marcada por esse duelo de símbolos. De um lado, a promessa de reconstrução social; de outro, a cruzada pela restauração moral. O debate sobre educação, saúde, segurança, produtividade, equilíbrio fiscal, desigualdade e eficiência administrativa corre o risco de desaparecer sob o peso dos slogans. A pátria converte-se em cenário, a bandeira em adereço e o eleitor em plateia de uma representação cuidadosamente ensaiada.

O verdadeiro patriota não pede imunidade. Aceita a fiscalização, respeita a divergência e submete seus atos ao julgamento público. Não trata os recursos do Estado como propriedade pessoal, não transforma programas sociais em moeda de gratidão e não utiliza a religião ou a família como escudos eleitorais. Seu amor ao país mede-se menos pelas palavras que pronuncia do que pelas responsabilidades que assume.

Depois de 251 anos, a sentença de Samuel Johnson conserva sua força porque identifica uma tentação permanente do poder: transformar valores coletivos em esconderijos particulares. Cabe ao eleitor abrir as portas desses refúgios, examinar quem está atrás das bandeiras e separar o compromisso verdadeiro da encenação. A pátria pertence a todos. Quando um político tenta tomá-la para si, é prudente verificar o que pretende esconder sob seu manto.

Gaudêncio Torquato

A reconquista do futuro

Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo, como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.

Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.


Hoje o Brasil é outro. Um país muito mais complexo, populoso e melhor, sobretudo para a grande maioria que então vivia na pobreza, analfabeta, sem acesso a escola, atendimento básico de saúde ou rede de proteção social, num país que precisava importar alimentos tão essenciais quanto o trigo e seus derivados para atender ao consumo interno. Para não falar que em meados dos anos 1950 as mulheres necessitavam de autorização especial dos maridos para trabalhar fora, abrir conta bancária, comprar e vender bens, e a discriminação racial era considerada simples contravenção punível com penas leves.

Melhoramos, mas agora nos falta a confiança no futuro, que naquela época havia de sobra. Segundo o Edelman Trust Barometer de 2026, menos de um terço dos brasileiros acredita que a próxima geração viverá melhor do que a deles.

É preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer

Por que perdemos a confiança no futuro? Atribuir a perda à polarização afetiva que se exacerbou ao longo deste século é um equívoco. Ela não é a causa principal da perda de confiança, embora contribua para agravá-la e dificulte a sua superação.

Ainda que difícil de ser mensurada com exatidão, a confiança é ingrediente decisivo para um país avançar em seu desenvolvimento. Não será possível recobrá-la idealizando o passado. O desafio é recuperá-la em novas bases, tarefa complexa em uma quadra histórica em que a confiança escasseia em quase todo o mundo, devido a transformações sociais e tecnológicas que criam ressentimentos e incertezas e põem em xeque a legitimidade da democracia representativa e do capitalismo liberal, em suas diferentes versões. Apesar de responder a condicionantes gerais, a perda de confiança nas instituições e no futuro, uma tendência global entre as democracias ocidentais, tem causas e manifestações específicas em cada país.

A confiança do Brasil em si mesmo não despencou da noite para o dia. Ao longo dos setenta anos que nos separam do lançamento da pedra inaugural de Brasília, ela teve altos e baixos. Os primeiros dez anos decorridos depois de 1985, quando se deu o retorno à democracia, não foram fáceis. As esperanças criadas com a recuperação e expansão de direitos, consagrados na Constituição de 1988, se chocaram contra a realidade de um país cronicamente à beira da hiperinflação, submetido a repetidos e fracassados congelamentos de preços e salários, num processo de desorganização econômica, crescimento da pobreza e precarização da governabilidade.

Com o Plano Real, com as reformas institucionais dos governos FHC, com a civilizada alternância no poder ao término de seus dois mandatos e as mudanças sem ruptura introduzidas por Lula, que deixou o Palácio do Planalto como o presidente mais popular da história, nas asas de um amplo processo de inclusão e mobilidade social, o país recuperou a confiança em si mesmo. Ao final de quatro mandatos presidenciais, dois de FHC e dois de Lula, o Brasil pôde apresentar uma singular combinação de conquistas em sua história, rara também em um mundo que mal se recuperava da crise financeira de 2008, a maior desde 1929: estabilidade econômica com crescimento, mobilidade social ascendente, governabilidade democrática, em um quadro de progressivo aperfeiçoamento institucional. Uma das imagens desse período foi a capa da revista The Economist, que mostrava o Cristo Redentor, com os braços abertos sobre a Baía de Guanabara, decolando como um foguete em direção aos céus. Um exagero, sem dúvida, pois nem tudo era tão sólido e sustentável na decolagem do Brasil, mas representativo do sentimento da época.

O processo desandou nos anos subsequentes, em especial a partir de 2014. Experimentamos hoje uma desconfiança crônica, alta e crescente em relação ao futuro do Brasil. É este o sentimento predominante no país ao nos aproximarmos das eleições de outubro deste ano, agora já com o elenco de candidatos definidos pelas convenções partidárias. Antes de avaliar o quadro eleitoral, cabe perguntar como chegamos ao atual estado de depressão da confiança.

Na economia, se deu uma reversão drástica das expectativas de mobilidade social ascendente e crescimento sustentado. Na política, ocorreu uma série de escândalos, que levaram a uma luta fratricida entre PT e PSDB e à emergência de juízes e procuradores imbuídos da missão de “passar o país a limpo”, custasse o que custasse, e de políticos dispostos a “destruir o sistema” para supostamente regenerá-lo. As jornadas de junho de 2013, por vias tortuosas, deram em Jair Bolsonaro, e o fortalecimento do Centrão e a Lava Jato, pelos descaminhos que tomou, produziram retrocesso e não avanço no combate à corrupção sistêmica. A sociedade sofreu decepções em cadeia, e cumulativas.

A mobilidade social ascendente dos governos Lula 1 e 2 desacomodou a sociedade brasileira. Não apenas foi mais longa e mais intensa do que a é preciso ter uma visão sobre o futuro do país, que não deve ser grandiosa, mas reconhecer que o Brasil não é um país qualquer observada nos primeiros anos depois do Plano Real, como também esteve acompanhada de políticas que mexeram real e simbolicamente com hierarquias sociais enraizadas, a exemplo da chamada pec das empregadas domésticas e das cotas raciais para ingresso no ensino superior. Nas famílias mais pobres, a perspectiva de ascensão social gerou a expectativa de que estavam a caminho de uma vida de classe média mais estável, previsível e favorável à realização pessoal e profissional.

Nos estratos de classe média e alta já mais bem estabelecidos, a emergência de uma “nova classe média” provocou um misto de irritação, pela “invasão” de espaços antes exclusivos, e insegurança, pela percepção de ameaça a posições sociais adquiridas. Esses sentimentos foram mais intensos porque os benefícios eleitorais da emergência da “nova classe média” eram apropriados por um partido “de esquerda” que, em momentos de dificuldade política, recorria à retórica do nós contra eles.

Assentados em bases relativamente frágeis, os sonhos da “nova classe média” se frustraram na prolongada e profunda recessão de 2015 e 2016 e não se reergueram desde então, apesar da promessa de Lula 3 de que o “povo voltaria a comer picanha”. Sem o boom de commodities, a reedição da receita de expansão do gasto e estímulo ao crédito mostrou-se insuficiente para retomar a confiança do povão. Não que a renda da base da pirâmide tenha ficado estagnada desde então. Nos últimos três anos, ela voltou a crescer com força. O consumo popular, mais ainda. Mas o sonho de virar classe média no curso de uma geração se evaporou, com o endividamento das famílias, hoje em níveis recordes, comprometendo parcelas crescentes da renda e impedindo a acumulação de poupança e patrimônio.

Nada mais distante de uma vida previsível e estável de classe média do que aquela que experimentam os milhões de trabalhadores por aplicativos, que ralam cotidianamente em cima de duas rodas, símbolos de um empreendedorismo de sobrevivência. Foi a segunda interrupção abrupta do mesmo sonho desde o Plano Real. A primeira se deu quando a nova moeda sofreu forte desvalorização no início do segundo mandato de fhc, em 1999.

No acidentado terreno do crescimento brasileiro entre 2014 e 2025, com poucos picos e muitos vales, esvaiu-se também a confiança no país entre as classes mais acomodadas. Um dos sinais disso é a evasão de cérebros, fenômeno que responde não apenas ao mau desempenho da economia, mas também à falta de investimentos públicos e privados em ciência e tecnologia. Estudo do Ipea sobre a saída de doutores e pesquisas de consultorias privadas sobre executivos expatriados mostram que tem havido um aumento na evasão de cérebros tanto no mundo acadêmico como no corporativo. Os dados batem com a experiência dos pais da minha geração, eu inclusive, cujos filhos e filhas, em número crescente, vivem no exterior em caráter permanente. Trajetória distinta da minha geração e da anterior, que estudava e/ ou trabalhava no exterior para voltar ao Brasil com uma formação profissional distinta. Teremos de aprender a nos valer dessa diáspora, como fazem, em outra escala, China e Índia.

Como se fosse pouco, o medo da violência do crime se espalhou. Apesar da melhora em muitos indicadores em algumas das principais cidades do país, em particular da taxa de homicídios, o crime organizado passou a ter presença em todo o território nacional, a controlar parte dele, a conectar-se com máfias internacionais e a infiltrar-se no sistema político e no aparato do Estado. Criou- se uma sensação de descontrole e desmoralização da autoridade pública.

No aumento da descrença com o país, o crescimento anêmico se soma à perda da confiança na política como meio pelo qual se constroem soluções para os problemas coletivos. Faz tempo que a economia brasileira cresce pouco (nos últimos quarenta anos, o crescimento da renda per capita foi de 1,2% ao ano). A novidade agora é a sensação de que o país não conseguirá reencontrar o caminho do desenvolvimento, com democracia, segurança pública e soberania nacional. Não porque nos faltem oportunidades, mas porque teríamos perdido a capacidade política de nos organizar em torno de objetivos nacionais de longo prazo. Quando era ministro da Fazenda, Pedro Malan dizia que o Brasil tinha problemas, mas nenhum deles era maior do que a sua capacidade de resolvê-los. A deterioração da qualidade da política põe essa afirmação em xeque. Leva muita gente ao extremo de apoiar a antipolítica, na vã ilusão de que por aí se encontrarão as soluções.

Convém não exagerar no pessimismo quanto à qualidade das instituições brasileiras. Elas se mostraram resilientes às investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Impediram o sucesso da conspiração antidemocrática e conseguiram limitar o número já trágico de vítimas que uma gestão incompetente e tresloucada da pandemia da Covid provocou. O sistema de justiça criminal, em particular quando se dá a ação conjunta das polícias, da Receita e do Ministério Público, tem procurado resistir à expansão do crime organizado. O Congresso aprovou o novo marco legal do saneamento, em 2020, e a reforma tributária do consumo, em 2025, para citar duas reformas importantes.

Feitas as ressalvas, não há como negar que o desempenho e legitimidade das instituições estatais e do sistema político são declinantes. O presidente da República perdeu poder de agenda, necessário para realizar reformas em um país federativo e multipartidário, onde o Executivo federal é chave para coordenar iniciativas de maior alcance. O Congresso abocanhou uma fatia crescente do orçamento do país e ganhou poderes sem o correspondente acréscimo em sua cota de responsabilidade sobre os efeitos de suas decisões. O orçamento é cada vez mais engessado e o planejamento de longo prazo, mais precário. O processo deliberativo dentro do Parlamento se desinstitucionalizou, com o esvaziamento das comissões e a concentração de poder nas presidências das Casas, que jogam um papel central na distribuição dos recursos das emendas ao orçamento, o tema que mais interessa aos parlamentares, não raro o único a que dedicam real atenção. Nesse contexto, matérias importantes são votadas sem discussão ou escrutínio público, de uma hora para outra, frequentemente pelo sistema remoto de votação, que prescinde da presença física do parlamentar. As agências reguladoras se encontram subfinanciadas e, em graus variados, cooptadas por interesses político-partidários. O Supremo Tribunal Federal hipertrofiou-se – em parte por fatores alheios ao tribunal – e passou a ter a sua autoridade contestada, como responsável por dar a última palavra sobre os principais conflitos de interesses e valores que atravessam a sociedade brasileira.

Esse quadro complica a chamada governabilidade, em particular quando dirigida a promover mudanças e não apenas a acomodar interesses setoriais. Está sujeito a curtos-circuitos, pelo choque entre os poderes quanto aos limites das competências de cada um. Cria incerteza e coloca em dúvida a capacidade de o país responder aos desafios de um mundo em rápida transformação. Como reagir bem às demandas da transição ecológica, da mudança climática, da regulação e do uso inteligente da inteligência artificial, que demandam coordenação interna complexa e alianças externas de geometria variável, se continuarmos consumidos por interesses setoriais e corporativos de curto prazo?

Mais preocupante é que o quadro de relativo desarranjo institucional vem acompanhado de um processo de deterioração das virtudes republicanas nas esferas de poder. Não me refiro somente a casos reiterados de flagrante corrupção envolvendo membros do Executivo, do Congresso e dos tribunais superiores, mas também a um amplo conjunto de sintomas que vão desde a incapacidade de separar com clareza negócios familiares e funções públicas e autoconter-se nos limites legais das respectivas esferas de competência até a falta de um mínimo de recato na seleção dos ambientes a frequentar e nas amizades a cultivar, para não falar na desfaçatez em legislar em causa própria, no que os partidos políticos têm sido pródigos.

Não é preciso idealizar o passado – o Brasil, assim como qualquer outro país, jamais foi ou será governado por varões de Plutarco – para perceber a ocorrência desse processo difícil de mensurar, mas ainda assim evidente, de deterioração das virtudes republicanas entre aqueles que detêm parcela importante do poder, seja porque nele estão investidos pelo voto ou pelo exercício de elevada função pública não eletiva.

Ao lançar a pedra inaugural da nova capital, JK se referiu a ela como o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Hoje, o país olha para Brasília e vê não uma elite dirigente com um mínimo de consciência de seu papel e de sua responsabilidade e sim um conjunto de indivíduos interessados em maximizar seus interesses próprios e/ ou das corporações públicas e privadas que representam. Onde foi parar a divisão que antes de fato existia entre uma elite parlamentar e o baixo clero?

Se me refiro a Brasília, não é porque a deterioração das virtudes republicanas lhe seja exclusiva, e sim porque, como centro do poder político, ela exerce um poderoso efeito-demonstração para o conjunto do país. Em toda federação, em todos os poderes do Estado, se encontram exceções, mas quem há de negar que a deterioração das virtudes republicanas está por toda parte? A paixão desmedida pelo dinheiro reflete um fenômeno mais amplo, presente na sociedade em seu conjunto, mas com particular intensidade nas engrenagens que movem o poder. Não só aqui, mas em outras democracias no mundo, haja vista o que se vê hoje nos Estados Unidos, onde os barões ladrões do século xix retornam à cena sob novas vestes, operando agora em escala global, em aliança com a Casa Branca.

De novo, não quero exagerar: sempre haverá aqui e em qualquer lugar do planeta, em um mesmo ator político, individual ou coletivo, um tanto de interesse público e outro de autointeresse. A questão é a dose. No Brasil de hoje, o desequilíbrio é grande e vem aumentando, com o fracasso desmoralizante da Lava Jato, a permanência de um sistema pouco transparente e insaciável de financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais – a proibição das doações de empresas pelo STF mudou apenas a fonte principal dos recursos, agora quase exclusivamente públicos – e relações permissivas entre empresas, escritórios de advocacia e tribunais superiores.

Coexiste com essas tendências a expansão de uma nova e grave ameaça ao estado democrático de direito e à própria soberania nacional: o crime organizado, cada vez mais sofisticado em termos financeiros, econômicos e logísticos. Em alguns lugares do país, ele não é um poder paralelo e sim um substituto do poder do Estado. A deterioração das virtudes republicanas cria o ambiente propício à infiltração do crime organizado no aparelho estatal.

A que distância estaríamos do que o historiador neozelandês John Greville A. Pocock chamou de “o momento maquiaveliano”, aquele em que uma república vive uma crise existencial? O conceito é utilizado pela ciência política para descrever situações-limite em que as instituições e os valores que sustentam o estado democrático de direito são colocados em xeque pela corrupção moral, pela perda das virtudes políticas e pelo espectro da desordem. Impossível medir essa distância.

Não chegamos a essa situação-limite, mas é preciso tê-la em mente para avaliar os riscos que corremos. É papel das lideranças alertar para esses riscos e apontar caminhos que permitam superá-los ou ao menos reduzi-los, sem apelar às fórmulas fáceis do falso moralismo populista (lembremo-nos do Fernando Collor, o “caçador de marajás”, hoje em prisão domiciliar) e a retrocessos autoritários que, a pretexto de “sanear a política”, sufocam as liberdades e destroem a democracia.

Reformas institucionais que reduzam os incentivos e aumentem os custos dos atos de corrupção são indispensáveis. Uma delas é a Emenda Peluso, proposta pelo ex-ministro do stf, Cezar Peluso. Transformada em PEC, ela determina o início do cumprimento de pena depois da decisão na segunda instância. Dada a morosidade da Justiça brasileira, a possibilidade de recorrer ao STF ou ao Superior Tribunal de Justiça em liberdade afasta a ameaça de prisão não raro indefinidamente para quem conta com advogados com trânsito e competência técnica. Reformas dessa natureza, assim como medidas de combate a privilégios nos setores público e privado, encontram grande resistência de poderosos lobbies. Sua aprovação requer lideranças com coragem cívica, mas sem ânimo populista, dispostas a mobilizar apoio político e social a seu favor.

Sem reconstrução da credibilidade na autoridade pública, o sistema político continuará a girar em falso e a sociedade a se virar como pode, gerando mais desigualdade, cinismo e violência. Uma agenda de reformas que não fizer da reconstrução da autoridade pública a sua prioridade – com medidas articuladas na área da Justiça, da gestão do Estado e da segurança pública, compatíveis com a democracia e voltadas a combater a corrupção, os privilégios e o crime organizado – está fadada a não ganhar a tração social e política necessária para que o país se reorganize e amplie seus horizontes de desenvolvimento. Reformas tópicas, ajustes fiscais, por mais importantes que sejam, não terão esse condão. Tendem a se diluir ou naufragar se a descrença na autoridade pública não for revertida.

Já aprendemos, espero, que não há salvadores da pátria, mas a qualidade das lideranças faz diferença, em particular em certos momentos da história de um país. O Brasil não está desprovido delas. Da centro-esquerda à centro-direita, há bons quadros políticos, alguns promissores, homens e cada vez mais mulheres, a serem selecionados pelo processo democrático. Falta que tenham expressão maior no plano nacional.

Não é necessário que surja um De Gaulle. O Brasil de hoje não é a França dos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Não contamos com heróis da Pátria, como ele de fato foi, muito menos precisamos de um militar que arrogue a si esse papel. A reconstrução da credibilidade da autoridade pública no Brasil é tarefa para as lideranças civis, com o auxílio das Forças Armadas, dentro da Constituição. Para estar à altura do desafio, quem se habilitar precisa ter uma “certa ideia do Brasil”, assim como De Gaulle tinha une certaine idée de la France. A frase completa com a qual ele abre as suas Memórias de guerra, livro escrito quando liderava no exílio a resistência à ocupação da França pelos nazistas, é: “Em toda a minha vida, eu fiz uma certa ideia da França. O sentimento me inspira tanto quanto a razão.” Mais à frente, De Gaulle conclui: “Em suma, a França não pode ser a França sem a sua grandeza.”

Essa “certa ideia do Brasil”, inspirada tanto pelo sentimento quanto pela razão, não deve ser ufanista. Deve ter clareza sobre os nossos passivos históricos, mas também sobre os ativos que adquirimos em mais de duzentos anos como nação independente. Eles não são poucos. Somos uma nação que se implantou sobre um imenso território, conservou sua unidade política, inseriu- se construtivamente no seu entorno geográfico e no sistema internacional, desenvolveu ao longo do século XX uma economia relativamente complexa e diversificada e um Estado nacional com instituições e burocracias comparativamente mais estáveis e eficientes do que a quase totalidade dos países da antiga América espanhola. Uma nação que projetou certa identidade no mundo, sendo ocidental nos valores, mas sem alinhamentos automáticos a potência alguma. Sim, com uma sociedade profundamente desigual, mas crescentemente capaz de se organizar com maior autonomia e contestar hierarquias de poder e privilégios estabelecidos, em democracia, ampliando o espaço da cidadania e nela incluindo quem historicamente dela esteve à margem.

Além de uma certa ideia do percurso do Brasil em mais de dois séculos como nação independente, é preciso ter uma visão sobre o futuro do país. Ela não deve ser grandiosa, pois aqui o sentimento de grandeza convida ao irrealismo. Mas deve reconhecer que o Brasil não é um país qualquer: tem tamanho, recursos naturais e biodiversidade, bases científicas e econômicas, capacidades estatais, dinamismo social e expressão cultural, em suma, elementos de hard e soft power suficientes para ambicionarmos um lugar relevante no sistema internacional.

Nem o mundo nem o Brasil são mais o que foram nos anos 1950. Não se trata de reeditar o Plano de Metas e os Grupos Executivos de JK, que à sua época desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento do país. Muito menos de repetir o descontrole fiscal e monetário que fez a inflação dobrar entre 1955 e 1960, um dos ingredientes da instabilidade que levou ao golpe de 1964. Democracia e controle sobre a inflação são hoje premissas inegociáveis.

Não estamos mais na etapa de implantação da infraestrutura de transportes e energia e da indústria de bens de consumo duráveis nem da expansão da área cultivada pela agricultura, nem mesmo de ampliação da rede pública de ensino, como nos anos de JK. O desafio agora é dar um salto na qualidade do capital humano, na aplicação de conhecimento e ciência aos processos produtivos – em especial, mas não exclusivamente, naqueles setores em que temos vantagens competitivas reveladas, como a produção de alimentos, energia renovável e minerais críticos –, na incorporação do meio ambiente como variável decisiva e intrínseca do desenvolvimento, nas políticas sociais e de fomento aos pequenos negócios para seguir incluindo pessoas na cidadania e na economia formal e promover a redução das desigualdades. Para tudo isso, teremos de ser capazes de fazer bom uso das novas tecnologias digitais em particular a ia, sem cair na ilusão de uma “soberania digital autárquica”, de um lado, nem nos braços do neocolonianismo digital, comandado pelas grandes potências e pelas big techs, de outro.

O salto que precisamos dar requer novas estruturas de gestão. Os Grupos Executivos não nos servem mais de modelo, pois se restringiam a membros da burocracia estatal, técnicos e grandes empresários. Tampouco são adequadas estruturas como as do atual “Conselhão”, que não tem capacidade real de coordenação de ações convergentes do governo, setor privado e sociedade civil. Uma coisa é certa: precisamos com urgência preparar o Estado para responder aos desafios contemporâneos do país. A agenda da reforma administrativa, orientada por objetivos de mais longo prazo, precisa incorporar essa urgência.

Tão importante quanto definir prioridades e propor estruturas de gestão à altura dos desafios complexos, muito exigentes em matéria de coordenação entre diferentes atores e áreas de política pública, incluída a política externa, é reconstruir um horizonte simbólico e aspiracional que nos permita reconhecer a nós mesmos como uma nação com uma história comum e um destino compartilhado. Não se trata de retroagir a um ufanismo tolo e autoritário, que nega as nódoas do nosso passado que ainda mancham o nosso presente, mas de recuperar, em uma nova chave, o sentido de que ou somos uma comunidade nacional ou não teremos sequer o direito de sonhar os nossos próprios sonhos e decidir democraticamente as nossas próprias divergências.

Projetados contra esse pano de fundo, nenhum dos candidatos à Presidência da República neste ano mostra estatura suficiente para exercer o tipo de liderança à altura dos desafios do país. Nem por isso a diferença entre os dois principais adversários deixa de ser incomensurável. Flávio Bolsonaro expressa um conjunto de forças que colocou em xeque as instituições do estado democrático de direito e se articula internacionalmente contra os interesses do Brasil e em favor das conveniências e ambições de sua família.

A derrota política desse clã familiar é condição necessária para a recuperação da confiança. É um clã familiar ligado na origem a grupos milicianos e aos remanescentes dos porões da ditadura militar. A vitória de Flávio Bolsonaro colocaria o país na iminência de uma crise institucional, dado seu compromisso filial em indultar o pai, comprometeria a autonomia da política externa brasileira, por suas relações de lealdade e subserviência à extrema direita americana, em geral, e a Donald Trump, em particular, e traria de volta ao poder quem fez do ódio aos adversários e do desprezo à cultura e à ciência a sua principal forma de fazer política. A direita democrática, da qual o Brasil precisa, seria uma das maiores beneficiadas da derrota do clã Bolsonaro. Receberia a alforria pela qual não teve coragem de lutar.

Lula cometeu muitos erros ao longo de uma trajetória política extraordinária, que tem a meu ver até aqui um saldo líquido positivo para o país. O maior desses erros – tão grande quanto a infame campanha de estigmatização do governo FHC, que o antecedeu e serviu de base para o êxito de seus dois primeiros mandatos – é o de não haver preparado a sua própria sucessão. Ser candidato a um quarto mandato que se encerrará quando Lula estiver com 85 anos é um erro que ele próprio tornou inevitável.

Lula é uma estrela em extinção que ainda emite muita luz pelo tamanho da sua liderança e pelo vigor da sua forma física e mental. Seu coração está no lugar certo, mas suas ideias estão aferradas ao passado e a uma retórica autocongratulatória que nenhum dos que o rodeiam tem coragem de contrariar. Parece não se dar conta de que se esgotou a receita fácil da estimulação do crescimento pela via da expansão do gasto público e do crédito. Sofre de nostalgia renitente pelo nacional-desenvolvimentismo.

Parece também não se dar conta de que, a essa altura de sua história, deveria marcar exemplarmente a máxima distância possível de práticas que se tornaram corriqueiras, mas que nem por isso deixam de ser antirrepublicanas, como o hábito de indicar homens de confiança para o stf. Nessa matéria, embora não seja um caso isolado, Lula se sobressai: depois de Dias Toffoli em seu segundo mandato, ex-advogado do PT e chefe da AGU em seu governo, ele indicou, neste terceiro mandato, o seu próprio advogado pessoal, Cristiano Zanin, seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e Jorge Messias, seu chefe da AGU, cuja nomeação não foi aprovada pelo Senado (e que Lula parece teimar em reapresentar).

Não tenho dúvida sobre a escolha a fazer entre os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto. De qualquer forma, prevejo anos complicados no próximo mandato presidencial. Com transformações geopolíticas e tecnológicas que estão rapidamente redesenhando o mapa de poder no mundo, seria altamente desejável que o país estivesse mais preparado para enfrentá-las.

Para 2030, teremos quatro anos para renovar o quadro de lideranças no plano nacional, articular novas agendas para o país e superar a polarização destrutiva, que é mais sintoma do que causa dos nossos problemas, mas que os agrava e dificulta a sua superação. Até lá, não será pouco evitar crises que comprometam as nossas chances de reconquistar o futuro.